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Os Dez Mandamentos



Após o Êxodo da escravidão egípcia (Ex. 14), os filhos de Israel acamparam ao pé do Monte Sinai. Moisés subiu ao monte e ali recebeu de Deus duas tábuas de pedra, sobre as quais estavam escritos pela mão de Deus os Dez Mandamentos (Ex. 20,31). O texto destes mandamentos (O Decálogo) é o seguinte:

1. Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de Mim (Ex. 20:2-3).

2. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; tu não deves te curvar a eles ou servi-los (20:4-5).

3. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão (20:7).

4. Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; nele não farás nenhum trabalho (20:8-10).

5. Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá (20:12).

6. Não matarás (20:13).

7. Não cometerás adultério (20:14).

8. Não furtarás (20:15).

9. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo (20:16).

10. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo (20:17).

[NOTA: Alguns intérpretes (especialmente entre os católicos romanos) consideram o Primeiro e o Segundo Mandamentos acima como um mandamento, enquanto dividem o Décimo Mandamento em dois.]

De acordo com a Tradição da Igreja, os primeiros quatro mandamentos foram inscritos na primeira tábua e os seis últimos foram inscritos na segunda tábua. O primeiro contém os mandamentos relativos às nossas obrigações para com Deus, enquanto o segundo contém os que dizem respeito ao próximo. Esta divisão tradicional é testemunhada pelo próprio nosso Senhor Jesus Cristo quando lhe foi perguntado por um advogado, Mestre, qual é o grande mandamento na lei (Mt 22:36)? O Senhor respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo é assim: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (Mt 22:37-40; cf. Lc 10:25-28).

1. Não terás outros deuses diante de mim.

Em um mundo dominado pelo politeísmo (muitos deuses), os israelitas receberam a revelação de que havia apenas um Deus verdadeiro (monoteísmo), o Criador e Senhor de tudo. Neste primeiro mandamento, o Senhor orienta todos nós a reconhecê-Lo e honrá-Lo como Deus, orientando que nada mais deve ser tido em maior estima; pois não devemos servir a ninguém ou a qualquer outra coisa como deus. Como o salmista proclama: Vinde, adoremos, prostremo-nos e ajoelhemo-nos diante do Senhor, nosso Criador! Pois Ele é o nosso Deus, e nós somos o povo do seu pasto e as ovelhas da sua mão (Sl 95:6-7). Quando nosso Senhor Jesus Cristo estava no deserto por quarenta dias depois de Seu batismo, Satanás veio a Ele e disse, mostrando-Lhe todos os reinos do mundo: A Ti darei toda esta autoridade e sua glória... Se tu, então, me adorares, tudo será teu (Lucas 4:6,7). Mas Jesus, conhecendo o primeiro mandamento, o repreendeu, dizendo: Está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás (Lucas 4:8).

2. Não farás para ti imagem de escultura...; tu não deves te curvar a eles ou servi-los.

Desde os primeiros tempos, o homem tem o costume de estabelecer e servir a outros deuses que não o Deus de todos. Como diz São Paulo, embora [os homens] conhecessem a Deus, eles não O honraram como Deus nem Lhe deram graças... Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens semelhantes ao homem mortal, ou pássaros ou animais ou répteis (Rm 1:21-23). Mesmo após a entrega dos Dez Mandamentos no Sinai, o povo procurou outros deuses, o Bezerro de Ouro, Baal, etc. agora erguemos os ídolos da riqueza, dinheiro, poder, fama, prazer, etc. e lhes damos a honra e a devoção que o Segundo Mandamento nos diz que são devidas somente a Deus.

Apesar do que os literalistas possam dizer, no entanto, este mandamento não proíbe o uso de Ícones, imagens ou representações, sejam de madeira, pedra ou qualquer outra coisa. Os judeus no Sinai foram ordenados a construir uma Arca com querubins de ouro em cada extremidade (Ex. 25:18-20). Quando os israelitas foram afligidos por cobras venenosas no deserto, Moisés construiu uma serpente de bronze e a colocou sobre um poste, para que, olhando para ela, qualquer pessoa mordida pudesse viver (Nm 21:8-9). Quando o Rei Salomão construiu o Templo, ele era decorado com frutas esculpidas, flores, árvores e querubins (1 Reis 6:18,29,32,34-35). O grande mar de bronze (ou bacia) no pátio era sustentado por doze bois de bronze (1 Reis 7:25) e o trono do rei era sustentado por leões esculpidos e tinha uma cabeça de bezerro esculpida na parte de trás (1 Reis 10:19-20 ).

O ponto chave deste mandamento é que esses objetos não devem ser objetos de devoção e adoração devidos unicamente a Deus. A devoção que nós, como ortodoxos, prestamos aos ícones e outros objetos sagrados é uma veneração bem diferente daquela devida a Deus e tal era o ensinamento dos Padres da Igreja, especialmente São João de Damasco.

3. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.

Este mandamento atinge aqueles que não agem com reverência e respeito para com o santo nome de Deus. Estamos proibidos de usar o nome de Deus em vão e fazer juramentos falsos: Tu não deve jurar pelo meu nome falsamente, e assim profanar o nome do teu Deus (Lv 19:12). Como São Tiago nos diz: Meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro juramento, mas que o vosso sim seja sim e o vosso não seja não, para que não caiais em condenação (Tiago 5:12); isso reflete as palavras do próprio Senhor, que disse: Que o que tu dizes seja simplesmente 'Sim' ou 'Não'; qualquer coisa além disso vem do Maligno (Mt 5:37). Antes, o nome divino deve ser glorificado, pois, como diz o salmista, ó Senhor, nosso Senhor, quão majestoso é o Teu nome em toda a terra! (Sal. 8:1). Louvai, ó servos do Senhor, louvai o nome do Senhor! (Sal. 113:1), pois o nome do Senhor é bendito desde agora e para sempre! Desde o nascer do sol até o poente, o nome do Senhor deve ser louvado (Sl 113:2-3).

Quantas vezes em nossas conversas ordinárias o nome de Deus, de Jesus (o próprio Deus), de Sua Mãe e dos Santos são pronunciados casualmente, sem pensar ou mesmo para efeito de choque. Nós, modernos, temos tanto desrespeito pelas coisas santas, especialmente pelo nome de Deus e Seu Filho, quando, como São Paulo nos diz, Deus... concedeu a Ele o nome que está acima de todo nome, para que diante do nome de Jesus todo joelho se curve, no céu, na terra e debaixo da terra (Fp 2:9,10).

4. Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo.

Além dos três primeiros mandamentos, também somos ordenados a prestar especial honra a Deus em Seu dia especial, o sábado, pois Deus abençoou o sétimo dia e o santificou (Gn 2:3). A Igreja primitiva, o Novo Povo de Deus na Nova Dispensação, sob inspiração divina, substituiu o sétimo dia da semana (sábado) pelo primeiro dia da semana (domingo) como o novo e superior dia do Senhor (Ap 1:10). Neste dia comemoramos a Nova Criação possibilitada pela Ressurreição de Cristo, em vez da primeira criação do mundo, comemorada no antigo sábado. Neste dia, o Dia do Senhor, a Santa Igreja Ortodoxa nos ordena não realizar trabalhos desnecessários, mas sim honrar o Dia do Senhor participando da Divina Liturgia e dos Serviços que a precedem (Vésperas e Matinas). Além disso, somos ordenados a honrar e guardar os outros santos dias de festa da Igreja, quer caiam ou não no domingo, pois todos os dias santos podem ser considerados como os dias do Senhor.

Enquanto os primeiros quatro mandamentos refletem o mandamento do Senhor de amar a Deus com todo o coração, alma e mente, os últimos seis refletem o mandamento do Senhor de amar o próximo como a si mesmo. O primeiro deles é o Quinto Mandamento:

5. Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.

Acima de tudo, somos ordenados a amar, honrar e respeitar nossos pais que nos trouxeram ao mundo, continuando o ato original da Criação e expandindo a família universal do amor. Como nos diz São Paulo: Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor (Cl 3:20). Além disso, se somos incapazes de amar e honrar nossos pais, como podemos começar a amar e honrar nosso próximo? Este mandamento contém também uma promessa, como assinala São Paulo, de que ficaremos bem e de longa vida na terra (Ef 6:3).

Aplicando este mandamento às nossas vidas terrenas, devemos prestar o mesmo respeito a qualquer pessoa que tenha autoridade sobre nós (Efésios 6:5-8), como as autoridades seculares, como nos diz São Paulo: Que cada pessoa seja sujeito às autoridades governamentais. Pois não há autoridade exceto de Deus... Paguem a todos eles o que lhes é devido... respeito a quem é devido respeito, honra a quem é devida honra (Rm 13:1,7); ou nossas autoridades religiosas nossos sacerdotes e Bispos: Obedeçam a teus líderes e submetam-te a eles; pois eles estão vigiando tuas almas, como homens que terão que prestar contas (Hb 13:17); que os presbíteros que governam bem sejam considerados dignos de dupla honra, especialmente aqueles que trabalham na pregação e no ensino (1Tm 5:17).

6. Não matarás.

Desde os primeiros tempos, tirar uma vida tem sido considerado um assunto muito sério, de fato. A vida é dada por Deus e só Deus tem o direito absoluto de tirá-la; pois todo homem traz a Imagem de Deus dentro de si. É por esta razão que até mesmo tirar a própria vida (suicídio) é tão fortemente condenado. No entanto, alguém pode ser morto não apenas pela mão de outro homem (ou pela sua própria), mas também pelas próprias palavras, pelas ações de sua língua, arruinando sua reputação, caráter ou posição; pois, como diz São Tiago, a língua é um fogo... um mal inquieto, cheio de veneno mortal, com ela bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, que são feitos à semelhança de Deus (Tiago 3:6,8-9). Quantas vezes um homem foi morto, por assim dizer, não apenas por conversas maliciosas, mas também por mera conversa fiada por fofoca? Mesmo a conversa aparentemente ociosa e inofensiva pode matar e é a isso que São Paulo se refere, como segue: Não saiam de tuas bocas palavras más, mas apenas aquelas que sejam boas para edificar, conforme a ocasião, para que possam transmitir graça para aqueles que ouvem (Efésios 4:29).

O fato de que não apenas o assassinato físico mata é testemunhado por nosso Senhor quando diz: Quem fizer pecar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria que ele tivesse uma grande pedra de moinho presa ao pescoço e fosse lançado nas profundezas do mar (Mt 18:6). Apenas fazer alguém pecar é um crime terrível! Como São João nos diz, até mesmo ter ódio no coração contra outro é o mesmo que matar: quem odeia seu irmão é um assassino, e vós sabeis que nenhum assassino tem a vida eterna nele (1 João 3:15) .

7. Não cometerás adultério.

Quando falamos aqui de adultério, deve-se ter em mente as seguintes palavras de São Paulo: Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?... Todo outro pecado que um homem comete é fora do corpo; mas o imoral peca contra o seu próprio corpo. Tu não sabes que teu corpo é um templo do Espírito Santo dentro de ti, que recebeste de Deus (1 Coríntios 6:15, 18-20)?

Quando falamos de adultério, está incluímos aqui não apenas o que é cometido entre uma pessoa casada e outra que não é seu cônjuge, mas também desejos e pensamentos impuros. Mas eu vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher com luxúria já cometeu adultério em seu coração (Mt 5:28). Também somos ordenados a evitar histórias imorais, conversa obscena, livros pornográficos, revistas, filmes, programas de TV, etc., bem como companheiros maus. Os pensamentos dos ímpios são abomináveis ​​ao Senhor, as palavras dos puros Lhe agradam (Pv 15:26). Nosso Senhor abençoa aqueles que se abstêm dessas coisas imorais quando diz: Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus (Mt 5:8). Isso ocorre porque as paixões impuras travam guerra contra nosso próprio ser espiritual: Amados, suplico a vós como estrangeiros e exilados no mundo que se abstenhais das paixões da carne que guerreiam contra vossas almas (1 Pe 2:11).

8. Não furtarás.

Estamos aqui proibidos de furtar (ou tirar) qualquer coisa que pertença a outro. Obviamente, devemos respeitar as posses dos outros; mas também devemos nos precaver contra coisas como roubar a felicidade de outra pessoa ou roubar-lhe uma amizade. Este mandamento adverte contra qualquer desonestidade, trapaça ou engano de qualquer forma; pois, como nosso Senhor nos diz, que aproveitará ao homem se ele ganhar o mundo inteiro e perder sua vida (Mt 16:26)? Como diz São Paulo, não se deixe enganar; nem os imorais, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os pervertidos sexuais, nem os ladrões... herdarão o reino de Deus (1 Coríntios 6:9-10).

Em vez de tirar de outro, devemos estar dispostos a dar, assim como o Senhor deu tudo, até mesmo Sua própria vida, por nós. Pois Ele nos diz para fazer o bem e emprestar, sem esperar nada em troca; e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo... Dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordando, será colocada no teu colo (Lc 6:35,38). Ao invés de roubar fazendo mal aos outros, devemos praticar a Regra de Ouro: Como tu gostarias que alguém fizesse a ti, faças a eles (Lucas 6:31).

9. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

Aqui estamos proibidos de contar mentiras sobre qualquer pessoa, em qualquer lugar, pois lábios mentirosos são uma abominação para o Senhor (Pv 12:22). Devemos sempre lembrar que mentiras podem ser ditas não apenas em palavras, mas também pelo nosso silêncio, por nossas ações ou de muitas outras maneiras. Como cristãos, somos ordenados a ser sinceros em tudo e estar acima de qualquer repreensão, pois da abundância do coração a boca fala. O homem bom do seu bom tesouro tira o bem, e o homem mau do seu mau tesouro tira o mal... porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado (Mt 12:34-35, 37). Em vez de mentiras, devemos apenas ser francos, como diz São Paulo: Portanto, deixando de lado a falsidade, cada um fale a verdade com o próximo (Ef 4:25).

10. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Aqui somos ordenados a aceitar qualquer estado em que Deus nos coloque e não ter inveja dos outros, ou olhar com ódio para o bem-estar e prosperidade de outro: Há grande ganho em piedade com contentamento; porque nada trouxemos ao mundo, e do mundo nada podemos levar... Mas os que desejam ser ricos caem em tentação, em laço, em muitos desejos insensatos e nocivos, que lançam os homens na ruína e na destruição (1 Tm 6:8-9). Mantenhas tua vida livre do amor ao dinheiro e estejas contente com o que tens; pois Ele disse: Eu nunca te deixarei nem te desampararei (Hb 13:5).

Em vez disso, devemos nos contentar com nosso estado e colocar nossa confiança somente em Deus: Que cada um leve a vida que o Senhor lhe designou e na qual Deus o chamou... Cada um deve permanecer no estado em que foi chamado... Assim, irmãos, em qualquer estado em que cada um foi chamado, permaneça com Deus (1 Coríntios. 6:17,20,24). A inveja e a cobiça levam à morte espiritual, como nos diz São Tiago, pois cada pessoa é tentada quando é seduzida e atraída por seu próprio desejo. Então o desejo, quando concebido, dá à luz o pecado; e o pecado quando consumado produz a morte (Tiago 1:14-15).

Além dos Dez Mandamentos nos quais nos são dados padrões de conduta, nosso Senhor nos dá outro mandamento novo: Um novo mandamento dou a vós, que ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, também vós vos ameis uns aos outros (João 13:34). Este novo amor exige que não apenas amemos aqueles que nos amam, mas também que amemos aqueles que nos odeiam: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos maltratam. A quem te ferir na face, oferece também a outra; e daquele que tirar a tua túnica não retenhas nem a tua camisa. Dá a todo aquele que te pede; e daquele que tirar os teus bens não os peça novamente (Lc 6:27-30). Nem é necessário que gostemos de alguém para amá-lo à maneira cristã, pois esse amor significa que devemos estar sempre prontos para ajudar, perdoar, ser justos e viver de acordo com a Regra de Ouro citada anteriormente. Ao fazer isso, como nosso Senhor disse, todos os requisitos da lei e dos profetas são cumpridos e, como Ele nos diz, faças isso e viverás (Lucas 10:28).

Trecho retirado de "Estas Verdades que Mantemos - A Santa Igreja Ortodoxa: Sua Vida e Ensinamentos". Compilado e editado por um monge do mosteiro de St. Tikhon. Copyright 1986 pela St. Tikhon's Seminary Press, South Canaan, Pensilvânia 18459.

Oração pelos mortos e Purgatório: diferenças entre ortodoxos e católicos

 
Metropolita Macário de Moscou (1816-1882), Teologia Dogmática Ortodoxa, Vol. 2 (1857).

A doutrina da Igreja Romana sobre o Purgatório tem alguma semelhança com a doutrina da Igreja Ortodoxa sobre a possibilidade de alguns pecadores serem libertados das amarras do Hades [Inferno] pelas orações dos vivos, embora também tenha alguma diferença. Para julgar corretamente entre um e outro, deve-se entender o ensino conforme estabelecido pelos próprios teólogos romanos.

Primeiro, eles distinguem na doutrina do Purgatório duas partes: a 'parte essencial', ou o que foi decretado e ensinado por sua Igreja como dogma, e o opcional, ou seja, o que não foi fixado por sua Igreja e é objeto de opiniões [controversas] teológicas. A primeira parte refere-se apenas a dois pontos:

a) Há um purgatório, isto é, um lugar ou estado de expiação (status expiationis) em que as almas daqueles que morreram sem ter recebido a absolvição por faltas leves, ou mesmo depois de obter a absolvição de seus pecados, mas sem suportar nesta vida os castigos temporais pelos pecados, sofrem tormentos para satisfazer a justiça divina, até que sejam purificados por esses tormentos e se tornem dignos da felicidade eterna.

b) As almas dos que estão no Purgatório precisam muito de oração para ajudá-los, assim como esmolas [oferecidas em favor delas], e principalmente do Sacrifício incruento [isto é, o Sacrifício da Missa].

No que respeita ao ensino não-essencial [opcional], este refere-se à solução das seguintes questões:

a) O Purgatório é um lugar específico ou não, e em caso afirmativo, onde fica? Os sofrimentos das almas no fogo do purgatório são reais ou metafóricos [espirituais]?
b) Quanto tempo as almas ficam no purgatório? Como eles são ajudados pelas orações da Igreja?
 
Segundo, focando nossos pensamentos sobre a parte essencial da doutrina romana sobre o Purgatório, encontramos alguma semelhança com a da Igreja Ortodoxa sobre as orações pelos mortos, e ao mesmo tempo algumas diferenças:
 
Semelhanças - Há semelhança na ideia fundamental. De fato, a Igreja Ortodoxa ensina, como a de Roma: (a) Que as almas de alguns dos mortos, ou seja, daqueles que morreram na fé e no arrependimento, mas sem ter tido tempo para trazer em vida frutos dignos de arrependimento [Mateus 3:8], e, portanto, não conseguiram receber de Deus o perdão completo de seus pecados e serem [perfeitamente] purificados, sofrem tormentos até que sejam julgados dignos de perdão e purificados; e (b) Que em tais casos as almas dos defuntos são beneficiadas pelas orações em favor delas pelos irmãos em Cristo que ainda estão vivos, suas obras de caridade e especialmente pela oferta do Sacrifício incruento [eucarístico].
 
Diferenças - As diferenças, em particular, são: (a) De acordo com a doutrina da Igreja Ortodoxa, as almas dos mortos acima mencionadas estão sofrendo porque, embora tenham se arrependido antes da morte, não tiveram tempo de produzir frutos dignos de arrependimento, e portanto, merecer o perdão completo de Deus de seus pecados e, assim, ser realmente purificados e superar as consequências naturais do pecado, [que é a] punição; considerando que, de acordo com a doutrina da Igreja de Roma, as almas dos mortos sofrem no Purgatório, estritamente porque não sofreram aqui abaixo o castigo temporal necessário para os pecados em satisfação da justiça divina; e (b) Segundo a doutrina ortodoxa, essas almas são purificadas dos pecados e merecem o perdão de Deus, não por si mesmas e pelo seu próprio sofrimento, mas pelas orações da Igreja e pelo poder do Sacrifício incruento [eucarístico]; com essas mesmas orações não só beneficiando as almas que sofrem, mas mitigando sua posição, libertando-as do tormento, enquanto que, segundo a doutrina da Igreja Romana, é por seu mesmo sofrimento que as almas são purificadas no Purgatório e, assim, a justiça divina é satisfeita, e as orações da Igreja servem apenas para dar-lhes algum alívio nessa condição.
 
Além disso, embora as diferenças entre a doutrina romana do Purgatório e a doutrina ortodoxa de oração pelos mortos sejam sobre esses detalhes, elas são importantes e não podemos aceitar as diferenças. Pois nessas diferenças encontramos tanto coisas falsas [no ensino romano] quanto uma inversão do dogma fundamental:
 
1º Erro [Que é necessário satisfazer a justiça divina por todo pecado já perdoado, através de penas temporais] - A primeira ideia é falsa, como já vimos, isto é, que um pecador que se arrepende antes de morrer deve ainda trazer uma espécie de satisfação à justiça divina por seus pecados sofrendo algum castigo temporal para esse fim, e que no Purgatório ele faz isso, por falta de poder sofrer aqui embaixo. A satisfação completa à justiça divina, a mesma satisfação superabundante, foi apresentada de uma vez por todas, em favor de todos os pecadores, por meio de Jesus Cristo Nosso Salvador, que tomou sobre si os pecados do mundo e todo o castigo pelo pecado; e, para obter o perdão completo de Deus e a libertação de todo castigo do pecado, os pecadores devem apropriar-se dos méritos do Redentor, ou seja, crer nEle, arrepender-se verdadeiramente de seus pecados, produzir frutos dignos de arrependimento, ou seja, boas ações. Consequentemente, se há pecadores que, tendo-se arrependido antes de morrer, têm, apesar disso, tormentos a suportar após a morte, é apenas porque não tiveram tempo para apropriar-se plenamente dos méritos do Salvador, seja por causa da fraqueza de sua fé Nele ou por efeito da falha de seu arrependimento, e principalmente porque não deram frutos dignos de arrependimento, e não foram realmente purificados do pecado, como ensina a Igreja Ortodoxa.
 
2º Erro [Que as almas podem ser purificadas através de seus próprios sofrimentos expiatórios] - Não é menos um equívoco que os pecadores seriam purificados no Purgatório e satisfariam a justiça divina por seus próprios tormentos. Em qualquer sentido que o fogo do Purgatório seja entendido, literalmente ou em sentido figurado, em nenhum desses sentidos podemos atribuir isso a Deus. Se for atribuído um significado literal ao fogo, então, o fogo por sua própria natureza é incapaz de purificar uma alma que é uma essência espiritual simples e imaterial. Se for atribuído um significado figurativo, ou seja, o fogo é um tormento interior da alma devido à consciência de seus pecados passados ​​e à profunda contrição por eles, então, nesse caso, isso não pode purificar a alma na vida além da sepultura, porque na vida após a morte não há mais lugar para arrependimento, nem para mérito ou qualquer autocorreção pessoal como os católicos romanos acreditam. E enquanto a alma permanecer no pecado, não purificada e renovada, até então, seja o que for que tenha que suportar, ela não pode de modo algum satisfazer por seu próprio sofrimento a justiça divina e superar [através desses sofrimentos] essas consequências inevitáveis ​​do pecado.
 
3º Erro [Que as orações da Igreja são essencialmente dispensáveis, servindo apenas para aliviar os sofrimentos do Purgatório] - Se as almas de alguns dos mortos sofrem no Purgatório, e mesmo os pecadores arrependidos devem necessariamente sofrer uma punição temporal pelo pecado em satisfação à justiça divina, e, se as almas que sofrem no Purgatório são verdadeiramente purificadas e cumprem sua obrigação para com a justiça divina [através desses sofrimentos], então, a pergunta é: “Qual é o sentido das orações e da intercessão geral da Igreja em seu favor?”. As almas do Purgatório necessariamente têm que sofrer até que tenham cumprido a satisfação desejada e tenham sido purificadas pelo sofrimento; agora, se as orações da Igreja apenas enfraquecem e aliviam esse sofrimento, em vez de encurtar o período de tempo que as almas devem passar no Purgatório, elas (as orações) o prolongam e, portanto, são menos úteis do que prejudiciais. Isso não derruba, é claro, a ideia fundamental do dogma das orações pelos mortos?
 
Terceiro, se voltarmos agora a nossa atenção para a parte não-essencial da doutrina romana sobre o Purgatório, sendo opiniões teológicas, verificamos que difere muito mais da doutrina da Igreja Ortodoxa sobre a oração pelos mortos, embora em questões de pouca importância julgando pelo seu significado íntimo. Mencionemos os dois mais notáveis:
 
4º Erro [Que há um lugar intermediário entre céu e inferno] - A Igreja Ortodoxa ensina que não há classe intermediária após a morte entre aqueles que são salvos e vão para o céu, e aqueles que são condenados e vão para o Hades; não há um lugar intermediário específico para onde vão as almas que fizeram penitência antes da morte e estão sujeitas às orações da Igreja; todas essas almas vão para o Hades, onde só podem ser libertadas pelas orações. A maioria dos teólogos romanos considera o Purgatório como um lugar intermediário especial entre o céu e o inferno, às vezes colocado nas proximidades deste último, no interior da terra, às vezes próximo ao primeiro, às vezes no ar. Há outros, porém, que veem no Purgatório não um lugar à parte, mas um estado particular de almas, e reconhecem que as almas neste estado podem sofrer seu castigo temporal e purificar-se mesmo onde estão contidas os condenadas [outras almas] ao castigo eterno (ou seja, no inferno); assim, podem ser encontrados na mesma prisão presos condenados à prisão temporária e presos condenados para sempre.
 
5º Erro [Que há um fogo purgatorial] - A Igreja Ortodoxa rejeita veementemente o ensino de um fogo purgatorial, no verdadeiro sentido da palavra, que purificaria a alma. Um grande número de teólogos romanos considera este fogo como real e material (sendo esta a crença quase universal dos leigos da confissão romana), e para angariar provas de seu ensinamento eles tentam coletar das Sagradas Escrituras e do escritos dos antigos Doutores da Igreja referências que parecem tratar de tal fogo. Outros, no entanto, entendem o fogo do Purgatório em sentido figurado, para tormento espiritual, e, portanto, citam em seus tratados sobre o assunto evidências semelhantes da palavra de Deus ou dos escritos dos Padres, acrescentando que os próprios antigos doutores eram de opiniões variadas sobre o fogo. Seria, portanto, supérfluo até mesmo refutar as provas apresentadas. Nota-se finalmente que, em geral, sua Igreja não determinou precisamente o que é o fogo do Purgatório, se é material ou não, e, portanto, não pertence à fé entendê-lo de uma maneira ou de outra [dogmaticamente].

Não discutiremos outras opiniões sobre o Purgatório, por exemplo, quanto tempo uma alma permanece, e se todas elas sofrem o mesmo espaço de tempo pelas mesmas penas; quais penalidades elas enfrentam; se são mais rigorosas que as da vida presente e mais leves que as do inferno; se as almas do purgatório rezam por si mesmas e por nós que ainda estamos neste mundo; se se entregam à prática das boas obras, etc, etc. Todas essas opiniões têm pouco valor mesmo para os teólogos de Roma e poucos se empenharam seriamente em respondê-las.

***

Breve síntese [não pertence ao texto do Metropolita Macário]
 
A Igreja Ortodoxa crê que:

1) Há pessoas que morreram com fé e arrependimento, mas que são "detidas no Hades" (a expressão é de S. Basílio), seja porque "não tiveram tempo de produzir frutos de arrependimento", seja porque cometeram "faltas leves" e, assim, ainda não receberam pleno perdão e purificação de seus pecados.

2) A Igreja ora e oferece sacrifícios por essas almas, implorando a misericórdia de Deus em favor delas. É essa intercessão que traz-lhes a libertação, perdão, purificação e plena entrada no paraíso, não o pagamento de débitos de expiação ("penas temporais").

Já o sistema romano ensina  que as orações da Igreja servem mais para aliviar o sofrimento das almas que ainda devem pagar penas temporais. É o pagamento dessas penas, pelo sofrimento expiatório (no fogo do Purgatório), que as liberta. Daí a existência de indulgências, que consistem na aplicação de méritos para cobrir (pagar) esses débitos de penas temporais. Não há indulgências na Igreja Ortodoxa.

Fé e Vida na unidade da Igreja


A Igreja, ainda mesmo sobre a terra, não vive uma vida humana terrena mas uma vida de Graça que é Divina. Deste modo, não apenas em cada um dos seus membros, mas como um todo, proclama-se Santa solenemente. A sua manifestação visível está contida nos Sacramentos; mas a sua vida interior está nos Dons do Espírito Santo, na Fé, na Esperança e no Amor. Oprimida e perseguida por inimigos exteriores, por vezes agitada e dilacerada interiormente pelas pecaminosas paixões dos seus filhos, sempre foi e será preservada sem vacilações ou mudanças enquanto os Sacramentos e a santidade espiritual forem preservados. Nunca está desfigurada ou necessitada de reformas. Ela não vive sob uma lei de escravidão, mas sob uma lei de liberdade. Não reconhece nenhuma autoridade sobre ela, exceto a sua própria, nem nenhum outro tribunal, somente o tribunal da Fé (por razões que não compreende), e exprime o seu Amor, a sua Fé e a sua Esperança nos seus pregadores e ritos, que lhe foram sugeridos pelo Espírito de Verdade e pela Graça de Cristo. Assim, os seus próprios ritos, mesmo que não sejam imutáveis (porque foram compostos com Espírito de liberdade e podem ser mudados de acordo com o julgamento da Igreja) nunca podem, em caso algum, conter qualquer (nem mesmo a mais pequena mistura) erro ou falsa doutrina. E os ritos da Igreja, enquanto não forem mudados, são da obrigação dos membros da Igreja porque na sua observância está a alegria da santa unidade.

A unidade exterior é a unidade manifestada na comunhão dos Sacramentos enquanto que a unidade interior é a unidade do Espírito. Muitos se salvaram (alguns dos mártires, por exemplo) sem terem participado de nenhum dos Sacramentos da Igreja (nem mesmo do Batismo), mas ninguém é salvo sem ter participado da santidade interior da Igreja, da sua Fé, Esperança e Amor, porque não são as obras que salvam mas a Fé. E a Fé, isto é, a Fé verdadeira e viva não é dúplice, mas única. Portanto, os que dizem que a Fé sozinha não salva e que as obras são também necessárias e aqueles que dizem que a Fé salva sem obras, sofrem de uma lacuna na compreensão desta matéria: porque se não há Obras, então a Fé está como morta e, se ela está morta é, além disso, falsa; porque na Fé verdadeira existe Cristo, a Verdade e a Vida. Se não é verdadeira então é falsa, isto é, um mero conhecimento exterior. Mas pode essa falsa fé salvar o homem? Se ela é verdadeira, então é também uma Fé viva, isto é, uma Fé operante. E se essa Fé já produz obras, que outras serão ainda necessárias?

O Apóstolo divinamente inspirado dizia: "Mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras" (Tiago, 2-18). Ele reconhece porventura duas fés? Não, mas condena uma ostentação insensata. "Tu crês que há um Deus; fazes bem, mas também os demônios o crêem, e estremecem." Reconhece ele, porventura, que existe fé nos demônios? Não, mas detecta a falsidade de uma qualidade que até os demônios possuem. "O corpo," diz ele, "sem o espírito está morto, assim também, a fé, sem as obras é morta." Está ele a comparar a Fé com o corpo e as obras com o Espírito? Não, porque essa comparação seria falsa, mas o significado das suas palavras é claro: assim como um corpo sem o espírito não pode ser chamado com propriedade uma pessoa, mas um cadáver; assim também a fé que não produz obras não pode ser considerada verdadeira, mas falsa, isto é, um conhecimento exterior, infrutífero e até alcançável pelo demônio. Aquilo que está escrito com simplicidade deve também ser lido com simplicidade. Aqueles que interpretaram o Apóstolo Tiago de modo a provar a existência de uma fé morta e de uma fé viva e, portanto, a existência de duas fés, não compreenderam as suas palavras porque ele não testemunha isso, mas sim o contrário. De igual modo quando o Grande Apóstolo dos Gentios disse "para que serve a fé sem o amor, mesmo que essa fé remova montanhas?" (Cf. I Cor 13:2), ele não admite a possibilidade da existência dessa fé sem amor, mas assumindo essa possibilidade prova que seria inútil. A Sagrada Escritura não pode ser interpretada com conhecimento mundano, o qual colide com as palavras, mas sim com sabedoria divina e simplicidade espiritual. 0 Apóstolo, ao definir a fé, disse: "é a evidência das coisas não vistas e o fundamento das que se esperam" (Tg 2:18, N. dos T.), não simplesmente das coisas que aguardamos ou das que estão para vir. Se nós temos esperança também desejamos e se desejamos também amamos, porque é impossível desejar o que não se ama. Ou será que os demônios também têm esperança? No entanto existe apenas uma fé, e quando perguntamos: "A verdadeira fé pode salvar sem obras?" fazemos uma pergunta disparatada, ou pelo contrário, não fazemos pergunta nenhuma. Porque a Fé verdadeira é a Fé viva que produz obras, é a Fé em Cristo e Cristo na Fé.

Aqueles que se enganaram seguindo uma fé morta, isto é, uma fé falsa, ou um simples conhecimento exterior, em vez de uma Fé verdadeira, foram tão longe no seu erro que sem se aperceberem fizeram dela um oitavo falso sacramento. A Igreja tem Fé, mas é uma Fé viva, porque Ela também é santa. Mas se se presume que algum homem ou algum Bispo tem necessariamente fé, o que se poderia dizer? Que tem santidade? Não, porque pode cometer crimes ou imoralidades. Mas essa fé habita nele mesmo que seja pecador. Então a fé que habita nele é um oitavo sacramento, visto que qualquer Sacramento é a ação da Igreja no indivíduo mesmo que ele seja indigno. Mas através desse sacramento que espécie de fé habita nele? Uma fé viva? Não, porque é um pecador, mas uma fé morta, isto é, um conhecimento exterior acessível até aos demônios. E é isto um oitavo sacramento? Desta maneira um afastamento da verdade traz consigo a sua própria punição (Tg 2:19, N. dos T.).

Devemos compreender que nem a fé, nem a esperança e nem o amor salvam por si próprios, (salvar-nos-á a fé na razão, ou a esperança no mundo, ou o amor pela carne?). Mas é o objeto da Fé que salva. Se um homem crê em Cristo ele é salvo pela sua Fé em Cristo, se acredita na Igreja, é salvo pela Igreja. Se acredita nos Sacramentos de Cristo, é salvo por eles, porque Cristo Nosso Senhor está na Igreja e nos Sacramentos. A Igreja do Antigo Testamento era salva pela Fé num Redentor que viria. Abraão foi salvo pelo mesmo Cristo que nós. Ele possuía Cristo em esperança, enquanto que nós 0 possuímos em júbilo. Portanto, aquele que deseja o Batismo é batizado em esperança, enquanto que aquele que recebeu o Batismo o possui em júbilo. Ambos são salvos por uma Fé idêntica no Batismo. Mas alguém pode dizer: "se a Fé no Batismo salva, qual é a utilidade de ser realmente batizado?." Se não recebe o Batismo por que é que o desejou? E evidente que a fé que faz desejar o Batismo deve ser completada pelo próprio Batismo, que será o seu júbilo. Assim, também a casa de Cornélio recebeu o Espírito Santo antes de receber o Batismo, enquanto que o eunuco foi insuflado com o mesmo Espírito imediatamente depois do Batismo (Atos 10:44-47; 8:38; Cf. 2:38). Porque Deus pode glorificar o Sacramento do Batismo tanto antes como depois da sua administração. Assim, a diferença entre "opus operans" e "opus operatum" desaparece. Sabemos de muitos que não batizavam as suas crianças, de muitos que não lhes permitiam a comunhão dos Santos Mistérios e de outros que não os crismavam. Mas a Santa Igreja compreende as coisas de outra maneira batizando crianças, confirmando-as e admitindo-as à Comunhão. Ela determinou estas coisas não por condenar as crianças não batizadas, cujos anjos sempre contemplam a face de Deus (Mat. 18:10), mas de acordo com o Espírito de Amor que vive no seu seio, de maneira que os primeiros pensamentos de uma criança chegada à idade do entendimento sejam não apenas um desejo, mas também uma felicidade pelos Sacramentos que já tem recebido. E pode alguém conhecer a alegria de uma criança que, segundo tudo indica, não chegou ainda ao entendimento? Não exultou, porventura, de alegria, por Cristo o profeta ainda não nascido? (Lucas 1:41)? Privaram as crianças do Batismo, da Confirmação e da Comunhão os que herdaram a cega razão do paganismo fanático e não compreenderam a majestade dos Sacramentos de Deus, exigindo razões e costumes para tudo e, tendo submetido a doutrina da Igreja a explicações escolásticas, nem sequer desejam rezar, a não ser que vejam na oração algum objetivo direto ou alguma vantagem. Mas a nossa lei não é de escravidão ou de trabalho mercenário, trabalhando pelo salário, mas uma lei de adoção de filhos e de Amor que é livre.

Nós sabemos que quando um de nós cai, cai sozinho. Mas ninguém é salvo sozinho. Aquele que é salvo, o é na Igreja, como membro dela, e em unidade com todos os seus outros membros. Se alguém crê, então está em comunhão de Fé; se ama, está em comunhão de Amor; se reza está em comunhão de Oração. Por conseguinte, ninguém pode fundamentar a sua esperança nas suas próprias orações, e quando alguém reza pede à Igreja no seu conjunto que interceda, não porque tenha dúvidas da intercessão de Cristo, o único Advogado, mas na certeza de que toda a Igreja reza sempre por todos os seus membros. Todos os anjos rezam por nós, os Apóstolos, os Mártires e os Patriarcas e, acima de todos eles, a Mãe de Nosso Senhor, e esta santa unidade é a verdadeira vida da Igreja. Mas se a Igreja, visível e invisível, reza sem cessar, porque é que lhe havemos de pedir que reze? Não pedimos nós misericórdia a Cristo Deus, apesar da Sua misericórdia antecipar as nossas orações? A única razão pela qual nós pedimos à Igreja que reze é porque sabemos que Ela dá a assistência da sua intercessão mesmo àqueles que a não pedem. E para aqueles que a pedem Ela concede-a numa medida muito maior do que aquela que foi pedida, porque Nela está a plenitude do Espírito de Deus. Assim, nós glorificamos todos aqueles que Deus glorificou e glorifica, porque como haveríamos de dizer que Cristo está vivo dentro de nós se não nos assemelharmos a Cristo? Portanto, nós glorificamos os Santos, os Anjos, os Profetas e acima de todos a Puríssima Mãe de Nosso Senhor Jesus, não reconhecendo que Ela tenha sido concebida sem pecado ou que tenha sido perfeita (porque somente Cristo é sem pecado e perfeito), mas recordando que a primazia, para lá de todo o entendimento humano, que Ela tem acima de todas as criaturas de Deus, testemunhada pelo anjo e por Isabel e, acima de todos, pelo próprio Salvador quando apontou João, o Seu grande Apóstolo e profeta dos mistérios, para desempenhar os deveres de filho e para A servir.

Na medida em que cada um de nós requer orações de todos, assim cada um deve dirigir as suas orações em benefício de todos (os vivos e os mortos, e mesmo aqueles que ainda não nasceram). Ao rezar, nós o fazemos com toda a Igreja, para que o mundo possa atingir o conhecimento de Deus. Nós rezamos não somente pela geração presente, mas também por aqueles que no futuro Deus quiser chamar à vida. Nós rezamos pelos vivos para que a Graça de Deus desça sobre eles e pelos mortos, para que se tornem merecedores da visão da face de Deus. Nós não conhecemos nenhum estado intermediário para as almas que ainda não foram recebidas no Reino de Deus nem condenadas ao tormento, porque dum estado como esse não recebemos qualquer ensinamento nem dos Apóstolos nem de Cristo. Não reconhecemos o Purgatório, isto é, a purificação das almas pelo sofrimento através do qual possam ser redimidas pelas suas próprias obras ou pelas de outrem. Porque a Igreja não sabe nada acerca da salvação por meios exteriores, nem através de sofrimentos, sejam eles quais forem, exceto os de Cristo, nem por negócio com Deus, como no caso do homem que quer comprar a sua salvação através de boas obras.

Todo este paganismo permanece com os herdeiros da sabedoria pagã, com aqueles que se orgulham da posição, nome ou domínio territorial e que instituíram um oitavo sacramento de fé morta. Mas nós rezamos em espírito de amor, sabendo que ninguém será salvo de outro modo que não seja pelas orações de toda a Igreja, na qual Cristo vive, sabendo e acreditando que enquanto não chegarem os fins dos tempos todos os membros da Igreja, tanto os vivos como os que já partiram, estão incessantemente a ser aperfeiçoados pelas orações recíprocas. Os Santos que Deus glorificou estão muito acima de nós, mas acima de todos está a Santa Igreja que contém no seu interior todos os Santos e reza por todos, como se pode constatar na Liturgia divinamente inspirada. Na Sua oração a nossa oração é também ouvida, ainda que sejamos indignos de ser chamados filhos da Igreja. Se enquanto veneramos e glorificamos os Santos rezamos para que Deus os glorifique, não ficamos sujeitos ao peso do orgulho, porque a nós que recebemos autorização para chamar a Deus "PAI NOSSO" foi-nos concedido igualmente rezar: "Santificado seja o Teu Nome, venha a nós o Teu Reino, seja feita a Tua Vontade." E se nos é permitido pedir que Deus glorifique o Seu Nome e cumpra a Sua Vontade, quem nos proibirá de Lhe rezarmos para que glorifique os Seus Santos e que dê repouso aos Seus eleitos? Porque por aqueles que na verdade não pertencem ao número dos eleitos nós não rezamos, assim como Cristo não rezou por todo o mundo mas por aqueles que o Pai Lhe confiou (João 17). Ninguém diga: "Que oração devo repartir pelos vivos e pelos que já partiram, quando as minhas orações são insuficientes até para mim próprio?." Porque se não se é capaz de rezar, de que servirá faze-lo nem que seja só por si próprio? Mas em verdade o Espírito de amor reza em nós. De igual modo ninguém diga: "Qual é o benefício da minha oração por outro, quando ele reza por si próprio e Cristo intercede por ele?." Quando um homem reza, é o Espírito de amor que reza dentro dele. Que ninguém digas: "impossível modificar o julgamento de Deus," porque as tuas orações estão incluídas nos planos de Deus e Ele previu isso. Se és um membro da Igreja, as tuas orações são necessárias para todos os seus membros. Se a mão disser que não necessita do sangue do resto do corpo e, por sua vez, não lhe der o seu sangue, ela definhará. Assim, qualquer membro é também necessário à Igreja, enquanto permanecer no seu seio e, se se afastar da comunhão com Ela, sucumbe e deixa de ser um membro da Igreja. A Igreja reza por todos e nós rezamos conjuntamente também por todos, mas a nossa oração deve ser verdadeira, uma autêntica expressão de amor e não um mero formalismo de palavras. Não conseguindo amar todos os homens, nós rezamos por aqueles que amamos e a nossa oração não é hipócrita. E rezamos a Deus para que possamos amar e rezar por todos sem hipocrisia. O sangue da Igreja é a oração recíproca, e o seu alento – a glorificação de Deus. Nós rezamos em Espírito de amor, não por interesse: em espírito de liberdade filial, não segundo a lei do mercenário que exige o seu pagamento. Todo aquele que pergunta: "Qual é a utilidade da oração?," reconhece-se em servidão. A verdadeira Oração é o verdadeiro Amor.

O Amor e a Unidade estão acima de tudo, mas Amor exprime-se de muitas maneiras: por obras, pela oração e por cânticos espirituais. A Igreja dá a sua benção a todas estas expressões do Amor. Se alguém não for capaz de exprimir o seu amor por Deus através de palavras, mas através de uma representação visível, isto é, uma imagem (ícone), a Igreja condena-o? Não, mas Ela condenará aquele que o condenar, porque está a condenar o Amor de outrém. Sabemos que sem o uso de uma imagem o homem também pode ser salvo e tem sido salvo, e se o amor de alguém não requerer nenhuma imagem então será salvo sem ela. Mas se o amor de um irmão requerer uma imagem, então quem condenar o amor desse irmão condena-se a si próprio. Se um cristão não se atreve a ouvir sem um sentimento de reverência uma oração ou um cântico espiritual composto por um seu irmão, como é que se atreve a olhar sem reverência para uma imagem que o amor desse irmão, e não as suas qualidades artísticas produziram? 0 Senhor, que conhece os segredos do coração, mais do que uma vez glorificou uma oração ou um Salmo. Alguém 0 poderá proibir de glorificar uma imagem ou as sepulturas dos santos? Qualquer pode dizer: "O Antigo Testamento proibiu as representações de Deus," mas esse que julga entender melhor do que a Santa Igreja as palavras que Ela própria escreveu (isto é, as Escrituras) não percebe que não foi a representação de Deus que o Antigo Testamento proibiu (porque permitiu também o Querubim, a serpente de bronze e a escrita do Nome de Deus), mas sim que o homem fizesse para si próprio um Deus à semelhança de qualquer objeto da terra ou do céu, visível ou mesmo imaginário?

Se alguém pinta uma imagem para se lembrar do Deus invisível e inconcebível, não está a fazer para si um ídolo. Se imagina Deus por si próprio e pensa que Ele é como lhe apresenta a sua imaginação, então fabrica para si próprio um ídolo — é este o significado da proibição do Antigo Testamento. Mas uma imagem – ícone — (isto é, o Nome de Deus pintado a cores), ou uma representação dos Seus Santos, feita por amor, não é proibida pelo Espírito de Verdade. Que ninguém diga: "Os cristãos estão a caminho da idolatria," porque o Espírito de Cristo que preserva a Igreja é mais sábio do que a ciência calculista do homem. Um homem pode, na realidade, ser salvo sem imagens; no entanto não deve rejeitar as imagens.

A Igreja aceita qualquer rito que exprima uma aspiração espiritual em relação a Deus, assim como aceita orações e imagens (ícones), mas reconhece acima de todos os ritos a Sagrada Liturgia, pela qual se exprime toda a amplitude da Doutrina e Espírito da Igreja, e isto não apenas por sinais convencionais ou símbolos de qualquer espécie, mas pela palavra de vida e verdade inspirada de cima. Somente conhece a Igreja aquele que compreende a Liturgia. Acima de tudo isto está a unidade da Santidade e do Amor.

- Alexei Khomiakov, A Igreja é Una