Mostrando postagens com marcador Padres da Igreja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Padres da Igreja. Mostrar todas as postagens

O papa Júlio I exerceu jurisdição universal em seu tempo?




Os apologistas católicos costumam citar a carta do papa Júlio I aos bispos orientais (quando ele reprova a condenação de S. Atanásio), dizendo:
"E por que nada nos foi dito sobre a Igreja dos alexandrinos em particular? Ignorais que o costume era que a palavra fosse escrita primeiro para nós, e depois uma decisão justa fosse tomada deste lugar? Se, então, tal suspeita recaiu sobre o bispo de lá [Atanásio], a notificação deveria ter sido enviada à igreja deste lugar [isto é, Roma]" (registrado por Atanásio em Apologia Contra Arianos, I, 2).
Com isso querem demonstrar que Júlio alegava possuir jurisdição universal. Contudo, imediatamente antes a carta também diz:
"Supondo, como afirmastes, que alguma ofensa recaiu sobre essas pessoas, o caso deveria ter sido conduzido contra elas, não dessa maneira, mas de acordo com o Cânon da Igreja. A palavra deveria ter sido escrita para todos nós, para que uma sentença justa pudesse proceder de todos. Pois os sofredores eram bispos e igrejas não comuns, mas aquelas que os próprios apóstolos governaram em suas próprias pessoas."
Júlio não estava falando de uma decisão monocrática dele, mas sim de um concílio de bispos. De fato, a própria carta não era individual, mas, como S. Atanásio recorda, enviada em nome "do Concílio de Roma".

Além disso, ele não apela a uma prerrogativa divina, mas sim ao "costume" da Igreja. Nada mais justo, considerando que Roma era a "Primeira Sé" (detinha um primado, não uma supremacia) e de certo modo representava todo o Ocidente.
 
Os bispos orientais também haviam escrito ao papa Júlio que "a Igreja de Roma tinha direito à honra universal, porque era a escola dos apóstolos, e se tornou a metrópole da piedade desde o início, embora os introdutores da doutrina tenham se estabelecido lá do Oriente. [Mas] eles acrescentaram que um segundo lugar em questão de honra não deveria ser atribuído a eles, porque não tinham vantagem de tamanho ou número em suas igrejas" (História Eclesiástica, III, 8, de Sozomeno). Basicamente, eles rejeitaram ser tratados como inferiores em autoridade à igreja de Roma.
 
Como o papa respondeu a isso? Dizendo que sua autoridade era superior por direito divino? Não, esta foi a resposta de Júlio quanto a esse ponto:
"Agora, se vós realmente acreditais que todos os Bispos têm a mesma e igual autoridade, e, como agora afirmastes, não os considerais de acordo com a magnitude de suas cidades; aquele a quem é confiada uma pequena cidade deve permanecer no lugar que lhe foi confiado."
Apenas isso! Pela resposta de Júlio, ele não viu problemas na afirmação dos orientais de que sua autoridade em Roma era "a mesma e igual" a deles. Antes, procurou convencê-los pelos argumentos e pelo entendimento comum dos bispos.

Um pouco depois, foi realizado o Concílio de Sardica para examinar a questão de S. Atanásio. Segundo Atanásio relata, o bispo espanhol Ósio (a quem Atanásio chama "o pai dos bispos" em História dos arianos, VI, 46) presidiu o concílio, no qual foi dada a decisão final da questão: "Portanto, declaramos que nossos amados irmãos e colegas ministros Atanásio, Marcelo e Asclepas, e aqueles que ministram ao Senhor com eles, são inocentes e livres de ofensas".

O historiador Sócrates também relata que Máximo, bispo de Jerusalém, fez o mesmo que Júlio havia feito com seu concílio de bispos em Roma e também "restaurou Atanásio" à sua sé. Ele narra:
"Máximo, portanto, sem demora enviou alguns dos bispos da Síria e da Palestina, e reunindo um concílio, ele restaurou Atanásio à comunhão e à sua antiga dignidade. Depois disso, o Sínodo comunicou por carta aos alexandrinos e a todos os bispos do Egito e da Líbia, o que havia sido determinado a respeito de Atanásio" (História Eclesiástica, II, 23, de Sócrates).
Nada disso significa que o bispo de Jerusalém tinha jurisdição ordinária sobre Alexandria, apesar das palavras fortes usadas ("ele restaurou Atanásio", "o que havia sido determinado"). Esses eventos apenas mostram que o episcopado de uma região assumia responsabilidade também por outras, quando a necessidade exigia.
 
De fato, não era incomum que os bispos agissem assim diante de situações graves. O historiador Sócrates conta, no contexto da controvérsia entre S. Cirilo de Alexandria e João de Antioquia, que um "depôs" o outro e depois, reconciliados, cada um "reintegrou" o outro em sua Sé:
"João [de Antioquia]... tendo convocado vários bispos, depôs Cirilo, que também havia retornado à sua sede: mas logo depois, deixando de lado a inimizade e aceitando-se como amigos, eles se reintegraram mutuamente em suas cadeiras episcopais" (HE, VII, 34)

Isso não significa que o bispo de Antioquia acreditasse ter jurisdição ordinária sobre Alexandria (ou vice-versa).

É nesse sentido que o papa Júlio agiu, porém não sozinho (e sim reunido no concílio de Roma). E nem por isso a questão deixou de ser reexaminada em outros concílios locais (Sardica e Jerusalém).

A proibição do filioque pelo Papa Leão III

Carlos Magno é coroado pelo Papa Leão III.
 
O historiador John Julius Norwich relata em Absolute Monarchs, a History of the Papacy como o Papa Leão III (750-816) proibiu a adição do filioque no Credo, embora essa decisão tenha sido ignorada e desobedecida pelo imperador Carlos Magno e a Igreja franca:
Ele [Carlos Magno] já havia feito uma intervenção moderadamente desastrosa no debate iconoclasta; em 810 ele se envolveu mais uma vez em questões teológicas, desta vez sobre outro velho cavalo de guerra, a cláusula filioque. O Credo original determinado pelos Concílios de Nicéia e Constantinopla sustentava que o Espírito Santo “procede do Pai”; a isso, a partir do século VI, a Igreja Ocidental acrescentou a palavra filioque, “e do Filho”. Na época de Carlos, essa adição foi geralmente adotada em todo o império franco e, em 809, foi formalmente endossada pelo Concílio de Aachen, sua própria capital. Dois anos antes, os monges francos no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, o introduziram em seus serviços, despertando uma oposição furiosa da comunidade oriental do vizinho Mosteiro de São Saba, após o que encaminharam a questão ao papa para uma decisão definitiva.

Leão [III] estava em um dilema. Como um ocidental devoto, ele estava perfeitamente feliz com a palavra ofensiva [isto é, com o ensino de que o Espírito "procede do Pai e do Filho" de algum modo], para a qual havia boa autoridade bíblica. Por outro lado, ele estava preparado para admitir que a Igreja Ocidental não tinha o direito de adulterar um Credo que havia sido redigido por um Concílio Ecumênico, e as relações com Constantinopla já eram bastante difíceis sem desencadear outro conflito. Sua solução foi uma tentativa de fazer as duas coisas: aprovar a doutrina enquanto suprimia a própria palavra – o que ele fez, não por meio de qualquer edito inflamatório, mas por ter o texto do Credo em sua forma original – ou seja, sem o filioque — gravada em grego e latim em duas placas de prata que foram fixadas nos túmulos de São Pedro e São Paulo. Seu endosso da unidade das duas igrejas em sua autoria conjunta do antigo Credo dificilmente poderia ter sido mais claro.

Carlos Magno, no entanto, estava previsivelmente furioso. Ele crescera com o filioque; se o Oriente se recusou a aceitá-lo, o Oriente estava errado. E quem se importava com o Oriente, afinal? Ele era o imperador agora; o papa deve pregar suas cores firmemente no mastro ocidental e deixar os hereges em Constantinopla por conta própria. Quando Leão [III] ordenou que ele removesse a palavra de suas liturgias, ele não fez nada e não respondeu; e quando, em 813, ele decidiu fazer de seu filho Luís co-imperador, ele claramente deixou de convidar o papa para realizar a cerimônia.
Outro historiador, Henry Chadwick, narra assim a resposta de Leão III em East and West, the Making of a Rift in the Church:
(...) Leão III evidentemente considerou as trocas neste debate como sendo assuntos de grande importância pública para a comunidade em geral. Em protesto contra os francos, talvez para tranquilizar os numerosos gregos em Roma, ele fez com que fossem erguidos em ambos os lados do memorial de São Pedro dois escudos de prata inscritos com o Credo de Constantinopla (381) em grego e latim, em ambos os casos sem Filioque. (Os escudos estavam lá 300 anos depois para Abelardo ver e comentar.) O Sacramentário Gelasiano do século VIII mostra que a forma de Credo usada em Roma no catecismo durante o século VIII não tinha filioque, de modo que Leão [III] estava afirmando a tradição romana existente, mesmo que tenha havido apenas uma declaração consciente de dissidência de Aachen. Que em Aachen houvesse qualquer intenção séria de seguir o desejo do Papa Leão de que o filioque fosse abandonado é muito improvável. Dois séculos depois, o filioque havia se tornado tão universal em todo o Ocidente latino que, aparentemente, até Roma acabou por ceder no ponto de uso litúrgico sob pressão dos Ottos saxões.
O registro da conferência entre os delegados de Aachen e o Papa Leão III é especialmente interessante pelo modo como o Papa via a autoridade do Credo. A seguir estão algumas passagens da conferência desses delegados com o Papa Leão, conforme relatado por Smaragdus, Abade de São Miguel em Lorena (Tom. Vii. Cone. Col. 1194.):
Delegados [francos]: Os mesmos criadores do Credo não teriam se saído bem se, acrescentando apenas quatro sílabas, eles tivessem tornado claro para todas as idades seguintes um mistério de fé tão necessário? 
Papa: Como não me atrevo a dizer que não teriam feito bem se o tivessem feito, porque, sem dúvida, teriam feito com ele como com o resto que omitiram ou colocaram, sabendo o que fizeram, e sendo iluminados não pela sabedoria humana, mas divina, então nem ouso dizer que eles entenderam este ponto menos do que nós: pelo contrário, eu digo que eles consideraram por que o deixaram de fora, e por que, uma vez deixado de fora, eles proibiram isso ou qualquer outra coisa a ser adicionada posteriormente. Considerai o que pensais de vós mesmos; pois, quanto a mim, não digo apenas que não me colocarei acima (daqueles santos Padres), mas Deus me livre de que eu me iguale a eles.

Qual é o verdadeiro 4º Concílio de Constantinopla?

 
Se buscarmos as listas dos Concílios ecumênicos, verificaremos que ortodoxos e católicos diferem sobre qual deve ser contado como o 8º Concílio ecumênico - também conhecido como o 4º Concílio de Constantinopla. Para os católicos, foi o sínodo realizado em 869-870. Para os ortodoxos, foi o que se realizou aproximadamente dez anos depois, em 879-880. Quem está certo?

O historiador católico Francis Dvornik abordou a questão em sua obra The Ecumenical Councils (1979). Ele explica que o sínodo de 869-870 (reconhecido pelos católicos) teve uma participação baixa e condenou o patriarca São Fócio:
A primeira sessão do Concílio [em 869-870], que se autodenominou Oitavo Ecumênico, contou com a presença de apenas doze prelados (5 de outubro de 869) e na última sessão, a décima (28 de fevereiro de 870), não mais de 102 prelados estiveram presentes. Por insistência do imperador, Fócio teve a oportunidade de se defender. Embora tenha proclamado corajosamente sua inocência e negado aos legados o direito de julgá-lo, foi excomungado com muitos de seus adeptos.

Como a grande maioria do clero permaneceu fiel a Fócio, Inácio encontrou grandes dificuldades na administração de seu patriarcado. Além disso, ele entrou em mais conflito com o Papa João VIII porque defendeu seus direitos na Bulgária, cujo governante Boris havia desertado de Roma (...).

Posteriormente, Inácio e Fócio se reconciliaram, ocorrendo o retorno deste último ao patriarcado. Essa reunião foi celebrada no concílio de 879-880 (reconhecido pelos ortodoxos):

Quando Fócio foi chamado de volta do exílio pelo imperador, Inácio se reconciliou com ele e pediu a Roma que enviasse legados para um novo concílio, que confirmaria a pacificação da Igreja bizantina. Os legados chegaram a Constantinopla somente após a morte de Inácio (23 de outubro de 877), e encontraram Fócio no trono patriarcal. O papa lhes enviou novas instruções, que continham o reconhecimento da elevação de Fócio, sob a condição de que ele pedisse perdão por seu comportamento anterior. 
Mas Fócio convenceu os legados de que havia sido eleito canonicamente e que merecia uma reabilitação incondicional. Portanto, as cartas papais foram lidas no concílio em uma nova versão, que omitiu a condição do papa (...).

Nesse sínodo, diz o Pe. Dvornik, o concílio anterior de 869-870 "foi cancelado". Após o retorno dos legados papais ao Papa João VIII, este aceitou a recusa de Fócio em pedir perdão por faltas anteriores. Conforme narra o historiador católico em Photian Schism, History and Legend (1958):

Depois de receber os legados no verão de 880, João VIII estudou cuidadosamente seus relatórios, os Atos do Concílio e as cartas do Imperador e do Patriarca. A resposta a essas cartas, datada de 13 de agosto do mesmo ano [M.G.H. Ep. vii, pp. 227, 228.], mostra com bastante clareza como o Papa reagiu aos acontecimentos em Constantinopla.
A carta de João VIII, em resposta a Fócio, diz:

Além disso, você insinuou em sua carta que, por sua sugestão, apenas aqueles que fizeram o mal devem pedir misericórdia. Também concordamos caridosamente que devemos lidar assim com aqueles que dizem que não conhecem a Deus. No entanto, não queremos exagerar o que foi feito, para que não tenhamos que julgar de acordo com os méritos. Portanto, deixe tais desculpas serem abandonadas, para que não caiam sob a condenação: ‘Vocês é que que se justificam diante dos homens, mas Deus conhece seus corações; pois o que é grande aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus'.

Portanto, que a sua maravilhosa prudência, que se diz conhecer a humildade, não se ofenda por lhe ter sido pedido para suplicar a Igreja de Deus por misericórdia, mas antes humilhe-se para que seja exaltado e para que aprenda a dar fraternalmente afeição para quem mostrou misericórdia a você; e se tentar aumentar sua devoção e lealdade à Santa Igreja Romana e à nossa pessoa insignificante, nós também o abraçamos como um irmão e o temos como o amigo mais próximo.

Também aprovamos o que foi feito misericordiosamente em Constantinopla pelo decreto sinodal de sua reintegração e se por acaso no mesmo sínodo nossos legados agiram contra as instruções apostólicas, nem aprovamos sua ação nem atribuímos qualquer valor a ela.

Dvornik narra que João VIII percebeu que sua condição para a reintegração de Fócio (ou seja, que ele pedisse perdão) não foi aceita e até foi removida de seus documentos, mas ainda assim o papa não quis denunciar o fato e o aceitou como tal. Ele confirma que o papa "leu todos os Atos", e expressou seu reconhecimento ("aprovamos o que foi feito misericordiosamente em Constantinopla").

Com relação à última frase, de certo modo enigmática ("se por acaso... nossos legados agiram contra as instruções apostólicas, nem aprovamos sua ação nem atribuímos qualquer valor a ela"), Dvornik a interpreta como uma "cláusula cautelar" acerca de seu próprio primado. Não significa que o papa esteja negando o que foi dito ao longo de todo o documento, ou seja, que ele aprovou as decisões do sínodo tal como chegaram a ele. 

Assim se realizou a reunificação das igrejas e o fim do chamado (no ocidente) "cisma de Fócio". Posteriormente, S. Fócio se mostrou sempre grato ao papa, chamando-o de "meu João" (Mistagogia do Espírito Santo, 89). Anos depois, ele teve que renunciar a pedido do imperador Leão VI, mas morreu em comunhão com Roma em 891.

Isso era tão bem estabelecido que o canonista ocidental Ivo de Chartres registrou:

Que o sínodo de Constantinopla contra Fócio não deve ser aceito. João VIII disse ao Patriarca Fócio: Anulamos e revogamos absolutamente o sínodo contra Fócio realizado em Constantinopla tanto por outras razões como porque o Papa Adriano não o sancionou. (‘Constantinopolitanum synodum eam quae contra Photium est non esse recipiendam. Joannes VIII patriarchae Photio.’—‘Illam quae contra Photium facta est Constantinopoli synodum irritam facimus et omnino delevimus, tam propter alia, tam quoniam Adrianus papa non subscripsit in ea.’) [Decr, IV, 76].

J. N. D. Kelly, um estudioso patrístico anglicano, também reconheceu que Roma aceitou os decretos do Concílio de 879-880:

(...) o Concílio [879-80], reconhecido no Oriente como o Oitavo Concílio Geral... reafirmou o Credo de Constantinopla (381), e proibiu quaisquer acréscimos a ele; os romanos podiam concordar porque não havia discussão sobre a doutrina da dupla processão do Espírito Santo, e o Credo usado em Roma ainda não incluía o filioque. João [VIII] foi estadista o suficiente para ratificar suas decisões com o pós-escrito salvador de que ele rejeitou tudo o que seus legados poderiam ter concordado contra suas instruções (Oxford Dictionary of Popes, pg. 111).

Como, então, ocorreu a mudança na Igreja Ocidental, de modo que o concílio cancelado de 869-870 fosse enfim contado como o "oitavo concílio ecumênico"? Dvornik explica, em The Ecumenical Councils (capítulo I, 11), que isso ocorreu durante a Reforma Gregoriana (século XI):

Por uma coincidência interessante, aconteceu que os Atos dos Concílios do século IX, até então esquecidos no Ocidente, foram descobertos durante o reinado de Gregório VII, e sua interpretação começou a exercer uma profunda influência sobre os canonistas e teólogos ocidentais. A fim de encontrar evidências documentais mais convincentes para sua definição de primado papal, Gregório abriu os arquivos pontifícios para os canonistas encarregados da compilação de novas coleções de direito canônico. O que os canonistas mais precisavam era de uma decisão conciliar que pudesse ser usada contra a interferência de leigos na nomeação de bispos. Eles descobriram tal cânone (o vigésimo segundo) no concílio inaciano de 869-70, que se autodenominava ecumênico. Negligenciando o fato de que este concílio havia sido cancelado por outro - cujas Atas também foram mantidas nos arquivos pontifícios -, eles estabeleceram o concílio de 869-70 como um dos mais importantes Concílios Gerais. Este concílio foi designado pelos canonistas em suas coleções como o Oitavo Ecumênico. Mas anteriormente, como fica claro pelas declarações dos Papas Marino II e Leão IX, de São Pedro Damião e do Cardeal Humberto, os romanos, como os gregos, contavam apenas sete Concílios Ecumênicos.

Juntamente com os Atos, os canonistas descobriram as cartas de Nicolau I relacionadas ao caso Fócio. Impressionados pela atitude corajosa do papa contra o imperador Miguel III e pela excomunhão de um patriarca, a partir desses documentos construíram uma base firme para a defesa de todas as reivindicações estabelecidas no Dictatus Papae. Alguns chegaram ao ponto de concluir deles que Nicolau I havia excomungado um imperador, Miguel III – o que era falso – e viram nisso uma justificativa para a excomunhão de Gregório e a deposição do imperador Henrique IV.

Desse modo, o que ocorreu foi uma falsificação da história. A partir de então os canonistas católicos passariam a dizer - como se lê em Adrian Fortescue na Enciclopédia Católica de 1911 - que quando Fócio "enviou os Atos [do concílio] ao papa para sua confirmação... [o papa] João, naturalmente, novamente o excomungou". Mas isso contradiz os documentos da época, como mostram até historiadores católicos como o Pe. Dvornik,

O verdadeiro "oitavo concílio ecumênico" - se o contarmos assim em vez de reconhecer apenas sete ecumênicos - só pode ser o sínodo de 879-880, pois foi este que obteve reconhecimento na época tanto pelas Igrejas orientais quanto pelo Ocidente através do Papa João VIII.

Mas, afinal de contas, o que foi decidido no 4º concílio de Constantinopla (879-880) e confirmado pelo Papa?

Três questões principais:

1) Primeiro, foi confirmada a ecumenicidade do 2º concílio de Niceia, que condenou o iconoclasmo e defendeu a veneração dos ícones;

2) Confirmou a legitimidade de S. Fócio como patriarca de Constantinopla, nesse sentido anulando o que fora decidido contra ele em 869-870 (o sínodo hoje reconhecido como ecumênico pelos católicos);

3) Por último, este concílio anatematizou qualquer alteração no Credo Niceno-Constantinopolitano, condenando qualquer "adição ou remoção" e o uso de "frases inventadas", numa referência implícita, porém clara, à inserção do filioque no Credo. Não é surpreendente que o Papa aceitasse esse anátema, uma vez que, na época, Roma não utilizava o filioque no Credo e tinha proibido aos francos (como testemunhou o Papa Leão III, um dos predecessores de João VIII) sua adição.

Leia mais: The 8th Ecumenical Council (Pe. George Dragas).

Uma perspectiva ortodoxa sobre o papado


O sistema católico-romano de governo e o sistema ortodoxo

De acordo com o catolicismo romano, Jesus Cristo estabeleceu em sua Igreja um governo monárquico, conferindo a Pedro um primado de jurisdição e infalibilidade, o qual é transmitido aos seus sucessores exclusivos, os bispos de Roma.

O primeiro concílio Vaticano representa a expressão mais completa da eclesiologia católica romana. Ele contém todas as afirmações principais e considera que qualquer um que rejeite essas afirmações está sob anátema. Por exemplo, o Vaticano I afirma:
"... A sé apostólica e o pontífice romano detêm uma primazia mundial, e que o pontífice romano é o sucessor do beato Pedro, o príncipe dos apóstolos, verdadeiro vigário de Cristo, cabeça de toda a igreja e pai e mestre de todos os cristãos. A ele, no bendito Pedro, todo o poder foi dado por nosso Senhor Jesus Cristo para cuidar, governar e alimentar a igreja universal. (...) Portanto, ensinamos e declaramos que, por ordenança divina, a igreja romana possui uma preeminência de poder ordinário sobre todas as outras igrejas, e que esse poder jurisdicional do pontífice romano é episcopal e imediato. Tanto o clero quanto os fiéis, de qualquer rito e dignidade, tanto individual quanto coletivamente, são obrigados a se submeter a esse poder pelo dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, e isso não apenas em questões relativas à fé e à moral, mas também naquelas que dizem respeito a disciplina e o governo da igreja em todo o mundo" (Sessão 4, Capítulo 3).
Como resume o Pe. Jesus Bujanda na sua Teologia Dogmática:
"A Igreja [Católica Romana] se governa como uma monarquia ou império absoluto, no qual o chefe supremo não está sujeito nem obedece a ninguém, quer dizer, como era o império romano quando a Igreja foi fundada. O papa é o imperador ou rei."
Já a Igreja Ortodoxa é governada por um sistema conciliar ou colegiado. Cada igreja autocéfala (independente) tem seu próprio patriarca ou arcebispo, o qual governa juntamente com um Sínodo de bispos. As igrejas autocéfalas somadas, por sua vez, governam-se através de decisões tomadas em conjunto, sobretudo nos concílios ecumênicos ou gerais.

Phillip Sherrard ensina em Igreja, Papado e Cisma - Uma investigação teológica:
"Na visão patrística, a unidade do povo de Deus é derivada, acima de tudo, de sua participação direta na indivisibilidade do corpo de Cristo na Eucaristia. Nesta perspectiva, também a catolicidade reside acima de tudo no fato de que toda a verdade em Cristo é manifestada em cada igreja local e que através do mistério eucarístico celebrado em cada igreja local todo o corpo de fiéis pode participar nela. Mas na visão romana das coisas, a unidade do povo de Deus é vista como dependente, acima de tudo, da condição de membro da instituição visível da Igreja; e a catolicidade da própria igreja local é vista como residindo, acima de tudo, no fato de ela ser um membro dessa instituição corporativa mais ampla e abrangente. Isso significa que a Igreja é vista como manifestada na terra não tanto em cada igreja local autêntica - apostólica e episcopal - mas em uma instituição coletiva, corporativa e social da qual cada igreja local constitui uma parte. Além disso, cada igreja local pode ser considerada como católica somente na condição de que ela se constitua uma parte dessa sociedade abrangente e ampla. E como esta sociedade em si é tratada para propósitos práticos da mesma maneira que qualquer outra forma de sociedade humana ou política, segue-se que ela deve ser governada da mesma maneira. Tem que haver no plano social e comunal algum órgão ou instrumento que promulgará as leis necessárias para administrá-la e para incorporar todos os povos nela. Tem que haver alguma autoridade que represente sua unidade e lhe dê uma realidade institucional e eclesiástica. É aqui que encontramos a coroa e o pivô do que, de acordo com esta eclesiologia romana, constitui a estrutura da Igreja na terra: o papado. Pois é o papado que é considerado o órgão central ou instrumento do governo da Igreja na terra; e a autoridade que representa o princípio da unidade da Igreja na terra é identificada no papa."
O Catecismo de S. Filareto de Moscou expressa a visão ortodoxa da seguinte forma:
"Como harmoniza-se com a unidade da Igreja o fato de existirem muitas igrejas distintas e independentes, como as de Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla, Rússia?

Estas são igrejas particulares, ou partes de uma única Igreja Católica: a separação de sua organização visível não as impede de serem todos espiritualmente grandes membros de um único corpo da Igreja Universal, de terem uma Cabeça, Cristo, e um espírito de fé e graça. Esta unidade é expressa externamente pela unidade do Credo e pela comunhão na oração e nos Sacramentos." (Q. 261).
Portanto, é de suma importância entendermos qual dessas duas concepções sobre o governo da Igreja foi realmente instituída por Jesus Cristo.

O primado de Pedro no Novo Testamento

Uma maneira de começar a pensar sobre o assunto é lendo o Novo Testamento.

A apologética católica tem convencido muita gente de que "Pedro recebeu as chaves do reino dos céus" e que por isso devemos obediência ao papa em Roma. Mas o que é ensinado no Novo Testamento é muito diferente.

Pedro não recebeu as chaves sozinho. Em Mateus 16:19, Jesus promete a Pedro que ele receberia (no futuro) as chaves: "E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus". Até aqui, ninguém recebeu nada. Apenas o apóstolo Pedro recebeu uma promessa que seria cumprida no futuro.

A promessa foi cumprida depois da ressurreição:
"Disse-lhes: Recebei o Espírito Santo, aqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos" (Jo 20:22-23).
Nesse momento Pedro recebe juntamente com os demais apóstolos. Nenhuma distinção é feita.

Além disso, em Mateus 18:17-18, o poder das chaves é atribuído a toda a Igreja (no contexto da disciplina eclesiástica):
"Se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu".

Como isso se dava na prática?

Em Atos 15, surge a primeira grande controvérsia a ser decidida pela Igreja (envolvendo os judaizantes). Como ela é resolvida? Seria uma ótima oportunidade de demonstrar e pôr em prática o governo monárquico que Jesus colocou sobre Pedro, não?

No entanto, foi o concílio que resolveu a questão. Pedro fala, depois Barnabé e Paulo. Mas é Tiago (o bispo de Jerusalém) quem dá a última palavra:
"Por isso, JULGO que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus..." (Atos, 15:19)
Somente Tiago usa a expressão "julgo", "decido".

Mas no final a decisão é comunicada em nome de toda a Igreja:
"E por intermédio deles escreveram o seguinte: Os apóstolos e os anciãos, irmãos, aos irmãos dentre os gentios em Antioquia, na Síria e na Cicília, saúde" (Atos, 15:23).
Não havia monarquia.

Outro exemplo disso é quando o apóstolo Paulo repreende Pedro publicamente, por este "não andar conforme o Evangelho" ao evitar ofender os judaizantes (Gálatas 2:11). Observe que em nenhum momento Paulo procura se explicar ou justificar quanto a estar repreendendo o supremo pastor e cabeça visível da Igreja, um superior seu.

Ou quando os Apóstolos em comum, ou seja, o Colégio deles, "enviou Pedro e João" em missão (Atos 8:14), mostrando que o Colégio era superior ao apóstolo Pedro individualmente.

Ou quando Paulo afirmava a independência de seu ministério e chamava "Tiago, Pedro e João" (nessa ordem) de "as colunas" da Igreja, afirmando, no entanto, não dever nada a eles, na Epístola aos Gálatas.

Ou quando Paulo repreendia aqueles que diziam "Eu sou de Cefas [Pedro]" tanto quanto os que diziam "Eu sou de Apolo" (1 Coríntios 1:12), como introdutores de divisão - o que seria impensável se Pedro fosse um pastor universal colocado sobre todos.

Ou quando o Senhor Jesus, ao ser questionado sobre "qual deles (apóstolos) seria o maior", ensinava que "os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que sobre eles exercem autoridade são chamados benfeitores, MAS ENTRE VÓS NÃO SEREIS ASSIM" (Lucas 22:25).

Havia primado na Igreja? Sim.

S. João Crisóstomo diz que "Pedro, Tiago e João foram primeiramente chamados, e tinham uma primazia entre os discípulos" (Hom. em Gálatas, 1, vv. 1-3). Ele também chama Pedro de "cabeça dos Apóstolos, o primeiro na Igreja, o amigo de Cristo".

Então Pedro tinha um primado, uma liderança.

Mas S. João Crisóstomo acrescenta: "Contudo observe como Pedro faz tudo com o consentimento comum; nada imperiosamente" (Homilia III em Atos, 1:12).

Ele também chama o apóstolo João de "o pilar das Igrejas em todo o mundo, que possui as chaves do céu, que bebeu o cálice de Cristo e foi batizado com o Seu batismo, que se coloca sobre o peito do seu Mestre com muita confiança, este homem vem adiante para nós agora" (Hom. sobre o Evangelho de João, 1:2).

E ainda diz que Tiago tinha mais autoridade que Pedro no concílio de Jerusalém:
"Não havia arrogância na Igreja. Depois que Pedro e Paulo falam e ninguém os silencia: Tiago espera pacientemente, ele não começa (para a próxima palavra). Grande era a ordem (do processo). Nenhuma palavra João fala aqui, nenhuma palavra dos outros apóstolos, mas mantiveram a harmonia, pois Tiago foi investido com o governo principal [em Atos 15], e concebo isso sem dificuldade. Tão limpa era a sua alma do amor da glória. 'E depois que eles terminaram de falar, Tiago respondeu' [v. 13]. Pedro falou com mais força, mas Tiago aqui [fala] mais suavemente, pois assim cabe [agir] alguém na mais alta autoridade, deixar o que é desagradável para os outros a dizerem, enquanto ele próprio aparece na parte mais moderada" (Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 33).
Percebe como a Igreja vê o primado? Não era jurisdição ou poder.

Havia ordens de precedência. Pedro, Tiago, João, as "colunas". Pedro em primeiro lugar. Mas não como algo rígido, um sendo colocado "acima" do outro.

Da mesma forma, Sto. Ambrósio comenta que S. Pedro tinha "um primado de confissão, não de honra, um primado de fé, e não de posição" (In Som Sacr. 4:32).

E S. Cipriano comenta:
"Mesmo Pedro, o qual o Senhor escolheu primeiro e sobre quem Ele fundou sua Igreja, quando Paulo mais tarde divergiu dele acerca da circuncisão, não alegou nada para si insolentemente, nem assumiu nada arrogantemente - dizendo que detém o primado e deveria ser obedecido pelos jovens e pelos recém-chegados" (Epístola 71)
Isso nos dá uma ideia de qual o "espírito" deve guiar o exercício de qualquer primado na Igreja.

O papa como bispo da "Primeira Sé", a Igreja que "preside na caridade"

O papa era o bispo da Primeira Sé, tinha uma precedência sobre os demais. Após ele, o bispo de Alexandria (atual Egito, que também era chamado pelo título de "papa") tinha precedência. Depois o de Antioquia (atual Síria).

Posteriormente, por decisão do Concílio de Calcedônia, essa ordem passou a ser: Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Cada um desses patriarcados tinha uma área de jurisdição. E ainda havia igrejas que não estavam sujeitas à jurisdição de nenhum desses patriarcados, como a igreja de Chipre, sobre a qual o cânon 8 do concílio de Éfeso trouxe este alerta significativo:
"A mesma regra deve ser observada nas outras dioceses e províncias em todos os lugares, de modo que nenhum dos amados bispos de Deus assuma o controle de qualquer província que não tenha até agora, desde o início, estado sob sua própria mão ou a de seus predecessores. Mas se alguém tiver tomado e submetido violentamente [uma Província], ele deve desistir; para que os Cânones dos Pais não sejam transgredidos; ou as vaidades da honra mundana sejam introduzidas sob o pretexto de um ofício sagrado; e assim percamos, sem saber, pouco a pouco, a liberdade que Nosso Senhor Jesus Cristo, o Libertador de todos os homens, nos deu com o seu próprio Sangue."
Nesse contexto, Roma era uma "primeira entre iguais", a Igreja que "preside na caridade" (a expressão é de S. Inácio de Antioquia).

O modelo para entender o primado na Igreja antiga era o cânon apostólico 35, que dizia:
"Os bispos de todos os países devem saber quem é o principal (primaz) entre eles e considerá-lo como seu chefe, e não fazer nada de importante sem o seu consentimento; mas cada um deve dirigir apenas os negócios que pertencem à sua própria paróquia [diocese] e os lugares a ela sujeitos. Mas que ele [o que tem o primado] não faça nada sem o consentimento de todos; pois é por este meio que haverá unanimidade, e Deus será glorificado por Cristo, no Espírito Santo."
Havia o primado de Roma, mas também o de Alexandria, o de Antioquia, etc. Cada primaz exercia esse primado em seu próprio território. Cada um tinha sua jurisdição delimitada, como fica claro no cânon 6 do concílio de Nicéia:
"Que prevaleçam os antigos costumes do Egito, da Líbia e de Pentápolis, para que o bispo de Alexandria tenha jurisdição sobre todos eles, visto que o mesmo é costumeiro também para o bispo de Roma. Da mesma forma em Antioquia e nas outras províncias, que as Igrejas mantenham seus privilégios. E isso deve ser entendido universalmente, que se alguém for feito bispo sem o consentimento do Metropolita, o grande Sínodo declarou que tal homem não deve ser bispo. Se, no entanto, dois ou três bispos, por amor natural à contradição, se oporem ao sufrágio comum dos demais, sendo razoável e de acordo com a lei eclesiástica, então prevaleça a escolha da maioria."
Mas esse desenvolvimento do primado romano foi gradual. A partir do século V, começou a haver uma clara divergência na forma como Ocidente e Oriente enxergavam essa primazia. Mas ainda era possível a convivência. No século XI tornou-se impossível, visto que esse desenvolvimento estava já bastante avançado no Ocidente.

Para constatarmos essa divergência, basta citarmos o cânon 28 do concílio de Calcedônia, escrito pelos orientais, com o seguinte teor:
"Seguindo em tudo as decisões dos santos Padres, e reconhecendo o cânon, que acabou de ser lido, dos Cento e Cinquenta Bispos amados-de-Deus (que se reuniram na cidade imperial de Constantinopla, que é a Nova Roma, em época do Imperador Teodósio de feliz memória), também promulgamos e decretamos as mesmas coisas a respeito dos privilégios da Santíssima Igreja de Constantinopla, que é a Nova Roma. Pois os Padres justamente concederam privilégios ao trono da velha Roma, PORQUE ERA A CIDADE IMPERIAL. E os cento e cinquenta bispos mais religiosos [isto é, no segundo concílio ecumênico], movidos pela mesma consideração, deram PRIVILÉGIOS IGUAIS ( ἴσα πρεσβεῖα ) ao santíssimo trono da Nova Roma, julgando com justiça que a cidade que é honrada com a Soberania e o Senado, e goza de privilégios iguais com a antiga Roma imperial, deveria em questões eclesiásticas também ser engrandecida como ela é..."
Os orientais achavam normal dar "iguais privilégios" à Nova Roma (como Constantinopla era chamada), porque entendiam que a primazia entre as Igrejas derivava mais de questões temporais e históricas ("os Padres concederam privilégios ao trono da Velha Roma, porque era a cidade imperial") do que de uma disposição imutável.

Naquela época, Roma não aceitou esse cânon. Protestou, pois queria que fosse mantida a ordem original de precedência: Roma, Alexandria e Antioquia. É irônico que essas duas últimas tenham tão pouca importância para o catolicismo atual.

Mas o bispo de Roma não é o sucessor de Pedro?

O bispo de Roma é sucessor de Pedro (e de Paulo!), no sentido de governar sobre uma Igreja fundada por Pedro e Paulo. No entanto, quer ver como esse título não é exclusivo, nem jurisdicional?

O bispo de Antioquia também é sucessor de Pedro. S. João Crisóstomo o descreve como "sucessor de Pedro" (vide Homilia em Sto. Inácio, 4)., que herdou sua "cátedra":
"Ao falar de São Pedro, a lembrança de outro Pedro [Flaviano, bispo de Antioquia, na época em que o discurso foi escrito] veio a mim, o pai e mestre comum, que herdou sua destreza e também obteve sua cátedra. Pois este é o grande privilégio de nossa cidade, Antioquia, que recebeu o líder dos apóstolos como seu mestre no início. Pois era justo que aquela que foi primeiro adornada com o nome de cristão, antes de todo o mundo, recebesse o primeiro dos apóstolos como seu pastor. Mas embora o tenhamos recebido como mestre, não o retemos até o fim, mas o entregamos à Roma real. Ou melhor, nós o retemos até o fim, pois embora não retenhamos o corpo de Pedro, retemos a fé de Pedro, e retendo a fé de Pedro temos Pedro" (Sobre a inscrição dos atos, II. Citado by E. Giles, Documents Illustrating Papal Authority, London: SPCK, 1952).
S. Teodoreto diz que Antioquia detém "o trono de Pedro":
"Dióscoro, entretanto, se recusa a acatar essas decisões; ele está virando a sé do bendito Marcos [isto é, Alexandria] de cabeça para baixo; e ele faz essas coisas, embora saiba perfeitamente bem que a metrópole Antioquina possui o trono do grande Pedro, que foi mestre do bendito Marcos, e primeiro e corifeu do coro dos apóstolos" (Epístola 86).
Em um sentido mais geral, todos os bispos são sucessores de Pedro. Porque as "chaves do reino dos céus" e a autoridade concedida a Pedro em Mateus 16 foram transmitidos aos bispos (sim, todos eles). É o que diz, por exemplo S. Cipriano:
"Nosso Senhor, cujos preceitos e admoestações devemos observar, descrevendo a honra de um bispo e a ordem de Sua Igreja, fala no Evangelho e diz a Pedro: 'Digo-te que tu és Pedro e sobre esta rocha construirei minha Igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus: e tudo o que ligares na terra será ligado no céu; e tudo o que desligares na terra será desligado no céu.' Daí, através das mudanças de tempos e sucessões, a ordenação dos bispos e o projeto da Igreja seguem adiante; de forma que a Igreja é fundada sobre os bispos, e cada ato da Igreja é controlado por esses mesmos governantes. Uma vez que isto, então, se baseia na lei divina, admiro-me que alguns, com ousada temeridade, tenham escolhido escrever-me como se escrevessem em nome da Igreja; quando a Igreja está estabelecida no bispo e no clero, e em todos os que permanecem firmes na fé" (Epístola 26).
S. Epifânio chega a dizer que S. Tiago "foi o primeiro a quem o Senhor outorgou seu trono sobre a terra" (Panarion 78), isto é, em Jerusalém, o que é algo muito maior do que herdar o trono de Pedro. No entanto, por essa expressão honorífica e outras semelhantes, ninguém jamais sonhou em atribuir jurisdição universal a Tiago ou aos bispos de Jerusalém.

Por tudo isso, conclui-se que o papado, tal como descrito no concílio Vaticano I, não é de origem divina, mas sim o governo colegiado.

São Justino

Traduzido e adaptado de The Early Christian Writers de George Florovsky


São Justino nasceu por volta do ano 100 ou 110 em Flavia Neapolis (atual Nablus, na Palestina). Ele nos conta em seu Diálogo com Trifão que era um pagão em busca da verdade, primeiramente tendo sido estóico, depois peripatético e então pitagoriano. Ele era profundamente influenciado por Platão quando, de acordo com seu relato em Diálogo com Trifão, teve uma discussão com um ancião que deu-lhe provas convincentes de que o Platonismo jamais poderia acertar o coração do homem e chamou a atenção de São Justino para os profetas. "Quando ele tinha falado essas coisas e muitas outras... foi embora, sugerindo que eu desse atenção a isso. Não o vi desde então. Mas de uma só vez uma chama foi acessa em minha alma e desenvolveu em amor pelos profetas e por aqueles homens que são amigos de Cristo. Encontrei esta filosofia [isto é, o Cristianismo] como a única segura e proveitosa".

Sua conversão ao Cristianismo ocorreu provavelmente em Éfeso. Desde então ele passou o resto de sua vida explicando e defendendo a fé cristã, vestindo sempre - como fizeram Aristides, Atenágoras, Tertuliano e outros Padres Apostólicos - seu manto filosófico (τρίβώνιον ou pálio), um casaco esfarrapado usado pelos filósofos e posteriormente pelos monges como sinal de estudo severo e vida austera. Durante o reinado de Antonino Pio (138-161), São Justino mudou-se para Roma e estabeleceu ali uma escola. São Justino foi decapitado provavelmente em 165. O relato de sua morte no Marturiun S. Justini et Sociorum é baseado na transcrição oficial da corte quando Junius Rusticus foi prefeito (163-167) durante o reinado do Imperador Marcus Aurelius Antoninus, o filósofo estóico. A sentença pronunciada contra São Justino e seis outros cristãos lê: "Que aqueles que não aceitam sacrificar aos deuses e submeter-se ao comando do Imperador sejam flagelados e levados para a decapitação conforme a lei".

São Justino escreveu prolificamente, mas apenas três de suas obras chegaram a nós - suas duas Apologias (que podem ser uma só obra) e seu Diálogo com Trifão, a mais antiga apologia em face dos judeus. Possuímos apenas fragmentos - às vezes apenas o título - de outras obras escritas por São Justino. Um livro, ao qual ele mesmo refere-se em sua Primeira Apologia, foi escrito contra "todas as heresias" - Liber contra Omnes Haereses. Outro, mencionado por Eusébio e usado por Santo Irineu de Lyon, foi escrito em oposição a Marcião - Adversus Marcionem. Eusébio alega que São Justino escreveu um Saltério, do qual nada restou. Ele também escreveu um Discurso contra os gregos, uma Confutação (aos gregos), Sobre a Alma, Sobre a soberania de Deus e Sobre a ressurreição. Três fragmentos substanciais deste último foram preservados na Sacra Parallela de São João Damasceno.

São Justino teve diálogo com pensadores pagãos e, por isso, espera-se que ele teria tocado na maioria dos ensinamentos da fé cristã, diferentemente de documentos cristãos anteriores que foram escritos no contexto da comunidade cristã e pressupunham conhecimento da fé cristã por parte dos leitores. São Justino apresenta o Cristianismo como uma filosofia, uma realidade de pensamento que abraça toda vida e morte, como a realidade da vida. Em sua Primeira Apologia, ele escreve que o Logos "tomou forma e tornou-se homem, e foi chamado Jesus Cristo". O "verdadeiro Deus" é o "Pai da justiça", o "Deus não-gerado e impassível". Os cristãos adoram e cultuam Deus "e o Filho que veio dele... e o Espírito profético". O Logos é divino, "gerado de Deus".

O Jesus histórico é enfatizado: "É Jesus Cristo que ensinou-nos essas coisas. Ele nasceu para este propósito e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, o qual foi procurador na Judéia no tempo de Tibério César". "Cristo nasceu há cento e cinquenta anos sob Quirinus, e ensinou o que pregamos ainda mais tarde, sob Pôncio Pilatos". Ele é "o Filho do verdadeiro Deus... em segundo lugar e o Espírito profético em terceiro lugar". Nós seguimos o "único Deus não-nascido [o Pai] através de seu Filho", o qual "foi gerado por Deus como Logos de Deus de uma maneira única além do nascimento ordinário". Ele "nasceu de uma virgem... veio aos homens como homem... foi crucificado" e "sua paixão" é "única". "Jesus Cristo somente é gerado Filho de Deus, sendo seu Logos e Poder, e tornando-se homem... para a reconciliação e restauração da raça humana".

Assim ele descreve o culto da Igreja no século II:
Nós, porém, depois de lavado [no batismo], conduzimos o que creu e se agregou a nós, para junto dos que se chamam irmãos, onde eles estão reunidos, a fim de elevarmos fervorosamente orações comuns por nós mesmos, por aquele que foi iluminado, e por todos os outros espalhados por toda parte, para que, tendo conhecido a verdade, sendo bons pela prática de boas obras e encontrados fiéis no cumprimento dos mandamentos, sejamos dignos de obter a salvação eterna. Terminadas as orações, saudamo-nos uns aos outros com o ósculo. Em seguida, se apresentam ao que preside os irmãos pão e um cálice de água e vinho misturado. Recebendo-os, ele eleva um hino de louvor e glória ao Pai de todas as coisas, pelo nome do Filho e do Espírito Santo. Pronuncia uma longa eucaristia por Ele se ter dignado de conceder-nos estas coisas. Tendo terminado as preces e a eucaristia, todo o povo presente aclama, dizendo: Amém. Pois o Amém, na língua hebraica, significa: Assim seja. Uma vez que o que preside terminou a eucaristia e todo o povo tiver aderido com a aclamação, os que entre nós são chamados diáconos dão a cada um dos presentes parte do pão, do vinho e da água eucaristizados, que eles levam também para os ausentes. 
Este alimento se chama entre nós Eucaristia; a nenhum outro é lícito dele participar senão ao que crê ser verdadeiro o que foi ensinado por nós e se tenha lavado no banho para o perdão dos pecados e a regeneração e viva como Cristo nos ensinou. Pois nós não tomamos estas coisas como se fosse pão comum, ou bebida ordinária, mas, assim como Jesus Cristo nosso Salvador, feito carne pela força do verbo de Deus, assumiu carne e sangue para a nossa salvação, assim também nos foi ensinado que, em virtude da prece do verbo pelo qual foi eucaristizado, o alimento - de que, por uma transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne - é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus que se encarnou. Os Apóstolos nos comentários escritos por eles, chamados Evangelhos, realmente transmitiram que assim lhes foi ordenado: que Jesus, tendo tomado o pão, e dando graças, disse: "Fazei isto em memória de mim, isto é o meu corpo"; e igualmente, tendo tomado o cálice e dado graças, disse: "Isto é o meu sangue" e que o repartiu somente a eles. 
(...) E no dia chamado do Sol, realiza-se uma reunião num mesmo lugar de todos os que habitam nas cidades ou nos campos. Lêem-se os comentários dos Apóstolos ou os escritos dos profetas, enquanto o tempo o permitir. Em seguida, quando o leitor tiver terminado a leitura, o que preside, tomando a palavra, admoesta e exorta a imitar estas coisas sublimes. 
Depois nos levantamos todos juntos e recitamos orações; e como já dissemos, ao terminarmos a oração, são trazidos pão, vinho e água e o que preside, na medida de seu poder, eleva orações e igualmente ações de graças e o povo aclama, dizendo o Amém. Então vem a distribuição e a recepção, por parte de cada qual, dos alimentos eucaristizados e o seu envio aos ausentes através dos diáconos. 
Os que possuem bens e quiserem, cada qual segundo sua livre determinação, dão o que lhes parecer, sendo colocado à disposição do que preside o que foi recolhido. Ele, por sua vez, socorre órfãos e viúvas, os que por enfermidades ou outro qualquer motivo se encontram abandonados, os que se encontram em prisões, os forasteiros de passagem; em uma palavra, ele se torna provedor de quantos padecem necessidade. 
Fazemos a reunião todos juntos no dia do Sol, porque é o primeiro, em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o cosmos, e Jesus Cristo, nosso Salvador no mesmo dia ressuscitou de entre os mortos (Apologia I, 65-67).
E sobre o batismo, ele ensina:
Explicaremos agora de que modo, depois de renovados por Jesus Cristo, nos consagramos a Deus, para que não aconteça que, omitindo este ponto, demos a impressão de proceder um pouco maliciosamente em nossa exposição. Todos os que se convencem e acreditam que são verdadeiras essas coisas que nós ensinamos e dizemos, e prometem que poderão viver de acordo com elas, são instruídos, em primeiro lugar, para que com jejum orem e peçam perdão a Deus por seus pecados anteriormente cometidos, e nós oramos e jejuamos juntamente com eles. Depois os conduzimos a um lugar onde haja água e pelo mesmo banho de regeneração, com que também nós fomos regenerados, eles são regenerados, pois então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo. É assim que Cristo disse: "Se não nascerdes de novo, não entrareis no Reino dos Céus" [João 3:5]. É evidente para todos que, uma vez nascidos, não é possível entrar de novo no seio de nossas mães. Também o profeta Isaías, como citamos anteriormente, disse como fugiriam dos pecados aqueles que antes pecaram e agora se arrependem. Eis o que ele disse: "Lavai-vos, purificai-vos, tirai as maldades de vossas almas e aprendei a fazer o bem, julgai o órfão e fazei justiça à viúva; então vinde e conversemos, diz o Senhor. Se vossos pecados forem como a púrpura, eu os tornarei brancos como a lã; se forem como o escarlate, eu os alvejarei como a neve. Se não me escutardes, a espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor" [Isaías 1:16-18]. A explicação que aprendemos dos apóstolos sobre isso é a seguinte: uma vez que não tivemos consciência de nosso primeiro nascimento, pois fomos gerados por necessidade de um germe úmido, através da união mútua de nossos pais, e nos criamos em costumes maus e em conduta perversa, agora, para que não continuemos sendo filhos da necessidade e da ignorância, mas da liberdade e do conhecimento e, ao mesmo tempo, alcancemos o perdão de nossos pecados anteriores, pronuncia-se na água, sobre aquele que decidiu regenerar-se e se arrepende de seus pecados, o nome de Deus, Pai e soberano do universo; e aquele que conduz ao banho pronuncia este único nome sobre aquele que vai ser lavado. Com efeito, ninguém é capaz de dar um nome ao Deus inefável; se alguém se atrevesse a dizer que esse nome existe, sofreria a mais vergonhosa loucura. Esse banho chama-se iluminação, para dar a entender que são iluminados os que aprendem estas coisas. O iluminado se lava também em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e no nome do Espírito Santo, que, por meio dos profetas, nos anunciou previamente tudo o que se refere a Jesus (Apologia I, 61).

São Policarpo de Esmirna

Traduzido de The Early Christian Writers de George Florovsky

Santo Irineu conta-nos que sentou aos pés de São Policarpo, e que este tinha tido contato pessoal com S. João e sido consagrado bispo pelos apóstolos - segundo Tertuliano, por S. João. Também conta-nos que S. Policarpo era tido em alta estima e era a última testemunha da era apostólica. Que ele era muito estimado é algo atestado por sua visita a Roma para discutir questões eclesiásticas com o Papa Aniceto, especialmente o problema da data de celebração da Páscoa. Foi em Roma que S. Policarpo aparentemente encontrou-se com Marcião. Alega-se que Marcião perguntou se Policarpo o reconhecia na Igreja, pelo que Policarpo respondeu: "Eu o reconheço como o primogênito de satanás".

S. Policarpo nasceu por volta do ano 70, foi ordenado bispo antes de 110 e morreu provavelmente em 155 ou 156. O que é historicamente importante é que St. Irineu alegou que S. Policarpo havia escrito muitas cartas, tanto para comunidades cristãs quanto para outros bispos. Mas dessas "muitas cartas" apenas uma chegou a nós. Novamente, encontramo-nos na realidade da história, naquele encontro de uma era passada na qual havia uma fé viva, vibrante, e uma troca ocupada de cartas, cuja natureza nunca conheceremos. Mas podemos assumir seguramente que, seja qual for o conteúdo daquelas cartas perdidas, elas não dariam um conhecimento pleno daquela vivência da fé cristã que era completa; a fé que inspirou as cartas. É o depósito, a fé transmitida, a tradição passada adiante, que foi o motor das cartas. Mas nós possuímos uma carta - a Epístola aos Filipenses.

A Epístola aos Filipenses é muito breve e, novamente, é uma carta ocasional. Sobre aquele depósito original e vivo da tradição que havia sido transmitido, S. Policarpo escreve: "Abandonando os discursos vazios de muitos e falsos ensinamentos, retornemos à palavra que nos foi transmitida desde o começo". O contexto no qual S. Policarpo apela para a "palavra transmitida desde o começo" está em oposição aos "falsos irmãos", em oposição àqueles "que levam hipocritamente o nome do Senhor, enganam os homens vazios". Então ele diz mais concretamente: "Quem não confessa que Jesus Cristo veio na carne, é anticristo; aquele que não confessa o testemunho da cruz, é do diabo; aquele que distorce as palavras do Senhor segundo seus próprios desejos, e diz que não há ressurreição, nem julgamento, esse é primogênito de satanás". E parte dessa "palavra transmitida desde o começo" é que "estejamos agarrados à nossa esperança e ao penhor [άρραβών] de nossa justiça, isto é, Cristo Jesus", aquele que "carregou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro, ele que não cometeu pecado e em cuja boca não foi encontrada nenhuma falsidade, mas que tudo suportou por nós, a fim de que vivêssemos nele". Assim como S. Inácio de Antioquia, S. Policarpo pode falar das ações da vida cristã, das "obras" de justiça, e simultaneamente saber que toda graça começa com Deus através de Cristo - χάριτι έστε σεσωσμένoι ουκ eξ έργων, αλλά θελήματι θεον, δια Ίησου Χριστου [Epístola aos Efésios 2:8].

E qual é a teologia de S. Policarpo acerca de Cristo? Ele escreve: "O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e este mesmo pontífice eterno, Jesus Cristo Filho de Deus, nos edifique na paciência e longanimidade, na tolerância e castidade". Essa afirmação cristológica está em perfeita consonância com o entendimento de Cristo nos documentos do Novo Testamento e com as definições posteriores dos Concílios Ecumênicos. São Policarpo mantinha a humanidade concreta de Jesus, bem como sua Divindade e eternidade.

São Atenágoras de Atenas

Traduzido de The Early Christian Writers de George Florovsky.

Atenágoras de Atenas, o mais lúcido e eloquente escritor dentre os Apologistas, era provavelmente um pagão que converteu-se ao Cristianismo. Bossuet o considerava autor "de uma das melhores e mais antigas Apologias da religião cristã". Quase nada é conhecido de sua vida exceto que era ateniense e considerava-se "um filósofo cristão". São Fócio manteve que ele foi o mesmo Atenágoras ao qual Boethos, o platonista, dedicou sua obra Sobre expressões difíceis em Platão. Ele é mencionado por Metódio em De resurrectione (1, 36) e por Filipe Sidetes em sua Χριστιανική Ιστορία. Por volta de 177, Atenágoras escreveu seu Apelo em favor dos cristãos - πρεσβεία περι των χριστιανών. Uma segunda obra, Sobre a ressurreição dos mortos - περί αναστάσεως νεκρών - tem sido atribuída a ele, que foi provavelmente seu autor.

Atenágoras foi o primeiro a escrever tão penetrantemente sobre a unidade de Deus. "Todos os filósofos, então, mesmo involuntariamente, alcançam consenso sobre a unidade de Deus quando investigam os primeiros princípios do universo". Deus é "incriado" e "eterno". Deus é "incriado, impassível e indivisível. Ele não consiste, portanto, de partes". Deus é o "Criador". "Tenho demonstrado suficientemente que não somos ateístas, uma vez que reconhecemos um só Deus, que é incriado, eterno, invisível, impassível, incompreensível e ilimitado. Ele é percebido somente pela mente e pela inteligência, e cercado de luz, beleza, espírito e poder indescritível. Por ele, todo o universo foi criado através do seu Logos, foi posto em ordem, e é mantido junto... Que ninguém pense que é estúpido dizer que Deus tem um Filho, pois não pensamos de Deus Pai ou do Filho ao modo dos poetas... Mas o Filho de Deus é seu Logos em ideia e atualidade - εν ίδέα και ενεργεία. Pois por ele e através dele todas as coisas foram feitas, o Pai e o Filho sendo um. E uma vez que o Filho está no Pai e o Pai no Filho pela unidade e poder do Espírito, o Filho de Deus é a mente e Logos - νους και λόγος - do Pai". O Filho é "o primogênito do Pai. Quero dizer que ele não veio à existência - ουχ ως γενόμενον -, pois, uma vez que Deus é mente eterna, ele tem possuído seu Logos em si mesmo desde o princípio, sendo eternamente lógico - άιδίως λογικός. De fato, dizemos que o próprio Espírito Santo, que inspira aqueles que falam profecias, é uma efluência - άπόρροιαν - de Deus, fluindo dele e retornando como um raio do sol. Quem, portanto, não estaria perplexo ao ouvir aqueles chamados de ateístas que admitem Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo, e que ensinam sua unidade em poder e sua distinção em lugar? - την εν τη τάξει διαίρεσιν. Cristãos "são guiados apenas por isto: conhecer o verdadeiro Deus e seu logos, conhecer a unidade do Pai com o Filho, a companhia do Pai com o Filho, o que é o Espírito, qual união - ένωσις - existe entre estes três, o Espírito, o Filho e o Pai, e qual a distinção - διαίρεσις - em união".

São Teófilo de Antioquia

Trecho traduzido de The Early Christian Writers de George Florovsky.


Eusébio, em sua Εκκλησιαστική Ιστορία (4, 20), informa-nos que Teófilo foi o sexto bispo de Antioquia, depois de Pedro, Evódio, Inácio, Herodião, Cornélio e Eros. [..] Pelos escritos de Teófilo, nota-se que nasceu de pais pagãos perto do Eufrates e recebeu educação tipicamente helênica. Apenas mais tarde estudou as Escrituras da Igreja seriamente e então converteu-se. Tudo que sabemos sobre datas é que floresceu por volta de 180.

Ele escreveu obras contra Marcião e Hermogenes, leituras catequéticas, comentários sobre Provérbios e os Evangelhos, uma obra histórica da qual sabemos apenas por suas próprias referências a ela - περι ιστορίων, e uma harmonia dos Evangelhos. Mas o único trabalho seu que chegou a nós é Ad Autolycum [Para Autólico], em três livros.

Para Autólico é uma importante obra da literatura cristã primitiva. Ele foi o primeiro escritor - de quem temos documentos hoje - a ser explícito em algumas áreas importantes acerca do Cristianismo. [...] Foi o primeiro a usar a palavra τρίας - Trindade - para a união das três pessoas divinas: "os três dias anteriores aos luminares [em Gênesis] são tipos da Trindade - τριάδος - de Deus, sua Palavra e Sua Sabedoria" (2, 15). Aqui, Teófilo usa a palavra Sabedoria - σοφία - para referir-se ao Espírito Santo. Mas em outras passagens refere σοφία ao Filho (2, 10). Teófilo é também o primeiro a distinguir entre o Logos ένδιάθετος e o Logos προφορικός - o Logos interno ou imanente em Deus e o Logos falado ou emitido por Deus, uma distinção em terminologia, que será importante papel na explicação de outras reflexões trinitárias.

O conhecimento de Deus foi revelado no passado pelos profetas e cumprido e contido no Evangelho - και γαρ εγώ ήπίστουν τούτο εσεσθαι, αλλά νυν κατανόησας αυτά πιστεύω, άμα και επιτυχών ιεραις γραφαις των αγίων προφητών, οι και προειπον δια πνεύματος θεού τα προγεγονότα ώ τρόπω γέγονεν και τα ενεστώτα τίνι τρόπω γίνεται, και τα επερχόμενα ποία τάξει άπαρτισθήσεται. άπόδειξιν ούν λαβών των γινομένων και προαναπεφωνημένων ουκ απιστώ (Ι, 14). Mas a Revelação é necessária precisamente porque a sabedoria dos filósofos e poetas é sabedoria inspirada por forças demoníacas (II, 8).

Deus é "inefável", "indescritível", "incapaz de ser visto pelos olhos da carne", "incompreensível", "insondável", "inconcebível", "além do ser", "não gerado", "imutável" e "eterno" (I, 3). "Pois se digo que Ele é Luz, nomeio apenas sua própria obra. Se o chamo Logos, falo de sua soberania. Se o chamo Mente, nada digo além de sua sabedoria. Se o chamo Poder, falo de sua atividade. Se o chamo Providência, falo de sua bondade. Se o chamo Reino, menciono apenas sua glória. Se o chamo Senhor, falo Dele como Juiz. Se o chamo Juiz, falo Dele como justo. Se o chamo Pai, falo de todas as coisas vindo Dele" (I, 3).

Deus é Criador, não um "Moldador" da matéria primeva. "Platão e aqueles de sua escola reconhecem, de fato, que Deus é incriado, que Pai e Criador de todas as coisas. Mas então dizem que a matéria é incriada como Deus e alegam que é coexistente com Deus. Mas se Deus é incriado e a matéria incriada, Deus não é mais, de acordo com os platonistas, o Criador de todas as coisas, nem, de acordo com suas opiniões, a monarquia de Deus é estabelecida... Se a matéria também fosse incriada, também seria inalterável e igual a Deus, pois o que é criado é mutável e alterável, mas o que é incriado é imutável e inalterável. E que grande coisa se Deus tivesse feito o mundo de materiais já existentes? Pois mesmo um artista humano, quando recebe os materiais de alguém, faz o que agrada-lhe. Mas o poder de Deus é manifestado nisto, que Ele faz o que quer a partir do nada... de coisas que não existem Ele cria e tem criado o que existe" (II, 4).

Deus, então, "tendo seu próprio Logos interno - ένδιάθετον - o gerou, emitindo-o - προφορικός - juntamente com sua própria Sabedoria antes de todas as coisas" (II, 10). "Quando Deus quis fazer tudo o que havia deliberado, gerou esse Logos proferido - προφορικοί -, como Primogênito de toda criação, não esvaziando-se de seu Logos, mas gerando o Logos e conservando-o sempre com ele" (II, 22).

Deve-se lembrar que Teófilo está abordando apenas as questões levantadas por Autólico - a invisibilidade do Deus cristão, a fé na ressurreição, o nome de cristãos e a questão da alegada inferioridade da Escritura cristã frente à filosofia e literatura gregas. A própria natureza de sua obra dispensa uma apresentação completa da fé cristã. [...] Não devemos esquecer também que Teófilo era um bispo e escreveu outras obras, as quais lidavam com o depósito original que foi transmitido.