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Dumitru Staniloae e a questão dos sacramentos fora da Igreja

  
Cristian Sebastian Sonea - “The Open Sobornicity”, an Ecumenical Theme in the Theology of Fr. Dumitru Stăniloae
 
Dumitru Staniloae fez uma breve apresentação de duas atitudes teológicas divergentes: a primeira, que reconhece como “válido per se” “o batismo feito com água e em nome da Santíssima Trindade”, “ainda que concedido fora da Igreja Ortodoxa”; e a segunda atitude, que afirma que “todos os batismos fora da Igreja, sem exceção, são inválidos per se” [D. Staniloae, Cari dintre eretici şi schismatici].
 
[De acordo com essa segunda atitude], os que estão fora da Igreja, embora tenham sido batizados em nome da Santíssima Trindade, não podem ser considerados, de forma alguma, membros da Igreja enquanto não retornarem para dentro dela. Quando decidem voltar, a Igreja aceita seu “batismo”, mas apenas por “economia” e não pedirá que sejam batizados novamente. Tal posição tenta evitar a possibilidade de reconhecer qualquer sinal de eclesialidade nas Igrejas e denominações fora da Igreja Ortodoxa ou da obra carismática do Espírito Santo dentro delas.
 
O padre D. Staniloae considera a segunda teoria errada, dizendo: “se nenhum batismo externo é válido”, por que a Igreja validaria apenas um tipo de batismo e não todos os tipos realizados fora de seus limites? Dumitru Staniloae é o defensor da primeira teoria, a qual ele corrige:
“... os batismos em água e em nome da Santíssima Trindade fora da Igreja são válidos em sua natureza, mas a atualização da Graça neles é alcançada apenas e quando a Igreja Ortodoxa quer isso”.
Além disso, ele propõe um nivelamento da atitude pan-ortodoxa em relação aos “batismos estrangeiros”, da seguinte forma: “a) serão batizados os que tiverem batismo [puramente] espiritual ou antitrinitário; b) os que não foram confirmados ou não têm a crisma e o sacerdócio como sacramento receberão a crisma; c) aqueles que têm o batismo trinitário-material e o sacerdócio como sacramento serão recebidos com libelos pisteos [confissões de fé]" (significando os católicos romanos, os greco-católicos etc).
 
O teólogo romeno considerou que a solução dogmática deveria ser procurada em “algum lugar no meio, entre as duas teorias, entre o reconhecimento do caráter do Sacramento do Batismo e a negação de qualquer conteúdo objetivo que possam ter” [D. Staniloae, Numărul tainelor, raporturile între ele şi problema tainelor din afara Bisericii (1956)]. A solução proposta seria que, sendo os Sacramentos “o meio pelo qual o homem chega à relação plena e natural com Cristo”, significa que os chamados Sacramentos fora da Igreja intermedeiam as relações com Cristo, mas baseados na fé pessoal: “o homem em geral não pode receber Cristo ou de Cristo mais do que acredita”. Assim, de acordo com a teologia do padre D. Staniloae, o ser humano recebe Cristo dentro de sua fé, mesmo estando fora dos limites canônicos da Igreja, mas o que exatamente é recebido através desses sacramentos não se pode saber:
“Não podemos dizer exatamente o que aqueles de fora da Igreja recebem em seus chamados sacramentos. [...] Falta-nos ainda a fórmula, a imagem adequada para esta base objetiva das suas cerimônias, para as elevar e passar ao nível dos Sacramentos.”
Neste caso também falamos de uma eclesiologia de tipo “agnóstico” que podemos encontrar também em outros teólogos ortodoxos.

[...] Segundo D. Stanilaoe, embora a Igreja Ortodoxa seja considerada a verdadeira Igreja de Cristo completa, no entanto, as outras denominações cristãs não são desprovidas de valor. Staniloae considera que existe uma relação gradual entre a Igreja Ortodoxa e as outras igrejas, denominadas incompletas. “Consideramos que são igrejas incompletas, algumas mais próximas da conclusão, outras mais distantes” [Teologia Dogmatică Ortodoxă, vol. 2].

Por esta posição, o teólogo romeno corrigiu a opinião do metropolitano Platão, que considerou que “todas as denominações são separações iguais” da Igreja Una. Seguindo a tradição ortodoxa, segundo Pe. Staniloae, devemos considerar que
“as denominações não ortodoxas são separações que se formaram em uma certa relação com a Igreja completa e existem em uma certa relação com ela, mas não comungam com a plena luz e poder de Cristo, o sol”.
De certa forma, seguindo essa lógica, a Igreja Una compreende, em certa medida, “todas as denominações que dela se separaram, porque não puderam separar-se completamente da Tradição nela presente”.

O protestantismo e a unidade da Igreja

 


I

De acordo com o protestantismo, a Igreja não precisa existir como uma organização única, dotada de unidade visível. Ela está onde "o evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho" (Conf. Augburgo, n. 7). Diante das divergências de crença e prática entre as várias denominações protestantes, apela-se ao conceito de um núcleo essencial da fé, ou seja, a Igreja estaria dispersa entre todas as denominações que confessam os artigos fundamentais.

Entretanto, não existe consenso sobre quais artigos de fé seriam fundamentais ou secundários. O protestante se vê entre duas possibilidades, igualmente insatisfatórias: por um lado, reduzir a unidade da Igreja a um número pequeno de crenças - somente o Credo Apostólico, para alguns, ou simplesmente a confissão de que "Jesus é Senhor" -, como uma espécie de "menor denominador comum"; por outro lado, exigir a confissão de todos os artigos de determinada denominação (a presbiteriana ou a luterana, por exemplo), para que alguém ou alguma comunidade seja considerada parte da Igreja de Cristo.

A primeira proposta é tendente ao liberalismo e à mediocridade. Ela permite que quase todo tipo de erro seja legitimado na Igreja, como parte do ensino desta ou daquela denominação. A segunda proposta implica em negar que o protestantismo, tomado em seu conjunto, possa ser a Igreja de Cristo. Significa dizer que só aquela denominação específica é a Igreja verdadeira - uma alegação impossível, já que o protestante nega a infalibilidade de qualquer credo ou confissão (essa é a essência da sola scriptura).

Como decorrência da falibilidade de todos os credos e confissões, sempre é possível rever e mudar as interpretações. Cada nova geração e cada cristão individualmente deve verificar ponto a ponto dos ensinamentos de sua denominação, aceitando-os ou rejeitando-os de acordo com sua interpretação do texto sagrado. Por isso surgiram tantas denominações novas.

II

Em contraste, quando a Bíblia diz que devemos “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4,3), a unidade da Igreja é descrita nos seguintes termos:
Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós (Ef 4,4-6).
Sobre os ministérios como dons de Cristo na Igreja, São Paulo nos diz:
Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; (...) para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina (Ef 4,11-14).
Em outra passagem, falando da participação dos crentes na culto: “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Cor 10,17).

Em outras palavras, a Igreja é uma só, pela participação comum (comunhão) em certas realidades: Deus, Jesus Cristo, a graça, a doutrina, os sacramentos. Alguns desses elementos são invisíveis (por exemplo, a graça), mas outros são visíveis (a profissão de fé, os ministérios, os sacramentos).

É inconcebível pensar que várias comunidades, adorando diferentes “senhores”, com “fés” diferentes, “pães” (eucaristias) diferentes, e pastores diferentes (isto é, não reconhecendo mutuamente os pastores e doutores umas das outras), poderiam formar uma só Igreja. Não seria “um só corpo”, mas sim um aglomerado, uma mera soma de todas as denominações. Por isso, a unidade é uma das marcas da Igreja no Credo Niceno.

No protestantismo não existe participação nos mesmos sacramentos. O batismo infantil de muitas denominações (presbiterianos, metodistas, luteranos) é rejeitado por outras (batistas, pentecostais) como enganoso, ilícito ou até herético. Logo, não há "um só batismo". Da mesma forma, a eucaristia que muitos celebram como o verdadeiro corpo de Cristo (luteranos e alguns anglicanos), é vista por outros grupos (batistas, presbiterianos) como erro, superstição e até idolatria. Por isso, um lado não aceita participar de modo algum na mesma "ceia do Senhor" com o outro lado.

Também não existe uma só doutrina. É claro que não estou falando da mera existência de controvérsias doutrinárias. O problema é que, no protestantismo, as diferenças doutrinárias dão lugar a separações definitivas: cada lado passa a reunir-se exclusivamente com aqueles que concorda. Depois de um tempo, alguns passam a pensar que aqueles diferenças doutrinárias “não tem importância”, já que parece impossível resolvê-las - mas isso também pode ser perigoso e levar ao indiferentismo. Isso porque não existe uma autoridade capaz de resolver definitivamente uma controvérsia, pondo fim às disputas, nem uma tradição considerada guiada pelo Espírito Santo que se deva seguir.

O resultado da grande diversidade doutrinária do protestantismo é minar a confiança e segurança que o cristão deve ter com a doutrina. Se algumas denominações ordenam "pastoras" e outras não; algumas batizam para perdão de pecados e outras só como "simbolismo"; algumas creem receber o verdadeiro corpo de Cristo e outras apenas pão e vinho; algumas imaginam que a salvação não pode jamais ser perdida e outras ensinam o contrário; algumas ensinam que Cristo morreu por todos e outras que ele morreu somente pelos eleitos; algumas celebram "línguas estranhas e profecias" e outras denunciam isso; e assim por diante, qual a confiança o cristão terá diante desse mar de contradições?

Mas repito: o problema não é que simplesmente haja discordâncias, mas que essas discordâncias sejam insolúveis e divisoras. O que para uns é sagrado, para outros é idolatria e superstição. Nem os Padres da Igreja e o cristianismo histórico escapam das mais graves acusações, a depender de qual denominação protestante consultamos.

III
 
Outra questão relevante é a sucessão dos ministros. A maioria dos protestantes não entende a importância de uma legítima sucessão no ministério eclesiástico. A questão envolvida aqui é a seguinte: de onde os ministros protestantes receberam a missão para ensinar? Quem estabeleceu as igrejas protestantes?

Em primeiro lugar, devemos distinguir entre dois tipos de missão: a extraordinária (ou direta) e a ordinária (ou mediata). Os apóstolos de Cristo tinham uma missão extraordinária, diretamente de Deus (Gal 1,12). Já os pastores (bispos e presbíteros) recebem essa missão por intermédio da Igreja que os chama e ordena:
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei... (Tt 1,5)

E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e Filipe, e Prócoro, e Nicanor, e Timão, e Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia; e os apresentaram ante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos (At 6,5-6)

A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios; conserva-te a ti mesmo puro (1 Tm 5,22).

Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos (2 Tm 1,6).
Não é evidente que estamos diante de um padrão aqui? Os pastores e ministros da Igreja não autoproclamavam-se como tais. Eles tinham de ser comissionados pela Igreja, ordenados (mediante a imposição de mãos) por outros que já exerciam o ministério. Isso fica claro quando os apóstolos desautorizavam pregadores autoproclamados:
Portanto ouvimos que alguns dentre nós, aos quais nada mandamos, vos têm perturbado com palavras, confundindo as vossas almas (Atos 15,24).
Algumas traduções aqui trazem "aos quais não demos comissão" ou "sem nossa autorização".

Por isso também os primeiros Padres da Igreja enfatizaram o mesmo padrão. Clemente de Roma proclama, por exemplo, que Cristo "foi enviado por Deus, e os apóstolos por Cristo". Então os apóstolos, "pregando pelos campos e cidades... apontaram as primícias [de seus trabalhos], tendo primeiramente os provado pelo Espírito, para serem bispos e diáconos daqueles que iriam posteriormente crer... E depois [os apóstolos] deram instruções, para que, quando estes adormecessem, outros homens aprovados deveriam sucedê-los no ministério".

Irineu de Lyon também diz: "Eis por que se devem escutar os presbíteros que estão na Igreja, e que são os sucessores dos apóstolos, como o demonstramos, e que com a sucessão no episcopado receberam o carisma seguro da verdade segundo o beneplácito do Pai". E ainda: "Quanto a todos os outros que se separam da sucessão principal e em qualquer lugar que se reúnam, devem ser vistos com desconfiança, como hereges e de má fé, como cismáticos cheios de orgulho e de suficiência", pois "o caráter distintivo do Corpo de Cristo... consiste na sucessão dos bispos aos quais foi confiada a Igreja em qualquer lugar ela esteja".

Cipriano de Cartago assevera que "não pode ser reconhecido como bispo, quem, sucedendo a ninguém, e desprezando a tradição evangélica e apostólica, surgiu por si mesmo". Pois aquele "que não foi ordenado na Igreja não pode nem ter nem manter a Igreja de qualquer forma".

De acordo com Hipólito de Roma, os bispos são "seus [dos apóstolos] sucessores, e participantes nessa graça, sumo-sacerdócio, e ofício de ensinar, bem como reputados guardiões da Igreja". E de acordo com Eusébio de Cesaréia, "os primazes, os juízes e os conselheiros dessa bela cidade [da Igreja] receberam sua missão dos apóstolos e discípulos do Salvador, e desde sua sucessão, crescendo como que de uma boa semente, os líderes da Igreja de Cristo que agora florescem".

Estes são apenas alguns exemplos. Não basta que as denominações protestantes, hoje em dia, observem isso e evitem "pastores autoproclamados" em suas próprias denominações. Isso não é suficiente, pois é preciso que essa sucessão seja ininterrupta até os apóstolos. De outro modo, nós mesmos nos encontraremos numa comunidade que surgiu sem o devido chamado e comissão da Igreja.

Não se trata de uma sucessão de ministros apenas. Como diz John Karmiris, essa sucessão ininterrupta inclui o culto de adoração a Deus (na eucaristia), os sacramentos, a doutrina apostólica e todo o povo:
É necessário acrescentar que a sucessão apostólica não está limitada apenas à linha histórica ininterrupta dos bispos ou à sucessão do ensinamento apostólica (successio doctrinae), mas também compreende a sucessão apostólica do serviço santificante e sua dignidade, bem como a contínua e ininterrupta linha de gerações de cristãos de todas as épocas, e a sucessão apostólica de toda a Igreja. A Igreja, depois da morte dos apóstolos, era a portadora principal e geral da apostolicidade e do serviço apostólico, considerando que o Espírito de Pentecostes foi participado não somente aos doze apóstolos, mas a todo o povo de Deus da nova aliança e à Igreja inteira através de multidão de dons sucessivamente transmitidos.
Ora, o protestantismo já nasceu em rompimento com a Igreja até então existente, negando a legitimidade desta e de seus ministros, doutrina, sacramentos, etc. Isso significa que o próprio protestantismo não tem onde sustentar sua missão. Quem a teria comunicado?

Note bem que o problema não está apenas em saber se é necessário que os bispos comuniquem essa missão ou se ela poderia ser comunicada por simples presbíteros ou pelo povo. Ainda que seja comunicada pelo povo, é necessário que haja um povo fiel que seja capaz de comunicá-la aos pastores. Esse povo cristão verdadeiro deve, portanto, existir antes dos pastores que sejam comissionados por ele. Por isso Francisco de Sales resume o dilema:
Ora, é necessário que ou eles tenham errado, ou que errada seja a Igreja que os ordenou; por consequência, ou esta Igreja era falsa, ou aqueles que receberam a missão dela abusaram deste privilégio. Se tomarmos como argumento a hipótese de que a Igreja era falsa, a missão que eles tinham era absolutamente falsa, pois de uma Igreja falsa, como eles imputam à nossa, não pode sair verdadeira missão. Se falsa é a Igreja que os ordenou, onde está a missão que dizem ter? De uma Igreja falsa não se pode extrair uma missão legítima (...).

Por outro lado, se a Igreja na qual eles foram instruídos e ordenados era a verdadeira, eles são terminantemente culpáveis de heresia por terem saído e pregado contra sua Fé; se não era uma Igreja verdadeira, ela não tinha poder algum para ordená-los.
No caso dos reformadores protestantes - como Lutero, Zwínglio e Calvino -, a conclusão que segue é que a Igreja não os enviou. Pois, segundo eles mesmos afirmam, o povo cristão existente logo antes de suas pregações não seria verdadeiramente cristão, tampouco seus bispos e presbíteros (os quais são denominados "falso sacerdócio" pelos reformadores). Nenhum deles - nem o povo, nem os bispos -, portanto, poderia ter comunicado aos reformadores a sua missão.

Resta então a alegação de uma missão extraordinária, isto é, diretamente de Deus. De fato, Lutero chegou a fazer alegações nesse sentido, apresentando-se como uma espécie de profeta. Mas, neste caso, faltam os milagres e sinais que necessariamente acompanham a missão extraordinária (2 Cor 12,12).

O problema da sucessão apostólica (e consequentemente da missão dos ministros) pode parecer meramente teórico, mas está longe disso. O fruto da nova concepção protestante é que passou a ser possível uma multiplicação infinita de denominações e pastores autoproclamados. Se a denominação anterior protestar contra a atividade "não autorizada", a resposta será sempre a mesma: "estamos seguindo a Bíblia".

IV

Agostinho de Hipona enfatizou a importância da comunhão com a única Igreja verdadeira, como uma sociedade visível de fiéis:
Qualquer que concorde com a Escritura Sagrada sobre a cabeça, mas não esteja em comunhão com a unidade da Igreja, não está na Igreja, uma vez que separa-se do testemunho de Cristo a respeito de seu corpo, que é a Igreja (Agostinho de Hipona, século IV, em Sobre a unidade da Igreja, IV, 7).

O consentimento dos povos e nações mantém-me na Igreja, assim como sua autoridade, inaugurada por milagres, nutrida pela esperança, ampliada pelo amor, instituída pela idade. Assim a sucessão de bispos que mantém a partir da sede própria do Apóstolo Pedro, a quem o Senhor, depois de sua ressurreição, deu-lhe o cargo de apascentar suas ovelhas, até o episcopado presente (Agostinho de Hipona, século IV, em Contra a epístola fundamental dos maniqueus, IV).
Mas como reconhecer essa Igreja? A resposta está nas notas da Igreja verdadeira no Credo Niceno: unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade.

Daí segue que reconhecer a Igreja de Cristo é dever do cristão que deseja realmente perseverar na unidade. O professor Robert Koons ensina:
A posição da sola scriptura coloca um fardo impossível sobre cada crente: para reconhecer as verdadeiras congregações, o crente individual deve avaliar a confissão da congregação para verificar sua ausência de erro. Para realizar essa tarefa o crente deve não apenas crer nas doutrinas essenciais da fé, mas também saber exatamente quais doutrinas são essenciais e quais são matéria de legítima diferença de opinião. Isso parece inconsistente com a variedade de talentos, dons e vocações: não se pode esperar que todo crente seja um teólogo. A teoria da sola scriptura condena a maioria dos crentes a uma exclusão de facto da verdadeira Igreja, em virtude de sua inabilidade de distinguir a verdade do erro em todas as questões disputadas.

A posição católica, em contraste, coloca um fardo razoável no leigo: ele deve simplesmente reconhecer quais congregações estão em comunhão com aquela Igreja global que está em maior continuidade historicamente com a Igreja dos Apóstolos, isto é, com a Igreja que possui a alegação mais segura de ser a Igreja Católica (universal). Em outras palavras, o crente deve dominar apenas uma, relativamente pequena, parte das doutrinas: aquelas relativas à identidade da verdadeira Igreja; não, como o protestantismo requer, um conhecimento exaustivo de todas as matérias disputas da teologia. Isso efetivamente limita a escolha do crente em duas: a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Oriental.

Para ser justo, existe um tipo de responsabilidade individual que é inescapável. O leigo católico, não menos que o protestante, deve usar seu próprio julgamento para reconhecer qual Igreja é a Igreja visível em sua plenitude. Esse fardo não pode ser dado a outro. Entretanto, há uma diferença palpável e historicamente real entre as duas concepções da Igreja. Para os protestantes, o crente individual possui apenas um critério: ele deve comparar os ensinamentos de cada grupo de congregações com o ensinamento da Bíblia em cada ponto de doutrina, ou, pelo menos, em cada ponto essencial. No entanto, trocar a segurança em cada ponto de doutrina pela segurança em cada ponto essencial é, na prática, de pouca ajuda, já que existe quase tanta discordância sobre quais matérias são essenciais quanto sobre as doutrinas em si. (Luteranos confessionais, por exemplo, insistem que a verdadeira igreja deve adotar a posição correta com respeito a cada doutrina proposta, se ela é ou não ensinada ou implicada na Escritura. Outras denominações insistem que uma lista bem menor de doutrinas, talvez somente aquelas do Credo Niceno, deve ser tida como essencial.) Em contraste, segundo a visão católica, o crente individual pode reconhecer a Igreja verdadeira, não apenas examinando suas doutrinas uma por uma, mas também investigando sua conexão histórica (por uma transmissão social ou física) com os Apóstolos. Em alguns casos isso também pode ser um processo difícil (por exemplo, quando houve houve dois ou mesmo três "papas" competindo durante o período de Avinhão), mas, pela maior parte, isso provou-se ser praticamente factível, enquanto o princípio protestante falhou completamente no teste da história.
É praticamente impossível que o cristão comum estude todas as questões doutrinárias para, por sua própria investigação, determinar o que é heresia, o que é ortodoxia, o que é indiferente. Mas se temos a obrigação de aceitar a Igreja que o próprio Cristo estabeleceu, então a resposta será muito mais simples. E esta é, realmente, a resposta que os cristãos abraçaram ao longo dos séculos. É a única capaz de assegurar a unidade fundada na humildade.

O significado da Eucaristia

 
 
Primeiro, oferecemos a Deus alguns elementos muito simples de nossa comida: um pouco de pão e um pouco de vinho. Como você provavelmente sabe, a Igreja Oriental usa o pão fermentado para sua prosphora; então é realmente o que comemos em casa que está sendo oferecido a Deus como nosso sacrifício. E um bom estudo litúrgico e bíblico mostraria claramente que esta oferta de alimentos significa, antes de tudo, que estamos oferecendo a nós mesmos. O alimento não é apenas o símbolo da vida, mas sendo a condição da vida, sendo aquilo que se torna nosso corpo, o alimento é vida e, portanto, nossa vida - nós mesmos. O primeiro e verdadeiro sacrifício é, portanto, o sacrifício da própria Igreja. Mas (e este "mas" é muito importante) é um sacrifício em Cristo. Não é um novo sacrifício porque é o sacrifício da Igreja, e a Igreja é o Corpo de Cristo. Desde o primeiro momento da Liturgia, Cristo não é apenas Aquele que aceita o sacrifício, mas nas palavras de uma das orações litúrgicas, Aquele que também oferece. Todos os nossos sacrifícios - e um cristão é por sua própria natureza um sacrifício vivo a Deus - convergem para o único sacrifício, pleno e perfeito, o da humanidade de Cristo, que Ele ofereceu a Deus e no qual estamos incluídos pela nossa pertença à Igreja.

Estamos oferecendo este sacrifício não porque Deus precisa dele, mas porque o sacrifício de Cristo é a essência, a condição de estarmos nEle. A teologia ortodoxa, ao contemplar este sacrifício, enfatiza o amor nele em vez de "satisfação" ou expiação. Ser sacrificial pertence à própria essência do Filho de Deus mesmo antes da Encarnação e da Redenção. Pois o sacrifício, antes de se tornar sacrifício por algo, é a expressão natural e necessária do amor. Toda a vida de Cristo é um sacrifício porque é uma vida perfeita feita de amor e somente amor. E como é a Sua própria vida que Ele nos dá (Cristo em nós, nós em Cristo), nossa vida também é um sacrifício. Nosso sacrifício Nele, Seu sacrifício em nós. E assim, novamente, é um sacrifício real, não simbólico; mas não um novo, mas sempre o mesmo, aquele que ele nos deu, no qual ele nos acolheu. A Igreja, sendo o Corpo de Cristo, é ela mesma um ser sacrificial porque sabe que a essência da vida do homem - como visto em Sua Humanidade - é ir para Deus. E esse ir determina o movimento do sacrifício. Tudo isso é expresso na Oração do Hino Querubínico: "Tu és Aquele que oferece e Aquele que é oferecido, e Tu recebes e és distribuído".

É uma maravilhosa identificação com Cristo. Oferecemos nosso sacrifício a Deus Pai, e ainda assim não temos nada a oferecer a não ser o próprio Cristo; pois Ele é nossa vida e oferta. Sacrificando nossa vida, oferecemos Ele. A nossa Eucaristia é a Sua Eucaristia, e Ele também é a nossa Eucaristia.

Depois do Credo e do Beijo de Amor ("Amemo-nos uns aos outros para que em harmonia professemos a fé", etc.), estamos prontos para a grande oração eucarística, que desde tempos imemoriais constituiu a própria essência de toda a Eucaristia. Eucaristia significa ação de graças. Mas como a ação de graças está relacionada à consagração? A esta pergunta as várias teorias teológicas não dão uma resposta satisfatória. Sob sua influência, o elemento de ação de graças da oração eucarística foi chamado de Prefácio. No entanto, um prefácio geralmente não é algo muito importante. Não lemos às vezes o prefácio de um livro depois de ter lido o próprio livro? Mas na Eucaristia é precisamente este "Prefácio" que torna possível todo o resto, inclusive a consagração e a transformação dos elementos; e entendemos por que a ação de graças é o único caminho para essa transformação e assim entendemos todo o significado da Eucaristia.

Durante séculos, a ênfase foi colocada na "noite em que Ele foi traído" - no aspecto sangrento de Seu Sacrifício. Mas na tradição litúrgica, que nenhuma teoria sacramental foi capaz de quebrar, a oração começa com uma solene ação de graças. E Cristo também começou o seu sacrifício com uma ação de graças: "E, tendo dado graças, partiu-o... e deu-o".

A razão para isso, no entanto, esquecido como pode ser, é simples. Eucaristia, ação de graças, é o estado do homem inocente, o estado do paraíso. Antes do pecado, a vida do homem era eucarística, pois a "eucaristia" é a única relação entre Deus e o homem que transcende e transforma a condição criada do homem. Esta condição é a de uma dependência total, absoluta. Dependência é escravidão. Mas quando essa dependência é aceita e vivida como "eucaristia", isto é, como amor, ação de graças, adoração, não é mais dependência; é uma atitude de liberdade, um estado em que Deus é o conteúdo da vida. A Eucaristia, portanto, é o único estado de inocência, e Adão e Eva a tinham e era a imagem divina neles.
 
***
 
Mas sabemos que ninguém pode dizer isso, ninguém pode oferecer isso a não ser Cristo. Foi a Sua Eucaristia única que nos conduziu até aqui; fomos levados em Sua Ascensão, Sua passagem para Seu Pai. Estávamos oferecendo nEle. E agora percebemos que o conteúdo de nossa Eucaristia é Cristo novamente, pois não há mais nada que possamos oferecer a Deus. Não é uma nova Eucaristia. Somos aceitos na Eucaristia eterna que Cristo oferece e da qual Ele é a oferta. Ele está lá - no céu - eternamente. Ele é o fim, o Eschaton, e nossa Eucaristia não está, portanto, no passado, no presente ou no futuro. É o Eschaton, no Cristo glorificado.
 
***
 
Há muitos aspectos da ideia de sacrifício, mas gostaria de começar com meu principal interesse, que é a adoração. Este me parece ser o centro de toda a ideia de sacrifício, e o lugar onde todas as suas facetas se encontram: renúncia, oferenda e transformação.

Houve uma controvérsia que se desenvolveu no Ocidente sobre a Eucaristia como sacrifício. Por um lado, havia o conceito de que ao aceitar o sacrifício de Cristo como único e pleno, o aspecto sacrificial da Eucaristia deveria ser rejeitado; por outro lado, havia a ideia escolástica, que definia o sacrifício em termos de redenção e expiação - algo sangrento que satisfazia a ira ou a justiça divina. Sempre achei todo o debate errado, pois esse tipo de teologia e esse tipo de religião interpretam o sacrifício como um negócio jurídico: é necessária uma satisfação, um dever da criação para com o Criador, como um imposto de renda: a oferta do melhor animal ou mesmo da criança, para satisfazer uma necessidade objetiva. Esta é a perspectiva que eu acho que precisa não apenas de correção, mas de um repensar muito mais radical, começando pela própria natureza do sacrifício, que foi esquecida pelos teólogos e às vezes redescoberta no estudo das religiões.

Gostaria de salientar que, em primeiro lugar, o sacrifício é uma ontologia. Não é apenas o resultado de algo, é uma expressão maior ou uma primeira revelação da própria vida; é o conteúdo espiritual da vida. Onde não há sacrifício não há vida. O sacrifício está enraizado no reconhecimento da vida como amor: como renunciar, não porque quero mais para mim, ou para satisfazer uma justiça objetiva, mas porque é a única maneira de alcançar a plenitude que me é possível.

Assim, antes que o sacrifício se torne expiação, reparação ou redenção, é o movimento natural da própria vida. Tudo isso eu encontro na Eucaristia oriental, onde antes de chegarmos à crucificação, falamos do sacrifício de louvor e da salvação como um retorno ao modo de vida sacrificial. Oposto ao sacrifício está o consumismo: a ideia de que tudo pertence a mim e eu tenho que agarrá-lo - e somos restaurados disso apenas pelo movimento complexo exemplificado pela Eucaristia, onde nos oferecemos e somos aceitos pela oferta de Cristo de Si mesmo.

***
 
Não é que não haja o mal, como algumas pessoas querem que pensemos, inclusive, receio, Teilhard de Chardin; essa é a fraqueza que encontro nele. O mal é muito relevante e o sacrifício tem relação com isso; mas temos que estabelecer a perspectiva em que a ideia de sacrifício não se reduza apenas à de satisfação e expiação do pecado. Temos que nos livrar dessa visão estreita e, por outro lado, temos que nos livrar de um excesso de otimismo que diz que tudo o que temos a fazer agora é tornar cada ação uma oferta alegre. Não, neste mundo Cristo é crucificado, como diz Pascal; o mal é uma presença real, e a ideia sacrificial é que certamente a alegria não pode ser alcançada sem sofrimento; mas o sofrimento exemplificado na Crucificação é em si uma vitória.
 
~ Liturgia e Tradição (1990)

A Unção com Crisma (Catecismo de S. Filareto)



307. O que é Unção com Crisma?

A unção com o crisma é um sacramento, no qual o crente batizado, sendo ungido com o santo crisma em certas partes do corpo em nome do Espírito Santo, recebe os dons do Espírito Santo para crescimento e fortalecimento na vida espiritual.

308. Este Sacramento é mencionado nas Sagradas Escrituras?

A graça interior deste sacramento é referida pelo Apóstolo João, como segue: segue: Ora, vós tendes a unção da parte do Santo, e todos tendes conhecimento... E quanto a vós, a unção que dele recebestes fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como vos ensinou ela, assim nele permanecei. 1 João ii. 20, 27.

Da mesma maneira o apóstolo Paulo também diz: Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus, o qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações. 2 Coríntios, i, 21, 22.

Daí são tomadas as palavras pronunciadas na Unção: O selo do dom do Espírito Santo.

309. A forma externa de Unção com Crisma é mencionada nas Sagradas Escrituras?

Pode-se supor que as palavras de São João se referem tanto a uma unção visível quanto a uma interior; mas é mais certo que os apóstolos, para transmitir aos batizados os dons do Espírito Santo, usaram a imposição das mãos. Atos viii. 14, 16. Os sucessores dos Apóstolos, porém, em lugar daquela, introduziram a unção com crisma, tomando, talvez, seu precedente da unção usada no Antigo Testamento. Exod. xxx. 25; 1 (3 em grego), Reis i. 39. (Dion. Areop. De Eccl. Hier. Cap. Iv.).

310. O que deve ser observado da sagrada Crisma?

Isto: que a sua consagração está reservada aos chefes da Hierarquia, como sucessores dos Apóstolos, que usaram a imposição das próprias mãos para comunicar os dons do Espírito Santo.

311. O que significa especialmente ungir a testa?

A santificação da mente ou pensamentos.

312. O que é ungir o peito?

A santificação do coração ou desejos.

313. O que fazer ungindo os olhos, ouvidos e lábios?

A santificação dos sentidos.

314. O que é ungir as mãos e os pés?

A santificação das obras e toda caminhada do cristão.

Gregory Dix sobre o "fazer em memória" eucarístico

O sentido do "fazer em memória"

Nas Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, anamnesis e seu verbo cognato possuem o sentido de 'chamar novamente' ou 'representar' diante de Deus um evento do passado, de modo que se torne aqui e agora operativo por seus efeitos. Assim, o sacrifício de uma esposa acusada de adultério (Num. 5:15) é "uma oblação" feita "em recordação de seu pecado [diante de Deus]" (anamimnes-kousa); isto é, se ela cometeu pecado no passado, este será revelado agora pela provação, pois seu pecado foi ativamente "recordado" ou "representado" diante de Deus por seu sacrifício. Do mesmo modo, a viúva de Sarepta (1 Reis 17:18) reclama que Elias veio trazer "recordação (anamnesai) de seus pecados" e como resultado seu filho morreu. Também em Heb. 10:3-4, o autor diz que, porque "é impossível que o sangue de touros e bodes retire o pecado" (aos olhos de Deus), os sacrifícios do Antigo Testamento não eram melhores que uma "recordação (anamnesis) dos pecados" dos oferentes perante Deus. Embora nessa passagem exista alguma indicação de que a anamnesis também traz parcialmente uma referência psicológica à consciência dos próprios israelitas, é claro pela passagem como um todo que é diante de Deus que os pecados são "recordados" e "não purificados" ou "retirados". É nesse sentido ativo, portanto, de "recordação" ou "representação" diante de Deus do sacrifício de Cristo, assim tornando-o aqui e agora operativo por seus efeitos nos comunicantes, que a Eucaristia é considerada tanto pelo Novo Testamento quanto pelos autores do segundo século como a anamnesis da paixão, ou da paixão e da ressurreição combinadas. É por essa razão que Justino, Hipólito e autores posteriores falam diretamente e vividamente da Eucaristia no presente conferindo aos comunicantes os efeitos da redenção - imortalidade, vida eterna, perdão dos pecados, libertação do poder do demônio, etc. - os quais nós usualmente atribuímos mais diretamente ao sacrifício de Cristo visto como um único evento histórico no passado. Basta examinar essa linguagem pouco familiar mais de perto para reconhecermos como eles identificavam completamente o oferecimento da Eucaristia pela Igreja com o oferecimento de Si mesmo por nosso Senhor, não por modo de repetição, mas como uma "representação" (anamnesis) do mesmo oferecimento pela Igreja 'que é Seu corpo'. Como São Cipriano expõe de forma decisiva no século terceiro: a paixão é o sacrifício do Senhor, que nós oferecemos (Ep. 63:17).

A evidência nos Pais da Igreja

No ocidente, já vislumbramos a evidência romana em Clemente, Justino e Hipólito, e a testemunha seguinte é Irineu na Gália, com sua educação oriental e associações romanas. Ele falou de nosso Senhor como
instruindo Seus discípulos a oferecer a Deus as primícias de Sua própria criação, não como se Ele necessitasse delas, mas para que eles não ficassem ociosos nem ingratos; Ele tomou o pão que vem da criação (material) e deu graças, dizendo, Isto é o Meu Corpo. E o cálice semelhantemente, que é tirado das coisas criadas, como nós mesmos, Ele reconheceu como Seu próprio Sangue, e ensinou a nova oblação do Novo Testamento. A qual a Igreja, aprendendo por tradição dos apóstolos, ao redor do mundo oferece a Deus, a Ele mesmo que nos provê com nossos alimentos, as primícias de Seus próprios dons na Nova Aliança... Devemos fazer a oblação a Deus e ser encontrados agradáveis a Deus nosso criador em todas as coisas, com crença correta e fé pura, esperança firme e uma caridade ardente, oferecendo as primícias daquelas coisas que são Suas criaturas... Nós oferecemos a Ele o que é Dele, assim apropriadamente proclamando a comunhão e unidade da carne e do espírito. Pois como o pão (que vem) da terra, recebendo a invocação de Deus, não é mais pão comum mas a eucaristia - consistindo de duas realidades, uma terrena e outra celestial; assim também nossos corpos recebendo a eucaristia não são mais corruptíveis, tendo a esperança da ressurreição eterna... Ele quer que ofereçamos nosso dom no altar frequentemente e sem interrupção. Há, portanto, um altar no céu, pois para lá nossas orações e oblações são direcionadas.
Sem dúvida, Irineu considera a eucaristia como uma 'oblação' oferecida a Deus, mas é bom notar o sentido particular que ele enfatiza seu caráter sacrificial. Primariamente, a eucaristia é para ele um sacrifício de 'primícias', reconhecendo a bondade do Criador em nos prover nosso sustento, em vez de uma 'representação' do sacrifício do Calvário à maneira paulina. É verdade que Irineu não hesita em dizer que 'o cálice misturado e o pão fabricado recebem a Palavra de Deus e tornam-se a eucaristia do Corpo e do Sangue de Cristo', e outros ensinos similares. Há, também, a adição significativa das palavras 'na Nova Aliança' às 'primícias de Seus próprios dons'. Irineu é claro, também, que a morte de Cristo foi um sacrifício, do qual o sacrifício abortivo de Isaque por seu próprio pai foi uma prefiguração. Mas quando tudo é dito e feito, ele nunca une claramente essas duas ideias ou chama a eucaristia de oferecimento ou 'representação' do sacrifício de Cristo.

É concebível que os erros particulares das seitas gnósticas, os quais Irineu combatia (que ensinavam que as coisas da criação material eram radicalmente más), tem algo a ver com sua ênfase no oferecimento eucarístico das 'primícias da criação'.

(...)

Mas para Cipriano, toda a questão de como a eucaristia constitui um sacrifício está clara e completamente definida como estaria para um teólogo pós-tridentino:
'Uma vez que fazemos menção de Sua paixão em todos os nossos sacrifícios, pois a paixão é o sacrifício do Senhor que nós oferecemos, nada devemos fazer senão o que Ele fez (na última ceia)' [Ep. LXIII].
Não há qualquer razão para pensarmos que Cipriano foi o inventor desse modo de definir o sacrifício eucarístico, ou de qualquer modo intencional seu partidário. Mas ele provou ser seu maior propagador. Cipriano é o mais atrativo dos autores pré-Nicenos e, dentre os ocidentais, sempre o mais lido em tempos posteriores. Sua explicação do sacrifício tinha uma simplicidade que a recomendou à devoção popular, e esse tipo de unidade e lógica direta que sempre apelou aos teólogos ocidentais. Não é surpreedente que a doutrina do sacrifício - que podemos chamar por conveniência de 'cipriânica' - prevaleceu no ocidente, quase ao ponto da exclusão daquela linha de pensamento que era proeminente em Irineu. O ensino de Cirilo de Jerusalém posteriormente levou a um desenvolvimento similar, na linha 'cipriânica', no ensinamento oriental sobre o sacrifício eucarístico (embora os orientais dificilmente tenham alcançado a mesma precisão em seu entendimento da matéria como os ocidentais posteriores).

(...)

Há uma testemunha mais antiga que Irineu ou Cipriano para o equilíbrio original da doutrina eucarística ocidental - Justino. Ele fala da eucaristia como o 'sacrifício puro' dos cristãos, 'assim como para recordação (diante de Deus, anamnesis) de seu sustento em comida e bebida, na qual é feito também o memorial (memnetai) da paixão que o Filho de Deus sofreu por ele' [Dial. 117]. Irineu e Cipriano desenvolvem cada um metade dessa interpretação da eucaristia, não em oposição, mas em isolamento um do outro. Mas é interessante notar que a mais antiga oração eucarística ocidental, a de Hipólito - um admitido seguidor de Irineu -, já torna a doutrina 'cipriânica' o aspecto mais proeminente da matéria, uma geração antes de Cipriano escrever.

- Gregory Dix, The Shape of the Liturgy

Apêndice: algumas citações dos Pais da Igreja sobre o sacrifício eucarístico

Didaquê

Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro. Aquele que está de briga com seu companheiro não poderá juntar-se a vocês antes de se ter reconciliado, para que o sacrifício que vocês oferecem não seja profanado. Este é o sacrifício do qual o Senhor disse: 'Em todo lugar e em todo tempo, seja oferecido um sacrifício puro, porque eu sou um grande rei, diz o Senhor, e o meu Nome é admirável entre as nações' (Didaquê, 9-10, 14)

Clemente de Roma (35-100)

Para nós, não seria culpa leve se exonerássemos do episcopado aqueles que apresentaram os dons de maneira irrepreensível e santa (Epístola aos Coríntios, 42 e 44).

Inácio de Antioquia (35-107)

Preocupai-vos em participar de uma só eucaristia. De fato, há uma só carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice na unidade do seu sangue, um único altar, assim como um só bispo com o presbitério e os diáconos, meus companheiros de serviço. Desse modo, o que fizerdes, fazei-o segundo Deus (Epístola aos filadelfienses, 3).

Flávio Justino (100-165) 

Eu dizia, senhores, que também a oblação de flor de farinha que, conforme a tradição [Lv. 14:10], é oferecida pelos que são purificados da lepra, era figura do pão da ação de graças em relação ao qual Jesus Cristo Nosso Senhor mandou fazer em memória da paixão que ele sofreu pelos que são purificados nas almas de toda maldade dos homens, para que rendêssemos graças a Deus por ter criado o universo com todas as coisas que nele existem através do homem e, ao mesmo tempo, por nos ter libertado do mal em que nascemos, e ter destruído fatalmente os principados e as potestades, através daquele que, segundo sua vontade, nasceu passível (...).

Já então ele [Malaquias] profetiza sobre os sacrifícios a ele oferecidos em todo lugar por nós gentios, isto é, do pão da ação de graças como também do cálice da ação de graças, dizendo que nós glorificaremos o seu nome, vós, porém o profanais.

(...) Pois bem, é manifesto que também nesta profecia [de Isaías] sobre o pão se trata do pão em relação ao qual o nosso Cristo nos mandou fazer em memória de se ter feito homem pelos que crêem nele, pelos quais também se tornou passível, e se trata também do cálice em relação ao qual mandou fazer com ação de graças em memória do seu sangue... [Nós] somos a verdadeira raça sacerdotal de Deus, como atesta o próprio Deus, dizendo haver em todo lugar entre os gentios quem lhe oferecesse sacrifícios agradáveis e puros. Ora, Deus não aceita sacrifícios de ninguém, a não ser através dos seus sacerdotes.

Portanto, já de antemão Deus atesta que através deste nome lhe são fundamentalmente agradáveis todos os sacrifícios que Jesus Cristo mandou que se fizessem, a saber, na ação de graças do pão e do cálice, realizados em todos os lugares da terra pelos cristãos; ao passo que repele os sacrifícios feitos por vós, os realizados por aqueles vossos sacerdotes, dizendo: 'E vossos sacrifícios não os receberei das vossas mãos; pois do levantar ao pôr-do-sol meu nome é glorificado', diz ele, 'entre os gentios, ao passo que vós o profanais' [Ml 1:11-12]. E até agora, procurando rivalidades, dizeis que Deus não aceita os sacrifícios oferecidos em Jerusalém pelos chamados israelitas que então aí habitavam, mas por outro lado dizeis que ele teria dito que as orações feitas pelos homens daquela linhagem que se encontravam na dispersão chegavam até ele e que ele chama de sacrifícios as suas orações. Ora, que as orações e as ações de graças feitas pelos justos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus também eu o afirmo. Pois somente estes também os cristãos os receberam para fazer, e isto, em comemoração do seu alimento seco e líquido, no qual eles recordam a paixão que por eles sofreu o Filho de Deus (Diálogo com o judeu Trifão, 41-117).

Hipólito de Roma (170-236)

'A sabedoria já edificou a sua casa, já lavrou as suas sete colunas. Já abateu os seus animais e misturou o seu vinho, e já preparou a sua mesa' [Prov. 9:1-2], o que denota o prometido conhecimento da Santa Trindade; também refere-se ao Seu honrado e imaculado corpo e sangue, os quais são administrados e oferecidos sacrificialmente na mesa espiritual divina, como memorial da primeira e memorável mesa da Ceia espiritual divina. E novamente: 'Já ordenou às suas criadas' [Prov. 9:3], a sabedoria - isto é, Cristo - tem feito isso por um anúncio sublime. 'Quem é simples, volte-se para cá' [Prov. 9:4], diz a sabedoria, aludindo manifestamente aos santos apóstolos, que viajaram o mundo todo, e chamaram as nações ao conhecimento Dele em verdade, com sua pregação sublime e divina. E novamente: 'Aos faltos de senso diz' - isto é, àqueles que ainda não receberam o poder do Espírito Santo - 'Vinde, comei do meu pão, e bebei do vinho que tenho misturado' [Prov. 9:5], o que significar dizer que Ele deu Sua carne divina e seu sangue honrado para nós, para comermos e bebermos para a remissão dos pecados (Fragmentos sobre os Provérbios).

Por isso, nós que nos lembramos de sua morte e Ressurreição, oferecendo-te o pão e o cálice, dando-te graças porque nos consideraste dignos de estar diante de ti e de servir-te. E te pedimos que envies o teu Espírito Santo à Oblação da santa Igreja... (Tradição Apostólica).

Cirilo de Jerusalém (313-387)

Depois de terminado o sacrifício espiritual, rito incruento, pedimos a Deus, sobre esta hóstia de propiciação, pela paz universal da Igreja, pela justa ordem do mundo, pelos imperadores, pelos nossos soldados e pelos aliados, pelos doentes, pelos aflitos, e todos nós rogamos por todos, em geral, quantos precisam de ajuda; oferecemos esta vítima... e depois recomendamos também os santos padres e bispos, e em conjunto todos os nossos defuntos, convencidos como estamos que esta será a maior ajuda para as almas, por quem se oferece a oração, enquanto está presente a Vítima santa que infunde o maior respeito...

Do mesmo modo também nós, oferecendo orações a Deus pelos defuntos, mesmo pecadores, não lhe tecemos uma coroa, mas oferecemos-lhe Cristo imolado pelos nossos pecados, procurando conciliar a clemência de Deus em nosso favor e em favor deles (Catequeses Mistagógicas).

Ambrósio de Milão (340-397)

Queres saber mediante quais palavras celestes se consagra? Escuta quais são as palavras. O sacerdote diz: 'Faze para nós com que esta oferta seja aprovada, espiritual, aceitável, porque é a figura do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. O qual, antes de sua paixão, tomou o pão em suas santas mãos, olhou para o céu, para ti, Pai santo, Deus todo-poderoso e eterno, deu graças, o abençoou, o partiu, e partindo o deu a seus apóstolos e discípulos, dizendo: Tomai e comei disso todos, porque isto é o meu corpo que será partido para muitos'.


[...] O sacerdote também diz: "Celebrando, pois, a memória de sua gloriosíssima paixão, da ressurreição dos infernos e da ascensão ao céu, nós te oferecemos esta hóstia imaculada, hóstia espiritual, hóstia incruenta, este pão santo e o cálice da vida eterna, te pedimos e suplicamos para que aceites esta oferta no teu sublime altar pelas mãos dos teus anjos, assim como dignaste aceitar as ofertas do teu servo o justo Abel, o sacrifício do nosso patriarca Abraão e o que te ofereceu o sumo sacerdote Melquisedec" (Sobre os sacramentos, IV).

A regeneração batismal no Novo Testamento



Sempre que o batismo é mencionado nas Escrituras, ou alguma lição importante sobre ele é ensinada, ele aparece conectado diretamente à salvação. Em absolutamente nenhuma passagem é dito que o batismo "representa" ou "significa" alguma coisa, mas sempre são usadas expressões fortes que o indicam como instrumento de Deus para conferir a graça.

Vejamos como o Novo Testamento trata do batismo em suas partes.

Evangelhos

Em João 3:5, Cristo diz a Nicodemos: "Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito [ex hydatos kai Pneumatos], não pode entrar no reino de Deus".

O evangelho de João começa com a pregação de João Batista, o qual, segundo somos informados, batizava "com água". Mas o próprio João Batista faz um contraste entre seu batismo e o batismo de Cristo: "O que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo" (João 1:33).

Pouco depois, vemos Jesus falar da necessidade de nascer não somente "da água" (o que seria o batismo de João), nem somente "do Espírito", mas "da água e do Espírito", conjuntamente. Somente o sacramento do batismo, instituído pelo próprio Cristo posteriormente (Mateus 28:19-20), cumpre plenamente o sentido dessa passagem. A realidade do novo nascimento é a graça de que Jesus fala a Nicodemos, mas esta graça é conferida pela instrumentalidade da "água" do batismo.

Já em Marcos 16:15-16, lemos Cristo dar a seguinte ordem: "Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado". Este é o ponto mais importante. Crer e ser batizado leva à salvação. Cristo não incluiria aqui, nessa frase de tanta importância, uma referência a um ato simbólico sem relação com a salvação. É mais plausível ler esse texto em harmonia com o resto do Novo Testamento, ou seja: o batismo é um instrumento usado por Deus para conferir a graça, que leva à salvação.

Epístolas paulinas

Em suas epístolas, quando o apóstolo Paulo lembra os cristãos de que "fomos batizados em Jesus Cristo", diz que "fomos sepultados com ele pelo [dia] batismo" (Rom. 6:4). Esse sepultamento com Cristo no batismo é apresentado como uma realidade espiritual de consequências tremendas. Estamos "mortos para o pecado" (6:2) e "nosso homem velho foi com ele crucificado" (6:6), diz o Apóstolo, portanto não podemos permanecer no pecado.

Aos gálatas ele diz: "todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo [Christon enedysasthe]" (Gal. 3:27). Não há exceção: todos os batizados em Cristo se revestiram dele. Logo, "todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gal. 3:28).

E aos colossenses: "estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; sepultados com ele no [en to] batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus" (Col. 2:11-12).

As expressões usadas são significativas: fomos sepultados com Cristo "pelo" batismo e "no" batismo, e por isso "nos revestimos" de Cristo. Em todas essas passagens, o apóstolo descreve o fruto (a regeneração) como pertencendo a todos os cristãos indistintamente e usa uma expressão referente à instrumentalidade do batismo ("no", "pelo"). Em nenhum momento o Apóstolo usa expressões referentes a um simbolismo.

Ainda, em Tito 3:5, Paulo diz que Deus "nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo". Os simbolistas alegam que a "lavagem" aqui é uma realidade puramente espiritual, não-sacramental. Mas à luz das passagens acima, é bem compreensível por que toda a Igreja primitiva via nessa passagem mais uma referência ao batismo como instrumento da regeneração.

Em Efésios 5:26, Paulo diz que Cristo entregou-se por sua Igreja, "para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra". Aqui também podemos ver uma referência ao batismo, sendo que a "palavra" é a promessa pronunciada nele: "seja batizado em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo".

Atos

No livro de Atos, vemos o mesmo padrão. O apóstolo Pedro diz a uma multidão que esperava a doutrina da salvação: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados [eis aphesin ton hamartion]; e recebereis o dom do Espírito Santo" (Atos 2:38). O batismo é administrado "para perdão dos pecados", não meramente para simbolizar um perdão já recebido de outra maneira.

Os defensores de uma interpretação simbólica alegam que, neste contexto, a palavra grega aqui traduzida como "para" deve ser entendida como "em referência ao". Ou seja, não denotaria instrumentalidade, mas apenas um símbolo. O problema é que essa tradução é defendida apenas pela própria noção preconcebida de que o batismo não poderia efetuar nada. Ao lermos o contexto da passagem, vemos que os ouvintes "compungiram-se em seu coração", e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: "Que faremos?" (2:37). Eles queriam uma resposta clara sobre a salvação, uma resposta que aliviasse suas culpas trazendo a solução. A resposta de Pedro foi direta. Além disso, praticamente todas as traduções indicam a instrumentalidade do batismo aqui.

Ainda em outra passagem de Atos, Ananias diz ao recém-convertido Paulo: "E agora por que te deténs? Levanta-te, e batiza-te, e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor" (22:16). Isso corrobora a interpretação acima. Novamente, vemos a conexão imediata entre a graça (do perdão dos pecados) e a recepção do batismo, de maneira incompatível com um batismo meramente simbólico. O esforço dos defensores de um batismo simbólico, aqui, é dizer que a lavagem dos pecados está atrelada apenas ao ato de invocar o nome do Senhor, e não à recepção do batismo. Mas isso novamente justifica-se tão somente por uma noção preconcebida.

Pedro

Em 1 Pedro 3:20:21, é ensinado: "... os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual apenas algumas pessoas, a saber, oito, foram salvas por meio da água [di’ hydatos], e isso prefigura [antitypon] o batismo que agora também vos salva [nyn sōzei baptisma] - não a remoção da sujeira do corpo, mas a indagação de uma boa consciência diante de Deus - por meio da ressurreição de Jesus Cristo".

No texto grego, o apóstolo Pedro chama o batismo de antitipo, ou seja, a realidade espiritual que é figurada pelo dilúvio. Na tipologia bíblica, a realidade figurada é sempre maior que o tipo que a prefigura. O argumento de Pedro é que, assim como Noé foi salvo da ira temporal de Deus pelas águas ou nas águas do dilúvio, nós também somos salvos agora pelo batismo.

Uma objeção levantada pelos simbolistas nessa passagem é que Pedro aparentemente qualifica sua afirmação, ao dizer que a ação salvífica do batismo não consiste na "remoção da sujeira do corpo", mas sim na "indagação de uma boa consciência". Mas é exatamente isso que a regeneração batismal afirma: que o efeito do batismo não é, conforme aparenta exteriormente, a remoção da sujeira do corpo, porque age interiormente (servindo de instrumento a Deus, é claro) para a remoção da sujeira da alma. O argumento é que, diferentemente das ordenanças do Antigo Testamento, o batismo não consiste apenas em "abluções e justificações da carne" (Heb. 9:10). A interpretação simbolista levaria à conclusão contrária, igualando o batismo às cerimônias antigas sem eficácia.

Conclusão

Talvez, depois de ler esses argumentos, o leitor pense: então o que acontece com quem não foi batizado? A Igreja sempre ensinou que, enquanto nós estamos condicionados pelos meios de graça estabelecidos por Deus, ele não está condicionado por esses meios. Deus pode regenerar almas sem o uso do batismo. A necessidade do batismo é ordinária, não absoluta, desde que não haja o desprezo pelo sacramento.

Outra pergunta comum é: o batismo confere essa graça a todos que o recebem, mesmo aqueles que não creem verdadeiramente? A doutrina da regeneração batismal não atribui ao batismo um poder mágico, como se fosse possível ser salvo sem arrependimento, sem fé, sem amor, unicamente em virtude do sacramento. Na realidade, o batismo exige certas disposições (Atos 8:37), em especial a fé e o arrependimento (essas disposições, é claro, somente são possíveis pela graça de Deus que já opera antes da recepção do batismo). Os adultos que receberam o batismo sem essas disposições, não precisam recebê-lo de novo, mas não terão seus frutos enquanto não forem renovados pelo arrependimento.

Em conclusão, o Novo Testamento mostra é que o batismo é um verdadeiro meio de graça, que confere a regeneração àqueles que o recebem. É obra de Deus, não um ato humano. No batismo, a água e o ministro que o administra são apenas instrumentos nas mãos de Deus.

A Igreja e seus Mistérios


Tendo confessado a sua Fé na Divindade tri-hipostásica, a Igreja confessa a sua fé em si própria, porque se reconhece como instrumento e veículo da Graça divina e reconhece as suas obras como obras de Deus, não como obras dos indivíduos que a compõem na sua manifestação visível (sobre a Terra). Nesta concisão ela mostra que o conhecimento no que diz respeito à sua essência e existência é como um dom da Graça, concedido de cima e acessível apenas à Fé e não à razão.

Que necessidade teria de dizer "eu creio," se já conhecesse? Não é a Fé a evidência das coisas não vistas? Mas a Igreja visível não é a sociedade visível dos cristãos, mas o Espírito de Deus e a Graça dos Sacramentos habitando nessa sociedade. Razão pela qual até a Igreja visível apenas o é para o crente; porque para o descrente um Sacramento é apenas um rito e a Igreja somente uma sociedade. O crente, que com os olhos do corpo e da razão apenas vê a Igreja nas suas manifestações exteriores, pelo Espírito toma conhecimento Dela nos seus Sacramentos, orações e obras que agradam a Deus. Por esse motivo não a confunde com a sociedade que usa o nome de Cristã porque nem todos os que dizem "Senhor, Senhor" pertencem realmente ao povo eleito e à semente de Abraão. O verdadeiro Cristão sabe pela Fé que a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica nunca desaparecerá da face da terra até ao juízo final de toda a Criação, que Ela permanecerá na terra, invisível aos olhos da carne ou à compreensão humana, entre a sociedade Cristã visível, exatamente da mesma maneira como permanece na Igreja celeste, visível aos olhos da Fé mas invisível aos olhos do corpo. Os Cristãos também sabem, através da Fé, que a Igreja terrena apesar de invisível, está sempre revestida de uma forma visível, que nunca constituiu nem pode ter constituído, nem constituirá uma época durante a qual os Sacramentos sejam mutilados, a santidade anulada ou a doutrina corrompida. E sabem ainda que não é Cristão quem não souber dizer onde, desde o tempo dos Apóstolos, os Santos Sacramentos têm sido e estão a ser administrados, onde a doutrina foi e é preservada, onde as orações foram e estão a ser enviadas para o Trono da Graça. A Santa Igreja confessa e acredita que a ovelha nunca foi privada do seu Divino Pastor e que a Igreja nunca se pôde desviar pela vontade da razão — pela compreensão da ação de Deus no seu seio — ou submeter-se a falsas doutrinas por atrevimento — porque dentro dela age o poder do Espírito de Deus.

Acreditando nas palavras da promessa de Deus que designou por amigos de Cristo e Seus irmãos a todos os seguidores da doutrina de Cristo, e através d'Ele, filhos adotivos de Deus, a Santa Igreja revela os caminhos pelos quais agrada a Deus conduzir a humanidade morta da Queda até à reconciliação no Espírito da Graça e da Vida. Assim, mencionando os Profetas (os representantes da época do Antigo Testamento) Ela revela os Sacramentos, através dos quais, na Igreja do Novo Testamento, Deus faz descer a Sua Graça sobre os homens e mais especificamente revela o Sacramento do Batismo para a remissão dos pecados, como contendo dentro de si o princípio de todos os outros; porque só pelo Batismo o homem entra na Unidade da Igreja, que é a guardiã de todos os outros Sacramentos.

Sacramento do Batismo

Confessando um só Batismo para a remissão dos pecados como um Sacramento ordenado por Cristo para a entrada na Igreja do Novo Testamento, a Igreja não julga aqueles que não entraram na comunhão com Ela através do Batismo, porque somente se julga e se conhece a si própria. Só Deus conhece a dureza do coração e julga a fraqueza da razão de acordo com a Verdade e a Misericórdia. Muitos foram salvos e receberam a Herança sem terem recebido o Sacramento do Batismo com água; porque isto foi instituído somente para a Igreja do Novo Testamento. Quem o rejeita, rejeita a Igreja inteira e o Espírito de Deus que habita no seu seio, mas ele não foi ordenado ao homem desde o princípio, nem foi prescrito pela Igreja do Antigo Testamento. Assim, se alguém disser que a circuncisão era o Batismo do Antigo Testamento, rejeita o Batismo da mulher, para a qual não havia circuncisão; e o que se dirá acerca dos Patriarcas, de Adão à Abraão, que não receberam o selo da circuncisão? E, em qualquer caso, não se reconhece que fora da Igreja do Novo Testamento o Sacramento do Batismo não era uma obrigação? Se se disser que foi em benefício da Igreja do Antigo Testamento que Cristo recebeu o Batismo, quem estabelecerá um limite à bondade amorosa de Deus que tomou sobre Ele os pecados do mundo? O Batismo é na verdade uma obrigação, porque só ele é a porta de entrada para a Igreja do Novo Testamento e só no Batismo o homem testemunha o seu assentimento à ação redentora da Graça. Por conseguinte, também no único Batismo ele é salvo.

Além disso, nós sabemos que confessando um só Batismo, como princípio de todos os Sacramentos nós não rejeitamos os outros porque, acreditando na Igreja, confessamos juntamente com ela sete Sacramentos, a saber: Batismo, Eucaristia, Ordem, Confirmação com Crisma, Matrimônio, Penitência e a Unção dos Enfermos. Há ainda muitos outros Sacramentos, porque cada obra realizada com Fé, Amor e Esperança é sugerida ao homem pelo Espírito de Deus e invoca a Graça invisível de Deus. Mas, na realidade, os Sete Sacramentos não são executados por um único indivíduo, digno da misericórdia de Deus, mas por toda a Igreja através desse indivíduo, mesmo que ele não seja digno.

Sacramento da Eucaristia

No que diz respeito ao Sacramento da Eucaristia a Santa Igreja ensina que através dele é verdadeiramente realizada a transformação do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo. A Igreja não rejeita o termo "transubstanciação," mas não lhe atribui aquele significado material que lhe é dado pelos mestres das igrejas que apostataram. A transformação do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo é realizada dentro da Igreja e para a Igreja. Se um homem recebe os Dons consagrados, lhes presta culto ou pensa neles com Fé, ele na realidade recebe, adora e pensa no Corpo e Sangue de Cristo. Se ele os recebe indignamente, rejeita na realidade o Corpo e o Sangue de Cristo. Em qualquer dos casos, com Fé ou com descrença, ele é santificado ou condenado pelo Corpo e Sangue de Cristo. Mas este Sacramento existe para a Igreja e não para o mundo exterior, nem para o fogo, nem para as criaturas irracionais, nem para a corrupção, nem para o homem que não der ouvidos a Lei de Cristo. Na Igreja (estamos a falar da Igreja visível), para os eleitos e para os réprobos, a sagrada Eucaristia não é somente uma comemoração relacionada com o Mistério da Redenção, não se trata de uma simples presença de dons espirituais no pão e no vinho, não é apenas uma recepção espiritual do Corpo e Sangue de Cristo, mas é o Seu verdadeiro Corpo e Sangue. Não só em Espírito quis Cristo unir-se com os fiéis, mas também em Corpo e Sangue. Para que essa união possa ser completa, ela não é só espiritual, mas também corporal. As explicações absurdas que dizem respeito à relação entre o santo Sacramento e os elementos e as criaturas irracionais (quando o Sacramento apenas foi instituído para a Igreja), e esse orgulho espiritual que despreza o Corpo e o Sangue e rejeita a união corporal com Cristo, são igualmente contrárias à Igreja. Nós não podemos ressuscitar sem o corpo e nenhum espírito (à exceção do Espírito de Deus) pode ser considerado inteiramente incorpóreo. Aquele que despreza o corpo peca por orgulho espiritual.

Sacramento da Ordem

Sobre o Sacramento da Ordem a Santa Igreja ensina que através dele a Graça que torna os Sacramentos atuantes é transmitida sucessivamente desde os Apóstolos e a partir de Cristo. Assim nenhum Sacramento pode ser atuante sem ser através da Ordenação (apesar de que qualquer cristão está apto a abrir a porta da Igreja através do Batismo, a uma criança, a um judeu ou a um pagão), e essa Ordenação contém em si própria toda a amplitude da Graça dada por Cristo à Sua Igreja. E a Igreja, ao comunicar aos seus membros a plenitude dos Dons espirituais, no vigor da liberdade que lhe foi dada por Deus, estabeleceu diferenças nos graus da Ordem. 0 Presbítero, que executa todos os Sacramentos à exceção da Ordem, tem um determinado dom. 0 Bispo, que executa a Ordenação, tem outro, e não existe nenhum dom mais elevado que o do Episcopado. Este Sacramento tem, para aquele que o recebe, o importante significado de que, mesmo no caso de ser indigno, ao ministrar os Sacramentos, necessariamente que a sua ação não provirá dele próprio mas de toda a Igreja, isto é, de Cristo vivendo no seu seio. Se o Sacramento da Ordem cessasse, todos os Sacramentos, à exceção do Batismo, igualmente cessariam e a raça humana seria afastada da Graça: porque a própria Igreja prestaria então testemunho de que Cristo se teria afastado d'Ela.

Sacramento da Crisma

Acerca do Sacramento da Confirmação (ou Crisma ) a Igreja ensina que através dele os dons do Espírito Santo são conferidos aos Cristãos, confirmando a sua Fé e a sua santidade interior. Este Sacramento é, pela vontade da Santa Igreja, distribuído não apenas pelos Bispos mas também pelos Presbíteros, apesar do Crisma poder ser abençoado somente por um Bispo.

Sacramento do Matrimônio

Sobre o Sacramento do Matrimônio a Santa Igreja ensina que a Graça de Deus, que abençoa a sucessão das gerações na existência temporal da raça humana e a santa união do homem e da mulher para a organização de uma família, é uma Graça sacramental que impõe sobre aqueles que a recebem uma elevada obrigação de amor mútuo e de santidade espiritual, através da qual o que de outra maneira seria pecaminoso e material é revestido de retidão e pureza. Razão pela qual os grandes mestres da Igreja, os Apóstolos, reconhecem o Sacramento do Matrimônio mesmo entre os pagãos porque ao mesmo tempo que proíbem a união irregular, confirmam o casamento entre os Cristãos e os pagãos, dizendo que o homem é santificado pela mulher crente, e a mulher pelo marido crente (Cor 7:14). Estas palavras dos Apóstolos não significam que um descrente possa ser salvo pela sua união com um crente, mas que o seu casamento é santificado, porque não é a pessoa, mas o marido ou a mulher que são santificados. Uma pessoa não é salva através de outra, mas ou o marido ou a mulher é santificado em relação ao casamento. E assim o casamento não é impuro mesmo entre os idólatras; mas eles não conhecem a graça que Deus lhe deu. A Santa Igreja, através dos seus sacerdotes reconhece e abençoa a união, abençoada por Deus, do marido e da mulher. Deste modo o casamento não é somente um ritual, mas um verdadeiro Sacramento. E esse Sacramento é realizado na Santa Igreja, porque apenas Nela os santos atos são cumpridos em toda a sua plenitude.

Sacramento da Penitência

Acerca do Sacramento da Penitência a Santa Igreja ensina que sem ele o homem não pode ser liberto da escravidão do pecado e do orgulho pecaminoso, porque o homem não pode redimir a si próprio dos seus pecados (porque nós apenas temos a possibilidade de nos condenarmos e nunca de nos auto justificarmos), e apenas a Igreja tem o poder de justificar, porque dentro Dela vive a plenitude do Espírito de Cristo. Nós sabemos que depois do Salvador, o primogêntito do Paraíso ou no Santuário de Deus pela condenação de si próprio, isto é, pelo Sacramento da Penitência, porque ele disse: "para que cada um receba o galardão segundo o que tiver feito" (II Cor 5:10 N .dos T.), e o homem recebe a absolvição de Deus porque só Ele pode absolver e o faz pela boca da Sua Igreja.

Sacramento da Unção

Acerca do Sacramento da Unção com óleo consagrado (Unção dos Doentes) a Igreja ensina que com ele se completa a bênção de todos os esforços (Tim 4:7) do homem durante a sua vida sobre a terra, de toda a caminhada que ele realiza com fé e humildade, e que na Unção dos Doentes o divino veredito é pronunciado sobre o corpo terreno, curando-o, quando todos os meios medicinais não se mostraram benéficos ou, de outro modo, permitindo que a morte destrua o corpo corruptível que deixa de ser necessário para a Igreja Terrena ou para os misteriosos caminhos de Deus.

- Alexei Khomiakov, A Igreja é Una