por Michael Bressem, Ph.D.
Publicado originalmente em The Path of Orthodoxy, vol. 42, nos. 4/5, abril/maio de 2008.
Comparado ao culto contemporâneo da maioria das igrejas protestantes e das igrejas católicas romanas pós-Vaticano II, o culto da Igreja Ortodoxa parece excessivamente formal, complicado e rígido em suas rubricas. Por que há tantos rituais na Igreja Ortodoxa? Por que não há mais espontaneidade, criatividade e liberdade de expressão? Por que o serviço dominical ortodoxo — a Divina Liturgia — é essencialmente o mesmo semana após semana, todos os anos, há mais de mil e quinhentos anos? A maioria dos fiéis ortodoxos responderia: "Porque é a nossa Tradição." Mas você sabe por que é a nossa Tradição e por que os rituais são tão importantes para a nossa Fé cristã?
A Necessidade de Paz e Ordem
Na verdade, a Bíblia e os Padres da Igreja raramente usam a palavra "ritual" ou "rito" ao descrever as práticas cerimoniais religiosas judaicas ou cristãs. As palavras mais frequentemente usadas são "ordenanças" e "observâncias". Essas palavras descrevem melhor o que deveria estar acontecendo. Para muitos, os "ritos" são apenas uma série de comportamentos que as pessoas costumeiramente executam sem conhecer seu significado — talvez houvesse outrora uma razão para o comportamento, mas agora as pessoas simplesmente "cumprem as formalidades".
Uma "ordenança" é um decreto que regulamenta uma atividade (Hebreus 9:1) — mantendo-a dentro de uma sequência ou limite determinado. Com relação aos serviços de culto, o Apóstolo Paulo afirmou: "todas as coisas sejam feitas com decência e ordem" (1 Coríntios 14:40). A razão para isso é dada num versículo anterior: "Deus não é Deus de desordem, mas de paz" (v.33). De fato, São Paulo elogia a Igreja de Colossos por quão ordenada (τάξιν) ela é (Colossenses 2:5). Sendo que a nossa atual Liturgia de São João Crisóstomo é baseada na Liturgia do século I de São Tiago, o primeiro Bispo de Jerusalém, a Igreja Ortodoxa sempre praticou um padrão formal e ordenado em seu culto.
No entanto, a formalidade do culto remonta às práticas judaicas que começaram 13 séculos antes de Cristo com o êxodo de Israel do Egito. Deus, por meio de Moisés, deu detalhes explícitos sobre uma forma de culto muito ordenada e elaborada, centrada no Tabernáculo ou Templo. Por quê? Porque Deus sabe como é fácil para a humanidade discutir sobre diferenças nas práticas de culto a ponto de gerar confusão (Atos 19:32), preconceito (João 4:20) e violência (Gênesis 4:3-8). Não é difícil percorrer a história da humanidade e encontrar guerras justificadas em parte por disputas sobre crenças e práticas religiosas. Embora o conflito inter-religioso provavelmente continue (João 17:14), Deus quer prevenir o conflito intra-religioso dentro da Sua Igreja (João 17:22-23). Portanto, é necessário que a Igreja seja unificada em suas práticas de culto. A Igreja Ortodoxa manteve a unidade da Fé em parte preservando uma fórmula precisa em seu culto. Ao fazê-lo, a Igreja Ortodoxa evitou muita dissensão que tem afligido outros ramos do Cristianismo.
A Necessidade de Atenção e Memória
"Observância" denota a necessidade de prestar atenção e lembrar. Seis vezes durante a Divina Liturgia, o padre ou o diácono faz a exortação "Estejamos atentos!". Deus não quer que simplesmente compareçamos à igreja e habitualmente digamos e façamos os ritos enquanto nossa mente está ocupada com o trabalho, listas de compras ou uma discussão recente com o cônjuge. Tal culto não é "em espírito e em verdade" (João 4:23-24). Deus deseja que nos concentremos no que cada palavra dita e cada gesto feito alude dentro da Divina Liturgia (e outros serviços de culto). Isso exige disciplina da nossa parte, mas é por meio da disciplina que nos tornamos filhos e filhas justos do nosso Pai (Hebreus 12:4-11). Observar a Divina Liturgia nos disciplina a "fixar os olhos em Jesus, o autor e consumador da nossa fé" (Hebreus 12:2).
Somente prestando atenção ganharemos compreensão (Provérbios 4:1, 20; 5:1; 7:24; 22:17), encontraremos a direção de Deus para nós (Êxodo 23:20-21) e desfrutaremos da Sua bênção (Deuteronômio 7:12-13; 28:13). Atentar aos ensinamentos da Igreja, tanto pelas Escrituras (2 Pedro 1:19) quanto pela Tradição (Hebreus 2:1), nos mantém afastados da heresia. Uma boa definição bíblica de observância, que devemos recordar ao entrar numa igreja, é: "Mortal, olha atentamente e escuta com atenção, e aplica tua mente a tudo que Eu [Deus] te mostrar, pois foste trazido aqui para que Eu te mostrasse" (Ezequiel 40:4; cf. também Isaías 28:23; 34:1).
A Bíblia está repleta de exortações não apenas para prestar atenção, mas também para lembrar. Precisamos ser continuamente lembrados: de quem é Deus, de como Deus nos salvou, dos milagres que atestam o amor de Deus por nós, dos mandamentos que Deus nos ensinou, dos santos de outrora que nos inspiram, e também de lembrar daqueles que precisam de auxílio caritativo ou intervenção divina. O ponto culminante da Divina Liturgia é quando observamos o sacramento da comunhão, que foi ordenado por Deus para ser feito "em memória" de Cristo (Lucas 22:19; 1 Coríntios 11:24-25). Os serviços de culto ortodoxos, particularmente em suas ladainhas e hinos, são especificamente concebidos para nos ajudar a lembrar.
A Necessidade de Crescimento e Transformação
Alguns podem argumentar que é mais fácil perder a atenção nos serviços ortodoxos porque eles são muito repetitivos. Acredita-se que os serviços contemporâneos prendem melhor a atenção porque mudam de semana a semana e são, portanto, mais estimulantes. Primeiramente, deve-se notar que os serviços ortodoxos não são completamente repetitivos — as leituras, as homilias e alguns hinos mudam toda semana. Em segundo lugar, a repetição nos faz bem: é assim que aprendemos. Além de ser uma assembleia pela qual damos a Deus o que Lhe é devido — louvor e ação de graças — os serviços de culto ortodoxos são também salas de aula de instrução sobre como crer e agir corretamente.
Parte da razão pela qual o culto da Igreja Ortodoxa é tão ritualístico é porque uma grande quantidade de informação está sendo condensada num serviço de noventa minutos. Você pode passar décadas indo às Divinas Liturgias todos os domingos e ainda não esgotar toda a riqueza simbólica de significados encontrada nessa cerimônia. A Divina Liturgia é imutável porque sua fórmula funciona para nos ajudar a crescer em conhecimento e virtude para nos tornarmos semelhantes a Cristo — que é o propósito de nossas vidas (Colossenses 1:28-29; 2 Pedro 3:18). Mesmo que nossa atenção ocasionalmente se desvie (o que não deveria acontecer!), algo do serviço ainda é absorvido em nosso espírito para abençoar nossas almas. A repetição é transformadora. Com o tempo, a Divina Liturgia torna-se mais do que uma ordenança ou uma observância; torna-se algo intimamente parte de nossas vidas — como os batimentos do nosso coração (e ninguém reclama quando o coração mantém o mesmo ritmo que nos dá vida!).
Os serviços de culto contemporâneos de igrejas não ortodoxas podem ser muito entretenidos. Os instrumentos amplificados eletronicamente, os corais de louvor emocionais, a pregação dramática, as apresentações multimídia — tudo isso pode tornar um serviço agradável. Porém, assistir à TV, ir ao cinema ou estar num concerto de música também podem ser prazerosos. No entanto, quanto realmente nos lembramos desses eventos? Quanto nos ajuda a crescer em direção à maturidade na Fé (Hebreus 5:12-6:1)? Devemos nos perguntar se o culto foi destinado por Deus a ser entretenimento. O culto não deveria ser algo diferente do que o mundo produz? O culto não deveria ser algo que reverencia a Deus em vez de recrear a congregação?
A Necessidade de um Culto Custoso
"Liturgia" significa "obra do povo". Deus deseja que O amemos com todo o nosso coração, toda a nossa alma e com todas as nossas forças (Deuteronômio 6:5, ênfase acrescentada). Participar da Divina Liturgia não é uma experiência fisicamente confortável: há ficar em pé, ajoelhar-se e prostrar-se. Não se deve (ou não se deveria!) apenas assistir passivamente a uma apresentação num serviço da Igreja Ortodoxa. O laicato é convidado a participar ao longo de todo o serviço na veneração dos ícones, no canto dos hinos, na recitação do Credo Niceno e na união de seus corações e vozes às orações. Se você não estiver um pouco cansado quando a Divina Liturgia terminar, é porque não adorou plenamente a Deus.
Embora o culto possa ser uma celebração alegre (Salmo 100:1-2), a Escritura deixa claro que Deus deseja que o culto também seja custoso. O primeiro ato de culto registrado foi a história de Caim e Abel, filhos de Adão e Eva, quando Deus aceita o sacrifício de Abel mas rejeita o de Caim (Gênesis 4:3-7). Deus explicou que não basta qualquer oferta, mas somente o melhor do que temos a dar receberá Sua aprovação. Os animais sacrificados a Deus tinham de ser sem defeito e, portanto, eram os mais valiosos do rebanho (Levítico 1:3). A Divina Liturgia foi refinada ao longo dos primeiros séculos para tornar-se o melhor serviço de culto que podemos oferecer a Deus. Permaneceu a mesma desde então porque nenhum teólogo ortodoxo conseguiu descobrir como torná-la melhor do que a versão do século IV de São João Crisóstomo.
Em Resumo
Os serviços de culto ortodoxos são ritualísticos porque:
- Deus deseja que nossos serviços sejam ordenados como reflexo de Si mesmo.
- Nosso Senhor deseja um padrão definido de culto para manter a unidade e evitar a dissensão.
- Os serviços exigem que nos disciplinemos a prestar atenção, lembrar e participar, para que possamos ser aperfeiçoados na Fé.
- O culto foi feito para ser custoso — exigindo o melhor do que temos para honrar a Deus.
"Portanto, como estamos recebendo um reino que não pode ser abalado, sejamos gratos, por meio do qual oferecemos a Deus um culto aceitável com reverência e temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor" (Hebreus 12:28-29).
"Convém que façamos tudo em ordem, o que o Senhor nos ordenou realizar nos tempos estabelecidos. Ele ordenou que as ofertas e os serviços fossem realizados. E estas coisas não devem ser realizadas de forma descuidada ou irregular, mas nos tempos e horas determinados." — São Clemente de Roma, 96 d.C.
