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Sobre a penitência (Metropolita Hilarion Alfeyev)

 

'Arrependei-vos, pois o reino dos céus está próximo' (Mt 3:2). Com estas palavras, proferidas por São João Batista, Jesus Cristo conduz a sua própria missão (Mt 4:17). O cristianismo em sua origem era um chamamento para o arrependimento, a conversão para uma 'mudança de mente' (metanóia). Uma transformação radical do seu modo de vida e de pensamento, um espírito renovado e um sentimento de rejeição das ações e pensamentos inspirados pelo pecado, uma transfiguração da pessoa humana. Esses são os principais elementos da mensagem de Cristo.

O arrependimento é sinônimo da palavra 'retorno'. Arrependimento significa afastar-se da vida de pecado e voltar para Deus. O modelo de arrependimento é oferecido por Jesus Cristo na parábola do filho pródigo (Lc 15:11-24). Depois de levar uma vida de pecado 'em um país distante', ou seja, longe de Deus, o filho pródigo, depois de ter passado por muitas tribulações, retorna a si mesmo e nisso decide voltar para seu pai. Seu arrependimento começa com a conversão ('veio a si mesmo'), que se transforma em uma decisão de retorno ('eu vou levantar e seguir'), para posteriormente retornar a Deus ('Ele levantou-se e foi'). Segue uma confissão ('Pai, pequei contra o céu e contra ti'), que leva ao perdão ('Rápido, traga a melhor roupa'), adoção ('filho meu') e ressurreição espiritual ('Ele estava morto e reviveu'). Daí, vemos que o arrependimento é um processo dinâmico, um caminho para Deus, e não apenas a consciência de seus pecados.

No sacramento do batismo cristão, todos os pecados são perdoados. No entanto, "não há homem que vive sem pecados". Os pecados cometidos após o Batismo privam a pessoa humana da plenitude da vida em Deus. Daí a necessidade de um "segundo" batismo, um termo usado pelos padres da Igreja para denotar o arrependimento e destacar a energia que ele tem de purificar, renovar e santificar. O sacramento da penitência é a cura espiritual para a alma. O pecado, dependendo de sua gravidade, causa na alma uma pequena lesão ou uma mácula substancial, doenças, por vezes graves, ou mesmo incurável. 

Para manter a boa saúde espiritual, as pessoas devem fazer visitas regulares ao seu confessor, que é o médico da alma: 'Você pecou? Vá à igreja, faça penitência por seu pecado [...]. Há aqui um médico, não um juiz. Aqui, a pessoa é uma condenada, mas todos recebem o perdão dos pecados', diz São João Crisóstomo. 

Desde o início do cristianismo, os apóstolos, bispos e presbíteros, recebem confissões e concedem a absolvição. Cristo disse aos discípulos: 'O que ligares na terra será ligado no céu,e o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mateus 18,18). Este poder de 'ligar e desligar', transmitido aos apóstolos e através deles, aos bispos e padres, é expresso na absolvição por parte do sacerdote, a aqueles que se arrependem, em nome de Deus.

Mas por que é necessário confessar seus pecados a um padre, um irmão em humanidade? Não é suficiente dizer tudo a Deus e receber dele a absolvição? Para responder a essa pergunta, devemos lembrar que na igreja cristã, um padre não é apenas uma 'testemunha' da presença e da ação de Deus; na verdade, quando o padre atua nas celebrações litúrgicas e nos sacramentos, o próprio Deus está presente através dele.

A confissão dos pecados é sempre dirigida a Deus, e o perdão é sempre dado por ele. Ao aceitar a ideia da confissão na presença de um sacerdote, a Igreja tem sempre em conta um fator psicológico: você pode não se sentir envergonhado ao apenas fazer uma lista dos seus pecados diante de Deus, mas é sempre constrangedor revelar esses pecados a outro ser humano. Além disso, o padre é um diretor espiritual, um conselheiro que pode dar conselhos sobre como evitar tais e quais pecados no futuro.

O sacramento da Penitência não se limita a uma simples confissão de pecados. Implica também em recomendações, por vezes em sanções do padre, quando especialmente no sacramento da Penitência, o sacerdote, age na sua qualidade de pai espiritual. Se o penitente deliberadamente esconder alguns dos seus pecados, seja por vergonha ou por qualquer outro motivo, o sacramento não será considerado válido. Portanto, antes de receber o penitente para a confissão, o padre avisa que a confissão deve ser sincera e completa: 'Não tenha vergonha ou medo, não esconda nada de mim [...] mas se você está escondendo algo, você estará pecando ainda mais'. 

Sobre os que pensam tornarem-se justos pelas obras

 São Marcos, o Eremita - Sobre os que pensam tornarem-se justos pelas obras


- Alguns sem cumprir os mandamentos imaginam que possuem fé verdadeira. Outros cumprem os mandamentos e então esperam o reino como recompensa devida a eles. Ambos estão enganados.

- Quando as Escrituras dizem que 'Ele recompensará cada um de acordo com suas obras' (Mateus 16:27), não imagine que as obras em si mesmas merecem seja o inferno ou o reino. Ao contrário, Cristo recompensa cada homem de acordo com suas obras serem feitas na fé ou sem fé Nele; e Ele não é um comerciante ligado por contrato, mas Deus nosso Criador e Redentor.

- Aquele que recebeu o batismo oferece boas obras, não como um pagamento, mas para preservar a pureza que nos foi dada.

- Existe um pecado que é sempre 'para a morte' (1 João 5:16): o pecado pelo qual não nos arrependemos. Pois por esse pecado nem mesmo as orações de um santo serão ouvidas.

- O sinal do amor sincero é perdoar as coisas erradas feitas contra nós. Foi com tal amor que o Senhor amou o mundo.

- Ninguém é tão bom e misericordioso quanto o Senhor. Mas mesmo ele não perdoa aos não-arrependidos.

- Um apenas [Jesus Cristo] é justo em obras, palavras e pensamentos. Mas muitos [os cristãos] são feitos justos em fé, graça e arrependimento.

Jornada para o Céu

São Tikhon de Zadonsk


Nascido em 1724 no vilarejo de Korotsk, na região de Novgorod, numa família simples de camponeses, ele recebeu o hábito monástico aos 34 anos de idade, e rapidamente, por causa de sua ascese e sabedoria espiritual, foi elevado a maiores funções até ser consagrado Bispo de Voronezh. Ele serviu como bispo por sete anos e então, por enfermidade, retirou-se para o mosteiro de Zadonsk e lá morreu em 1783. Suas relíquias miraculosas foram guardadas até os dias de hoje. Um grande asceta da Igreja Russa, ele foi também um raro pastor, um homem de oração e escritor de belas obras espirituais. Em sua sabedoria, sua santidade e ascetismo, ele podia ser contado como igual aos grandes Pais da Igreja Ortodoxa de tempos antigos. Por causa dos muitos milagres testemunhados que foram realizados sobre suas relíquias, foi proclamado santo pelo povo, e oficialmente reconhecido como tal pela Igreja em 1861. Sua comemoração se dá em 26 de agosto (13 de agosto do velho calendário).

Tropário, Tom 8

Desde tua juventude amaste o Cristo, ó abençoado / e foste modelo de palavra, vida, amor, espírito, fé e humildade / Agora que estás habitando nas mansões celestiais onde posta-se diante do trono da Santíssima Trindade / Santo pai Tikhon, orai para que nossas almas sejam salvas.

Kontakion, Tom 8

Ó sucessor dos Apóstolos, adorno dos Hierarcas e mestre da Igreja Ortodoxa / orai ao Senhor de todos para que Ele conceda paz ao mundo e grande misericórdia a nossas almas.

Sobre o amor a Deus

Queridos cristãos, todos os cristãos dizem, "Como podemos não amar a Deus?" ou, "Quem amaremos, se não Deus?" Isso é verdadeiro. Deus é o bem supremo, incriado, sem começo, sem fim, existente, sem mudança. Tanto quanto o sol brilha, e como o fogo aquece, assim é Deus bom por natureza. Ele é e sempre foi bom, uma vez que "não há bom senão um só, que é Deus" (Mt 19:17). Deus faz o bem até quando nos castiga, pois Ele castiga-nos para que possa nos corrigir. Ele nos atinge para que tenha misericórdia de nós; Ele nos dá tristezas para que possa verdadeiramente nos consolar. "Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho" (Heb 12:6). Como então podemos não amar Deus tão bom? Deus é nosso Criador. Ele criou-nos do nada. Nós não existíamos, e eis que agora vivemos, nos movemos, e temos nosso ser. Suas mãos onipotentes nos fizeram e formaram. Ele criou-nos, ó homem, não como outras criaturas, sem racionalidade ou sentidos. Ele criou-nos por Seu conselho especial: "Façamos o homem" (Gen 1:26). Das outras criaturas é dito: "Ele mandou, e logo foram criados" (Sl 148:5), mas não foi assim com o homem. Como então? Façamos o homem, diz.

Que conselho santo e querido! O Deus Tri-hipostático, Pai, Filho e Espírito, diz do homem: "Façamos o homem". Que tipo de homem? "Em nossa imagem", diz, "conforme a nossa semelhança". Ó maravilhosa bondade de Deus para o homem! Ó excelente honra exaltada do homem! O homem foi criado por Deus na imagem e semelhança de Deus. Sobre qual criatura Deus conferiu tamanha honra? Não conhecemos nenhuma. Foi conferida ao homem e este foi honrado com a imagem de Deus. Ó amada e bela criação de Deus, o ser humano, imagem de Deus! Ele leva em si o selo real. Como o rei é honrado, assim é sua representação. Como a Deus Rei Celestial é devida toda honra, assim à Sua imagem, o ser humano. Deus despejou sua bondade sobre nós em nossa criação, ó cristão! Como então podemos deixar de amar a Deus?

Nós caímos e perecemos. Não podemos lamentar suficiente isso: "Todavia o homem, que está em honra, não permanece; antes é como os animais, que perecem" (Sl 48:13, LXX). Mesmo assim, Deus, que ama a humanidade, não nos abandonou, mas encontrou um modo maravilhoso de nos salvar. Ele enviou Seu Filho unigênito para salvar-nos e reunir-nos para Ele. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (Jo 3:16-17). Como então não amaremos Deus, que assim nos amou? Como todos O invocamos, Deus é cheio de Amor pela Humanidade; então o homem deve ser cheio de amor por Deus. Pois nada pode ser dado em retorno ao amor senão amor e gratidão.

Deus é nosso provedor. Ele pensa em nós e cuida de nós. Ele nos dá comida, o que vestir e onde morar. Seu sol, a lua e as estrelas nos dão luz. Seu fogo nos aquece e nós preparamos a comida nele. Sua água nos limpa e refresca. Seus animais nos servem. Seu ar nos mantém vivos. Em uma palavra, estamos cercados por Suas bênçãos e amor, e sem elas não poderíamos viver por um momento. Então como podemos não amar Deus que tanto nos ama? Nós amamos um ser humano que faz o bem; tanto mais devemos amar a Deus que faz o bem, A quem pertence nós mesmos e tudo que possuímos. Toda a criação e o próprio ser humano é propriedade de Deus. "Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam" (Sl 23:1, LXX).

Deus é nosso Pai. Oramos a Ele e dizemos: "Pai nosso que estás no Céu". Verdadeiramente é dito: "Como podemos não amar a Deus?" Amor, como toda virtude, deve residir no coração. Deus não diz: ame, seja humilde, seja compassivo, ore, busque-Me", para nossos lábios, mas sim para nosso coração. E se este amor habita no coração, ele necessariamente se manifestará exteriormente.

Sobre o Evangelho da Salvação

Queridos cristãos! Nada é mais agradável, amável e doce a nós, pecadores, que o Evangelho. Mais bem-vindo do que pão para o faminto, bebida para o sedento, liberdade para o escravo e os aprisionados, é o Evangelho para os pecadores que entendem sua má condição.

"Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido" (Lc 19:10). Esta é a voz excelentemente doce do Evangelho. Quem é o Filho do homem? Ele é o Filho de Deus, o Rei do Céu, enviado por Seu Pai Celestial, Aquele que quis ser chamado Filho do homem por nós. Por qual motivo Ele veio? Para buscar e salvar a nós que estamos perdidos e trazer-nos para Seu reino eterno. O que poderia ser mais bem-vindo e desejável a nós que estamos perdidos? Mas vejamos que é o Evangelho, e o que requer de nós, e para quem é pregado corretamente.

1. Por seu próprio nome, o Evangelho é a mais feliz das notícias. Para todo o mundo ele prega Cristo, o Salvador do mundo, que veio buscar e salvar o que estava perdido. Ouçam todos, pecadores perdidos, ouçam à voz excelentemente doce do Evangelho! Ele grita a todos nós: "O Filho do homem veio buscar e salvar o que havia se perdido".

É coisa terrível ser encontrado em pecado diante de Deus. O Evangelho prega que nossos pecados são perdoados pelo nome de Cristo e que Cristo é nossa justificação perante Deus. Em ti, ó meu Salvador Jesus Cristo, Filho de Deus, sou justificado. Tu és minha verdade e iluminação.

É coisa terrível ser encontrado em inimizade com Deus. O Evangelho prega que Cristo nos reconciliou com Deus, e tendo vindo Ele pregou a paz a todos de perto e de longe. Coisa temível para nós é a maldição da Lei, pois somos todos pecadores; ela sujeita o pecador a penas temporais e eternas. O Evangelho prega que Cristo redimiu-nos da maldição da Lei, tendo se tornado a maldição por nós. Coisa temível para nós é a morte. O Evangelho prega que Cristo é nossa ressurreição e vida.

Coisa temível para nós é a Gehenna e inferno. O Evangelho prega que Cristo libertou-nos do inferno e suas calamidades. É coisa terrível para nós estarmos separados de Deus. O Evangelho prega que nós estaremos com o Senhor para sempre em Seu reino eterno.

Esta, abençoados cristãos, é a doce voz do Evangelho. "Provai", e então "vede que o Senhor é bom" (Sl 33:9, LXX). "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (Jo 3:16-17). "Bendito o Senhor Deus de Israel, porque visitou e remiu o seu povo, e nos levantou uma salvação poderosa Na casa de Davi seu servo" (Lc 1:68-69).

2. É requerido de nós, cristãos, que recebamos essa voz celestial e essas doces notícias com gratidão enquanto são enviadas do Céu, e que demos sempre graças a Deus nosso Benfeitor a partir de um coração puro. Deus é ofendido por todo pecado. Estejamos longe de todo pecado e façamos Sua santa vontade para não ofendermos Ele que é nosso Pai compassivo e Benfeitor. "Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6:10).

3. Para quem o Evangelho é pregado? Cristo responde: "O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados de coração" (Lc 4:18). Em outras palavras, àquelas pessoas que, reconhecendo seus pecados, enxergam sua pobreza, má condiçã e baixeza, e possuam um coração contrito com temor do julgamento de Deus, a essas o Evangelho é corretamente pregado como remédio aplicado a um corpo ferido. Ouçam, almas tristes e contritas, ouçam a voz doce do Evangelho! "O Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido!" Ele te busca e salva, porque você é um daqueles que Ele veio buscar. Aceite e confesse-se como pecador diante de Deus. Seus pecados serão também perdoados pelo nome de Cristo.

Veja, cristão, que o Evangelho não é planejado para aqueles cristãos que vivem imprudentemente e em iniquidade, e não reconhecem seus pecados, pobreza e má condição, e não possuem um coração contrito. O remédio é aplicado naquele que reconhece e admite sua fraqueza. A esses é dito: "Senti as vossas misérias, e lamentai e chorai; converta-se o vosso riso em pranto, e o vosso gozo em tristeza. Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará" (Tg 4:9-10). E novamente: "E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo" (Mt 3:10).

Pecadores! Tenhamos temor do julgamento de Deus e nos esforcemos por um coração contrito e humilde, para que recebamos do Evangelho como de uma fonte de água viva refrescante e consoladora, e recebamos a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor, para quem seja a glória com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos.

Participantes da natureza divina


O propósito da vida cristã, que Serafim descreveu como a aquisição do Espírito Santo de Deus, pode igualmente ser bem definida em termos de deificação. Basílio descreveu o homem como uma criatura que recebeu a ordem de tornar-se um deus; Atanásio, como sabemos, disse que Deus tornou-se homem para que o homem pudesse tornar-se Deus. "Em meu reino, disse Cristo, serei Deus convosco como deuses" (Cânon para as matinas da Quinta-Feira Santa, Ode 4, Tropário 3). Este, de acordo com os ensinamentos da Igreja Ortodoxa, é o objetivo final que cada cristão ortodoxo deve atingir: tornar-se Deus, alcançar a theosis, "deificação" ou "divinização," pois para a ortodoxia, a salvação e redenção do homem significam sua deificação.

Sob a doutrina de deificação existe a ideia do homem feito de acordo com a imagem e semelhança de Deus, a Divina Trindade. "Para que eles sejam todos um," rezou Cristo na Última Santa Ceia, "como tu, Pai, és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam em nós" (João 17:21). Assim como as três pessoas da Trindade "vivem" umas nas outras em um movimento contínuo de amor, o homem feito à imagem da Trindade é chamado para viver no Deus Trino. Cristo reza para que nós possamos fazer parte da vida da Trindade, do movimento de amor que circula entre as três pessoas divinas; Ele reza para que possamos ser levados para a Divindade. Os santos, como coloca Máximo, o Confessor, são aqueles que expressam a Santíssima Trindade em si mesmos. Esta ideia de uma união pessoal e organizada entre Deus e o homem — Deus vivendo no homem e o homem Nele — é um tema constante no evangelho de São João e também nas Epístolas de São Paulo, que vê a vida cristã, acima de tudo, como uma vida "em Cristo". A mesma ideia é vista no famoso texto: "Para que por elas (as promessas de Cristo) sejais feitos participantes da natureza divina" (2 Pedro 1:4). É importante ter em mente este ensinamento do Novo Testamento. A doutrina ortodoxa de deificação, longe de não ter base escritural (como às vezes se pensa), tem base bíblica muito sólida, não apenas em 2 Pedro, mas em Paulo e no Quarto Evangelho.

A ideia de deificação deve sempre ser entendida à luz da distinção entre a essência de Deus e Suas energias. A união com Deus significa união com as energias divinas, não com a essência divina: quando fala de deificação e união, a Igreja Ortodoxa rejeita qualquer forma de panteísmo.

Há outro ponto de igual importância que está muito ligado a este. A união mística entre Deus e o Homem é verdadeira, apesar de Criador e criatura não estarem aqui fundidos um ao outro como um ser único. Ao contrário das religiões orientais que ensinam que o homem é sugado ou absorvido pela divindade, a teologia mística ortodoxa sempre insistiu que o homem, apesar de muito ligado a Deus, mantém a sua integridade individual. O homem, quando deificado, permanece distinto (e não separado) de Deus. O mistério da Trindade é um mistério de unidade em diversidade, e aqueles que expressam a Trindade em si não sacrificam suas características individuais. Quando São Máximo escreveu que "Deus e aqueles merecedores de Deus tem a mesma e única energia" (Ambigua, 91), ele não quis dizer que os santos perdem o livre arbítrio, mas que, quando deificados, voluntariamente e com amor combinam suas vontades com a Vontade de Deus. Nem o homem, quando "se torna Deus," deixa de ser humano: "Nós permanecemos criaturas enquanto nos tornamos, por graça, deuses, assim como Cristo permaneceu Deus quando tornou-se homem na Encarnação (V. Lossky, The Mystical Theology of teh Eastern Church, p. 87). O homem não torna-se Deus por natureza, mas é meramente um "deus criado," um deus por graça.

A deificação é algo que envolve o corpo. Já que o homem é uma unidade de corpo e alma, e já que o Cristo Encarnado salvou e resgatou o homem como um todo, conclui-se que "o corpo humano é deificado ao mesmo tempo que sua alma" (Máximo). Na divina semelhança a que o homem é convidado a realizar em si mesmo, o corpo tem importância. "Vossos membros são o templo do Espírito Santo," escreveu São Paulo (1 Cor. 6:19). "Assim, que pela misericórdia de Deus vos rogo, irmãos, que ofereçais os vossos corpos como um sacrifício vivo a Deus" (Romanos 12:1). Deve-se esperar a completa deificação do corpo, no entanto, até o Último Dia, pois nesta vida a glória dos santos é, como regra, um esplendor interno, um esplendor apenas da alma; mas quando os justos voltarem dos mortos vestidos no corpo espiritual, então a santidade será manifestada externamente. "No dia da Ressurreição a glória do Espírito Santo virá de dentro para fora, cobrindo e forrando os corpos dos santos — a glória que tinham antes escondida em suas almas. O que agora tem o homem, mais tarde surge em seu corpo" (Homilias da Macário, 5, 9). É esta transfiguração do "corpo Ressuscitado" que o iconógrafo tenta reproduzir. Assim, enquanto preserva distintos traços das características fisionômicas dos santos, ele evita, de forma deliberada, pintar um retrato realista e "fotográfico." Pintar o homem como ele é agora, é pintá-lo em seu estado ainda decaído, com o corpo "terrestre" e não "celestial". Os corpos dos santos serão transfigurados externamente pela Luz divina, assim como o de Cristo foi transfigurado no Monte Tabor. "Também devemos aguardar a aurora do corpo" (Minucius Felix, Octavius, 34).

Mas mesmo nesta vida, alguns santos provaram os primeiros frutos da glorificação visível e material. São Serafim é o mais conhecido, mas não é o único exemplo. Quando Arsênio, o Grande estava orando, seus discípulos o viram "como um fogo" (Apophthegmata, P.G. 65); e é registrado de outro Padre do Deserto: "Como Moisés recebeu a imagem da glória de Adão, quando seu rosto foi glorificado, então a face de Abba Pambo mostrou-se como um raio e ele tornou-se rei sentado em seu trono" (Apophthemagta, P.G. 65). Epifâniom em seu Vida de Sérgio de Radonezh, relata que o corpo do santo mostrou-se em glória depois da morte. Algumas vezes é dito, e com certa verdade, que a transfiguração corporal pela luz divina corresponde, dentre os santos ortodoxos, ao recebimento dos estigmas de Cristo para os santos ocidentais. Porém, não se deve delinear um contraste absoluto neste caso. Episódios de glorificação material também são encontrados no ocidente, como por exemplo o caso da inglesa, Evelyn Underhill (1875-1941): um amigo relata como em uma ocasião seu rosto estava transfigurado em luz (toda a narrativa faz lembrar São Serafim: ver The Letters of Evelyn Underhill, editada Charles Williams, Londres, 1943). (A estigmatização também não é desconhecida no leste: na vida copta de São Macário do Egito, sabe-se que um querubim apareceu para ele, "mediu seu peito" e "crucificou-o na terra"). Nas palavras de Gregório Palamas: "nas próximas eras o corpo compartilhará com a alma as bênçãos indescritíveis; é certo que devem compartilhar, na medida do possível, agora também" (The Tome of The Holy Mountain, P.G. 150).

Porque os ortodoxos estão convencidos de que o corpo é santificado junto com a alma, eles têm tremendo respeito às relíquias dos santos. Como os católicos romanos, ortodoxos acreditam que a graça de Deus presente no corpo dos santos durante a vida permanece ativa em suas relíquias depois da morte, e que Deus usa estas relíquias como um canal de poder divino e instrumento de cura. Em alguns casos os corpos dos santos foram milagrosamente preservados da corrupção, mas mesmo onde isto não aconteceu, os ortodoxos mostram a mesma veneração aos ossos. Esta reverência às relíquias não é fruto de ignorância e superstição, mas nasce de uma teologia do corpo altamente desenvolvida.

Não apenas o corpo humano, mas toda a criação material será, ao final, transfigurada: "E vi um céu novo e uma terra nova. Porque o primeiro céu e a primeira terra se foram" (Apocalipse 21:1). O homem resgatado não deve ser separado de toda criação, esta é que deve ser salva junto com ele (ícones, como já vimos, são os primeiros frutos da redenção da matéria). "A própria criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus... pois ela será liberta da escravidão da corrupção, para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus. Sabemos que até hoje ela vem sofrendo as dores do parto" (Romanos 8:19-22). Esta ideia de redenção cósmica é baseada, assim como as doutrinas ortodoxas sobre o corpo humano e sobre os ícones, em uma correta compreensão da Encarnação: Cristo tomou a carne — que é de ordem material — e tornou possível a redenção e metamorfose de toda criação — tanto a imaterial quanto a física.

Esta conversa sobre deificação e união com Deus, sobre a transfiguração do corpo e a redenção cósmica, pode soar muito distante da experiência dos cristãos comuns; mas qualquer que tirar essa conclusão entendeu tudo errado sobre a visão ortodoxa da theosis. Para impedir essa interpretação errada, seis pontos devem ser lembrados.

Primeiro, deificação não é algo reservado para uns poucos iniciados, mas algo destinado a todos igualmente. A Igreja Ortodoxa crê que este é o propósito normal para todos os cristãos, sem exceção. Certamente, só seremos plenamente deificados no Último Dia; mas para cada um de nós o processo de divinização deve começar aqui e agora, nesta vida presente. É verdade que nesta vida pouquíssimos, de fato, atingem plena união mística com Deus. Mas todo cristão verdadeiro busca amar a Deus e cumprir Seus mandamentos; e na medida em que um homem busca sinceramente fazer isso, por mais fracas que sejam suas tentativas e por mais que ele falhe, já está em algum grau deificado.

Segundo, o fato de um homem estar sendo deificado não significa que cessa de ser consciente do pecado. Muito pelo contrário, a deificação sempre pressupõe um ato contínuo de arrependimento. Um santo pode ser muito avançado no caminho da santidade e, no entanto, não cessa por isso de usar as palavras da Oração de Jesus: 'Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, um pecador'. O pai Siluan do Monte Athos costumava dizer a si mesmo: 'mantenha sua mente no inferno e não desespere'; outros santos ortodoxos repetiram as palavras: 'todos serão salvos, e somente eu serei condenado'. Autores espirituais do Oriente dão grande valor ao 'dom das lágrimas'. A teologia mística ortodoxa é uma teologia da glória e da transfiguração, mas é também uma teologia da penitência.

Em terceiro lugar, não há nada esotérico ou extraordinário sobre os métodos que devemos usar para sermos deificados. Se um homem pergunta 'Como posso tornar-me deus?', a resposta é muito simples: vá à igreja, receba os sacramentos regularmente, ore a Deus 'em espírito e verdade', leia os Evangelhos, observe os mandamentos. Este último item - 'observe os mandamentos' - nunca pode ser esquecido. A ortodoxia, não menos que o Cristianismo ocidental, firmemente rejeita o tipo de misticismo que procura dispensar normais morais.

Quarto, deificação não é um processo solitário e sim 'social'. Dissemos que a deificação significa 'observa os mandamentos'; e esses mandamentos foram brevemente descritos por Cristo como amor a Deus e amor ao próximo. As duas formas de amor são inseparáveis. Um homem só pode amar seu próximo como a si mesmo se ama a Deus acima de tudo; e um homem não pode amar a Deus se não ama seu próximo (1 João 4:20). Assim, não há nada egoísta sobre a deificação; pois apenas aquele que ama seu próximo pode ser deificado. 'De nosso próximo vem a vida e de nosso próximo a morte', disse Antão do Egito. 'Se ganhamos nosso próximo ganhamos a Deus, mas se levamos nosso próximo a cair pecamos contra Cristo' (Apophthegmata, Antão 9). O homem, feito à imagem da Trindade, somente pode realizar a semelhança divina se vive uma vida em comum como a Trindade vive: como as três pessoas da Divindade 'habitam' uma na outra, assim um homem deve 'habitar' em seu irmão, vivendo não para si mesmo, mas em e por outros. 'Se fosse possível', disse um dos Padres do Deserto, 'achar um leproso e dar-lhe meu corpo e levar o dele, eu o faria alegremente. Pois isso é amor perfeito' (Agatão 26). Tal é a natureza verdadeira da theosis.

Quinto, amor a Deus e aos outros homens deve ser prático: a ortodoxia rejeita toda forma de quietismo, todos os tipos de amor que não resultam em ação. A deificação, enquanto inclui as alturas da experiência mística, também possui um aspecto prosaico e pé-no-chão. Quando pensamos na deificação, devemos lembrar dos hesicastas orando em silêncio e de S. Serafim com sua face transfigurada; mas também devemos lembrar de S. Basílio cuidando dos doentes no hospital de Cesaréia, de S. João ajudando os pobres em Alexandria, de S. Sérgio em suas roupas sujas, trabalhando como camponês na horta para fornecer comida aos visitantes do mosteiro. Estes não são caminhos diferentes, mas um só.

Finalmente, deificação pressupõe vida na Igreja, vida nos sacramentos. Theosis, de acordo com a semelhança da Trindade, envolve a vida em comum, mas somente na irmandade da Igreja pode essa vida em comum ser propriamente realizada. Igreja e sacramentos são meios apontados por Deus pelos quais o homem deve adquirir o Espírito santificador e ser transformado na semelhança divina.

- Bispo Calisto Ware, A Igreja Ortodoxa