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Oração pelos mortos e Purgatório: diferenças entre ortodoxos e católicos

 
Metropolita Macário de Moscou (1816-1882), Teologia Dogmática Ortodoxa, Vol. 2 (1857).

A doutrina da Igreja Romana sobre o Purgatório tem alguma semelhança com a doutrina da Igreja Ortodoxa sobre a possibilidade de alguns pecadores serem libertados das amarras do Hades [Inferno] pelas orações dos vivos, embora também tenha alguma diferença. Para julgar corretamente entre um e outro, deve-se entender o ensino conforme estabelecido pelos próprios teólogos romanos.

Primeiro, eles distinguem na doutrina do Purgatório duas partes: a 'parte essencial', ou o que foi decretado e ensinado por sua Igreja como dogma, e o opcional, ou seja, o que não foi fixado por sua Igreja e é objeto de opiniões [controversas] teológicas. A primeira parte refere-se apenas a dois pontos:

a) Há um purgatório, isto é, um lugar ou estado de expiação (status expiationis) em que as almas daqueles que morreram sem ter recebido a absolvição por faltas leves, ou mesmo depois de obter a absolvição de seus pecados, mas sem suportar nesta vida os castigos temporais pelos pecados, sofrem tormentos para satisfazer a justiça divina, até que sejam purificados por esses tormentos e se tornem dignos da felicidade eterna.

b) As almas dos que estão no Purgatório precisam muito de oração para ajudá-los, assim como esmolas [oferecidas em favor delas], e principalmente do Sacrifício incruento [isto é, o Sacrifício da Missa].

No que respeita ao ensino não-essencial [opcional], este refere-se à solução das seguintes questões:

a) O Purgatório é um lugar específico ou não, e em caso afirmativo, onde fica? Os sofrimentos das almas no fogo do purgatório são reais ou metafóricos [espirituais]?
b) Quanto tempo as almas ficam no purgatório? Como eles são ajudados pelas orações da Igreja?
 
Segundo, focando nossos pensamentos sobre a parte essencial da doutrina romana sobre o Purgatório, encontramos alguma semelhança com a da Igreja Ortodoxa sobre as orações pelos mortos, e ao mesmo tempo algumas diferenças:
 
Semelhanças - Há semelhança na ideia fundamental. De fato, a Igreja Ortodoxa ensina, como a de Roma: (a) Que as almas de alguns dos mortos, ou seja, daqueles que morreram na fé e no arrependimento, mas sem ter tido tempo para trazer em vida frutos dignos de arrependimento [Mateus 3:8], e, portanto, não conseguiram receber de Deus o perdão completo de seus pecados e serem [perfeitamente] purificados, sofrem tormentos até que sejam julgados dignos de perdão e purificados; e (b) Que em tais casos as almas dos defuntos são beneficiadas pelas orações em favor delas pelos irmãos em Cristo que ainda estão vivos, suas obras de caridade e especialmente pela oferta do Sacrifício incruento [eucarístico].
 
Diferenças - As diferenças, em particular, são: (a) De acordo com a doutrina da Igreja Ortodoxa, as almas dos mortos acima mencionadas estão sofrendo porque, embora tenham se arrependido antes da morte, não tiveram tempo de produzir frutos dignos de arrependimento, e portanto, merecer o perdão completo de Deus de seus pecados e, assim, ser realmente purificados e superar as consequências naturais do pecado, [que é a] punição; considerando que, de acordo com a doutrina da Igreja de Roma, as almas dos mortos sofrem no Purgatório, estritamente porque não sofreram aqui abaixo o castigo temporal necessário para os pecados em satisfação da justiça divina; e (b) Segundo a doutrina ortodoxa, essas almas são purificadas dos pecados e merecem o perdão de Deus, não por si mesmas e pelo seu próprio sofrimento, mas pelas orações da Igreja e pelo poder do Sacrifício incruento [eucarístico]; com essas mesmas orações não só beneficiando as almas que sofrem, mas mitigando sua posição, libertando-as do tormento, enquanto que, segundo a doutrina da Igreja Romana, é por seu mesmo sofrimento que as almas são purificadas no Purgatório e, assim, a justiça divina é satisfeita, e as orações da Igreja servem apenas para dar-lhes algum alívio nessa condição.
 
Além disso, embora as diferenças entre a doutrina romana do Purgatório e a doutrina ortodoxa de oração pelos mortos sejam sobre esses detalhes, elas são importantes e não podemos aceitar as diferenças. Pois nessas diferenças encontramos tanto coisas falsas [no ensino romano] quanto uma inversão do dogma fundamental:
 
1º Erro [Que é necessário satisfazer a justiça divina por todo pecado já perdoado, através de penas temporais] - A primeira ideia é falsa, como já vimos, isto é, que um pecador que se arrepende antes de morrer deve ainda trazer uma espécie de satisfação à justiça divina por seus pecados sofrendo algum castigo temporal para esse fim, e que no Purgatório ele faz isso, por falta de poder sofrer aqui embaixo. A satisfação completa à justiça divina, a mesma satisfação superabundante, foi apresentada de uma vez por todas, em favor de todos os pecadores, por meio de Jesus Cristo Nosso Salvador, que tomou sobre si os pecados do mundo e todo o castigo pelo pecado; e, para obter o perdão completo de Deus e a libertação de todo castigo do pecado, os pecadores devem apropriar-se dos méritos do Redentor, ou seja, crer nEle, arrepender-se verdadeiramente de seus pecados, produzir frutos dignos de arrependimento, ou seja, boas ações. Consequentemente, se há pecadores que, tendo-se arrependido antes de morrer, têm, apesar disso, tormentos a suportar após a morte, é apenas porque não tiveram tempo para apropriar-se plenamente dos méritos do Salvador, seja por causa da fraqueza de sua fé Nele ou por efeito da falha de seu arrependimento, e principalmente porque não deram frutos dignos de arrependimento, e não foram realmente purificados do pecado, como ensina a Igreja Ortodoxa.
 
2º Erro [Que as almas podem ser purificadas através de seus próprios sofrimentos expiatórios] - Não é menos um equívoco que os pecadores seriam purificados no Purgatório e satisfariam a justiça divina por seus próprios tormentos. Em qualquer sentido que o fogo do Purgatório seja entendido, literalmente ou em sentido figurado, em nenhum desses sentidos podemos atribuir isso a Deus. Se for atribuído um significado literal ao fogo, então, o fogo por sua própria natureza é incapaz de purificar uma alma que é uma essência espiritual simples e imaterial. Se for atribuído um significado figurativo, ou seja, o fogo é um tormento interior da alma devido à consciência de seus pecados passados ​​e à profunda contrição por eles, então, nesse caso, isso não pode purificar a alma na vida além da sepultura, porque na vida após a morte não há mais lugar para arrependimento, nem para mérito ou qualquer autocorreção pessoal como os católicos romanos acreditam. E enquanto a alma permanecer no pecado, não purificada e renovada, até então, seja o que for que tenha que suportar, ela não pode de modo algum satisfazer por seu próprio sofrimento a justiça divina e superar [através desses sofrimentos] essas consequências inevitáveis ​​do pecado.
 
3º Erro [Que as orações da Igreja são essencialmente dispensáveis, servindo apenas para aliviar os sofrimentos do Purgatório] - Se as almas de alguns dos mortos sofrem no Purgatório, e mesmo os pecadores arrependidos devem necessariamente sofrer uma punição temporal pelo pecado em satisfação à justiça divina, e, se as almas que sofrem no Purgatório são verdadeiramente purificadas e cumprem sua obrigação para com a justiça divina [através desses sofrimentos], então, a pergunta é: “Qual é o sentido das orações e da intercessão geral da Igreja em seu favor?”. As almas do Purgatório necessariamente têm que sofrer até que tenham cumprido a satisfação desejada e tenham sido purificadas pelo sofrimento; agora, se as orações da Igreja apenas enfraquecem e aliviam esse sofrimento, em vez de encurtar o período de tempo que as almas devem passar no Purgatório, elas (as orações) o prolongam e, portanto, são menos úteis do que prejudiciais. Isso não derruba, é claro, a ideia fundamental do dogma das orações pelos mortos?
 
Terceiro, se voltarmos agora a nossa atenção para a parte não-essencial da doutrina romana sobre o Purgatório, sendo opiniões teológicas, verificamos que difere muito mais da doutrina da Igreja Ortodoxa sobre a oração pelos mortos, embora em questões de pouca importância julgando pelo seu significado íntimo. Mencionemos os dois mais notáveis:
 
4º Erro [Que há um lugar intermediário entre céu e inferno] - A Igreja Ortodoxa ensina que não há classe intermediária após a morte entre aqueles que são salvos e vão para o céu, e aqueles que são condenados e vão para o Hades; não há um lugar intermediário específico para onde vão as almas que fizeram penitência antes da morte e estão sujeitas às orações da Igreja; todas essas almas vão para o Hades, onde só podem ser libertadas pelas orações. A maioria dos teólogos romanos considera o Purgatório como um lugar intermediário especial entre o céu e o inferno, às vezes colocado nas proximidades deste último, no interior da terra, às vezes próximo ao primeiro, às vezes no ar. Há outros, porém, que veem no Purgatório não um lugar à parte, mas um estado particular de almas, e reconhecem que as almas neste estado podem sofrer seu castigo temporal e purificar-se mesmo onde estão contidas os condenadas [outras almas] ao castigo eterno (ou seja, no inferno); assim, podem ser encontrados na mesma prisão presos condenados à prisão temporária e presos condenados para sempre.
 
5º Erro [Que há um fogo purgatorial] - A Igreja Ortodoxa rejeita veementemente o ensino de um fogo purgatorial, no verdadeiro sentido da palavra, que purificaria a alma. Um grande número de teólogos romanos considera este fogo como real e material (sendo esta a crença quase universal dos leigos da confissão romana), e para angariar provas de seu ensinamento eles tentam coletar das Sagradas Escrituras e do escritos dos antigos Doutores da Igreja referências que parecem tratar de tal fogo. Outros, no entanto, entendem o fogo do Purgatório em sentido figurado, para tormento espiritual, e, portanto, citam em seus tratados sobre o assunto evidências semelhantes da palavra de Deus ou dos escritos dos Padres, acrescentando que os próprios antigos doutores eram de opiniões variadas sobre o fogo. Seria, portanto, supérfluo até mesmo refutar as provas apresentadas. Nota-se finalmente que, em geral, sua Igreja não determinou precisamente o que é o fogo do Purgatório, se é material ou não, e, portanto, não pertence à fé entendê-lo de uma maneira ou de outra [dogmaticamente].

Não discutiremos outras opiniões sobre o Purgatório, por exemplo, quanto tempo uma alma permanece, e se todas elas sofrem o mesmo espaço de tempo pelas mesmas penas; quais penalidades elas enfrentam; se são mais rigorosas que as da vida presente e mais leves que as do inferno; se as almas do purgatório rezam por si mesmas e por nós que ainda estamos neste mundo; se se entregam à prática das boas obras, etc, etc. Todas essas opiniões têm pouco valor mesmo para os teólogos de Roma e poucos se empenharam seriamente em respondê-las.

***

Breve síntese [não pertence ao texto do Metropolita Macário]
 
A Igreja Ortodoxa crê que:

1) Há pessoas que morreram com fé e arrependimento, mas que são "detidas no Hades" (a expressão é de S. Basílio), seja porque "não tiveram tempo de produzir frutos de arrependimento", seja porque cometeram "faltas leves" e, assim, ainda não receberam pleno perdão e purificação de seus pecados.

2) A Igreja ora e oferece sacrifícios por essas almas, implorando a misericórdia de Deus em favor delas. É essa intercessão que traz-lhes a libertação, perdão, purificação e plena entrada no paraíso, não o pagamento de débitos de expiação ("penas temporais").

Já o sistema romano ensina  que as orações da Igreja servem mais para aliviar o sofrimento das almas que ainda devem pagar penas temporais. É o pagamento dessas penas, pelo sofrimento expiatório (no fogo do Purgatório), que as liberta. Daí a existência de indulgências, que consistem na aplicação de méritos para cobrir (pagar) esses débitos de penas temporais. Não há indulgências na Igreja Ortodoxa.

O significado da Eucaristia

 
 
Primeiro, oferecemos a Deus alguns elementos muito simples de nossa comida: um pouco de pão e um pouco de vinho. Como você provavelmente sabe, a Igreja Oriental usa o pão fermentado para sua prosphora; então é realmente o que comemos em casa que está sendo oferecido a Deus como nosso sacrifício. E um bom estudo litúrgico e bíblico mostraria claramente que esta oferta de alimentos significa, antes de tudo, que estamos oferecendo a nós mesmos. O alimento não é apenas o símbolo da vida, mas sendo a condição da vida, sendo aquilo que se torna nosso corpo, o alimento é vida e, portanto, nossa vida - nós mesmos. O primeiro e verdadeiro sacrifício é, portanto, o sacrifício da própria Igreja. Mas (e este "mas" é muito importante) é um sacrifício em Cristo. Não é um novo sacrifício porque é o sacrifício da Igreja, e a Igreja é o Corpo de Cristo. Desde o primeiro momento da Liturgia, Cristo não é apenas Aquele que aceita o sacrifício, mas nas palavras de uma das orações litúrgicas, Aquele que também oferece. Todos os nossos sacrifícios - e um cristão é por sua própria natureza um sacrifício vivo a Deus - convergem para o único sacrifício, pleno e perfeito, o da humanidade de Cristo, que Ele ofereceu a Deus e no qual estamos incluídos pela nossa pertença à Igreja.

Estamos oferecendo este sacrifício não porque Deus precisa dele, mas porque o sacrifício de Cristo é a essência, a condição de estarmos nEle. A teologia ortodoxa, ao contemplar este sacrifício, enfatiza o amor nele em vez de "satisfação" ou expiação. Ser sacrificial pertence à própria essência do Filho de Deus mesmo antes da Encarnação e da Redenção. Pois o sacrifício, antes de se tornar sacrifício por algo, é a expressão natural e necessária do amor. Toda a vida de Cristo é um sacrifício porque é uma vida perfeita feita de amor e somente amor. E como é a Sua própria vida que Ele nos dá (Cristo em nós, nós em Cristo), nossa vida também é um sacrifício. Nosso sacrifício Nele, Seu sacrifício em nós. E assim, novamente, é um sacrifício real, não simbólico; mas não um novo, mas sempre o mesmo, aquele que ele nos deu, no qual ele nos acolheu. A Igreja, sendo o Corpo de Cristo, é ela mesma um ser sacrificial porque sabe que a essência da vida do homem - como visto em Sua Humanidade - é ir para Deus. E esse ir determina o movimento do sacrifício. Tudo isso é expresso na Oração do Hino Querubínico: "Tu és Aquele que oferece e Aquele que é oferecido, e Tu recebes e és distribuído".

É uma maravilhosa identificação com Cristo. Oferecemos nosso sacrifício a Deus Pai, e ainda assim não temos nada a oferecer a não ser o próprio Cristo; pois Ele é nossa vida e oferta. Sacrificando nossa vida, oferecemos Ele. A nossa Eucaristia é a Sua Eucaristia, e Ele também é a nossa Eucaristia.

Depois do Credo e do Beijo de Amor ("Amemo-nos uns aos outros para que em harmonia professemos a fé", etc.), estamos prontos para a grande oração eucarística, que desde tempos imemoriais constituiu a própria essência de toda a Eucaristia. Eucaristia significa ação de graças. Mas como a ação de graças está relacionada à consagração? A esta pergunta as várias teorias teológicas não dão uma resposta satisfatória. Sob sua influência, o elemento de ação de graças da oração eucarística foi chamado de Prefácio. No entanto, um prefácio geralmente não é algo muito importante. Não lemos às vezes o prefácio de um livro depois de ter lido o próprio livro? Mas na Eucaristia é precisamente este "Prefácio" que torna possível todo o resto, inclusive a consagração e a transformação dos elementos; e entendemos por que a ação de graças é o único caminho para essa transformação e assim entendemos todo o significado da Eucaristia.

Durante séculos, a ênfase foi colocada na "noite em que Ele foi traído" - no aspecto sangrento de Seu Sacrifício. Mas na tradição litúrgica, que nenhuma teoria sacramental foi capaz de quebrar, a oração começa com uma solene ação de graças. E Cristo também começou o seu sacrifício com uma ação de graças: "E, tendo dado graças, partiu-o... e deu-o".

A razão para isso, no entanto, esquecido como pode ser, é simples. Eucaristia, ação de graças, é o estado do homem inocente, o estado do paraíso. Antes do pecado, a vida do homem era eucarística, pois a "eucaristia" é a única relação entre Deus e o homem que transcende e transforma a condição criada do homem. Esta condição é a de uma dependência total, absoluta. Dependência é escravidão. Mas quando essa dependência é aceita e vivida como "eucaristia", isto é, como amor, ação de graças, adoração, não é mais dependência; é uma atitude de liberdade, um estado em que Deus é o conteúdo da vida. A Eucaristia, portanto, é o único estado de inocência, e Adão e Eva a tinham e era a imagem divina neles.
 
***
 
Mas sabemos que ninguém pode dizer isso, ninguém pode oferecer isso a não ser Cristo. Foi a Sua Eucaristia única que nos conduziu até aqui; fomos levados em Sua Ascensão, Sua passagem para Seu Pai. Estávamos oferecendo nEle. E agora percebemos que o conteúdo de nossa Eucaristia é Cristo novamente, pois não há mais nada que possamos oferecer a Deus. Não é uma nova Eucaristia. Somos aceitos na Eucaristia eterna que Cristo oferece e da qual Ele é a oferta. Ele está lá - no céu - eternamente. Ele é o fim, o Eschaton, e nossa Eucaristia não está, portanto, no passado, no presente ou no futuro. É o Eschaton, no Cristo glorificado.
 
***
 
Há muitos aspectos da ideia de sacrifício, mas gostaria de começar com meu principal interesse, que é a adoração. Este me parece ser o centro de toda a ideia de sacrifício, e o lugar onde todas as suas facetas se encontram: renúncia, oferenda e transformação.

Houve uma controvérsia que se desenvolveu no Ocidente sobre a Eucaristia como sacrifício. Por um lado, havia o conceito de que ao aceitar o sacrifício de Cristo como único e pleno, o aspecto sacrificial da Eucaristia deveria ser rejeitado; por outro lado, havia a ideia escolástica, que definia o sacrifício em termos de redenção e expiação - algo sangrento que satisfazia a ira ou a justiça divina. Sempre achei todo o debate errado, pois esse tipo de teologia e esse tipo de religião interpretam o sacrifício como um negócio jurídico: é necessária uma satisfação, um dever da criação para com o Criador, como um imposto de renda: a oferta do melhor animal ou mesmo da criança, para satisfazer uma necessidade objetiva. Esta é a perspectiva que eu acho que precisa não apenas de correção, mas de um repensar muito mais radical, começando pela própria natureza do sacrifício, que foi esquecida pelos teólogos e às vezes redescoberta no estudo das religiões.

Gostaria de salientar que, em primeiro lugar, o sacrifício é uma ontologia. Não é apenas o resultado de algo, é uma expressão maior ou uma primeira revelação da própria vida; é o conteúdo espiritual da vida. Onde não há sacrifício não há vida. O sacrifício está enraizado no reconhecimento da vida como amor: como renunciar, não porque quero mais para mim, ou para satisfazer uma justiça objetiva, mas porque é a única maneira de alcançar a plenitude que me é possível.

Assim, antes que o sacrifício se torne expiação, reparação ou redenção, é o movimento natural da própria vida. Tudo isso eu encontro na Eucaristia oriental, onde antes de chegarmos à crucificação, falamos do sacrifício de louvor e da salvação como um retorno ao modo de vida sacrificial. Oposto ao sacrifício está o consumismo: a ideia de que tudo pertence a mim e eu tenho que agarrá-lo - e somos restaurados disso apenas pelo movimento complexo exemplificado pela Eucaristia, onde nos oferecemos e somos aceitos pela oferta de Cristo de Si mesmo.

***
 
Não é que não haja o mal, como algumas pessoas querem que pensemos, inclusive, receio, Teilhard de Chardin; essa é a fraqueza que encontro nele. O mal é muito relevante e o sacrifício tem relação com isso; mas temos que estabelecer a perspectiva em que a ideia de sacrifício não se reduza apenas à de satisfação e expiação do pecado. Temos que nos livrar dessa visão estreita e, por outro lado, temos que nos livrar de um excesso de otimismo que diz que tudo o que temos a fazer agora é tornar cada ação uma oferta alegre. Não, neste mundo Cristo é crucificado, como diz Pascal; o mal é uma presença real, e a ideia sacrificial é que certamente a alegria não pode ser alcançada sem sofrimento; mas o sofrimento exemplificado na Crucificação é em si uma vitória.
 
~ Liturgia e Tradição (1990)

Sobre o sacrifício eucarístico e o que é sacrificado


São Nicolau Cabasilas

Quanto ao próprio sacrifício, há uma questão que merece ser considerada. Já que não estamos preocupados com um mero sacrifício figurativo ou derramamento de sangue simbólico, mas com um verdadeiro holocausto e sacrifício, devemos nos perguntar o que é que é sacrificado: é o pão ou o Corpo de Cristo? Ou, dito de outra forma, as ofertas são sacrificadas antes da consagração ou depois?

Se é o pão que é sacrificado, devemos nos perguntar como isso pode ser. Certamente, os santos mistérios não consistem em ajudar no sacrifício de pão, mas sim do Cordeiro de Deus, que com sua morte tirou os pecados do mundo.

No entanto, por outro lado, parece impossível que seja o Corpo do Senhor que é sacrificado. Pois este Corpo não pode mais ser morto ou ferido, visto que, agora um estranho à sepultura e à corrupção, ele se tornou imortal. E mesmo se não fosse impossível que sofresse novamente, teria que haver algozes para realizar a crucificação, e todos os outros elementos que estavam presentes naquele sacrifício - isto é, se fosse um verdadeiro sacrifício, e não simplesmente uma representação.

Como então pode ser isso, visto que Cristo, sendo ressuscitado dos mortos, não morre mais? Ele sofreu uma vez no tempo; ele foi oferecido uma vez para carregar os pecados de muitos. No entanto, se ele é sacrificado em cada celebração dos mistérios, ele morre diariamente.

Existe uma resposta para esses problemas? Sim: o sacrifício não se realiza nem antes nem depois da consagração do pão, mas no próprio momento da consagração. É necessário, portanto, preservar todos os ensinamentos de nossa fé a respeito do sacrifício, sem negligenciar nenhum. Quais são esses ensinamentos? Em primeiro lugar, que este sacrifício não é uma mera figura ou símbolo, mas um verdadeiro sacrifício; em segundo lugar, que não é o pão que é sacrificado, mas o próprio Corpo de Cristo; terceiro, que o Cordeiro de Deus foi sacrificado apenas uma vez, para sempre.

Agora vejamos se a liturgia é um verdadeiro sacrifício, e não apenas uma representação.

O sacrifício de uma ovelha consiste na mudança de seu estado; é mudado de uma ovelha não sacrificada para uma sacrificada. O mesmo vale aqui; o pão é transformado de pão não sacrificado em algo sacrificado. Em outras palavras, é alterado do pão comum não sacrificado para o próprio Corpo de Cristo que foi verdadeiramente sacrificado. Por meio dessa transformação, o sacrifício é verdadeiramente realizado, assim como o das ovelhas quando foi mudado de um estado para outro. Pois houve no sacrifício uma transformação não no símbolo, mas na realidade; uma transformação no Corpo sacrificado do Senhor.

Se fosse o pão que, restando pão, fosse sacrificado, seria o pão que seria imolado, e a imolação do pão seria então o sacrifício.

Mas a transformação foi dupla; o pão, de não ser sacrificado, tornou-se uma coisa sacrificada e também foi transformado de um simples pão no Corpo de Cristo. Segue-se, portanto, que esta imolação, considerada não como a do pão, mas como a do Corpo de Cristo, que é a substância que está sob a aparência do pão, é verdadeiramente o sacrifício não do pão, mas do Cordeiro de Deus, e é justamente assim chamado.

Agora está claro que, sob essas condições, não é necessário que haja numerosas oblações do corpo do Senhor. Visto que o sacrifício consiste, não na imolação real e sangrenta do Cordeiro, mas na transformação do pão no Cordeiro sacrificado, é óbvio que a transformação ocorre sem a imolação sangrenta. Assim, embora o que é mudado seja muito, e a transformação aconteça muitas vezes, nada impede que a realidade em que é transformado seja uma e a mesma coisa sempre - um único Corpo e o único sacrifício desse Corpo.

Pe. Lawrence Farley sobre o sacrifício eucarístico



Como S. João Crisóstomo escreveu, na Eucaristia "o sacerdote se coloca diante do altar trazendo do alto, não fogo [como Elias trouxe em seu sacrifício no Monte Carmelo], mas o Espírito Santo. E ele oferece oração longa, não para que alguma chama acesa do alto consuma as ofertas, mas para que a graça caia sobre o sacrifício através dessa oração, acenda as almas de todos e torne-os mais brilhantes que a prata refinada pelo fogo... Não sabeis que nenhuma alma humana poderia suportar esse fogo sacrificial, mas todos seriam aniquilados se não fosse a ajuda poderosa da graça de Deus?" (Sobre o sacerdócio, cap. 7). Aqui temos um incentivo para nos portarmos corretamente e uma razão para temer. Entretanto, o povo não foge diante dessa expectativa, mas responde ousadamente, aguardando "misericórdia, paz, o sacrifício de louvor!"

(...)

Nessa oração [a anáfora] oferecemos nosso sacrifício a Deus, o único sacrifício que podemos oferecer - aquele oferecido de uma só vez por Cristo. Ele é o único verdadeiro Sacerdote na Igreja, pois o sacerdócio da Igreja tem sua raiz em Seu sacerdócio celeste e eterno. A Igreja oferece o sacrifício eucarístico ao apresentar perante Deus em ação de graças o sacrifício eterno de Cristo na Cruz. Como S. Cipriano disse, "a Paixão [a morte de Cristo] é o sacrifício do Senhor, que nós oferecemos" (Ep. 63). Nós oferecemos esse memorial em obediência a Cristo, que, na última Ceia, ordenou Sua Igreja a comer pão e beber vinho reunida "em memória" Dele, como Seu memorial, Sua anamnesis. Fazendo isso, Deus "se lembra" do sacrifício de Cristo na Cruz e de tudo que Ele realizou por nossa salvação - isto é, Ele torna essas realidades presentes e poderosas no meio de Seu povo. 

Let Us Attend, A Journey through the Orthodox Divine Liturgy (Padre Lawrence Farley).

Gregory Dix sobre o "fazer em memória" eucarístico

O sentido do "fazer em memória"

Nas Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, anamnesis e seu verbo cognato possuem o sentido de 'chamar novamente' ou 'representar' diante de Deus um evento do passado, de modo que se torne aqui e agora operativo por seus efeitos. Assim, o sacrifício de uma esposa acusada de adultério (Num. 5:15) é "uma oblação" feita "em recordação de seu pecado [diante de Deus]" (anamimnes-kousa); isto é, se ela cometeu pecado no passado, este será revelado agora pela provação, pois seu pecado foi ativamente "recordado" ou "representado" diante de Deus por seu sacrifício. Do mesmo modo, a viúva de Sarepta (1 Reis 17:18) reclama que Elias veio trazer "recordação (anamnesai) de seus pecados" e como resultado seu filho morreu. Também em Heb. 10:3-4, o autor diz que, porque "é impossível que o sangue de touros e bodes retire o pecado" (aos olhos de Deus), os sacrifícios do Antigo Testamento não eram melhores que uma "recordação (anamnesis) dos pecados" dos oferentes perante Deus. Embora nessa passagem exista alguma indicação de que a anamnesis também traz parcialmente uma referência psicológica à consciência dos próprios israelitas, é claro pela passagem como um todo que é diante de Deus que os pecados são "recordados" e "não purificados" ou "retirados". É nesse sentido ativo, portanto, de "recordação" ou "representação" diante de Deus do sacrifício de Cristo, assim tornando-o aqui e agora operativo por seus efeitos nos comunicantes, que a Eucaristia é considerada tanto pelo Novo Testamento quanto pelos autores do segundo século como a anamnesis da paixão, ou da paixão e da ressurreição combinadas. É por essa razão que Justino, Hipólito e autores posteriores falam diretamente e vividamente da Eucaristia no presente conferindo aos comunicantes os efeitos da redenção - imortalidade, vida eterna, perdão dos pecados, libertação do poder do demônio, etc. - os quais nós usualmente atribuímos mais diretamente ao sacrifício de Cristo visto como um único evento histórico no passado. Basta examinar essa linguagem pouco familiar mais de perto para reconhecermos como eles identificavam completamente o oferecimento da Eucaristia pela Igreja com o oferecimento de Si mesmo por nosso Senhor, não por modo de repetição, mas como uma "representação" (anamnesis) do mesmo oferecimento pela Igreja 'que é Seu corpo'. Como São Cipriano expõe de forma decisiva no século terceiro: a paixão é o sacrifício do Senhor, que nós oferecemos (Ep. 63:17).

A evidência nos Pais da Igreja

No ocidente, já vislumbramos a evidência romana em Clemente, Justino e Hipólito, e a testemunha seguinte é Irineu na Gália, com sua educação oriental e associações romanas. Ele falou de nosso Senhor como
instruindo Seus discípulos a oferecer a Deus as primícias de Sua própria criação, não como se Ele necessitasse delas, mas para que eles não ficassem ociosos nem ingratos; Ele tomou o pão que vem da criação (material) e deu graças, dizendo, Isto é o Meu Corpo. E o cálice semelhantemente, que é tirado das coisas criadas, como nós mesmos, Ele reconheceu como Seu próprio Sangue, e ensinou a nova oblação do Novo Testamento. A qual a Igreja, aprendendo por tradição dos apóstolos, ao redor do mundo oferece a Deus, a Ele mesmo que nos provê com nossos alimentos, as primícias de Seus próprios dons na Nova Aliança... Devemos fazer a oblação a Deus e ser encontrados agradáveis a Deus nosso criador em todas as coisas, com crença correta e fé pura, esperança firme e uma caridade ardente, oferecendo as primícias daquelas coisas que são Suas criaturas... Nós oferecemos a Ele o que é Dele, assim apropriadamente proclamando a comunhão e unidade da carne e do espírito. Pois como o pão (que vem) da terra, recebendo a invocação de Deus, não é mais pão comum mas a eucaristia - consistindo de duas realidades, uma terrena e outra celestial; assim também nossos corpos recebendo a eucaristia não são mais corruptíveis, tendo a esperança da ressurreição eterna... Ele quer que ofereçamos nosso dom no altar frequentemente e sem interrupção. Há, portanto, um altar no céu, pois para lá nossas orações e oblações são direcionadas.
Sem dúvida, Irineu considera a eucaristia como uma 'oblação' oferecida a Deus, mas é bom notar o sentido particular que ele enfatiza seu caráter sacrificial. Primariamente, a eucaristia é para ele um sacrifício de 'primícias', reconhecendo a bondade do Criador em nos prover nosso sustento, em vez de uma 'representação' do sacrifício do Calvário à maneira paulina. É verdade que Irineu não hesita em dizer que 'o cálice misturado e o pão fabricado recebem a Palavra de Deus e tornam-se a eucaristia do Corpo e do Sangue de Cristo', e outros ensinos similares. Há, também, a adição significativa das palavras 'na Nova Aliança' às 'primícias de Seus próprios dons'. Irineu é claro, também, que a morte de Cristo foi um sacrifício, do qual o sacrifício abortivo de Isaque por seu próprio pai foi uma prefiguração. Mas quando tudo é dito e feito, ele nunca une claramente essas duas ideias ou chama a eucaristia de oferecimento ou 'representação' do sacrifício de Cristo.

É concebível que os erros particulares das seitas gnósticas, os quais Irineu combatia (que ensinavam que as coisas da criação material eram radicalmente más), tem algo a ver com sua ênfase no oferecimento eucarístico das 'primícias da criação'.

(...)

Mas para Cipriano, toda a questão de como a eucaristia constitui um sacrifício está clara e completamente definida como estaria para um teólogo pós-tridentino:
'Uma vez que fazemos menção de Sua paixão em todos os nossos sacrifícios, pois a paixão é o sacrifício do Senhor que nós oferecemos, nada devemos fazer senão o que Ele fez (na última ceia)' [Ep. LXIII].
Não há qualquer razão para pensarmos que Cipriano foi o inventor desse modo de definir o sacrifício eucarístico, ou de qualquer modo intencional seu partidário. Mas ele provou ser seu maior propagador. Cipriano é o mais atrativo dos autores pré-Nicenos e, dentre os ocidentais, sempre o mais lido em tempos posteriores. Sua explicação do sacrifício tinha uma simplicidade que a recomendou à devoção popular, e esse tipo de unidade e lógica direta que sempre apelou aos teólogos ocidentais. Não é surpreedente que a doutrina do sacrifício - que podemos chamar por conveniência de 'cipriânica' - prevaleceu no ocidente, quase ao ponto da exclusão daquela linha de pensamento que era proeminente em Irineu. O ensino de Cirilo de Jerusalém posteriormente levou a um desenvolvimento similar, na linha 'cipriânica', no ensinamento oriental sobre o sacrifício eucarístico (embora os orientais dificilmente tenham alcançado a mesma precisão em seu entendimento da matéria como os ocidentais posteriores).

(...)

Há uma testemunha mais antiga que Irineu ou Cipriano para o equilíbrio original da doutrina eucarística ocidental - Justino. Ele fala da eucaristia como o 'sacrifício puro' dos cristãos, 'assim como para recordação (diante de Deus, anamnesis) de seu sustento em comida e bebida, na qual é feito também o memorial (memnetai) da paixão que o Filho de Deus sofreu por ele' [Dial. 117]. Irineu e Cipriano desenvolvem cada um metade dessa interpretação da eucaristia, não em oposição, mas em isolamento um do outro. Mas é interessante notar que a mais antiga oração eucarística ocidental, a de Hipólito - um admitido seguidor de Irineu -, já torna a doutrina 'cipriânica' o aspecto mais proeminente da matéria, uma geração antes de Cipriano escrever.

- Gregory Dix, The Shape of the Liturgy

Apêndice: algumas citações dos Pais da Igreja sobre o sacrifício eucarístico

Didaquê

Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro. Aquele que está de briga com seu companheiro não poderá juntar-se a vocês antes de se ter reconciliado, para que o sacrifício que vocês oferecem não seja profanado. Este é o sacrifício do qual o Senhor disse: 'Em todo lugar e em todo tempo, seja oferecido um sacrifício puro, porque eu sou um grande rei, diz o Senhor, e o meu Nome é admirável entre as nações' (Didaquê, 9-10, 14)

Clemente de Roma (35-100)

Para nós, não seria culpa leve se exonerássemos do episcopado aqueles que apresentaram os dons de maneira irrepreensível e santa (Epístola aos Coríntios, 42 e 44).

Inácio de Antioquia (35-107)

Preocupai-vos em participar de uma só eucaristia. De fato, há uma só carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice na unidade do seu sangue, um único altar, assim como um só bispo com o presbitério e os diáconos, meus companheiros de serviço. Desse modo, o que fizerdes, fazei-o segundo Deus (Epístola aos filadelfienses, 3).

Flávio Justino (100-165) 

Eu dizia, senhores, que também a oblação de flor de farinha que, conforme a tradição [Lv. 14:10], é oferecida pelos que são purificados da lepra, era figura do pão da ação de graças em relação ao qual Jesus Cristo Nosso Senhor mandou fazer em memória da paixão que ele sofreu pelos que são purificados nas almas de toda maldade dos homens, para que rendêssemos graças a Deus por ter criado o universo com todas as coisas que nele existem através do homem e, ao mesmo tempo, por nos ter libertado do mal em que nascemos, e ter destruído fatalmente os principados e as potestades, através daquele que, segundo sua vontade, nasceu passível (...).

Já então ele [Malaquias] profetiza sobre os sacrifícios a ele oferecidos em todo lugar por nós gentios, isto é, do pão da ação de graças como também do cálice da ação de graças, dizendo que nós glorificaremos o seu nome, vós, porém o profanais.

(...) Pois bem, é manifesto que também nesta profecia [de Isaías] sobre o pão se trata do pão em relação ao qual o nosso Cristo nos mandou fazer em memória de se ter feito homem pelos que crêem nele, pelos quais também se tornou passível, e se trata também do cálice em relação ao qual mandou fazer com ação de graças em memória do seu sangue... [Nós] somos a verdadeira raça sacerdotal de Deus, como atesta o próprio Deus, dizendo haver em todo lugar entre os gentios quem lhe oferecesse sacrifícios agradáveis e puros. Ora, Deus não aceita sacrifícios de ninguém, a não ser através dos seus sacerdotes.

Portanto, já de antemão Deus atesta que através deste nome lhe são fundamentalmente agradáveis todos os sacrifícios que Jesus Cristo mandou que se fizessem, a saber, na ação de graças do pão e do cálice, realizados em todos os lugares da terra pelos cristãos; ao passo que repele os sacrifícios feitos por vós, os realizados por aqueles vossos sacerdotes, dizendo: 'E vossos sacrifícios não os receberei das vossas mãos; pois do levantar ao pôr-do-sol meu nome é glorificado', diz ele, 'entre os gentios, ao passo que vós o profanais' [Ml 1:11-12]. E até agora, procurando rivalidades, dizeis que Deus não aceita os sacrifícios oferecidos em Jerusalém pelos chamados israelitas que então aí habitavam, mas por outro lado dizeis que ele teria dito que as orações feitas pelos homens daquela linhagem que se encontravam na dispersão chegavam até ele e que ele chama de sacrifícios as suas orações. Ora, que as orações e as ações de graças feitas pelos justos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus também eu o afirmo. Pois somente estes também os cristãos os receberam para fazer, e isto, em comemoração do seu alimento seco e líquido, no qual eles recordam a paixão que por eles sofreu o Filho de Deus (Diálogo com o judeu Trifão, 41-117).

Hipólito de Roma (170-236)

'A sabedoria já edificou a sua casa, já lavrou as suas sete colunas. Já abateu os seus animais e misturou o seu vinho, e já preparou a sua mesa' [Prov. 9:1-2], o que denota o prometido conhecimento da Santa Trindade; também refere-se ao Seu honrado e imaculado corpo e sangue, os quais são administrados e oferecidos sacrificialmente na mesa espiritual divina, como memorial da primeira e memorável mesa da Ceia espiritual divina. E novamente: 'Já ordenou às suas criadas' [Prov. 9:3], a sabedoria - isto é, Cristo - tem feito isso por um anúncio sublime. 'Quem é simples, volte-se para cá' [Prov. 9:4], diz a sabedoria, aludindo manifestamente aos santos apóstolos, que viajaram o mundo todo, e chamaram as nações ao conhecimento Dele em verdade, com sua pregação sublime e divina. E novamente: 'Aos faltos de senso diz' - isto é, àqueles que ainda não receberam o poder do Espírito Santo - 'Vinde, comei do meu pão, e bebei do vinho que tenho misturado' [Prov. 9:5], o que significar dizer que Ele deu Sua carne divina e seu sangue honrado para nós, para comermos e bebermos para a remissão dos pecados (Fragmentos sobre os Provérbios).

Por isso, nós que nos lembramos de sua morte e Ressurreição, oferecendo-te o pão e o cálice, dando-te graças porque nos consideraste dignos de estar diante de ti e de servir-te. E te pedimos que envies o teu Espírito Santo à Oblação da santa Igreja... (Tradição Apostólica).

Cirilo de Jerusalém (313-387)

Depois de terminado o sacrifício espiritual, rito incruento, pedimos a Deus, sobre esta hóstia de propiciação, pela paz universal da Igreja, pela justa ordem do mundo, pelos imperadores, pelos nossos soldados e pelos aliados, pelos doentes, pelos aflitos, e todos nós rogamos por todos, em geral, quantos precisam de ajuda; oferecemos esta vítima... e depois recomendamos também os santos padres e bispos, e em conjunto todos os nossos defuntos, convencidos como estamos que esta será a maior ajuda para as almas, por quem se oferece a oração, enquanto está presente a Vítima santa que infunde o maior respeito...

Do mesmo modo também nós, oferecendo orações a Deus pelos defuntos, mesmo pecadores, não lhe tecemos uma coroa, mas oferecemos-lhe Cristo imolado pelos nossos pecados, procurando conciliar a clemência de Deus em nosso favor e em favor deles (Catequeses Mistagógicas).

Ambrósio de Milão (340-397)

Queres saber mediante quais palavras celestes se consagra? Escuta quais são as palavras. O sacerdote diz: 'Faze para nós com que esta oferta seja aprovada, espiritual, aceitável, porque é a figura do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. O qual, antes de sua paixão, tomou o pão em suas santas mãos, olhou para o céu, para ti, Pai santo, Deus todo-poderoso e eterno, deu graças, o abençoou, o partiu, e partindo o deu a seus apóstolos e discípulos, dizendo: Tomai e comei disso todos, porque isto é o meu corpo que será partido para muitos'.


[...] O sacerdote também diz: "Celebrando, pois, a memória de sua gloriosíssima paixão, da ressurreição dos infernos e da ascensão ao céu, nós te oferecemos esta hóstia imaculada, hóstia espiritual, hóstia incruenta, este pão santo e o cálice da vida eterna, te pedimos e suplicamos para que aceites esta oferta no teu sublime altar pelas mãos dos teus anjos, assim como dignaste aceitar as ofertas do teu servo o justo Abel, o sacrifício do nosso patriarca Abraão e o que te ofereceu o sumo sacerdote Melquisedec" (Sobre os sacramentos, IV).

A Eucaristia


A Eucaristia (literalmente "agradecimento") é o Mistério no qual pão e vinho da oferenda são mudados pelo Espírito Santo no verdadeiro Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e então os fiéis recebem comunhão deles para a mais intima união com Cristo e para a vida eterna. Esse Mistério é então composto de dois momentos separados: 1) a mudança ou transformação do pão e vinho em Corpo e Sangue do Senhor, e 2) a Comunhão desses Santos Dons. É chamado de "Eucaristia," "Ceia do Senhor," "o Mistério do Corpo e Sangue de Cristo." O Corpo e Sangue de Cristo nesse Mistério são chamados de "Pão do céu e Cálice da vida" ou "Cálice da Salvação"; eles são chamados de "Santos Mistérios," de "Sacrifícios Não Sangrentos." A Eucaristia é o maior Mistério Cristão (Sacramento).

As palavras do Salvador sobre este Mistério.

Antes da primeira realização desse Mistério na Mística Ceia (Última Ceia), Cristo prometeu em Sua conversa concernente ao Pão da Vida por ocasião da alimentação de cinco mil homens com cinco peixes. O Senhor ensinou: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu, se alguém comer desse pão viverá para sempre; e o pão que eu darei é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo" (Jo 6:51). Os judeus evidentemente entenderam as palavras de Cristo literalmente. Eles começaram a dizer uns aos outros: "Como nos pode dar Este a Sua carne a comer?" (Jo 6:51). E o Senhor não contou aos judeus que eles O haviam entendido erradamente, mas só com maior força e clareza Ele continuou a falar com o mesmo significado: "Na verdade, na verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a Minha carne, e bebe o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele" (Jo 6:53-56).

Seus discípulos também entenderam as palavras de Cristo literalmente: "...Duro é este discurso; quem o pode ouvir?" (Jo 6:60), eles disseram. O Salvador, como para convencê-los da possibilidade de tal comer miraculoso, indica outro milagre de Sua futura Ascensão para o céu: "... Isto escandaliza-vos? Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do Homem, para onde primeiro estava?" (Jo 6:61-62). A isso Cristo acrescenta: "É o Espírito que vivifica, a carne de nada aproveita: as palavras que Eu vos disse, são Espírito e vida" (Jo 6:63). Por essa observação Cristo não pede que Suas palavras sobre o Pão da Vida sejam entendidas em qualquer sentido "metafórico." "Mas há alguns de vós que não crêem", Ele acrescenta imediatamente (Jo 6:64). Por essas palavras o Salvador indica que Suas palavras são difíceis para a fé: Como é que os fieis irão comer Seu Corpo e beber Seu Sangue? Mas Ele confirma que Ele fala de Seu Corpo real. Suas palavras relativas ao Seu Corpo e Sangue são "Espírito e vida." Elas testemunham que: a) aquele que participa dos dons terá vida eterna, e será ressuscitado para o Reino de Glória no último dia; e b) aquele que participa neles entrará na mais íntima comunhão com Cristo. Suas palavras não falam de vida na carne, mas de vida no Espírito. "O Pão da Vida e o Cálice da Vida; experimenta e vê que o Senhor é bom" — essas são as palavras que ouvimos na Liturgia dos Dons Pré-Santificados. Essa Comunhão de Seu Corpo e Sangue é importante não para o aplacamento da fome física, como foi o alimentar-se com maná no deserto, ou a alimentação dos cinco mil — mas é importante para a vida eterna.

O estabelecimento do Mistério e sua execução nos tempos apostólicos.

Visto que a pré-indicação do Salvador a respeito do futuro estabelecimento do Mistério da Eucaristia foi dada no Evangelho de João, o real estabelecimento do Mistério é mostrado em três Evangelistas, Mateus, Marcos e Lucas, e então repetido pelo Apóstolo Paulo.

No Evangelho de São Mateus, no capítulo 26, é dito: "...e quando comiam, Jesus tomou o pão e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos e disse: Tomai, comei, isto é o Meu Corpo; e tomando o cálice, e dando graças, deu-lhe dizendo: Bebei dele todos, porque este é o Meu Sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para a remissão dos pecados" (Mt 26:26-28). A mesma coisa é dita no Evangelho de Marcos no capítulo catorze.

No Evangelho de Lucas, o capítulo 22, nós lemos: "E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lhe, dizendo: Isto é o Meu Corpo, que por vós é dado; fazei isso em memória de Mim. Semelhantemente tomou o cálice, depois da ceia dizendo: este cálice é o Novo Testamento no Meu Sangue que é derramado por vós" (Lc 22:19-20).

A mesma coisa que o Evangelista Lucas diz nós lemos na Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, capítulo 11, somente com as palavras prefacias: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei, que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão, e tendo dado graças, o partiu e disse..." (1 Co 11:23-24).

As palavras do Salvador na Mística Ceia: "Esse é Meu Corpo, que é partido por vós; esse é meu Sangue do Novo Testamento derramado por vós para a remissão dos pecados," são completamente claras e definidas, e não permitem nenhuma outra interpretação que não seja a mais direta, nomeadamente que foram dados aos discípulos o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Cristo. E isso está em completa concordância com a promessa feita pelo Salvador no capítulo sexto do Evangelho de São João a respeito dos Seus Corpo e Sangue.

Tendo dado comunhão aos discípulos, o Senhor comandou: "Fazei isso em memória de Mim." Esse sacrifício deve ser realizado "até que Ele venha" (1 Co 11:25-26), como o Apóstolo Paulo instrui, isto é, até a segunda vinda do Senhor. Isso recorre também das palavras do Senhor Salvador: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberes o Seu Sangue, não tereis vida em vós. E de fato, a Eucaristia foi recebida na Igreja desde os primeiros dias como o maior dos Mistérios; a instituição dela é preservada com o maior cuidado e reverência; e é realizada e será realizada até o final do mundo.

A respeito da execução da Eucaristia nos tempos Apostólicos na Igreja de Cristo, podemos ler nos Atos dos Apóstolos (2:42-46; 20:6-7), e no Apóstolo Paulo no 10º e 11º capítulos da Primeira Epístola aos Corintios. O Apóstolo Paulo escreve: "Porventura o cálice de benção que abençoamos, não é a comunhão do Sangue de Cristo? O pão que partimos não é por ventura a comunhão do Corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo: porque todos participamos do mesmo pão" (1 Co 10:16-17). E de novo: "Porque todas as vezes que comerdes esse pão e beberdes esse cálice anunciais a morte do Senhor até que venha. Portanto, qualquer que comer esse pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor. Por causa disto, há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem" (1 Co 11:26-30). Nas palavras citadas o Apóstolo nos instrui com que reverência e auto-análise preparatória um Cristão deve se aproximar da Eucaristia, e ele deixa claro que isso não é simples comida e bebida, mas a recepção dos verdadeiros Corpo e Sangue de Cristo.

Estando unidos com Cristo na Eucaristia, os fiéis que recebem a Comunhão estão unidos também uns com os outros: "Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo: porque todos participamos do mesmo Pão."

A mudança do pão e vinho no Mistério da Eucaristia.

No Mistério da Eucaristia, no momento em que o presbítero, invocando o Espírito Santo sobre os dons oferecidos, abençoa-os com a oração para Deus o Pai: "Faz desse pão o Corpo precioso do Teu Cristo; e do que contem esse cálice o Sangue precioso do Teu Cristo; mudando-os pelo poder do Teu Espírito Santo" — o pão e o vinho na verdade são Cristo; mudados em Corpo e Sangue pela descida do Espírito Santo. Depois desse momento, apesar de nossos olhos verem pão e vinho sobre o altar, na sua verdadeira essência, invisível para os olhos sensoriais, isto é o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Jesus Cristo, somente sob as "formas" de pão e vinho.

[...] Essa verdade é expressa na Encíclica dos Patriarcados Orientais nas seguintes palavras: "Nós acreditamos que nesse rito sagrado Nosso Senhor Jesus Cristo está presente não simbolicamente (typicos), não figurativamente (eikonikos), não por uma abundância de graça, como em outros Mistérios, não por uma simples descida, como certos Padres falam a respeito do Batismo [...], mas verdadeiramente e realmente, de maneira que após a santificação do pão e do vinho, o pão é mudado, transubstanciado, convertido, transformado, no real, verdadeiro Corpo de Cristo, que nasceu em Belém da Sempre Virgem Maria, foi batizado no Jordão, sofreu, foi sepultado, ressuscitou, ascendeu, senta à direta do Deus Pai, e vai aparecer nas nuvens do céu; e o vinho é mudado e transubstanciado no real e verdadeiro Sangue do Senhor, que na hora do Seu sofrimento na Cruz foi derramado pela vida do mundo. Ainda de novo, nós acreditamos que depois da santificação do pão e do vinho não mais permanecem pão e o vinho, mas o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor, sob a aparência e forma de pão e vinho."

A maneira pela qual Jesus Cristo permanece nos Santos Dons.

1. Apesar do pão e vinho serem transformados no Mistério no Corpo e Sangue do Senhor, Ele está presente nesse Mistério com todo Seu ser, isto é, com Sua alma e com Sua Divindade, que é inseparavelmente unida à Sua humanidade.

2. Apesar de depois o Corpo e o Sangue do Senhor serem partidos no Mistério da Comunhão e distribuídos, ainda acreditamos que em cada parte — mesmo na menor partícula — dos Santos Mistérios, aqueles que recebem Comunhão recebem o inteiro Cristo em Seu ser, isto é, em Sua Alma e Divindade, como perfeito Deus e perfeito homem. Essa fé a Igreja expressa nas palavras do presbítero no partir do Santo Cordeiro: "O Cordeiro de Deus é partido e distribuído; é partido mas não dividido, comido mas nunca consumido, santificando aqueles que O recebem em comunhão."

3. Apesar de ao mesmo tempo haverem muitas santas Liturgias no universo, no entanto não existem muitos Corpos de Cristo, mas um e o mesmo Cristo está presente e é dado em Seu corpo em todas as igrejas aos fiéis.

4. O pão do ofertório, que é preparado separadamente em cada Igreja, depois de sua santificação torna-se um e o mesmo com o Corpo que está nos céus.

5. Depois da transformação do pão e do vinho no Mistério da Eucaristia no Corpo e Sangue, eles não mais voltam à sua natureza anterior, mas permanecem o Corpo e o Sangue do Senhor para sempre, sejam ou não consumidos pelos fiéis. Por isso a Igreja desde a antigüidade tem tido o costume de preservar os Dons santificados em vasos sagrados de modo a se dar comunhão para os moribundos. É bem conhecido que na Igreja antiga existia o costume de enviar os Dons santificados pelos diáconos para cristãos que não estavam em condição de receber a Comunhão dos Santos Dons na Igreja, por exemplo, aqueles na prisão e os penitentes. Com freqüência na antigüidade os fiéis traziam os Santos Dons com reverência das Igrejas para suas casas, e os ascetas pegavam os Dons e os levavam para o deserto para receber a Comunhão.

6. Porque para o Deus-homem Cristo é adequado oferecer uma única e inseparável divina adoração, tanto para Sua divindade quanto para Sua humanidade, como conseqüência de Sua inseparável união, deve-se dar para os Santos Mistérios da Eucaristia a mesma honra e adoração que nós somos obrigados a dar para o Senhor Jesus Cristo.

A Eucaristia e a Cruz.

O sacrifício Eucarístico não é uma repetição do Sacrifício do Salvador na Cruz, mas é uma oferta do Corpo e Sangue sacrificado uma vez oferecido pelo nosso Redentor na Cruz, por Ele Que "é sempre comido, mas nunca consumido." O sacrifício do Gólgota e o sacrifício da Eucaristia são inseparáveis, compreendendo um único sacrifício; mas ao mesmo tempo devem ser distinguidos um do outro. Eles são inseparáveis; eles são uma e a mesma árvore doadora de graça e vida plantada por Deus no Gólgota, mas preenchendo com seus ramos místicos toda Igreja de Deus, e até o fim dos tempos nutrindo por seus frutos salvíficos todos aqueles que buscam a vida eterna. Mas eles têm também que ser distinguidos: o sacrifício oferecido na Eucaristia é chamado "sem sangue" e "sem paixão," já que é realizado após a Ressurreição do Salvador, que "... havendo Jesus Cristo ressuscitado dos mortos, já não morre: a morte não mais terá domínio sobre Ele" (Ro 6:9). É oferecido sem sofrimento, sem derramamento de sangue, sem morte, apesar de ser realizado em lembrança do sofrimento e morte do Divino Cordeiro.

O significado da Eucaristia como um sacrifício.

É um sacrifício de louvação e agradecimento. O presbítero que celebra o sacrifício sem sangue de acordo com o rito da Liturgia de São Basílio e de São João Crisóstomo, antes da santificação dos Dons lembra em suas orações secretas as grandes obras de Deus; ele glorifica e dá graças a Deus na Santíssima Trindade por chamar o homem da não-existência, por Seu grande e variado cuidado com o homem depois de sua queda, e pela economia de Sua Salvação através do Senhor Jesus Cristo. Da mesma forma todos os cristãos presentes na Igreja, nesses santos momentos glorificando a Deus, clamam a Ele: "Nós Te louvamos, nós Te bendizemos, nós Te damos graças, ó Senhor."

A Eucaristia é da mesma forma um sacrifício propiciatório para todos os membros da Igreja. Dando a Seus discípulos Seu Corpo, o Senhor disse Dele: "Que é partido por vós"; e dando seu sangue Ele acrescenta: "Que é derramado por Vós e por muitos para a remissão dos pecados." Portanto, desde o início do Cristianismo o Sacrifício Sem Sangue foi oferecido para a lembrança tanto dos vivos quanto dos mortos e para a remissão dos seus pecados. Isso é evidente dos textos de todas as Liturgias, começando com a Liturgia do Santo Apóstolo Tiago, e esse sacrifício é freqüentemente chamado diretamente nesses textos de sacrifício de propiciação.

A Eucaristia é um sacrifício que no modo mais íntimo une todos os fiéis em um Corpo em Cristo. Por isso, depois da transformação dos santos Dons assim como antes da proskomídia, o presbítero relembra a Santíssima Theotokos e todos os santos, acrescentando: "por suas orações, salva-nos, ó Deus"; e então segue para a comemoração dos vivos e dos mortos — a Igreja de Cristo completa.

A Eucaristia é também o sacrifício de súplica: pela paz das Igrejas, pela boa condição do mundo, pelas autoridades, por aquele com enfermidades e trabalhos, por todos que pedem ajuda — "e por todos os homens e mulheres."

Conclusões de caráter litúrgico.

Dos relatos do Evangelho e dos escritos dos Apóstolos e da prática da Igreja antiga, deve-se tirar as seguintes conclusões:

a) na Eucaristia, como aos Apóstolos foram dados na Mística Ceia, assim também deve ser dado aos fiéis não só o Corpo de Cristo, mas também o Sangue de Cristo. "Bebei todos dele," o Salvador ordena (Mt 26:27). "Examine-se pois o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba desse cálice" (1 Co 10:17). (Isso não é observado na Igreja Latina, onde os leigos são privados do cálice).

b) "Porque todos participamos do mesmo pão" (1 Co 10:17), escreve o Apóstolo. Na Igreja antiga toda comunidade participava de um único pão, e na Liturgia Ortodoxa é abençoado e partido um pão, assim como um cálice é abençoado. (A benção de "um" pão foi também violada pela Igreja Latina no segundo milênio)

c) Em todas as passagens da Sagrada Escritura onde o pão da Eucaristia é mencionado, o pão é chamado de artos em grego (João, cap.6; Evangelho de Mateus, Marcos, Lucas, no Apóstolo Paulo e nos Atos dos Apóstolos). Artos usualmente significa o pão de trigo que cresceu com o uso de fermento ("não fermentado" é expresso em grego pelo adjetivo azymus): é sabido que nos tempos apostólicos — isto é, do início mesmo, da sua instituição — a Eucaristia era celebrada durante o ano todo, semanalmente, quando os judeus preparavam pão ázimo; isso significa que era celebrada, mesmo nas comunidades judaico-cristãs, com pão fermentando. Mas ainda isso pode ser dito das comunidades de Cristãos convertidos do paganismo, para quem a lei a respeito de pão ázimo era inteiramente estranha. Na Igreja dos primeiros Cristãos o material para o Mistério da Eucaristia, como é bem sabido, era igualmente pego nas oferendas do povo, que, sem nenhuma dúvida, trazia para a Igreja de suas casas o pão usual, fermentado; ele era destinado para ser usado, ao mesmo tempo, nas festas-de-amor (ágape) e para ajudar os pobres.

A necessidade da Comunhão.

Receber comunhão do Corpo e Sangue do Senhor é essencial, necessário, salvífico e consolador e é obrigação de todo cristão. Isso é evidente nas palavras do Salvador que Ele proclamou quando dando a promessa a respeito do Mistério da Eucaristia: "Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna..." (Jo 6:53-54).

Os frutos salvíficos ou efeitos do Mistérios da Eucaristia, se nós comungamos dignamente, são os seguintes:

1) Ele nos une da maneira mais intima com o Senhor: "Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue, permanece em Mim, e Eu Nele" (Jo 6:56);

2) Ele nutre nossa alma e corpo e ajuda em nossa fortificação, melhora o crescimento na vida espiritual: "Assim quem de Mim se alimenta, também viverá por Mim" (Jo 6:57);

3) Ele serve para nós como fiança da futura ressurreição e da vida abençoada eternamente: "quem comer este pão viverá para sempre" (Jo 6:58).

No entanto, deve-se lembrar que a Eucaristia oferece esses frutos salvíficos somente para aqueles que dela se aproximam com fé e arrependimento; uma participação indigna no Corpo e Sangue de Cristo traz é muito mais condenação: "Porque o que come e bebe indignamente come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor" (1 Co 11:29).

- Padre Michael Pomazansky, Teologia dogmática ortodoxa