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Oração pelos mortos e Purgatório: diferenças entre ortodoxos e católicos

 
Metropolita Macário de Moscou (1816-1882), Teologia Dogmática Ortodoxa, Vol. 2 (1857).

A doutrina da Igreja Romana sobre o Purgatório tem alguma semelhança com a doutrina da Igreja Ortodoxa sobre a possibilidade de alguns pecadores serem libertados das amarras do Hades [Inferno] pelas orações dos vivos, embora também tenha alguma diferença. Para julgar corretamente entre um e outro, deve-se entender o ensino conforme estabelecido pelos próprios teólogos romanos.

Primeiro, eles distinguem na doutrina do Purgatório duas partes: a 'parte essencial', ou o que foi decretado e ensinado por sua Igreja como dogma, e o opcional, ou seja, o que não foi fixado por sua Igreja e é objeto de opiniões [controversas] teológicas. A primeira parte refere-se apenas a dois pontos:

a) Há um purgatório, isto é, um lugar ou estado de expiação (status expiationis) em que as almas daqueles que morreram sem ter recebido a absolvição por faltas leves, ou mesmo depois de obter a absolvição de seus pecados, mas sem suportar nesta vida os castigos temporais pelos pecados, sofrem tormentos para satisfazer a justiça divina, até que sejam purificados por esses tormentos e se tornem dignos da felicidade eterna.

b) As almas dos que estão no Purgatório precisam muito de oração para ajudá-los, assim como esmolas [oferecidas em favor delas], e principalmente do Sacrifício incruento [isto é, o Sacrifício da Missa].

No que respeita ao ensino não-essencial [opcional], este refere-se à solução das seguintes questões:

a) O Purgatório é um lugar específico ou não, e em caso afirmativo, onde fica? Os sofrimentos das almas no fogo do purgatório são reais ou metafóricos [espirituais]?
b) Quanto tempo as almas ficam no purgatório? Como eles são ajudados pelas orações da Igreja?
 
Segundo, focando nossos pensamentos sobre a parte essencial da doutrina romana sobre o Purgatório, encontramos alguma semelhança com a da Igreja Ortodoxa sobre as orações pelos mortos, e ao mesmo tempo algumas diferenças:
 
Semelhanças - Há semelhança na ideia fundamental. De fato, a Igreja Ortodoxa ensina, como a de Roma: (a) Que as almas de alguns dos mortos, ou seja, daqueles que morreram na fé e no arrependimento, mas sem ter tido tempo para trazer em vida frutos dignos de arrependimento [Mateus 3:8], e, portanto, não conseguiram receber de Deus o perdão completo de seus pecados e serem [perfeitamente] purificados, sofrem tormentos até que sejam julgados dignos de perdão e purificados; e (b) Que em tais casos as almas dos defuntos são beneficiadas pelas orações em favor delas pelos irmãos em Cristo que ainda estão vivos, suas obras de caridade e especialmente pela oferta do Sacrifício incruento [eucarístico].
 
Diferenças - As diferenças, em particular, são: (a) De acordo com a doutrina da Igreja Ortodoxa, as almas dos mortos acima mencionadas estão sofrendo porque, embora tenham se arrependido antes da morte, não tiveram tempo de produzir frutos dignos de arrependimento, e portanto, merecer o perdão completo de Deus de seus pecados e, assim, ser realmente purificados e superar as consequências naturais do pecado, [que é a] punição; considerando que, de acordo com a doutrina da Igreja de Roma, as almas dos mortos sofrem no Purgatório, estritamente porque não sofreram aqui abaixo o castigo temporal necessário para os pecados em satisfação da justiça divina; e (b) Segundo a doutrina ortodoxa, essas almas são purificadas dos pecados e merecem o perdão de Deus, não por si mesmas e pelo seu próprio sofrimento, mas pelas orações da Igreja e pelo poder do Sacrifício incruento [eucarístico]; com essas mesmas orações não só beneficiando as almas que sofrem, mas mitigando sua posição, libertando-as do tormento, enquanto que, segundo a doutrina da Igreja Romana, é por seu mesmo sofrimento que as almas são purificadas no Purgatório e, assim, a justiça divina é satisfeita, e as orações da Igreja servem apenas para dar-lhes algum alívio nessa condição.
 
Além disso, embora as diferenças entre a doutrina romana do Purgatório e a doutrina ortodoxa de oração pelos mortos sejam sobre esses detalhes, elas são importantes e não podemos aceitar as diferenças. Pois nessas diferenças encontramos tanto coisas falsas [no ensino romano] quanto uma inversão do dogma fundamental:
 
1º Erro [Que é necessário satisfazer a justiça divina por todo pecado já perdoado, através de penas temporais] - A primeira ideia é falsa, como já vimos, isto é, que um pecador que se arrepende antes de morrer deve ainda trazer uma espécie de satisfação à justiça divina por seus pecados sofrendo algum castigo temporal para esse fim, e que no Purgatório ele faz isso, por falta de poder sofrer aqui embaixo. A satisfação completa à justiça divina, a mesma satisfação superabundante, foi apresentada de uma vez por todas, em favor de todos os pecadores, por meio de Jesus Cristo Nosso Salvador, que tomou sobre si os pecados do mundo e todo o castigo pelo pecado; e, para obter o perdão completo de Deus e a libertação de todo castigo do pecado, os pecadores devem apropriar-se dos méritos do Redentor, ou seja, crer nEle, arrepender-se verdadeiramente de seus pecados, produzir frutos dignos de arrependimento, ou seja, boas ações. Consequentemente, se há pecadores que, tendo-se arrependido antes de morrer, têm, apesar disso, tormentos a suportar após a morte, é apenas porque não tiveram tempo para apropriar-se plenamente dos méritos do Salvador, seja por causa da fraqueza de sua fé Nele ou por efeito da falha de seu arrependimento, e principalmente porque não deram frutos dignos de arrependimento, e não foram realmente purificados do pecado, como ensina a Igreja Ortodoxa.
 
2º Erro [Que as almas podem ser purificadas através de seus próprios sofrimentos expiatórios] - Não é menos um equívoco que os pecadores seriam purificados no Purgatório e satisfariam a justiça divina por seus próprios tormentos. Em qualquer sentido que o fogo do Purgatório seja entendido, literalmente ou em sentido figurado, em nenhum desses sentidos podemos atribuir isso a Deus. Se for atribuído um significado literal ao fogo, então, o fogo por sua própria natureza é incapaz de purificar uma alma que é uma essência espiritual simples e imaterial. Se for atribuído um significado figurativo, ou seja, o fogo é um tormento interior da alma devido à consciência de seus pecados passados ​​e à profunda contrição por eles, então, nesse caso, isso não pode purificar a alma na vida além da sepultura, porque na vida após a morte não há mais lugar para arrependimento, nem para mérito ou qualquer autocorreção pessoal como os católicos romanos acreditam. E enquanto a alma permanecer no pecado, não purificada e renovada, até então, seja o que for que tenha que suportar, ela não pode de modo algum satisfazer por seu próprio sofrimento a justiça divina e superar [através desses sofrimentos] essas consequências inevitáveis ​​do pecado.
 
3º Erro [Que as orações da Igreja são essencialmente dispensáveis, servindo apenas para aliviar os sofrimentos do Purgatório] - Se as almas de alguns dos mortos sofrem no Purgatório, e mesmo os pecadores arrependidos devem necessariamente sofrer uma punição temporal pelo pecado em satisfação à justiça divina, e, se as almas que sofrem no Purgatório são verdadeiramente purificadas e cumprem sua obrigação para com a justiça divina [através desses sofrimentos], então, a pergunta é: “Qual é o sentido das orações e da intercessão geral da Igreja em seu favor?”. As almas do Purgatório necessariamente têm que sofrer até que tenham cumprido a satisfação desejada e tenham sido purificadas pelo sofrimento; agora, se as orações da Igreja apenas enfraquecem e aliviam esse sofrimento, em vez de encurtar o período de tempo que as almas devem passar no Purgatório, elas (as orações) o prolongam e, portanto, são menos úteis do que prejudiciais. Isso não derruba, é claro, a ideia fundamental do dogma das orações pelos mortos?
 
Terceiro, se voltarmos agora a nossa atenção para a parte não-essencial da doutrina romana sobre o Purgatório, sendo opiniões teológicas, verificamos que difere muito mais da doutrina da Igreja Ortodoxa sobre a oração pelos mortos, embora em questões de pouca importância julgando pelo seu significado íntimo. Mencionemos os dois mais notáveis:
 
4º Erro [Que há um lugar intermediário entre céu e inferno] - A Igreja Ortodoxa ensina que não há classe intermediária após a morte entre aqueles que são salvos e vão para o céu, e aqueles que são condenados e vão para o Hades; não há um lugar intermediário específico para onde vão as almas que fizeram penitência antes da morte e estão sujeitas às orações da Igreja; todas essas almas vão para o Hades, onde só podem ser libertadas pelas orações. A maioria dos teólogos romanos considera o Purgatório como um lugar intermediário especial entre o céu e o inferno, às vezes colocado nas proximidades deste último, no interior da terra, às vezes próximo ao primeiro, às vezes no ar. Há outros, porém, que veem no Purgatório não um lugar à parte, mas um estado particular de almas, e reconhecem que as almas neste estado podem sofrer seu castigo temporal e purificar-se mesmo onde estão contidas os condenadas [outras almas] ao castigo eterno (ou seja, no inferno); assim, podem ser encontrados na mesma prisão presos condenados à prisão temporária e presos condenados para sempre.
 
5º Erro [Que há um fogo purgatorial] - A Igreja Ortodoxa rejeita veementemente o ensino de um fogo purgatorial, no verdadeiro sentido da palavra, que purificaria a alma. Um grande número de teólogos romanos considera este fogo como real e material (sendo esta a crença quase universal dos leigos da confissão romana), e para angariar provas de seu ensinamento eles tentam coletar das Sagradas Escrituras e do escritos dos antigos Doutores da Igreja referências que parecem tratar de tal fogo. Outros, no entanto, entendem o fogo do Purgatório em sentido figurado, para tormento espiritual, e, portanto, citam em seus tratados sobre o assunto evidências semelhantes da palavra de Deus ou dos escritos dos Padres, acrescentando que os próprios antigos doutores eram de opiniões variadas sobre o fogo. Seria, portanto, supérfluo até mesmo refutar as provas apresentadas. Nota-se finalmente que, em geral, sua Igreja não determinou precisamente o que é o fogo do Purgatório, se é material ou não, e, portanto, não pertence à fé entendê-lo de uma maneira ou de outra [dogmaticamente].

Não discutiremos outras opiniões sobre o Purgatório, por exemplo, quanto tempo uma alma permanece, e se todas elas sofrem o mesmo espaço de tempo pelas mesmas penas; quais penalidades elas enfrentam; se são mais rigorosas que as da vida presente e mais leves que as do inferno; se as almas do purgatório rezam por si mesmas e por nós que ainda estamos neste mundo; se se entregam à prática das boas obras, etc, etc. Todas essas opiniões têm pouco valor mesmo para os teólogos de Roma e poucos se empenharam seriamente em respondê-las.

***

Breve síntese [não pertence ao texto do Metropolita Macário]
 
A Igreja Ortodoxa crê que:

1) Há pessoas que morreram com fé e arrependimento, mas que são "detidas no Hades" (a expressão é de S. Basílio), seja porque "não tiveram tempo de produzir frutos de arrependimento", seja porque cometeram "faltas leves" e, assim, ainda não receberam pleno perdão e purificação de seus pecados.

2) A Igreja ora e oferece sacrifícios por essas almas, implorando a misericórdia de Deus em favor delas. É essa intercessão que traz-lhes a libertação, perdão, purificação e plena entrada no paraíso, não o pagamento de débitos de expiação ("penas temporais").

Já o sistema romano ensina  que as orações da Igreja servem mais para aliviar o sofrimento das almas que ainda devem pagar penas temporais. É o pagamento dessas penas, pelo sofrimento expiatório (no fogo do Purgatório), que as liberta. Daí a existência de indulgências, que consistem na aplicação de méritos para cobrir (pagar) esses débitos de penas temporais. Não há indulgências na Igreja Ortodoxa.

O décimo primeiro artigo do Credo (Catecismo de S. Filareto)


Por S. Filareto de Moscou

366. O que é a ressurreição dos mortos que, nas palavras do Credo, procuramos ou esperamos?

Um ato do poder onipotente de Deus, pelo qual todos os corpos dos homens mortos, sendo reunidos às suas almas, retornarão à vida e, a partir de então, serão espirituais e imortais.

É semeado um corpo natural, é ressuscitado um corpo espiritual. 1 Cor. xv. 44. Pois este corruptível deve se vestir de incorrupção, e este mortal deve se vestir de imortalidade. 1 Cor. xv. 53.

367. Como o corpo se levantará novamente depois de apodrecer e perecer no solo?

Visto que Deus formou o corpo do solo originalmente, ele pode igualmente restaurá-lo depois que ele perecer no solo. O apóstolo Paulo ilustra isso com a analogia de um grão de semente, que apodrece na terra, mas do qual brota depois uma planta ou árvore. Aquilo que tu semeias não é vivificado a menos que morra. 1 Cor. xv. 36.

368. Todos, estritamente falando, se levantarão novamente?

Todos, sem exceção, que morreram; mas aqueles que no momento da ressurreição geral ainda estiverem vivos terão seus corpos grosseiros atuais transformados em um momento, de modo a se tornarem espirituais e imortais.

Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, em um momento, num piscar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. 1 Cor. xv. 51, 52.

369. Quando será a ressurreição dos mortos?

No final deste mundo visível.

370. O mundo então também chegará ao fim?

Sim; este mundo corruptível chegará ao fim e será transformado em outro incorruptível.

Porque a própria criatura também será libertada da escravidão da corrupção para a liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Rom. viii. 21. Nós, porém, de acordo com a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, onde habita a justiça. 2 Pedro iii. 13.

371. Como o mundo será transformado?

Pelo fogo. Os céus e a terra, que agora são, pelo mesmo, isto é, pela palavra de Deus, são guardados, reservados para o fogo para o dia do julgamento e perdição dos homens ímpios. 2 Pedro iii. 7.

372. Em que estado estão as almas dos mortos até a ressurreição geral?

As almas dos justos estão em luz e descanso, com um antegozo da felicidade eterna; mas as almas dos ímpios estão em um estado oposto a este.

373. Por que não podemos atribuir às almas dos justos felicidade perfeita imediatamente após a morte?

Porque é ordenado que a retribuição perfeita de acordo com as obras seja recebida pelo homem perfeito após a ressurreição do corpo e o julgamento final de Deus.

O apóstolo Paulo diz: Doravante está reservada para mim uma coroa de justiça, que o Senhor, o justo Juiz, me dará naquele dia; e não apenas a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda. 2 Tim. 4. 8. E novamente: Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo; para que cada um receba as coisas que fizerem por meio do corpo, conforme o que fez, sejam boas ou más. 2 Cor. v. 10.

374. Por que atribuímos às almas dos justos um antegozo da bem-aventurança antes do juízo final?

Por causa do testemunho do próprio Jesus Cristo, que diz na parábola que o justo Lázaro foi carregado imediatamente após a morte para o seio de Abraão. Lucas xvi. 22.

375. Este antegozo da bem-aventurança está junto com a visão do próprio semblante de Cristo?

É assim mais especialmente com os santos, como nos é dado a entender pelo apóstolo Paulo, que tinha o desejo de partir e estar com Cristo. Phil. i. 23.

376. O que se deve observar de tais almas que partiram com fé, mas sem ter tido tempo de produzir frutos dignos de arrependimento?

Isto: que eles possam ser auxiliados na obtenção de uma bendita ressurreição por orações oferecidas em seu favor, especialmente aquelas que são oferecidas em união com a oblação do sacrifício incruento do Corpo e Sangue de Cristo, e por obras de misericórdia feitas em fé por sua memória.

377. Em que se baseia essa doutrina?

Na tradição constante da Igreja Católica; cujas fontes podem ser vistas até mesmo na Igreja do Antigo Testamento. Judas Macabeu ofereceu sacrifício por seus homens que haviam caído. 2 Macc. xii. 43. A oração pelos defuntos sempre fez parte da liturgia divina, desde a primeira liturgia do apóstolo Tiago. Diz São Cirilo de Jerusalém: Muito grande será o benefício para aquelas almas pelas quais a oração é oferecida no momento em que o santo e tremendo Sacrifício está à vista. (Lect. Myst. V. 9.)

São Basílio o Grande, em suas orações pelo Pentecostes, diz que o Senhor se digna a receber de nós orações propiciatórias e sacrifícios por aqueles que são mantidos no Hades, e nos dá a esperança de obter para eles paz, alívio e liberdade.

Sobre a oração (Pe. Dimitri Kokkinos)


Por que oramos

Se oramos apenas para necessidades pessoais, porque precisamos de algo, então o ingrediente mais importante em um relacionamento está faltando: o amor. Para estabelecer e manter um relacionamento (um diálogo, uma comunhão), nosso amor a Deus deve ser o centro de nosso desejo de aproximação com Ele.

O propósito da oração é expresso excelentemente pelo verso de Salmos 34:5: "Os que olham para ele estão radiantes de alegria; seu rosto jamais mostrará decepção".

O propósito da oração é, simplesmente, a experiência da oração. E esta é unida a contrição e lágrimas. Lágrimas de arrependimento nascem apenas através da oração. E a oração, por sua vez, nasce apenas pelas lágrimas do arrependimento. São João Clímaco enfatizava isso dizendo que a oração é "a mãe e a filha das lágrimas".

Por que isso é importante

"Todas as virtudes e poderes de Deus são alcançados primariamente pela oração. Sem oração não há vida espiritual. Se você não é bem sucedido em sua oração, não será bem sucedido em nada, pois a oração é a raiz de tudo" (Pe. Thomas Hopko). "Aquele que é capaz de orar corretamente, mesmo se for a pessoa mais pobre, é essencialmente o mais rico. E aquele que não ora propriamente, é o mais pobre de todos, mesmo que sente-se sobre um trono" (São João Crisóstomo).

Quais são seus benefícios

"A oração é o alimento espiritual que fortalece todo nosso ser. A oração nos capacita a manter um relacionamento pessoal com nosso Deus amoroso. Por esse diálogo íntimo da alma com o Espírito, a oração amolece nossas vontades para nos tornarmos mais receptivos a Sua vontade. Na oração podemos ver onde temos estado, onde estamos e para onde devemos direcionar nossos passos para andar no caminho de Deus.

A oração diária cria um ritmo em nossas vidas e ajuda-nos a atingir o propósito central da vida humana: nos tornarmos mais semelhantes a Cristo. Podemos frequentar a igreja regularmente e estar envolvidos na paróquia socialmente, administrativamente, etc., mas se não tomarmos esse tempo cara-a-cara com o Senhor todos os dias para renovar e revitalizar-nos para com Ele, Cristo poderá deixar de ser nosso foco central. É possível que nos envolvamos tanto com os detalhes da vida moderna que esqueçamos e percamos a alegria da vida real, expulsando o Senhor.

Usar as orações estabelecidas pela Igreja e os Salmos pode e deve ser uma experiência libertadora, na qual nossos espíritos se tornam mais abertos ao Espírito de Deus. A oração ajuda a diminuir nossa dependência de modos errôneos de vida, como orgulho, medo, egoísmo e falta de amor pelos outros" (Theodora Dracopoulos Argue).

Como devemos orar

"Foi corretamente dito que a oração é o maior privilégio, mas também o maior problema, dos fiéis. A verdade dessa observação é clara, uma vez que se trata do mais desigual dos 'relacionamentos', ou seja, a comunicação entre seres humanos criados e o Deus incriado. Essa forma de comunicação é primeiramente impossível e inconcebível, diante do espaço intransponível entre a substância corruptível da pessoa humana e o Deus inacessível e além de toda substância. No entanto, aquilo que é impossível de acordo com a essência, Deus tornou possível e acessível por Sua graça e amor pela humanidade" (Arcebispo Stylianos da Australia).

A oração genuína precisa do seguinte:

- Devemos seguir a exortação do Apóstolo Pedro para sermos "vigilantes na oração";
- Devemos nos direcionar à misericórdia de Deus, humildes e purificados pelo senso de maravilhamento pela presença imediata de Deus;
- Devemos ser gratos a Deus e amá-Lo sem reservas por suas inúmeras bênçãos;
- Devemos perdoar aqueles que nos ofenderam. A pessoa fiel sabe que apenas Deus tem o direito absoluto de dar a cada um conforme suas obras: "A vingança é minha, eu retribuirei" (Romanos 12:9);
- A atmosfera da oração deve ser de contrição e arrependimento. Um "coração quebrado e contrito Deus não rejeitará" (Salmos 51:17); e
- Cada um de nós precisa de um local quieto para orar.

Quais orações fazer e quando

Os santos enfatizam em seus escritos a necessidade de um formato específico de oração, a "regra de oração". A ideia é escolher um grupo de orações escritas que melhor se adaptam nossas necessidades individuais e usá-las diariamente. Essa regra deve vir de um livro ortodoxo de orações que contenha orações escritas por pessoas santas. A regra é uma disciplina que ajuda-nos a desenvolver nosso relacionamento com Deus, e porque as orações foram escritas por pessoas que chegaram muito perto de Deus, elas ajudam-nos a entrar naquela mentalidade. Podemos falar com Deus com nossas próprias palavras, espontaneamente, mas isso em adição à nossa regra de oração.

Os Pais da Igreja dizem-nos que a oração deve incluir:

- Louvor, expressando deslumbramento, honra e amor que temos por Deus, Aquele que nos criou do nada e nos salvou;
- Ação de graças por tudo que Deus nos fez, bênçãos aparentes e ocultas;
- Petição, na qual expressamos nossas necessidades a Deus: "Lançai sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós" (1 Pedro 5:7).

Podemos orar por outros, em termos gerais ou por pessoas específicas, mencionando seus nomes (por pessoas vivas ou que já morreram). Espero que não tenhamos ódio a ninguém, mas se temos, então devemos orar por elas também.

Rev. Dimitri Kokkinos
Paróquia de St. John The Forerunner – Parramatta (NSW)

Referências
Αρχιεπισκόπου Αυστραλίας Στυλιανού. Περί Προσευχής. Γέφυρες. Αθήνα 1999
Theodora Dracopoulos Argue. Practicing daily Prayer in the Orthodox Christian Life. Light and Life Publishing Company. Minneapolis 1989
Fr Thomas Hopko The Orthodox Faith. Volume iv Spirituality. Dept of Religious Education, The Orthodox Church of America 1984

A oração no Catecismo de São Filareto

São Filareto de Moscou

Definição da Esperança Cristã, sua base e os meios de alcançá-la

386. O que é a esperança cristã?

O descansar do coração em Deus, com plena confiança de que ele sempre cuida de nossa salvação, e nos dará a felicidade que prometeu.

387. Qual é o fundamento da esperança cristã?

O Senhor Jesus Cristo é nossa esperança, ou o fundamento de nossa esperança [1 Tim. 1:1]. Esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo [1 Pd 1:13].

388. Quais são os meios de alcançar uma esperança salvadora?

Os meios são, primeiramente, a oração; em segundo lugar, a doutrina das bem-aventuranças e sua aplicação prática.

Sobre a oração

389. Existe algum testemunho da Palavra de Deus para isto, que a oração é um meio de atingir uma esperança salvadora?

O próprio Jesus Cristo uniu a esperança de recebermos nosso desejo com a oração: Tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho [Jo 14:13].

390. O que é oração?

A elevação da mente e do coração do homem a Deus, manifestada por palavras devotas.

391. O que deve fazer o cristão ao elevar seu coração e sua mente a Deus?

Primeiro, ele deve glorificá-lo por suas perfeições divinas; segundo, dar graças por suas misericórdias; terceiro, pedir aquilo que necessita. Portanto, há três principais formas de oração: Louvor, Ação de Graças e Petição.

392. Pode alguém orar sem palavras?

Pode: em mente e coração. Um exemplo disso pode ser visto em Moisés antes da passagem pelo Mar Vermelho [Êx 14:15].

383. Esta oração possui um nome próprio?

É chamada espiritual, ou oração do coração e da mente, em uma palavra, oração interior; por outro lado, a oração expressa em palavras, e acompanhada por outras marcas de devoção, é chamada oral ou oração exterior.

384. Pode haver oração exterior sem oração interior?

Pode haver: se algum homem pronuncia palavras de oração sem atenção ou seriedade.

395. A oração exterior apenas é suficiente para obter graça?

Tão longe está de ser suficiente para obter graça que, muito pelo contrário, provoca a ira de Deus.

O próprio Deus declarou seu desprazer com tal oração: Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim [Mt 15:8].

396. A oração interior apenas é suficiente sem a exterior?

Esta questão é como se alguém perguntasse se a alma sozinha basta para o homem sem o corpo. É inútil perguntar isto, sabendo que Deus agradou-se de criar o homem consistindo de alma e corpo; igualmente inútil é perguntar se a oração interior sozinha basta sem a exterior. Uma vez que temos alma e corpo, devemos glorificar a Deus em nossos corpos, e em nossas almas, que pertencem a Deus. Sendo natural que da abundância do coração fale a boca. Nosso Senhor Jesus Cristo foi espiritual em altíssimo grau, porém mesmo ele expressou suas orações espirituais por palavras e por gestos devotos do corpo, ora levantando os olhos ao céu, ora ajoelhando-se, ora prostrando-se com a face em terra [1 Cor. 6:20, Mt 12:34, Jo 17:1, Lucas 22:41, Mt 26:39].

Oração pessoal


Quando um ortodoxo pensa em oração, ele pensa primeiramente na oração litúrgica pública. A oração corporativa da Igreja desempenha uma parte muito maior na sua experiência religiosa do que na média do cristianismo ocidental. Logicamente isso não significa que o ortodoxo nunca ora exceto quando na Igreja: ao contrário, existem manuais especiais com orações diárias a serem feitas por todos os ortodoxos, pela manhã e à noite, diante dos seus ícones, em casa. Mas as orações nesses manuais são tiradas em sua maior parte diretamente dos Livros de Ofícios usados na oração pública, de maneira que mesmo em sua própria casa um ortodoxo ainda está orando com a Igreja; mesmo em sua casa ele ainda está junto em amizade com todos os outros cristãos ortodoxos que estão orando as mesmas palavras que ele. A oração pessoal é possível só no contexto da comunidade. Ninguém é um cristão por si próprio, mas só se for um membro do corpo. Mesmo na solidão, "no quarto", um cristão ora como um membro da comunidade redimida, da Igreja. E é na Igreja que ele aprende sua prática devocional (Florovsky, Prayer Private and Corporate). E assim como não existe na espiritualidade ortodoxa separação entre liturgia e devoção privada, também não existe separação entre monges e aqueles que vivem no mundo; as orações dos manuais usadas pelos leigos são as mesmas orações que as comunidades monásticas recitam diariamente na Igreja como partes dos Ofícios Divinos. Maridos e mulheres seguem o mesmo caminho cristão que monges e monjas, e todos igualmente usam as mesmas orações. Naturalmente os manuais são somente um guia e orientação de oração, e cada cristão é livre também para orar espontaneamente com suas próprias palavras.

As orientações no começo das orações da manhã enfatizam a necessidade de concentração, para uma oração viva para o Deus vivo. No começo delas é dito:
Tendo despertado do sono, antes de qualquer outra ação, levante-se com reverência, considerando estar na presença do Deus que tudo vê, e, tendo feito o sinal da Cruz, diga: Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Depois pouse por um momento, até que tenha recobrado todos os teus sentidos e seus pensamentos abandonem todas as coisas mundanas: e faça três pequenas metanoias, dizendo: Ó Deus, sê misericordioso comigo que sou pecador...
Na conclusão das orações da manhã uma nota estabelece: "Se o tempo à disposição é curto, e a necessidade de iniciar o trabalho está pressionando, é melhor dizer só algumas das orações sugeridas com atenção e devoção, do que recitar elas todas com pressa e sem a necessária concentração".

Há também uma nota nas orações da manhã encorajando todos a ler a Epistóla e o Evangelho do dia.

Como exemplo tomemos duas orações do Manual; a primeira, uma oração para o início do dia, escrita por Filareto, Metropolita de Moscou:
Senhor, conceda-me a graça de saber aceitar tudo que venha acontecer neste dia que se inicia. Permita que eu me entregue completamente à Tua santa vontade e em todo momento deste dia. Ajuda-me e orienta-me em todos os meus atos e palavras. Guia meus pensamentos e sentimentos em todos os casos inesperados. Não permita que eu me esqueça que tudo vem de Ti...
E essas são algumas frases da intercessão geral com que as orações da noite se encerram:
Ó Senhor, que amas a humanidade, perdoa aqueles que nos odeiam e nos fazem mal. Faz o bem àqueles que fazem o bem. Concede aos nossos irmãos e próximos a salvação e a vida eterna; visita os enfermos e concede-lhes a cura. Guia os que estão no mar. Acompanha os que viajam... Segundo a Tua imensa misericórdia, tem misericórdia daqueles que nos pediram para orar por eles. Lembra-Te, Senhor, dos nossos pais e irmãos que partiram antes de nós e concede-lhes o repouso onde a luz do Teu rosto os ilumine... Lembra-Te, também, Senhor, dos Teus servos vis, pecadores e indignos...
[...] Existe um outro tipo de oração pessoal que por muitos séculos desempenhou uma parte extraordinariamente importante na vida ortodoxia, a Oração do Coração: "Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, tem piedade de mim pecador (a)". Como algumas vezes é dito que os ortodoxos não dão suficiente atenção à pessoa do Cristo Encarnado, é importante chamar a atenção para o fato dessa oração - seguramente a mais clássica das orações ortodoxas - ser essencialmente cristocêntrica, e uma oração endereçada para e concentrada no Senhor Jesus Cristo. Aqueles que são conduzidos à tradição da Oração do Coração não são liberados para em nenhum momento esquecer o Cristo Encarnado.

Como auxilio para recitar essa oração muitos ortodoxos usam um rosário, que difere em estrutura do terço ocidental; um Rosário Ortodoxo é quase sempre feito de lã, assim ele não faz barulho.

A Oração do Coração é uma oração de maravilhosa versatilidade. É uma oração para principiantes, mas igualmente uma oração que conduz aos mais profundos mistérios da vida contemplativa. Pode ser usada por qualquer um, a qualquer hora, em qualquer lugar; esperando em filas, andando, viajando em ônibus ou trens; no trabalho; quando incapaz de dormir à noite; em tempos de especial ansiedade quando é impossível se concentrar em outro tipo de oração.

- Bispo Calisto Ware, A Igreja Ortodoxa

Oração dos anciãos de Optina


Senhor, concede-me a graça de saber aceitar tudo que venha acontecer neste dia que se inicia. Permita que eu me entregue completamente à Tua santa vontade em todo momento deste dia. Ajuda-me e orienta-me em tudo: todos os meus atos e palavras. Guia meus pensamentos e sentimentos em todos os casos inesperados. Não permitas que eu me esqueça que tudo vem de Ti. Ensina-me a agir corretamente com cada membro da minha família para que não ofenda e não magoe ninguém. Senhor, dá-me forças para superar o cansaço deste dia e suportar tudo o que hoje venha acontecer. Dirige a minha vontade, e ensina-me a rezar, ter fé, esperança, paciência, saber perdoar e amar. Amém.