A questão central
A doutrina protestante da Substituição Penal (Penal Substitution, abreviada como PSub ou PSA) sustenta que Deus o Pai derramou sobre Jesus toda a Sua ira por causa dos nossos pecados, imputando-Lhe a culpa da humanidade, de modo que Jesus recebeu o castigo que nós merecíamos e assim obteve o perdão para os eleitos. Essa visão tem consequências muito específicas: requer que a culpa seja juridicamente transferida a Cristo, que Cristo sofra uma punição equivalente à danação eterna, e que Deus em algum sentido volte Sua cólera contra o próprio Filho.
O que "expiação" (kaphar) significa nas Escrituras
O termo hebraico central para "expiação" é kaphar, que aparece cerca de noventa vezes no Antigo Testamento, especialmente no contexto dos sacrifícios levíticos. Sua semântica fundamental é "cobrir", "propiciar", "expiar", "aplacar". O que os textos revelam, quando analisados em conjunto, é que kaphar nunca descreve a transferência de uma punição a um substituto inocente. Ele descreve o ato de aplacar a ira divina por meio de uma oferta, uma ação mediadora ou uma obra de fidelidade, sem que isso implique que alguém inocente sofra o castigo que o culpado merecia.
Gênesis 32:20, por exemplo, usa a raiz de kaphar quando Jacó planeja "apaziguar" (kaphar) a ira de Esaú com presentes: "talvez ele me aceite." Não há transferência de punição; há um gesto de buscar o agrado por meio de um dom. Em Êxodo 32:30, Moisés diz ao povo: "Talvez eu possa expiar (kaphar) o vosso pecado" — e o que ele faz é interceder diante de Deus em oração e penitência, não receber uma culpa no lugar do povo. O Salmo 106:23 confirma: "Disse que os destruiria, se Moisés, seu escolhido, não se pusesse na brecha diante dele, para desviar a sua ira." A ira foi desviada pela intercessão, não redirecionada para um substituto inocente.
O episódio de Fineias em Números 25 também é interessante. Em resposta à fornicação cultual de Israel com as moabitas, uma praga começa a devastar o povo. Fineias "se levantou e intercedeu" (Sl 106:30) — não morreu no lugar do povo, não recebeu a punição deles — e "a ira do Senhor cessou" (Nm 25:11). O texto declara que por isso o Senhor "fez expiação (kaphar) pelo povo de Israel." A expiação foi efetivada por uma obra justa, não por uma transferência penal.
Provérbios 16:6 vai ainda mais longe: "Pela misericórdia e pela fidelidade (hesed we'emet) a iniquidade é expiada (kaphar)." A fórmula é explícita: amor e fidelidade fazem expiação. Isso é totalmente incompatível com a ideia de que só a punição de um substituto pode expiar. Números 16:46 descreve Arão correndo com o incensário em meio à congregação, "fazendo expiação" enquanto a praga já alastrava — e a praga parou. Ele ficou literalmente "entre os mortos e os vivos" (Nm 16:48), mediando pela vida do povo sem receber qualquer punição em seu lugar.
Há ainda casos em que a expiação é feita para objetos inanimados: o altar (Êx 29:36-37; Lv 16:33), a terra (Nm 35:33), uma casa (Lv 14:49-53). É evidente que um altar não pode receber uma pena. O que a expiação faz, nesses casos, é purificar e consagrar — o que confirma que seu núcleo semântico é de limpeza e purificação, não de punição transferida.
Outro dado fundamental é Levítico 5:11-13, que permite que o pobre ofereça um punhado de farinha de trigo como oferta pelo pecado (chattat), quando não puder pagar o animal. Uma farinha de trigo, obviamente, não pode sofrer ou receber uma pena. Portanto, a lógica da substituição penal não encontra ancoragem nos próprios sacrifícios levíticos.
A lógica do sacerdócio e o significado de "carregar o pecado"
Um elemento crucial que distorce toda a leitura protestante é a incompreensão do papel do sacerdócio levítico. Quando um israelita pecava e precisava fazer expiação, ele não fazia a expiação por si mesmo: entregava sua oferta ao sacerdote, "e o sacerdote fará expiação por ele" (Lv 4:20, 26, 31, 35; 5:6, 10, 13, 16, 18; 6:7). Deus opera por meio de mediadores santos. O pecador matava o animal; mas era o sacerdote que fazia a expiação aplicando o sangue conforme o ritual. Essas duas ações eram distintas e separadas. A expiação ocorria após a morte do animal e dependia da ação sacerdotal, não do simples fato de um ser inocente ter morrido.
O texto chave para entender o que significa "carregar o pecado" (nasa + avon) no contexto sacerdotal é Levítico 10:17. Moisés repreende Eleazar e Itamar por não terem comido da cabra do sacrifício pelo pecado: "Por que não comestes a oferta pelo pecado no lugar santo? Porque é santíssima e Ele vo-la deu para que carregueis (nasa) a iniquidade da congregação, para fazerdes expiação por eles diante do Senhor." O texto vincula diretamente o "carregar a iniquidade" ao ato sacerdotal de "fazer expiação." "Carregar o pecado" do povo não significa que o sacerdote se torna culpado ou recebe uma punição; significa que ele assume a responsabilidade de mediar a expiação. A culpa não é imputada ao sacerdote; a função de fazer a expiação lhe é confiada.
Esse significado é confirmado em Êxodo 28:38, onde a placa de ouro na testa de Arão servia para que "Arão carregue (nasa) a culpa das coisas sagradas" — ou seja, para que ele intercedesse pelas faltas do povo no culto. Também em Números 18:1, 23: os levitas "carregarão (nasa) a iniquidade conectada ao santuário" e "carregarão a iniquidade" para que o povo não precise se aproximar do tabernáculo e morrer. Eles carregam no sentido de suportar o peso da responsabilidade litúrgica.
Essa distinção esvazia a interpretação protestante de 1 Pedro 2:24 e Isaías 53:11 como "Jesus carregou nossa culpa e recebeu nossa punição." Quando Jesus "carrega nossos pecados," como sacerdote, isso significa que Ele assume a função mediadora de fazer expiação por nós, não que a culpa nos é removida e colocada sobre Ele, como se Ele se tornasse o réu em nosso lugar.
O verbo grego anaphérō em 1 Pedro 2:24
Há ainda um argumento linguístico importante sobre o verbo grego usado em 1 Pedro 2:24, "Ele mesmo levou (anaphérō) os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro." O termo grego anaphérō (ἀναφέρω) não significa primariamente "carregar" um peso, mas sim "oferecer em sacrifício" ou "ir para cima." Das suas nove ocorrências no Novo Testamento, ele jamais é usado para "carregar" algo no sentido comum: designa "subir um monte" (Mt 17:1; Mc 9:2), "subir ao céu" (Lc 24:51), e "oferecer um sacrifício" (Hb 7:27; 9:28; 13:15; Tg 2:21; 1 Pd 2:5). O fato de que na Septuaginta (LXX) esse mesmo verbo, em mais de 150 ocorrências, refere-se a um sacrifício na maioria dos casos — como em Gn 8:20; 22:2-3; Êx 24:5; 29:18, 25; Lv 4:31 — torna muito provável que em 1 Pedro 2:24 o sentido seja "apresentar nossos pecados (a Deus) em sacrifício" ou "elevar nossos pecados diante de Deus," e não "receber a imputação da culpa por eles." O versículo 2:5 do mesmo capítulo usa anaphérō exatamente no sentido de oferecer sacrifícios espirituais a Deus, o que confirma que Pedro usa o termo com conotação sacrificial-sacerdotal, não com conotação de imputação penal.
Ademais, o próprio contexto imediato de 1 Pedro 2:24 é irreconciliável com a Substituição Penal: "Para isso fostes chamados, porque também Cristo padeceu por vós, deixando-vos um exemplo para que sigais os seus passos" (1 Pd 2:21). Cristo é apresentado como exemplo a ser imitado. Isso faz sentido na visão da expiação como amor oblativo, martírio e sacrifício sacerdotal. É completamente absurdo se o modelo foi Cristo recebendo a punição divina em nosso lugar — pois ninguém poderia nem deveria imitar esse ato.
Isaías 53: a questão do "esmagamento" e da Septuaginta
Um dos versículos mais citados pelos defensores da Substituição Penal é Isaías 53:10 do Texto Massorético (TM): "Ao Senhor aprouve esmagar (dakah) o seu servo." À primeira vista, a palavra "esmagar" parece indicar que o Pai infligiu ativamente um castigo sobre Jesus. Mas é aqui que a Septuaginta (LXX) — a tradução grega do Antigo Testamento feita séculos antes de Cristo, utilizada pelos apóstolos e pelos Pais da Igreja primitiva — oferece uma leitura notavelmente diferente: "O Senhor se agradou de purificar (katharísai) o servo dos seus golpes." O termo grego denota purificação e limpeza, não esmagamento judicial.
Essa leitura da LXX é a que os Padres da Igreja citam consistentemente:
- Clemente de Roma (c. 96 d.C.): "O Senhor se agrada de purificá-Lo pelos açoites." (Ep. aos Coríntios, 16)
- Justino Mártir: "O Senhor se agrada de limpá-Lo da ferida." (1 Apologia, 51; Diálogo com Trifão, 13)
- Agostinho: "O Senhor se agrada de purgar-Lo da miséria." (Batismo das Crianças, 1.54; Harmonia dos Evangelhos, 1.47)
- João Crisóstomo: "Agrada ao Senhor limpá-Lo da Sua ferida." (Homilias sobre 1 Coríntios, 38)
O padrão é uniforme: a Igreja primitiva entendia que Deus não esmagou o Servo com castigo penal, mas que o purificou de Suas feridas. A palavra grega do versículo 5 da mesma perícope, traduzida às vezes como "punição" (paideia), é em toda a Bíblia o termo para correção paternal, para a disciplina de um pai sobre um filho — como em Hebreus 12:5-11 — e jamais o termo técnico para punição judicial. "O castigo que nos traz a paz estava sobre Ele" (Is 53:5) deveria ser traduzido como "a disciplina que nos traz cura estava sobre Ele," o que é muito diferente de "a punição jurídica que nos era devida foi descarregada sobre Ele."
Isaías 53:6 e a Septuaginta: o Pai "entregou" Jesus, não "derramou Sua ira"
Uma das provas textuais mais fortes para a leitura não-penal de Isaías 53 vem da comparação entre o Texto Massorético e a LXX no versículo 6. O TM diz: "O Senhor fez incidir sobre ele (hiph'il de paga') a iniquidade de todos nós." A LXX traduz: "O Senhor o entregou (paredōken) por causa dos nossos pecados." Note-se que essa é a mesma palavra grega que Paulo usa em Romanos 4:25 ("Ele foi entregue por causa das nossas transgressões") e em Romanos 8:32 ("Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós"). O único lugar do Antigo Testamento onde aparece essa expressão — "entregar por causa dos pecados" — é na LXX de Isaías 53:6 e 53:12.
Isso demonstra que Paulo tinha em mente, de forma primária, a leitura grega de Isaías 53. E essa leitura não diz que o Pai derramou Sua ira sobre Jesus, mas que o Pai "entregou" Jesus nas mãos dos homens, permitindo providencialmente que judeus e romanos o capturassem e crucificassem (cf. Jo 7:30; 8:20; Mt 26:53). Estudiosos de exegese reformados e luteranos de renome — como Leon Morris, Cranfield, Douglas Moo, Charles Hodge e Thomas Schreiner — reconhecem sem hesitação que Rm 4:25 e 8:32 se referem à LXX de Is 53:6,12. Isso não significa que haja contradição entre TM e LXX; significa que os tradutores gregos captaram a nuance idiomática do hebraico e os apóstolos usaram essa tradução como chave interpretativa.
Sabedoria 3 e os paralelos com Isaías 53
O livro de Sabedoria (usado por Paulo — cf. Rm 9:20 citando Sb 15:7) contém em Sabedoria 3:1-9 um texto que faz eco impressionante com Isaías 53. O texto diz que as almas dos justos que sofreram são aceitas por Deus "como holocausto" (holokaútōma), que sua disciplina (paideia) foi pequena mas sua recompensa será grande, e que aqueles que os observavam de fora pensavam erroneamente que eram castigados, mas na verdade estavam em paz e esperança. O ponto é explícito: sofrer não significa ser punido por Deus. O sofrimento do justo pode ser a via pela qual Deus o aceita e através da qual outros são salvos.
Isso ilumina o Servo Sofredor de Isaías 53: aqueles que "o consideramos atingido, ferido por Deus e oprimido" (Is 53:4) estavam enganados quanto à natureza do seu sofrimento. A multidão equivocada pensou que Deus o estava punindo; a revelação do profeta é que, na verdade, "era pelas nossas transgressões que ele era traspassado" — ou seja, era por nós, não em virtude de culpa dele ou de punição divina contra ele.
Jeremias e Lamentações sobre o sentido de "carregar a iniquidade"
Lamentações 5:7 — "Nossos pais pecaram e já não existem mais; somos nós que carregamos (nasa'nu) suas iniquidades (avonotehem)" — oferece outra chave hermenêutica preciosa para entender o que significa "carregar iniquidade" em Isaías 53. A geração exilada que fala em Lamentações não é juridicamente punida pelos pecados de seus pais; o texto não sugere nenhuma imputação jurídica de culpa. O que ela faz é suportar as consequências históricas e solidárias que fluíram do pecado alheio — a destruição de Jerusalém, o exílio, a humilhação nacional. "Carregar a iniquidade" de outro, portanto, descreve neste contexto uma solidariedade no sofrimento, não uma transferência de culpa: o inocente pode sofrer o que o pecado gerou no mundo sem que isso implique que Deus o esteja punindo ou que a culpa lhe tenha sido atribuída. Transposta para Isaías 53, essa lógica clarifica que quando o Servo "carrega (nasa) as iniquidades de muitos" (Is 53:11), o texto pode estar afirmando exatamente o mesmo: o Servo entra em solidariedade com um povo cujos pecados produziram sofrimento, absorve as consequências que deles fluem, e através dessa imersão mediatorial intercede e expia — sem que isso requeira a imputação de culpa ou o redirecionamento da ira divina sobre ele.
Esse quadro interpretativo recebe ainda mais força quando se percebe que o próprio Jeremias é descrito, dentro do seu livro, com uma linguagem que antecipa o Servo Sofredor de Isaías 53. A semelhança mais direta está em Jeremias 11:19, onde o profeta diz de si mesmo: "Eu era como um cordeiro manso (kebes) levado ao matadouro (tibah)." O substantivo hebraico tibah — "matadouro" — é exatamente o mesmo de Isaías 53:7: "como ovelha levada ao matadouro (tibah)." Jeremias é perseguido por seu próprio povo, rejeitado pelos sacerdotes e pelos profetas, jogado numa cisterna para morrer — e tudo isso por fidelidade à Palavra de Deus. Mas ao mesmo tempo ele exerce um papel intercessório contínuo: em Jeremias 18:20 ele clama a Deus dizendo "Lembra-te de como me pus diante de Ti para falar bem deles, para desviar (hashib) a Tua ira deles." Em Jeremias 15:11 ele afirma ter intercedido até em favor dos seus inimigos. O verbo paga' — interceder, "estar na brecha" — que aparece em Isaías 53:12 ("ele intercedeu pelos transgressores") é precisamente o vocabulário da intercessão profética, da qual Jeremias é um representante. Assim, Isaías 53 não cria do nada uma figura estranha à tradição israelita: ele projeta sobre o Servo Sofredor o arquétipo do profeta intercessor, do justo perseguido que, como Jeremias, sofre por causa do pecado de outros e ainda assim permanece diante de Deus a favor deles — modelo que aponta para Cristo como Sumo Sacerdote e profeta que consuma em Si toda a tradição de intercessão e solidariedade mediatorial da história de Israel.
A propiciação (hilasterion) e Romanos 3:25
Romanos 3:25 diz que Deus "apresentou [a Cristo] como propiciação (hilastérion) pela sua morte, mediante a fé, para demonstrar a sua justiça." O termo grego hilastérion é o mesmo que a LXX usa para o propiciatório (kaporeth), a tampa da Arca da Aliança, o lugar onde Deus Se manifestava e onde o sangue era aspergido no Dia da Expiação. Propiciar significa "aplacar a ira" ou "cobrir o pecado," mas não necessariamente redirecionar a ira para uma vítima inocente. Como todos os exemplos do Antigo Testamento demonstram — Moisés, Fineias, Arão com o incensário, os sacrifícios do Dia da Expiação — a propiciação ocorre por meio de uma ação santa e mediadora que desvia a ira, não que a concentra sobre um inocente.
Há um paralelo em 4 Macabeus 17:21-22, ao descrever o martírio de Eleazar e da Mãe dos Sete Filhos no período do rei Antíoco: "Eles trocaram suas vidas pelo pecado da nação. O sangue desses piedosos foi propiciação (hilasterion) para Deus." O mesmo termo raro que Paulo usa em Romanos 3:25 aparece aqui. Eleazar era um homem justo, não estava sendo punido por Deus, mas oferecia sua vida em fidelidade à Torá — e esse ato foi chamado de propiciação. Seu sangue purificou Israel e desviou a cólera divina. Não há transferência de culpa, não há ira de Deus contra Eleazar; há um justo que morre por amor ao seu povo, e Deus aceita essa boa disposição como propiciatória.
Paulo, familiarizado com a literatura judaica do período, provavelmente tinha esses mártires dos Macabeus em mente ao escrever Romanos 3:25. A estrutura do pensamento é: assim como os mártires de Israel, cujo sangue fiel propiciou a Deus, — e de modo infinitamente superior — o sangue de Jesus propicia e expia, não porque Deus derramou Sua ira sobre Ele, mas porque Ele ofereceu a Sua vida em amor perfeito.
