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Ousamos ter esperança da salvação de todos? (Bispo Kallistos Ware)

The Collected Works, Volume I, The Inner Kingdom, St Vladimir's Seminary Press Crestwood, Nova York 2001, 193-215. Anterior publ. em Theology Digest 45:4 (1998), 303-17.



“Deus não é quem retribui o mal, mas corrige o mal”.
Santo Isaac, o Sírio.

1. “O amor não poderia suportar isso”

Existem algumas questões que, de qualquer forma em nosso estado atual de conhecimento, não podemos responder; e ainda, por mais irrespondíveis que essas questões possam ser, não podemos deixar de levantá-las. Olhando além do limiar da morte, perguntamos: como pode a alma existir sem o corpo? Qual é a natureza da nossa consciência desencarnada entre a morte e a ressurreição final? Qual é a relação precisa entre nosso corpo atual e o “corpo espiritual” (1 Coríntios 15:44) que os justos receberão na era vindoura? Por último, mas não menos importante, perguntamos: Podemos ousar ter esperança pela salvação de todos? É sobre esta última questão que desejo concentrar-me. Irresponsável ou não, é uma questão que afeta decisivamente toda a nossa compreensão do relacionamento de Deus com o mundo. Na conclusão final da história da salvação, haverá uma reconciliação abrangente? Será que cada ser criado eventualmente encontrará um lugar dentro da perichoresis [presença mútua] trinitária, dentro do movimento de amor mútuo que passa eternamente entre Pai, Filho e Espírito Santo?

O pecado é algo que convém existir,
mas Tudo ficará bem,
e Todo tipo de coisa ficará bem.

Temos o direito de endossar essa afirmação confiante de Juliana de Norwich, como T. S. Eliot faz no último de seus Four Quartets? Vamos colocar a questão de forma mais aguda apelando primeiro para as palavras de um monge ortodoxo russo do século XX e depois para o capítulo de abertura do Gênesis. O dilema que nos perturba está bem resumido em uma conversa gravada pelo Arquimandrita Sofrônio, discípulo de São Silouan do Monte Athos:

Era particularmente característico de Staretz Silouan orar pelos mortos que sofriam no inferno de separação de Deus... Ele não suportava pensar que alguém iria definhar nas “trevas exteriores”. Eu me lembro de uma conversa entre ele e um certo eremita, que declarou com evidente satisfação: “Deus punirá todos os ateus. Eles queimarão no fogo eterno”.

Obviamente chateado, o Staretz disse: “Diga-me, suponha que você foi para o paraíso, e lá olhou para baixo e viu alguém queimando no fogo do inferno - você se sentiria feliz?

“Não pode ser ajudado. Seria culpa deles próprios”, disse o eremita.

O Staretz respondeu com um semblante triste. "O amor não poderia suportar isso", disse ele. "Nós devemos orar por todos”.

Aqui exatamente o problema básico é colocado diante de nós. São Silouan apela à compaixão divina: “O amor não poderia suportar isso.” O eremita enfatiza a responsabilidade humana: “Seria sua própria culpa”. Somos confrontados por dois princípios aparentemente conflitantes: primeiro, Deus é amor; segundo, os seres humanos são livres.

Como devemos dar o devido peso a cada um desses princípios? Primeiro, Deus é amor, e esse amor é generoso, inesgotável, infinitamente paciente. Certamente, então, Ele nunca deixará de amar qualquer uma das criaturas racionais que Ele fez; Ele continuará a zelar por eles em Sua terna misericórdia até que eventualmente, talvez depois de incontáveis ​​eras, todos eles livre e voluntariamente voltem-se para Ele. Mas, nesse caso, o que acontece com nosso segundo princípio, os seres humanos são livres? Se o triunfo do amor divino é inevitável, que lugar há para a liberdade de escolha? Como podemos ser genuinamente livres se, em última instância, não há nada para escolhermos?

Reafirmemos a questão de uma maneira ligeiramente diferente. Na primeira página da Bíblia está escrito: “Deus viu tudo o que havia feito, e eis que era totalmente bom e formoso” (Gn 1:31, LXX). No início, isto é, havia unidade; todas as coisas criadas participavam plenamente da bondade, verdade e beleza do Criador. Devemos, então, afirmar que no final não haverá unidade, mas dualidade? Deve haver uma oposição contínua entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno, entre a alegria e o tormento, que permanece para sempre sem solução? Se começarmos afirmando que Deus criou um mundo que era totalmente bom, e se então sustentarmos que uma parte significativa de Sua criação racional terminará em uma angústia intolerável, separada dEle por toda a eternidade, certamente isso implica que Deus falhou em Sua obra de criação e foi derrotado pelas forças do mal. Devemos ficar satisfeitos com tal conclusão? Ou ousamos olhar, ainda que hesitantemente, além dessa dualidade, para uma restauração final da unidade quando “tudo estará bem”?

Rejeitando a possibilidade de salvação universal, C. S. Lewis declarou: “Alguns não serão redimidos. Não há doutrina que eu removeria mais voluntariamente do cristianismo do que esta, se estivesse em meu poder. Mas tem todo o apoio das Escrituras e especialmente das próprias palavras de Nosso Senhor; sempre foi mantido pela cristandade; e tem o apoio da razão.” Lewis está certo? O universalismo de fato contradiz as Escrituras, a tradição e a razão de uma maneira tão clara e indiscutível?

2. Duas vertentes nas Escrituras

Não é difícil encontrar textos no Novo Testamento que nos avisem, em termos aparentemente inequívocos, sobre a perspectiva de tormento sem fim no inferno. Tomemos apenas três exemplos, cada um consistindo de palavras atribuídas diretamente a Jesus.

Marcos 943, 47-48. “Se a tua mão te faz tropeçar, corta-a; melhor é entrar na vida mutilado do que ter duas mãos e ir para o inferno, para o fogo inextinguível... E se o teu olho te faz tropeçar, arranca-o; melhor é entrar no Reino de Deus com um só olho do que ter dois olhos e ser lançado no inferno, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga” (cf. Mt 18,8-9; Is. 66:24).

Mateus 25:41 (da história das ovelhas e dos bodes). “Então dirá aos que estiverem à sua esquerda: Malditos, afastem-se de mim para o fogo eterno.”

Lucas 16:26 (as palavras de Abraão ao rico no inferno). “Entre você e nós um grande abismo foi fixado, de modo que aqueles que quiserem passar daqui para você não podem fazê-lo, e ninguém pode atravessar de lá para nós.”

É difícil, se não impossível, falar sobre a vida depois morte, exceto pelo uso de metáforas e símbolos. Não é de surpreender, então, que essas três passagens empreguem uma “linguagem pictórica” metafórica: elas falam em termos de “fogo”, “verme” e um “grande abismo”. As metáforas, sem dúvida, não devem ser tomadas literalmente, mas têm implicações difíceis de evitar: o fogo é dito “inextinguível” e “eterno”; o verme “não morre”; o abismo é intransponível. Se “eterno” (aionios, Mt 25:41) de fato não significa mais do que “longo tempo” – durando, isto é, por todo este aeon [era] presente, mas não necessariamente continuando na Era vindoura – e se o abismo é apenas temporariamente intransponível , então por que isso não está claro no Novo Testamento?

No entanto, esses e outros textos sobre o “fogo do inferno” precisam ser interpretados à luz de passagens diferentes e menos citadas do Novo Testamento, que apontam para uma direção “universalista”.

Há uma série de textos paulinos que afirmam um paralelo entre a universalidade do pecado por um lado e a universalidade da redenção por outro. O exemplo mais óbvio é 1 Coríntios 15:22, onde Paulo elabora a analogia entre o primeiro e o segundo Adão: “Assim como todos morrem em Adão, assim todos serão vivificados em Cristo”. Certamente a palavra “todos” tem o mesmo sentido em ambas as metades desta frase. Há passagens semelhantes em Romanos: “Assim como a transgressão de um homem levou à condenação de todos, assim o ato de justiça de um homem leva à justificação e à vida de todos” (5:18); “Deus aprisionou a todos na desobediência, para ser misericordioso com todos” (11:32). Pode-se argumentar que nesses três casos o significado de Paulo é simplesmente que a morte e ressurreição de Cristo se estendem a todos a possibilidade de redenção. Não se segue que todos serão ou devam ser salvos, pois isso depende da escolha voluntária de cada um. A salvação, assim, é oferecida a todos, mas nem todos a aceitarão de fato. Na verdade, porém, Paulo sugere mais do que uma mera possibilidade; ele expressa uma expectativa confiante. Ele não diz: “Todos podem talvez ser vivificados”, mas “Todos serão vivificados”. No mínimo, isso nos encoraja a esperar pela salvação de todos. C. S. Lewis, portanto, contradiz São Paulo quando afirma como um fato estabelecido: “Alguns não serão redimidos”.

A mesma nota de confiança expectante também pode ser ouvida, ainda mais distintamente, em 1 Coríntios 15:28 (este foi o texto-chave de Orígenes). Cristo reinará, diz Paulo, até que “Deus tenha submetido todas as coisas a Seus pés...; e assim Deus será tudo em todos”. A frase “tudo em todos” (panta en pasin) definitivamente sugere não o dualismo final, mas uma reconciliação final.

Há também o texto das Epístolas Pastorais que influenciou os arminianos e João Wesley: “É da vontade de Deus nosso Salvador... que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4). É claro que pode-se apontar que o autor aqui não afirma com certeza que todos serão salvos, mas apenas diz que isso é o que Deus quer. Devemos afirmar, no entanto, que a vontade de Deus será eventualmente frustrada? Como antes, estamos sendo encorajados pelo menos a esperar pela salvação universal. 

É importante, portanto, levar em conta a complexidade da evidência bíblica. Nem tudo aponta na mesma direção, mas há duas vertentes contrastantes. Algumas passagens nos apresentam um desafio. Deus convida, mas não obriga. Tenho liberdade de escolha: vou dizer “sim” ou “não” ao convite divino? O futuro é incerto. A que destino estou pessoalmente vinculado? Talvez eu seja excluído da festa de casamento? Mas há outras passagens que insistem com igual ênfase na soberania divina. Deus não pode ser derrotado em última instância. “Tudo ficará bem”, e no final Deus realmente será “tudo em todos”. Desafio e soberania: tais são as duas vertentes do Novo Testamento, e nenhuma delas deve ser desconsiderada.

3. Deus, o médico cósmico

Passando agora das Escrituras para a tradição, vamos olhar primeiro para o autor que, mais do que qualquer outro na história cristã, tem sido associado ao ponto de vista universalista, Orígenes de Alexandria. Ele é alguém que, ao longo dos séculos, foi muito elogiado e muito injuriado, em quase igual medida. Ele é elogiado, por exemplo, por seu colega alexandrino Dídimo, o Cego, que o chama de “o principal mestre da Igreja após os apóstolos”. “Quem não prefere estar errado com Orígenes do que certo com qualquer outra pessoa?”, exclama São Vicente de Lerins. Uma expressão marcante, mas típica, do ponto de vista oposto pode ser encontrada em uma história contada de São Pacômio, o fundador do monaquismo cenobítico no Egito. Enquanto conversava um dia com alguns monges visitantes, Pacômio ficou intrigado porque notou um “cheiro extremamente desagradável”, para o qual não conseguiu encontrar explicação. De repente descobriu o motivo do odor: os visitantes eram origenistas. “Eis que vos testifico diante de Deus”, admoestou-os, “que todo aquele que ler Orígenes e aceitar seus escritos descerá às profundezas do inferno. A herança de todas essas pessoas são as trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes... Pegue todas as obras de Orígenes que estão em sua posse e jogue-as no rio”. Ai! Muitos deram ouvidos ao conselho de Pacômio, queimando e destruindo o que Orígenes escreveu, com o resultado de que várias de suas principais obras sobrevivem apenas na tradução, não no grego original. Isso é verdade em particular no tratado Sobre os Primeiros Princípios, onde Orígenes expõe de forma mais completa seu ensinamento sobre o fim do mundo. Aqui temos que confiar em grande parte na versão latina (nem sempre precisa) feita por Rufino.

Orígenes, para seu crédito, exibe uma humildade nem sempre aparente em seus principais críticos, Jerônimo e Justiniano. Repetidamente em seu tratamento das questões mais profundas da teologia, Orígenes inclina a cabeça em reverente assombro diante do mistério divino. Nem por um momento ele imagina que tem todas as respostas. Esta humildade é evidente em particular quando ele fala sobre as Últimas Coisas e a esperança futura. “São assuntos pesados e difíceis de entender”, escreve ele. “...Precisamos falar sobre eles com grande temor e cautela, discutindo e investigando ao invés de estabelecer conclusões fixas e certas.”

No entanto, humilde ou não, Orígenes foi condenado como herege e anatematizado na época do Quinto Concílio Ecumênico, realizado em Constantinopla sob o imperador Justiniano em 553. O primeiro dos quinze anátemas dirigidos contra ele afirma: “Se alguém mantém a preexistência mítica de almas, e a apocatástase monstruosa que se segue disso, seja anátema”. Isso parece inteiramente explícito e definido: a crença em uma “restauração” final (apocatastasis) de todas as coisas e todas as pessoas – a crença na salvação universal, sem excluir a do diabo – aparentemente foi descartada como herética em uma decisão formal pelo que é para os ortodoxos a mais alta autoridade visível da Igreja em questões de doutrina, um Concílio Ecumênico.

Há, no entanto, dúvidas consideráveis se esses quinze anátemas foram de fato formalmente aprovados pelo Quinto Concílio Ecumênico. Eles podem ter sido endossados por um concílio menor, reunido nos primeiros meses de 553, pouco antes da convocação do concílio principal, caso em que carecem de plena autoridade ecumênica; contudo, mesmo assim, os Padres do V Concílio estavam bem cientes desses quinze anátemas e não tinham intenção de revogá-los ou modificá-los. Eles não falam apenas de apocatástase, mas unem dois aspectos da teologia de Orígenes: primeiro, suas especulações sobre o início, ou seja, sobre a preexistência das almas e a queda pré-cósmica; segundo, seu ensinamento sobre o fim, sobre a salvação universal e a reconciliação final de todas as coisas. A escatologia de Orígenes é vista como seguindo diretamente de sua protologia, e ambas são rejeitadas juntas.

Que o primeiro dos quinze anátemas deva condenar a protologia e a escatologia na mesma frase é perfeitamente compreensível, pois no pensamento de Orígenes as duas formam uma unidade integral. No início, assim ele acreditava, havia um reino de logikoi ou intelectos racionais (noes) existentes antes da criação do mundo material como mentes sem corpo. Originalmente, todos esses logikoi foram unidos em perfeita união com o Logos Criador. Seguiu-se então a queda pré-cósmica. Com exceção de um logikos (que se tornou a alma humana de Cristo), todos os outros logikoi se afastaram do Logos e se tornaram, dependendo da gravidade de seu desvio, anjos ou seres humanos ou demônios. Em cada caso, eles receberam corpos adequados à gravidade de sua queda: leves e etéreos no caso dos anjos; escuros e hediondos no caso de demônios; intermediários no caso de seres humanos. Ao final, segundo Orígenes, esse processo de fragmentação será revertido. Todos igualmente, sejam anjos, seres humanos ou demônios, serão restaurados à unidade com o Logos; a harmonia primordial da criação total será restabelecida, e mais uma vez “Deus será todo em tudo” (1Cor 15,28). A visão de Orígenes tem assim um caráter circular: o fim será como o começo.

Agora, como observamos, o primeiro dos quinze anátemas anti-origenistas é dirigido não apenas contra o ensinamento de Orígenes sobre a reconciliação universal, mas contra sua compreensão total da história da salvação – contra sua teoria de almas preexistentes, de uma queda pré-cósmica e uma apocatástase final – visto como um todo único e indiviso. Suponhamos, porém, que separemos sua escatologia de sua protologia; suponha que abandonemos todas as especulações sobre o reino dos logikoi eternos; suponha que simplesmente aderimos à visão cristã padrão segundo a qual não há preexistência da alma, mas cada nova pessoa passa a existir como uma unidade integral de alma e corpo, no momento ou logo após a concepção do embrião dentro do útero de sua mãe. Desta forma, poderíamos avançar uma doutrina de salvação universal - afirmando isso, não como uma certeza lógica (de fato, Orígenes nunca fez isso), mas como uma aspiração sincera, uma esperança visionária – que evitaria a circularidade da visão de Orígenes e assim escaparia da condenação dos anátemas anti-origenistas. Voltaremos a essa possibilidade em um momento ao considerar São Gregório de Nissa, mas vamos primeiro explorar mais as razões de Orígenes para afirmar uma apocatástase final.

Afirma-se frequentemente que a crença na salvação universal, por considerar inevitável o triunfo final do amor divino, não permite adequadamente nossa liberdade de escolha. Esta é uma objeção à qual Orígenes é consistentemente sensível. Por mais confiante que seja sua esperança de que o amor de Deus prevalecerá no final, ele toma o cuidado de nunca minar o significado vital do livre-arbítrio humano. Ao afirmar que “Deus é amor”, ele não perde de vista o princípio correlativo “O ser humano é livre”. Assim, ao falar da sujeição de todas as coisas a Cristo, e de Cristo ao Pai (1 Co 15:28), ele observa: “Esta sujeição será realizada de acordo com vários métodos, disciplinas e tempos seguros; contudo, não se deve pensar que haja alguma necessidade que compele todas as coisas à sujeição, ou que o mundo inteiro será subjugado pela força de Deus.” Orígenes é totalmente definido aqui: não há compulsão, nem força. Se o amor de Deus for finalmente vitorioso, é porque será aceito livre e voluntariamente por toda a criação racional. A apocatástase de Orígenes não é simplesmente uma dedução de algum sistema abstrato; é uma esperança.

Aqui tocamos uma dificuldade que é frequentemente sentida não apenas em relação à reconciliação final no fim do mundo, mas também em toda a nossa experiência cristã nesta vida presente. É tentador considerar a graça divina e a liberdade humana como dois princípios contrastantes, um excluindo o outro; e, como resultado, muitas vezes assumimos que quanto mais forte a ação da graça, mais restrito é o exercício de nossa liberdade humana. Mas esse não é um falso dilema? Nas palavras de John A. T. Robinson:
Todos podem apontar casos em que foram constrangidos a uma resposta de gratidão pelo poder dominador do amor. E, no entanto, sob essa estranha compulsão, alguém já sentiu sua liberdade violada ou sua personalidade violada? Não é precisamente nestes momentos que ele se torna consciente, talvez apenas por um espaço fugaz, de ser ele mesmo de uma maneira que nunca conheceu antes, de alcançar uma plenitude e integração de vida que está inextricavelmente ligada à decisão que lhe é tirada pelo amor de outro? Além disso, isso é verdade, por mais forte que seja a coação imposta a ele: ou melhor, é mais verdadeiro quanto mais forte for. Sob a coação do amor de Deus em Cristo, esse senso de auto-realização está em seu máximo. O testemunho de gerações é que aqui, como em nenhum outro lugar, o serviço é a liberdade perfeita.
Certamente isso é verdade por excelência da vitória do amor de Deus na era vindoura. O poder vitorioso é o poder da compaixão amorosa e, portanto, é uma vitória que não anula, mas aumenta nossa liberdade humana.

A cautela de Orígenes é evidente em particular quando ele se refere à salvação do diabo e seus anjos. Ele deixa bem claro que considera isso não como uma certeza, mas como uma possibilidade. Em seu Comentário a João, ele não faz mais do que fazer uma pergunta: “Já que os seres humanos podem mostrar arrependimento e passar da incredulidade à fé, devemos evitar afirmar algo semelhante sobre os poderes angélicos?” Em seu tratado Sobre a Oração, Orígenes se limita a dizendo que Deus tem um plano para o diabo na era vindoura, mas no momento não temos ideia de qual seja esse plano: “Deus fará arranjos para ele, não sei como”. Em Sobre os Primeiros Princípios, a matéria fica a critério do leitor:
Se algumas dessas ordens, que estão sob a liderança do diabo e são obedientes à sua maldade, podem em algum momento nas eras futuras ser convertidas em bondade, visto que ainda existe nelas o poder do livre arbítrio; ou se o mal se tornou tão permanente e enraizado que se tornou, por hábito, parte de sua natureza: que meu leitor decida isso por si mesmo.
Aqui Orígenes sugere duas possibilidades: ou os demônios ainda possuem o poder do livre arbítrio, ou então eles alcançaram o ponto sem retorno, após o qual o arrependimento é impossível. Mas ele não expressa julgamento; ambas as possibilidades são deixadas em aberto.

Isso levanta uma questão interessante, que uma vez fiz a um Arcebispo grego no início de uma viagem de quatro horas de carro, na esperança de que isso nos ajudasse a passar o tempo. Se é possível que o diabo, que certamente deve ser uma pessoa muito solitária e infeliz, possa eventualmente se arrepender e ser salvo, por que nunca oramos por ele? Para minha decepção (pois no momento eu não conseguia pensar em outros tópicos de conversa), o Arcebispo resolveu o assunto com uma resposta breve e afiada: “Cuide da sua vida”. Ele estava certo! No que diz respeito a nós humanos, o diabo é sempre nosso adversário; não devemos entrar em nenhum tipo de negociação com ele, seja orando por ele ou de outras maneiras. Sua salvação simplesmente não é da nossa conta. Mas o diabo também tem seu próprio relacionamento com Deus, como aprendemos no prólogo do livro de Jó, quando satanás aparece na corte celestial entre os outros “filhos de Deus” (Jó 1:6-2:7). Estamos, no entanto, completamente ignorantes da natureza precisa dessa relação, e é inútil intrometer-se nela. No entanto, embora não seja para nós orar pelo diabo, não temos o direito de supor que ele está total e irrevogavelmente excluído do escopo da alegria de Deus. Não sabemos. Nas palavras de Wittgenstein, Wovon man nicht redenkann, darüber muß man schweigen [“Do que não se pode falar, deve-se calar”, do prefácio do Tractatus logico-Philosophicus].

O ponto mais forte no argumento de Orígenes para o universalismo é sua análise da punição. Podemos resumir seu ponto de vista distinguindo três razões principais que foram apresentadas para justificar a aplicação da punição.

Primeiro, há o argumento retributivo. Aqueles que fizeram o mal, afirma-se, merecem sofrer em proporção ao mal que fizeram. Só assim se cumprirão as exigências da justiça: “olho por olho e dente por dente” (Êx 21,24). Mas no Sermão do Monte Cristo rejeita explicitamente este princípio (Mt 5:38). Se nós, humanos, somos proibidos por Cristo de exigir retribuição dessa maneira de nossos semelhantes, quanto mais devemos nos abster de atribuir um comportamento vingativo e retributivo a Deus. É blasfemo afirmar que a Santíssima Trindade é vingativa. De qualquer forma, parece contrário à justiça que Deus deva infligir uma punição infinita em retribuição pelo que é apenas uma quantidade finita de delito.

A segunda linha de argumento insiste na necessidade de um impedimento. Diz-se que é apenas a perspectiva do fogo do inferno que nos impede de fazer o mal. Mas por que então, pode-se perguntar, precisamos de uma punição sem fim e eterna para agir como um impedimento eficaz? Não seria suficiente ameaçar os futuros malfeitores com um período de dolorosa separação de Deus que é extremamente prolongado, mas não infinito? De qualquer forma, é muito óbvio, especialmente em nossos dias, que a ameaça do fogo do inferno é quase totalmente ineficaz como um impedimento. Se em nossa pregação da fé cristã esperamos ter alguma influência significativa sobre os outros, então o que precisamos não é uma estratégia negativa, mas positiva: abandonemos as ameaças feias e tentemos evocar o sentimento de admiração das pessoas e sua capacidade de amar.

Resta a compreensão reformadora da punição, que Orígenes considerava ser a única visão moralmente aceitável. A punição, para possuir valor moral, não deve ser meramente retaliatória ou dissuasiva, mas corretiva. Quando os pais infligem castigo aos filhos, ou o Estado aos criminosos, seu objetivo deve ser sempre curar aqueles a quem punem e mudá-los para melhor. E tal, segundo Orígenes, é precisamente o propósito dos castigos infligidos a nós por Deus; Ele age sempre como “nosso médico”. Um médico pode às vezes ser obrigado a empregar medidas extremas que causam agonia a seus pacientes. (Isso acontecia particularmente antes do uso de anestésicos.) Ele pode cauterizar uma ferida ou amputar um membro. Mas isso é sempre feito com um fim positivo em vista, de modo a trazer a eventual recuperação e restauração da saúde do paciente. Assim é com Deus, o médico de nossas almas. Ele pode infligir sofrimento sobre nós, tanto nesta vida como depois de nossa morte; mas sempre Ele faz isso por amor terno e com um propósito positivo, para nos purificar de nossos pecados, para nos purificar e nos curar. Nas palavras de Orígenes, “A fúria da vingança de Deus serve para a purificação de nossas almas”.

Agora, se adotarmos essa visão reformadora e terapêutica da punição – e esta é a única razão para infligir punição que pode ser dignamente atribuída a Deus – então certamente tal punição não deveria ser interminável. Se o objetivo da punição é curar, então, uma vez que a cura tenha sido realizada, não há necessidade de que a punição continue. Se, no entanto, a punição deve ser eterna, é difícil ver como ela pode ter algum propósito curativo ou educativo. Em um inferno sem fim não há escapatória e, portanto, não há cura, e assim a imposição de punição em tal inferno é inútil e imoral. Esta terceira compreensão de punição, portanto, é incompatível com a noção de tormento perpétuo no inferno; exige que pensemos em termos de algum tipo de purgatório após a morte. Mas nesse caso este purgatório deveria ser visto como uma casa de cura, não uma câmara de tortura; como um hospital, não uma prisão. Aqui, em sua grande visão de Deus como o médico cósmico, Orígenes é mais convincente.

4. Um universalista não condenado

O anseio de Orígenes pela salvação de todos já o havia colocado sob suspeita em sua própria vida. No entanto, havia alguns entre seus descendentes espirituais que mantinham viva essa esperança universal. Os dois exemplos mais notáveis ​​são encontrados no final do século IV: Evágrio do Ponto, monge no deserto egípcio, e São Gregório de Nissa, irmão mais novo de São Basílio, o Grande. Evágrio manteve e talvez endureceu todo o ensino origenista sobre a preexistência das almas, a queda pré-cósmica e a apocatástase final; e por isso ele foi condenado junto com Orígenes em 553. Gregório de Nissa, por outro lado, abandonou as especulações de Orígenes sobre a preexistência e a queda pré-cósmica, mantendo firme sua crença na restauração final; e, significativamente, nunca foi anatematizado por isso, nem em 553, nem em tempos mais recentes. Ao expressar a sua esperança de que todos serão salvos, Gregório de Nissa está tão confiante quanto Orígenes. Suas palavras lembram a grande afirmação de Paulo, “e assim Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28). “Quando, por meio desses métodos longos e tortuosos”, escreve S. Gregório, “a maldade que agora está misturada e consolidada com nossa natureza for finalmente expulsa dela, e quando todas as coisas que agora estão afundadas no mal forem restauradas ao seu estado original, subirá de toda a criação um hino unido de ação de graças... Tudo isso está contido no grande mistério da Divina Encarnação”. Esta restauração final, Gregório claramente afirma, vai alcançar até mesmo o diabo.

Apesar dessa afirmação ousada, Gregório de Nissa nunca foi condenado como herege, mas, pelo contrário, é honrado como santo. Por que deveria ser assim? Talvez ele tenha escapado da reprovação porque era irmão de S. Basílio. No entanto, se ele foi tratado de forma diferente de seu mestre Orígenes, talvez seja porque, mantendo a esperança de Orígenes no eventual triunfo do bem sobre o mal, ele abandonou a noção de preexistência e assim evitou a circularidade do esquema origenista. Qualquer que seja a explicação, o fato de Gregório não ter sido anatematizado é certamente significativo. Sugere que, se dissociada das especulações sobre uma queda pré-cósmica, uma expressão cuidadosamente qualificada de esperança universal é aceitável, mesmo dentro dos limites da ortodoxia estrita.

São Gregório de Nissa é um dos patronos da casa de estudos ecumênicos à qual estou ligado em Oxford; e, pessoalmente, congratulo-me com o fato de assim ser.

5. Os flagelos do amor

Um terceiro autor patrístico que ousou esperar a salvação de todos foi Santo Isaac de Nínive, honrado e amado em todo o Oriente cristão como “Isaque, o Sírio”. Embora tenha vivido cerca de três gerações após o Quinto Concílio Ecumênico, não foi afetado pelos anátemas anti-origenistas associados a ele; pois, como membro da Igreja do Oriente [Assíria], morando na Mesopotâmia, muito fora dos limites do Império Bizantino, não prestava nenhuma lealdade ao imperador em Constantinopla e não reconhecia o Concílio realizado em 553 como ecumênico. Possivelmente ele desconhecia completamente seus decretos. Particularmente impressionante é a compreensão de Isaac sobre o inferno. Ele insiste que os textos do Novo Testamento sobre o fogo, o verme, as trevas exteriores e o ranger de dentes não devem ser entendidos literalmente e no sentido físico. Ele fala de inferno ou Gehenna como “noético” ou “inteligível”. O inferno é um “efeito”, não uma “substância”, enquanto a “escuridão exterior” não é um lugar, mas “o estado sem qualquer deleite no verdadeiro conhecimento e comunhão com Deus.” “Haverá choro psíquico e ranger de dentes”, diz Isaque, “que é uma dor mais difícil de suportar do que o fogo”. O ranger de dentes na Era vindoura, então, longe de ser físico e material, significa uma angústia interior e espiritual. Lembro-me da história do pregador que, em seus sermões sobre o inferno, falava com especial prazer no ranger de dentes. Por fim, um membro idoso da congregação não aguentou mais. “Mas eu não tenho dentes”, ela exclamou – ao que o pregador respondeu severamente: “Dentes serão fornecidos”.

Isaque tinha uma resposta melhor. Para ele, o verdadeiro tormento do inferno não consiste em queimar pelo fogo material, nem em qualquer dor física, mas nas dores de consciência que uma pessoa sofre ao perceber que rejeitou o amor de Deus:

Também digo que mesmo aqueles que são açoitados no inferno são atormentados com os açoites do amor.

A dor que rói o coração como resultado de pecar contra o amor é mais aguda do que todos os outros tormentos que existem.

É errado imaginar que os pecadores no inferno sejam privados do amor de Deus... [Mas] o poder do amor funciona de duas maneiras: atormenta aqueles que pecaram, assim como acontece entre amigos aqui na terra; mas para aqueles que cumpriram seus deveres, o amor dá prazer.

Assim é no inferno: a contrição que vem do amor é o duro tormento.

Quando me deparei com essa passagem pela primeira vez como estudante, há mais de quarenta anos, disse a mim mesmo: Essa é a única visão do inferno que faz algum sentido para mim. Deus é amor, diz-nos Santo Isaque, e este amor divino é imutável e inesgotável. O amor de Deus está em toda parte e abrange tudo: “Se eu descer ao inferno, tu também estarás lá” (Sl 138 [139]:8). Assim, mesmo aqueles que estão no inferno não estão separados do amor de Deus. O amor age, porém, de duas maneiras: é alegria para quem o aceita, mas tortura para quem o rejeita. Nas palavras de George MacDonald, “o terror de Deus é apenas o outro lado de Seu amor; é amor lá fora, que deveria estar dentro.”

Assim, os que estão no inferno sentem como uma dor agonizante o que os santos sentem como um deleite sem fim. Deus não inflige tormento aos que estão no inferno, mas são eles que se atormentam por sua recusa voluntária de responder ao Seu amor. Como observa Georges Bernanos: “O inferno é não amar mais.” “O amor de Deus”, escreve Vladimir Lossky, “será um tormento intolerável para aqueles que não o adquiriram dentro de si”.

Disto segue-se que aqueles que estão no inferno são auto-escravizados, auto-aprisionados. Em última análise, afirma C. S. Lewis,
Existem apenas dois tipos de pessoas... aqueles que dizem a Deus: “Seja feita a tua vontade”, e aqueles a quem Deus diz, no final, “seja feita a tua vontade”. Todos os que estão no Inferno, escolheram-no. Sem essa auto-escolha não poderia haver inferno... As portas do inferno estão trancadas por dentro.
Agora, se tudo isso é verdade - se, como Isaque diz, aqueles que estão no inferno não estão separados do amor de Deus, e se, como Lewis afirma, eles são auto-aprisionados - então não pode ser que eles ainda tenham alguma esperança de redenção? (De fato, a Igreja Ortodoxa faz uma oração especial para eles nas Vésperas do Domingo de Pentecostes.) Se o amor divino está constantemente batendo à porta de seu coração, e se essa porta está trancada por dentro, não chegará o momento em que finalmente eles responderão ao convite do amor e abrirão a porta? Se a razão de seu sofrimento é que eles reconhecem quão gravemente pecaram contra o amor, isso não implica que ainda haja dentro deles alguma centelha de bondade, alguma possibilidade de arrependimento e restauração?

Isaque, por sua vez, definitivamente acreditava que era assim. Na segunda parte de suas Homilias (previamente perdidas, mas redescobertas em 1983 pelo Dr. Sebastian Brock) ele fala de um “maravilhoso resultado” que Deus trará ao fim da história:
Sou da opinião que Ele vai manifestar algum resultado maravilhoso, uma questão de imensa e inefável compaixão por parte do glorioso Criador, com respeito à ordenação desta difícil questão do tormento [da Geena]: dela a riqueza de Seu amor, poder e sabedoria se tornarão ainda mais conhecidos - e também o poder insistente das ondas de Sua bondade. Não é o caminho do Criador compassivo criar seres racionais a fim de entregá-los impiedosamente a aflições sem fim.
Isaque tem duas razões principais para afirmar com tanta confiança sua expectativa de um “resultado maravilhoso”. Primeiro, ainda mais apaixonadamente do que Orígenes, ele rejeita qualquer sugestão de que Deus seja vingativo e rancoroso. Isso ele vê como blasfêmia: “Longe disso, dizer que essa vingança poderia ser encontrada naquela Fonte de amor e Oceano transbordante de bondade!” Quando Deus nos pune, ou parece fazê-lo, o propósito desse castigo nunca é retributivo e retaliatório, mas exclusivamente reformador e terapêutico:
Deus castiga com amor, não por vingança – longe disso! – mas procurando tornar inteira a sua imagem... O castigo do amor é para correção, mas não visa retribuição.
Como Isaque insiste na segunda parte, “Deus não é aquele que retribui o mal, mas Ele corrige o mal... O Reino e a Geena são assuntos pertencentes à misericórdia”. A Geena [inferno] nada mais é do que um lugar de purificação e transformação que ajuda a realizar o plano mestre de Deus “que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2:4).

Em segundo lugar, e mais fundamentalmente, Isaque está convencido de que “muitas águas não podem apagar o amor” (Cântico 8:7). “Nem mesmo a imensa maldade dos demônios pode superar a medida da bondade de Deus”, escreve ele, citando Diodoro de Tarso. Inextinguível e ilimitado como é, o amor de Deus acabará por triunfar sobre o mal: “Existe com Ele um único amor e compaixão que se espalha por toda a criação, [um amor] que é imutável, atemporal e eterno... Nenhuma parte de cada um dos seres racionais será perdida”. Aqui, então, na distante Mesopotâmia está alguém que não tem medo de afirmar com Juliana de Norwich e T. S. Eliot: “Tudo ficará bem, e todo tipo de coisa ficará bem”.

6. Amor e liberdade

Dentro da tradição do Oriente cristão, então, identificamos três testemunhas poderosas que ousam esperar a salvação de todos. Outras testemunhas certamente poderiam ser citadas do Ocidente, particularmente entre os anabatistas, morávios e cristadelfianos. No entanto, deve-se admitir que tanto no Oriente como no Ocidente - mas mais particularmente no Ocidente por causa da influência de Santo Agostinho de Hipona - as vozes levantadas em favor da salvação universal continuam sendo uma pequena minoria. A maioria dos cristãos, pelo menos até o século XX, supunha que a maior parte da raça humana acabaria no inferno eterno: “Pois muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22,14). Até que ponto tal suposição é justificada? Tendo examinado a Escritura e a tradição, invoquemos agora a razão. Reunindo tudo o que foi dito até agora, vamos reunir três argumentos a favor do universalismo e quatro contra.

7. A favor da esperança universal

O poder do amor divino. Como um Deus de infinita compaixão, argumenta-se, o Criador não está relutante em Sua misericórdia e perdão, mas é imensuravelmente paciente. Ele não compele ninguém, mas de fato esperará até que cada uma de Suas criaturas racionais voluntariamente responda ao Seu amor. O amor divino é mais forte do que todas as forças das trevas e do mal dentro do universo, e no final prevalecerá. “O amor nunca falha” (1Cor 13,8); nunca se esgota, nunca chega ao fim. Este apelo à invencibilidade do amor divino é o argumento mais forte em favor da esperança universal.

A essência do inferno. Esta é basicamente uma reafirmação do primeiro argumento. Como observamos ao citar Santo Isaque, o Sírio, o inferno não é a rejeição da humanidade por Deus, mas a recusa da humanidade a Deus. Não é um castigo que Deus nos inflige, mas um estado de espírito no qual nos punimos. Deus não fecha a porta aos que estão no inferno; Ele não retira Seu amor deles, mas são eles que deliberadamente endurecem seus corações contra esse amor. Como, então, os que estão no inferno ainda estão envolvidos no amor divino, é possível que um dia abram seus corações a essa compaixão onipresente; e, quando o fizerem, descobrirão que Deus não deixou de amá-los. “Se somos infiéis, Ele permanece fiel; pois Ele não pode negar a si mesmo” (2 Tm 2:13). Sua natureza é amor, e Ele não pode deixar de ser o que é.

A não-realidade do mal. Este é um argumento que até agora não tivemos oportunidade de discutir. “Eu sou aquele que é”, diz Deus a Moisés na sarça ardente na versão Septuaginta de Êxodo 3:14; “Eu sou o Existente” (ego eimi ho on). Deus é Ser e Realidade, e Ele é a única fonte de toda existência. O mal, por outro lado, é no sentido estrito não-ser e irrealidade. O mal e o pecado não têm existência substantiva, pois não são uma “coisa” que Deus fez; são uma distorção do bem, um parasita — não um substantivo, mas um adjetivo. Isso foi mostrado claramente a Juliana de Norwich, que afirma em sua Décima Terceira Revelação: “Eu não vi o pecado, pois acredito que ele não tem nenhuma espécie de substância, nenhuma participação no ser, nem pode ser reconhecido exceto pelas dores que causa.”

A existência, então, é boa, pois é um dom de Deus; e tudo o que existe, pelo próprio fato de existir, mantém algum vínculo com Deus, que é a única fonte da existência. Disso segue-se que nada do que existe pode ser total e totalmente mau. Postular algo totalmente mau seria um absurdo, uma contradição em termos; pois tal coisa seria totalmente irreal e não poderia realmente existir. Mesmo o diabo, porque ele existe, ainda tem um relacionamento contínuo com Deus. Assim, onde há existência, há esperança – mesmo para o diabo.

Uma possível conclusão desta terceira linha de argumento não é a salvação universal, mas a imortalidade condicional. No final, Deus realmente será “tudo em todos”, não porque todas as criaturas racionais foram salvas, mas porque em certo ponto os radicalmente perversos simplesmente deixarão de existir. Separados de Deus, a única fonte de existência, eles caíram no não-ser. No fim dos tempos, isto é, haverá uma ressurreição para a vida eterna, mas nenhuma ressurreição para a morte eterna; ou melhor, haverá ressurreição para uma morte que é final, mas não continua, pois acarretará a aniquilação.

Essa noção de imortalidade condicional tem muito a ser dito a seu favor. É uma maneira atraente de evitar a necessidade de escolher entre a salvação universal e um inferno sem fim. Mas, embora tenha sido defendido pelo autor africano do século IV, Arnóbio de Sicca, tem pouco apoio na tradição anterior. A objeção comumente avançada contra o ponto de vista “condicionalista” é que o dom da existência de Deus é estável e imutável. É algo que Ele nunca retirará: “Pois os carismas e o chamado de Deus são irrevogáveis” (Rm 11,29). Dentro de cada ser racional dotado de livre-arbítrio, há algo único e irrepetível; Deus nunca faz a mesma coisa duas vezes. Essa singularidade deve desaparecer para sempre do universo?

8. Contra a esperança universal

O argumento do livre arbítrio. Porque os humanos são livres, argumenta-se, eles têm a liberdade de rejeitar a Deus. Seus dons são irrevogáveis; Ele nunca tirará de nós nosso poder de escolha voluntária, e assim somos livres para continuar dizendo “não” a Ele por toda a eternidade. Essa rejeição interminável a Deus é precisamente a essência do inferno. Como o livre arbítrio existe, deve existir também a possibilidade do inferno como um lugar de sofrimento eterno. Retire o inferno e você nega a liberdade. Ninguém pode ser forçado a entrar no céu contra sua vontade. Como observa o teólogo russo Paul Evdokimov, Deus pode fazer qualquer coisa, exceto obrigar-nos a amá-lo; pois o amor é livre e, portanto, onde não há liberdade de escolha, não há amor. Enquanto o apelo ao poder do amor divino constitui o argumento mais forte em favor da salvação universal, esse apelo ao livre-arbítrio é certamente o argumento mais forte do outro lado. Significativamente, ambas as partes do debate, embora de formas diferentes, buscam seu principal suporte no fato de que Deus é amor.

O ponto de não-retorno. Mas, pode-se acrescentar, esse argumento do livre-arbítrio não prova demais? Se Deus nunca tira de nós nossa liberdade de escolha, e se aqueles no inferno, portanto, mantêm o livre arbítrio, então a possibilidade de arrependimento não é uma opção contínua para eles? A isso os antiuniversalistas comumente respondem que há um ponto sem volta, após o qual o arrependimento se torna impossível. Deus não priva os condenados de sua liberdade, mas o mau uso de sua liberdade acaba por se tornar tão profundamente enraizado neles que eles não podem mudar depois disso, e assim permanecem fixos para sempre em sua atitude de rejeição. Deus não deixou de amá-los, mas eles se tornaram incapazes de responder novamente a esse amor.

Um paralelo pode assim ser traçado entre os santos no céu e os condenados no inferno. Os santos no céu não perderam sua liberdade, mas não é mais possível para eles se afastarem de Deus e cair no pecado. Eles ainda têm liberdade de escolha, mas todas as suas escolhas são boas. De maneira semelhante, os malditos infernos ainda conservam uma liberdade residual de escolha, pois não deixaram de ser pessoas. Mas todas as suas escolhas são ruins, e não é mais possível para eles ascenderem ao reino divino. O diabo possui liberdade - mas não a liberdade de se arrepender. Desta forma, após o Juízo Final haverá um “grande divórcio”, e o abismo entre o céu e o inferno permanecerá para sempre intransponível.

O argumento da justiça. É contrário à justiça divina, como muitas vezes se alega, que os ímpios devam desfrutar da mesma recompensa que os justos; a harmonia moral do universo será prejudicada se os malfeitores não receberem sua justa recompensa. Acho esse argumento muito menos forte do que os dois argumentos anteriores. Como Santo Isaque, o Sírio, insiste com razão, nossas noções humanas de justiça retributiva são totalmente inaplicáveis ​​a Deus. Ele é um Deus não de vingança, mas de amor perdoador; Sua justiça nada mais é do que Seu amor. Quando Ele pune, Seu propósito não é retribuir, mas curar.

O argumento moral e pastoral. Finalmente, do lado antiuniversalista, costuma-se dizer que o universalismo priva a mensagem cristã de seu senso de urgência e subestima a nota de advertência insistente presente em todo o Novo Testamento. Cristo começa Sua pregação pública com a palavra “hoje” (Lc 4:21). “Veja, agora é o tempo aceitável”, afirma Paulo; “vede, agora é o dia da salvação” (2 Coríntios 6:2). Hoje, agora: é esta vida presente que é nosso momento de oportunidade e decisão, nosso momento de crise, o kairós [tempo oportuno] quando fazemos as escolhas que determinam nosso futuro eterno. Se, por outro lado, nos é permitido uma série ilimitada de novas chances após a nossa morte, e se, em qualquer caso, todos nós terminarmos no mesmo lugar, seja o que for que fizermos nesta vida, então onde está o desafio na pregação da mensagem cristã, e onde está a necessidade de conversão e arrependimento aqui e agora? Se o triunfo do amor de Deus é inevitável e, em última análise, não há nada para escolhermos, isso não torna nossos atos de decisão moral triviais e sem sentido?

Orígenes está ciente dessa dificuldade. A doutrina da apocatástase, ele aconselha, deve ser mantida em segredo; pois, se pregada abertamente aos imaturos, os levará a se tornarem descuidados e indiferentes. Sem dúvida, é por essa razão que o teólogo pietista do século XIX Christian Gottlieb Barth observa: “Quem não acredita na restauração universal é um burro, mas quem a ensina é um asno”. Santo Isaque, o Sírio, lida com o problema de uma maneira diferente. Faz uma diferença imensurável para nós, ele aponta, se respondemos ao amor divino aqui e agora ou somente depois de incontáveis eras. Mesmo que o tormento do inferno não seja eterno, permanece verdadeiramente terrível: “No entanto, [a Geena] é dolorosa, mesmo que seja limitada em sua extensão: quem pode suportá-la?”

Se o argumento mais forte em favor da salvação universal é o apelo ao amor divino, e se o argumento mais forte do lado oposto é o apelo à liberdade humana, então voltamos ao dilema com o qual começamos: como devemos trazer à harmonia os dois princípios: Deus é amor e os seres humanos são livres? Por enquanto, não podemos fazer mais do que agarrar com igual firmeza a ambos os princípios, embora admitindo que a maneira de sua harmonização final permanece um mistério além de nossa compreensão atual. O que São Paulo disse sobre a reconciliação do cristianismo e do judaísmo é aplicável também à reconciliação final da criação total: “Ó profundidade das riquezas e sabedoria e conhecimento de Deus! Quão insondáveis são Seus julgamentos e quão inescrutáveis Seus caminhos!” (Rm 11:33).

Quando estou esperando na estação de Oxford pelo trem para Londres, às vezes ando até o trecho mais ao norte da longa plataforma até chegar a um aviso: “Os passageiros não devem ir além deste ponto. Pena: £ 50.” Na discussão da esperança futura, precisamos de um aviso semelhante: “Os teólogos não devem ir além deste ponto” – Deixe meus leitores planejarem uma penalidade adequada. Sem dúvida, o erro de Orígenes foi tentar falar demais. É uma falha que admiro em vez de execrar, mas foi um erro mesmo assim.

Nossa crença na liberdade humana significa que não temos o direito de afirmar categoricamente: “Todos devem ser salvos”. Mas nossa fé no amor de Deus nos faz ousar ter esperança de que todos serão salvos.

Tem alguém ai? disse o viajante,
Batendo na porta iluminada pela lua.

O inferno existe como uma possibilidade porque existe o livre arbítrio. No entanto, confiando na inesgotável atratividade do amor de Deus, ousamos expressar a esperança – não é mais do que uma esperança – de que no final, como o Viajante de Walter de la Mare, descobriremos que não há ninguém lá. Deixemos, então, a última palavra com São Silouan do Monte Athos: “O amor não pode suportar isso... Devemos rezar por todos”.

O juízo final




Pe. Thomas Hopko 

"e Ele virá novamente com glória para julgar os vivos e os mortos...."

Este Jesus que dentre vós foi elevado ao céu, virá do mesmo modo como o vistes subir ao céu (Atos 1.11).

Estas palavras dos anjos são dirigidas aos apóstolos na ascensão do Senhor. Cristo voltará em glória, “não para lidar com o pecado, mas para salvar os que o esperam” (Hb 9.28).

Pois o próprio Senhor descerá do céu com um grito de comando, com o chamado dos arcanjos e com o som da trombeta de Deus. E os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; então nós que estivermos vivos, que ficarmos, seremos arrebatados na nuvem para encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor (1 Ts 4.16-17, a leitura da Epístola do serviço fúnebre ortodoxo).

A vinda do Senhor no fim dos tempos será o Dia do Juízo, o Dia do Senhor predito no Antigo Testamento e predito pelo próprio Jesus (por exemplo, Dan 7; Mt 24). O tempo exato do fim não é predito, nem mesmo por Jesus, para que os homens estejam sempre preparados por constante vigília e boas obras.

A própria presença de Cristo como a Verdade e a Luz é em si o julgamento do mundo. Nesse sentido, todos os homens e o mundo inteiro já estão julgados ou, mais precisamente, já vivem na presença plena dessa realidade – Cristo e Suas obras – pela qual serão julgados em última instância. Com Cristo agora revelado, não há mais desculpa para ignorância e pecado (Jo 9.39).

Neste ponto é necessário notar que no juízo final estarão aqueles “à esquerda” que irão para “o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41; Ap 20). Que este seja o caso não é culpa de Deus. É culpa apenas dos homens, pois “como ouço, julgo, e o meu julgamento é justo”, diz o Senhor (Jo 5,30).

Julgamento

Deus “não tem prazer na morte do ímpio” (Ez 18.22). Ele “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2.4). Ele faz tudo ao Seu alcance para que a salvação e a vida eterna estejam disponíveis e sejam possíveis para todos. Não há mais nada que Deus possa fazer. Tudo agora depende do homem. Se alguns homens recusam o dom da vida em comunhão com Deus, o Senhor só pode honrar essa recusa e respeitar a liberdade de Suas criaturas que Ele mesmo deu e não tomará de volta. Deus permite que os homens vivam “com o diabo e seus anjos” se assim o desejarem. Mesmo nisso Ele é amoroso e justo. Pois se a presença de Deus como o “fogo consumidor” (Hb 12,29) e a “luz inacessível” (1Tm 6,16) que deleita aqueles que o amam só produz ódio e angústia naqueles que não “amam a sua manifestação” (2Tm 4,8), não há nada mais que Deus possa fazer exceto destruir completamente Suas criaturas pecadoras, ou destruir a Si mesmo. Mas Deus existirá e permitirá que Suas criaturas existam. Ele também não esconderá Sua Face para sempre.

A doutrina do inferno eterno, portanto, não significa que Deus tortura ativamente as pessoas por meios desamorosos e perversos. Não significa que Deus se deleita no castigo e na dor de Seu povo a quem Ele ama. Tampouco significa que Deus “se separa” de Seu povo, causando-lhes angústia nessa separação (pois, de fato, se as pessoas odeiam a Deus, a separação seria bem-vinda, e não abominada!). Significa antes que Deus continua a permitir que todas as pessoas, santos e pecadores, existam para sempre. Todos são ressuscitados dentre os mortos para a vida eterna: “os que fizeram o bem, para a ressurreição da vida, e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação” (Jo 5,29). No final, Deus “será tudo em todos” (1 Cor 15,28). Para aqueles que amam a Deus, a ressurreição dos mortos e a presença de Deus serão o paraíso. Para aqueles que odeiam a Deus, a ressurreição dos mortos e a presença de Deus serão o inferno. Este é o ensinamento dos pais da Igreja.

Surgiu uma luz para os justos, e sua parceira é a alegria jubilosa. E a luz dos justos é eterna. . .
Apenas uma luz nos deixe evitar - aquela que é a descendência do fogo doloroso. . .

Pois eu conheço um fogo purificador que Cristo veio para enviar sobre a terra, e Ele mesmo é chamado de Fogo. Este Fogo tira tudo o que é material e de má qualidade; e isso Ele deseja acender com toda a velocidade. . .

Conheço também um fogo que não purifica, mas vinga. . . que Ele derrama sobre todos os pecadores. . . o que está preparado para o diabo e seus anjos. . . o que procede da Face do Senhor e queimará Seus inimigos ao redor. . . o fogo inextinguível que . . . é eterno para os ímpios. Pois todos estes pertencem ao poder destruidor, embora alguns possam preferir mesmo neste caso ter uma visão mais misericordiosa deste fogo, mais digna Daquele que castiga.
(São Gregório, o Teólogo)

. . . aqueles que se encontram na Geena serão castigados com o flagelo do amor. Quão cruel e amargo será este tormento de amor! Pois aqueles que entendem que pecaram contra o amor sofrem maiores sofrimentos do que aqueles produzidos pelas mais terríveis torturas. A dor que se apodera do coração que pecou contra o amor é mais penetrante do que qualquer outra dor. Não é correto dizer que os pecadores no inferno são privados do amor de Deus. . . Mas o amor age de duas maneiras diferentes, como sofrimento no reprovado e como alegria no bem-aventurado.
(São Isaac da Síria)

Assim, o julgamento final e o destino eterno do homem dependem unicamente de o homem amar ou não a Deus e seus irmãos. Depende se o homem ama ou não a luz mais do que as trevas - ou as trevas mais do que a luz. Depende, poderíamos dizer, se o homem ama ou não o Amor e a própria Luz; se o homem ama ou não a Vida – que é o próprio Deus; o Deus revelado na criação, em todas as coisas, no “menor dos irmãos”.

As condições do julgamento final já são conhecidas. Cristo as mostrou com absoluta clareza.

Quando o Filho do Homem vier em Sua glória, e todos os anjos com Ele, então Ele se assentará em Seu trono glorioso. Diante dele serão reunidas todas as nações e Ele as separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e colocará as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à Sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, herdai o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era estrangeiro e me acolheste, estava nu e me vestiste, adoeci e me visitaste, estive na prisão e tu veio até mim."

Então os justos lhe responderão: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? E quando Te vimos estrangeiro e Te recebemos, ou nu e Te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão e te visitamos?”

E o Rei lhes responderá: “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”.

Então Ele dirá aos que estiverem à Sua esquerda: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era estrangeiro e não me recebestes, nu e não me vestistes, doente e preso e não me visitastes .”

Então eles também responderão: “Senhor, quando foi que te vimos com fome ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, enfermo ou preso, e não te servimos?”

Então Ele lhes responderá: “Em verdade vos digo que, como não fizestes a nenhum destes pequeninos, a mim não o fizestes”. E eles irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.
(Mt 25,31–46, leitura do Evangelho para o Domingo do Julgamento Final)

É Cristo quem julgará, não Deus o Pai. Cristo recebeu o poder de julgamento “porque Ele é o Filho do Homem” (Jo 5,27). Assim, o homem e o mundo não são julgados por Deus “sentado em uma nuvem”, por assim dizer, mas por Aquele que é verdadeiramente um homem, Aquele que sofreu todas as tentações deste mundo e saiu vitorioso. O mundo é julgado por Aquele que era Ele mesmo faminto, sedento, estrangeiro, nu, preso, ferido e, no entanto, a salvação de todos. Como o Crucificado, Cristo alcançou com justiça a autoridade para julgar, pois somente Ele foi o servo perfeitamente obediente do Pai que conhece as profundezas da tragédia humana por Sua própria experiência.

Pois Ele retribuirá a cada um segundo as suas obras: àqueles que, com perseverança em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade, Ele dará a vida eterna; mas para aqueles que são facciosos e não obedecem à verdade, mas obedecem à maldade, haverá ira e fúria. Haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal. . . mas glória, honra e paz para todo aquele que faz o bem. . . pois Deus não mostra parcialidade. Todos os que pecaram sem a lei, e todos os que pecaram sob a lei serão julgados pela lei. Pois não são os ouvintes da lei que são justos diante de Deus, mas os praticantes da lei que serão justificados (Rm 2.6ss).

O décimo primeiro artigo do Credo (Catecismo de S. Filareto)


Por S. Filareto de Moscou

366. O que é a ressurreição dos mortos que, nas palavras do Credo, procuramos ou esperamos?

Um ato do poder onipotente de Deus, pelo qual todos os corpos dos homens mortos, sendo reunidos às suas almas, retornarão à vida e, a partir de então, serão espirituais e imortais.

É semeado um corpo natural, é ressuscitado um corpo espiritual. 1 Cor. xv. 44. Pois este corruptível deve se vestir de incorrupção, e este mortal deve se vestir de imortalidade. 1 Cor. xv. 53.

367. Como o corpo se levantará novamente depois de apodrecer e perecer no solo?

Visto que Deus formou o corpo do solo originalmente, ele pode igualmente restaurá-lo depois que ele perecer no solo. O apóstolo Paulo ilustra isso com a analogia de um grão de semente, que apodrece na terra, mas do qual brota depois uma planta ou árvore. Aquilo que tu semeias não é vivificado a menos que morra. 1 Cor. xv. 36.

368. Todos, estritamente falando, se levantarão novamente?

Todos, sem exceção, que morreram; mas aqueles que no momento da ressurreição geral ainda estiverem vivos terão seus corpos grosseiros atuais transformados em um momento, de modo a se tornarem espirituais e imortais.

Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, em um momento, num piscar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. 1 Cor. xv. 51, 52.

369. Quando será a ressurreição dos mortos?

No final deste mundo visível.

370. O mundo então também chegará ao fim?

Sim; este mundo corruptível chegará ao fim e será transformado em outro incorruptível.

Porque a própria criatura também será libertada da escravidão da corrupção para a liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Rom. viii. 21. Nós, porém, de acordo com a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, onde habita a justiça. 2 Pedro iii. 13.

371. Como o mundo será transformado?

Pelo fogo. Os céus e a terra, que agora são, pelo mesmo, isto é, pela palavra de Deus, são guardados, reservados para o fogo para o dia do julgamento e perdição dos homens ímpios. 2 Pedro iii. 7.

372. Em que estado estão as almas dos mortos até a ressurreição geral?

As almas dos justos estão em luz e descanso, com um antegozo da felicidade eterna; mas as almas dos ímpios estão em um estado oposto a este.

373. Por que não podemos atribuir às almas dos justos felicidade perfeita imediatamente após a morte?

Porque é ordenado que a retribuição perfeita de acordo com as obras seja recebida pelo homem perfeito após a ressurreição do corpo e o julgamento final de Deus.

O apóstolo Paulo diz: Doravante está reservada para mim uma coroa de justiça, que o Senhor, o justo Juiz, me dará naquele dia; e não apenas a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda. 2 Tim. 4. 8. E novamente: Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo; para que cada um receba as coisas que fizerem por meio do corpo, conforme o que fez, sejam boas ou más. 2 Cor. v. 10.

374. Por que atribuímos às almas dos justos um antegozo da bem-aventurança antes do juízo final?

Por causa do testemunho do próprio Jesus Cristo, que diz na parábola que o justo Lázaro foi carregado imediatamente após a morte para o seio de Abraão. Lucas xvi. 22.

375. Este antegozo da bem-aventurança está junto com a visão do próprio semblante de Cristo?

É assim mais especialmente com os santos, como nos é dado a entender pelo apóstolo Paulo, que tinha o desejo de partir e estar com Cristo. Phil. i. 23.

376. O que se deve observar de tais almas que partiram com fé, mas sem ter tido tempo de produzir frutos dignos de arrependimento?

Isto: que eles possam ser auxiliados na obtenção de uma bendita ressurreição por orações oferecidas em seu favor, especialmente aquelas que são oferecidas em união com a oblação do sacrifício incruento do Corpo e Sangue de Cristo, e por obras de misericórdia feitas em fé por sua memória.

377. Em que se baseia essa doutrina?

Na tradição constante da Igreja Católica; cujas fontes podem ser vistas até mesmo na Igreja do Antigo Testamento. Judas Macabeu ofereceu sacrifício por seus homens que haviam caído. 2 Macc. xii. 43. A oração pelos defuntos sempre fez parte da liturgia divina, desde a primeira liturgia do apóstolo Tiago. Diz São Cirilo de Jerusalém: Muito grande será o benefício para aquelas almas pelas quais a oração é oferecida no momento em que o santo e tremendo Sacrifício está à vista. (Lect. Myst. V. 9.)

São Basílio o Grande, em suas orações pelo Pentecostes, diz que o Senhor se digna a receber de nós orações propiciatórias e sacrifícios por aqueles que são mantidos no Hades, e nos dá a esperança de obter para eles paz, alívio e liberdade.

O Anticristo e o 666 não são a mensagem principal de S. Paisios


Por Ancião Makarios de Maroudas

(Santo Skete da Natividade da Theotokos "Maroudas", Monte Athos)

... Outros vêm ao Monte Athos correndo em busca de profetas e futuristas. Os infelizes veem essas coisas na televisão e na internet e vêm confirmar em primeira mão, e são vítimas da exploração do terror que recebem. Eles exploram até mesmo as palavras e escritos do falecido Ancião Paisios. O Ancião, conforme o conhecemos, era um homem cheio de paz, amor e bondade. Você se aproximava dele e sua alma se acalmava; ele lhe dava esperança e alegria pela vida. Hoje são distribuídas centenas de fotocópias de um manuscrito seu sobre o Anticristo e o 666, como se esta fosse a mensagem principal do Ancião.

Estou ansioso com essa série de eventos. Alguém traduziu para ele do inglês um panfleto, dentre muitos outros circulando na América, dos protestantes, e ele o levou a sério. Todas essas coisas já haviam diminuído na América, e dissemos isso a ele, porque lemos sobre elas muitos anos antes de ele escrever seu manuscrito. Mas ele persistiu... ele era um Karamanlis. Ele foi até julgado pelo Ancião Porphyrios, para deixar de lidar com essas coisas. A escatologia é uma tagarelice religiosa que traz consternação e indiferença pela salvação da alma.

Fonte: Trecho de uma palestra proferida pelo Ancião Makarios em 1º de abril de 2012, intitulada "O Homem Não Viverá Só de Pão" (ουκ επ 'άρτω μόνο ζήσεται ο ადამიანი). Traduzido por John Sanidopoulos.

Três escatologias


O cristianismo sempre rejeitou o dualismo ontológico dos maniqueístas, bem como a ideia - comum no gnosticismo do século segundo - de que a criação visível é obra de um demiurgo inferior, distinto do Deus transcendente; pelo contrário, afirma a bondade intrínseca da criação, "visível e invisível". Com igual consistência, entretanto, o Novo Testamento mantém um dualismo existencial entre "este mundo", que está em estado de rebelião contra Deus, e o "mundo que virá", quando Deus será "tudo em todos". Cristãos esperam pela "cidade que virá" e consideram-se apenas "peregrinos", em vez de cidadãos plenos, no mundo presente. Porém, essa escatologia do Novo Testamento e suas implicações práticas tem sido vividas e entendidas diferentemente por cristãos em diferentes momentos da história.

1) A ideia de que o "Reino" virá repentinamente, através de um fiat divino unilateral, em um futuro não-tão-distante, era comum nas primeiras comunidades cristãs. Essa concepção escatológica, de fato, significava que os cristãos constantemente orariam "para que a figura deste mundo passe". Eles não estariam de modo algum ocupados com o melhoramento da sociedade, simplesmente porque a sociedade terrena estaria destinada a um desaparecimento catastrófico e precoce. Eles considerariam inevitável a condenação última da vasta maioria da humanidade e a salvação de apenas um pequeno grupo. Nessa perspectiva, mesmo a menor célula da sociedade terrena, a família, seria um peso; e o casamento, embora permitido, não seria recomendável. A oração escatológica "Vem, Senhor Jesus!" seria entendida primariamente como o grito do "remanescente", totalmente desamparado em um mundo hostil e buscando salvação dele, não uma responsabilidade para com ele.

Tal escatologia não fornece qualquer base para missões cristãs na sociedade ou na cultura. Ela atribui a Deus somente, agindo sem cooperação humana, a tarefa de trazer a Nova Jerusalém, que descerá pronta do céu. Ela também esquece aquelas imagens do Reino no Novo Testamento que precisamente implicam cooperação ou "sinergia": a semente de mostarda, que cresce até tornar-se uma grande árvore, a levedura que fermenta toda a massa, os campos prontos para a colheita. Uma escatologia de fuga é, evidentemente, psicologicamente compreensível e até espiritualmente justificada nos tempos em que a comunidade cristã é forçada a retornar a si mesma por pressão externa e perseguição, como nos primeiros séculos e em tempos mais recentes também; mas transformada em um sistema, claramente trai a mensagem bíblica como um todo. A "Nova Jerusalém" não é apenas um dom gratuito de Deus vindo do céu, mas também o selo e o cumprimento de todos os esforços e aspirações legítimas da humanidade, transfigurados e transformados numa nova criação.

2) A ênfase sobre a realização humana leva ao extremo oposto: a escatologia pelagianizadora e otimista baseada na crença em um progresso constante da sociedade humana. Ao manter com força que a história humana possui um sentido e um alvo, essa crença no progresso - em suas formas capitalista ou marxista - é um fenômeno pós-cristão. É ainda tecnicamente uma "escatologia" e inspirou muito das modernas culturas europeias e americanas durante os últimos três séculos. Na década passada muitos cristãos adotaram mais ou menos essa escatologia. Eles identificam o progresso social com a "nova criação", aceitando a "história" como um guia em direção à "Nova Jerusalém", e definindo a missão cristã principal em categorias "seculares".

Essa segunda escatologia, seja ou não chamada de cristã, não toma em consideração o pecado e a morte, dos quais a humanidade não pode redimir-se por suas próprias forças; e assim ignora os aspectos mais reais e trágicos da existência humana. Parece aspirar por uma civilização sem fim, porém sempre aprisionada pela morte, que de fato seria "tão terrível quanto a imortalidade para um homem que é prisioneiro da doença e da velhice" (G. P. Fedotov). Ao aceitar o determinismo histórico, ela renuncia ao próprio centro da mensagem cristã: libertação dos "poderes e principados" da história através da ressurreição de Cristo e pela promessa profética de uma transfiguração cósmica trazida por Deus, e não pelo homem.

3) O conceito bíblico de "profecia" leva-nos a uma terceira forma de escatologia que faz justiça tanto ao poder de Deus quanto à liberdade e responsabilidade do homem. Profecia, no Velho e no Novo Testamentos, não é apenas uma simples predição do futuro, nem uma declaração de inevitabilidade. É "uma promessa ou uma ameaça" (G. P. Fedotov). Em outras palavras, como o filósofo russo Fedotov corretamente apontou, é sempre condicional. As "coisas boas" do futuro são uma promessa aos fiéis, enquanto os cataclismas são uma ameaça aos pecadores. Ambos, porém, estão ultimamente condicionados pela liberdade humana. Deus deixaria de destruir Sodoma por causa de dez fiéis, e quando Nínive arrependeu-se, Ele a perdoou, poupando-a da destruição prometida por Jonas.

Pois Deus não está ligado a qualquer necessidade natural ou histórica. O próprio homem, em sua liberdade, deve decidir se a vinda de Cristo será um julgamento aterrorizante ou uma alegre festa de casamento. Nenhuma escatologia será fiel à mensagem cristã a menos que mantenha tanto o poder de Deus sobre a história quanto a tarefa do homem, na qual reside a liberdade real que foi-lhe restaurada por Jesus Cristo, para a edificação do Reino de Deus.

Estas são considerações iniciais que nos darão um ponto de referência ao ver e avaliar os fatos do passado.

- Padre John Meyendorff, Roma, Constantinopla e Moscou

O julgamento final


Há numerosos testemunhos na Sagrada Escritura sobre a realidade e indisputabilidade do Julgamento universal futuro: Jo 5:22, 27-29; Mt 16:27; 7:21-23; 11:22-29; 12:36, 41-42; 13:37-43; 19:28-30; 24:30; 25:31-46; At 17:31; Judas 14-15; 2 Co 5:10; Ro 2:5, 7:14:10, 1 Co 4:5; Ef 6:8; Col 3:24-2; 2 Tess 1:6-10; 2 Tim 4:1: Ap 20:11-15. Desses testemunhos a mais completa descrição é dada em Mateus 25:31-46 ("E quando o Filho do Homem vier em Sua glória..."); de acordo com essa descrição podemos tirar conclusões a respeito das características do julgamento. Ele será:

Universal, isto é, extensivo a todos os homens vivos e mortos, bons e maus, e de acordo com outras indicações dadas na palavra de Deus, até aos próprios anjos decaídos (2 Pe 2:4; Judas 6);

solene e aberto, pois o Juiz aparecerá em toda a Sua glória com todos os Seus anjos diante da face do mundo todo; estrito e terrível, executando em toda Justiça de Deus — ele será "o dia de ira e da manifestação da justiça de Deus" (Ro 2:5);

final e definitivo, determinando por toda a eternidade o destino de cada um que for julgado. O resultado do julgamento será a recompensa eterna — benção para os justos e tormento para os malignos que forem condenados.

Descrevendo da maneira mais brilhante e jubilosa as características da vida eterna dos justos depois do Julgamento universal, a palavra de Deus fala da mesma maneira positiva e certeza a respeito dos tormentos eternos dos homens malignos. "Apartai-vos de mim, malditos para o fogo eterno," o Filho do Homem dirá no dia do Julgamento: "E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt 25: 41-46). Esta condição de condenação é apresentada na Sagrada Escritura pintada como um lugar de tormento e é chamada de Gehenna. A imagem é tomada do vale de Hinnon nos arredores de Jerusalém, onde eram feitas as execuções, e também era jogada todo tipo de coisa suja, e como resultado havia um fogo queimando constantemente como defesa contra infecções. O Senhor disse: "E se tua mão te escandalizar, corta-a: melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno (gehenna), para o fogo que nunca se apaga, onde seu verme não morre e o fogo nunca se apaga" (Mc 9:43-44 e também 45-48). "Haverá choro e ranger de dentes," o Salvador repete muitas vezes a respeito da Gehenna (Mt 8:12 e outros lugares). No Apocalipse de São João Teólogo esse lugar ou condição é chamado de "lago de fogo" (Ap 19:20). E no Apóstolo Paulo nós lemos: "Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo" (2 Tess 1:9) . As imagens do "verme que não morre" e do "fogo que nunca se apaga" são evidentemente simbólicas e indicam a severidade dos tormentos. (Por "simbólica" nossa linguagem contemporânea racionalista usualmente entende "não real, não mais do que uma imagem" — uma definição que daria uma ideia muito confusa da vida na era futura. Com respeito às imagens nas quais futuras bênçãos e futuros tormentos são descritos, deve-se repetir as palavras do anjo a São Macário de Alexandria: "Aceita as coisas terrenas aqui como a mais fraca descrição das coisas celestes"; certamente tais imagens como "o verme" e o "fogo" correspondem a realidades que são assustadoramente além de nossa imaginação — e uma realidade que, enquanto não "material" de acordo com nossa experiência em coisas terrenas, é no entanto de alguma forma "corporal," correspondendo ao corpo espiritual ressuscitado que as sentirá! Deve-se ler a assustadora experiência "real" do "verme que não morre" por um filho espiritual de São Serafim de Sarov ["Are There Tortures in Hell?" no Orthodox Life, 1970, nº 5] de modo a se ganhar uma certa indicação da natureza dos futuros na Gehenna). São João Damasceno diz: "Os pecadores serão entregues ao fogo eterno, que não será um fogo material como o que estamos acostumados, mas um fogo que só Deus conhece" (Exposição Exata da Fé Ortodoxa, Livro 4, 27).

"Eu sei," escreve São João Crisóstomo, "que muitos são aterrorizados só pela gehenna, mas eu acho que a privação daquela glória (do Reino de Deus) é um tormento maior que a gehenna" (Homilia 23, sobre São Mateus). "Essa privação das coisas boas," ele reflete em outro lugar, "causará tal tormento, tal tristeza e opressão, que mesmo que nenhuma punição espere aqueles que pecam aqui, em si mesma (essa privação) pode atormentar e perturbar nossas almas mais poderosamente que o tormento da gehenna; muitas pessoas tolas desejam só serem libertadas da gehenna; mas eu considero muito mais atormentadora a punição de não estar naquela glória. E eu acho que aquele que é privado dessa glória deveria não chorar tanto pelos tormentos na gehenna quanto por ser privado das coisas boas do céu, pois só isso é a mais cruel de todas as punições" (Homilia 1). Pode-se ler uma explicação similar em Santo Irineu de Lyon (Contra as heresias, Livro 5, 27).

São Gregório Teólogo ensina: "Reconhece a ressurreição, o julgamento, e a recompensa dos justos pelo julgamento de Deus. E essa recompensa para esses que foram purificados no coração será luz, isto é, Deus visível e conhecido de acordo com o grau de pureza de cada um, que nós chamamos também de Reino do Céu. Mas para aqueles que são cegos na mente, isto é, para aqueles que se tornaram estranhos para Deus, de acordo com o grau de sua presente cegueira, serão trevas" (Homilia 40, sobre o Batismo).

A Igreja, baseando-se na palavra de Deus, reconhece os tormentos na gehenna como sendo eterno e sem fim, e por essa razão condenou no Quinto Concílio Ecumênico o falso ensinamento dos origenistas que diziam que os demônios e pessoas ímpias sofreriam no inferno somente por um certo tempo definido, e então seriam devolvidos à sua condição original de inocência (apokatastasis em grego). A condenação do Juízo Final é chamada no Apocalipse de São João o Teólogo de "segunda morte" (Ap 20:14).

Uma tentativa de entender os tormentos da gehenna num sentido relativo, entender a eternidade como algum tipo de era ou período — talvez longo, mas mesmo assim tendo um fim — foi feita na antigüidade, assim como é feita hoje; essa visão em geral nega a realidade desses tormentos. Nessa tentativa são trazidas à tona concepções de um tipo lógico: a desarmonia entre tais tormentos e a bondade de Deus é apontada, assim como a aparente desproporção entre crimes que são temporais e a eternidade das punições por pecado, assim como também a desarmonia entre essas punições eternas e o fim ultimo da criação do homem, que é a bênção de Deus.

Mas não cabe a nós definir os limites entre a inexprimível misericórdia de Deus e Sua justiça. Nós sabemos que o Senhor "quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade" (1 Tim 2:4); mas o homem é capaz, através de sua própria vontade maligna, de rejeitar a misericórdia de Deus e os meios de salvação. Crisóstomo, interpretando a descrição do Juízo Final, demarca: "Quando Ele (o Senhor) falou acerca do Reino, depois de dizer: 'Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino', Ele acrescenta, que está 'preparado para nós desde a fundação do mundo' (Mt 25:34), mas quando fala sobre o fogo, Ele não se expressa assim, mas acrescenta: que está 'preparado para o diabo e seus anjos' (Mt 25:41). Pois eu prepararei para vós o Reino, mas o fogo Eu prepararei não para vós mas para o diabo e seus anjos. Mas desde que vós vos jogastes no fogo, então acuseis a vós mesmos por isso" (Homilia 70, sobre Mateus).

Não temos o direito de entender as palavras do Senhor só condicionalmente, como ameaça ou como um certo meio pedagógico aplicado pelo Salvador. Se nós entendermos dessa maneira erramos, já que o Senhor não instila em nós nenhum desses entendimentos e nós nos sujeitamos à ira de Deus de acordo com a palavra do Salvador: "porque o ímpio provocou Deus? Pois ele disse em seu coração. Ele não inquirirá".

Além disso, o próprio conceito de "ira" em relação a Deus é condicional e antropomórfico, como aprendemos do ensinamento de Santo Antônio o Grande (conhecido entre nós como Santo Antão), que diz: "Deus é bom, desapaixonado e imutável. Agora se alguém pensa que é razoável e verdadeiro afirmar que Deus não muda, pode-se perguntar como, nesse caso, é possível se falar de Deus rejubilando sobre aqueles são bons e mostrando misericórdia para aqueles que o honram, enquanto afastando-se dos maldosos e ficando raivoso com os pecadores. Para essa pergunta deve ser respondido que Deus não rejubila nem fica com raiva, pois rejubilar e ficar ofendido são paixões; nem Ele se comove pelos dons daqueles que o honram, pois isso significaria que Ele é movido por prazer... Ele é bom, e Ele só concede bênçãos e nunca provoca dano, permanecendo sempre o mesmo. Nós homens, de outro lado, se permanecemos bons assemelhando-nos a Deus, somos unidos a Ele; mas se nós nos tornarmos malignos não assemelhando-nos a Deus, tornando-nos malignos nós fazemos Dele nosso inimigo. Não é que Ele fique raivoso conosco de maneira arbitrária, mas são os nossos pecados que impedem que Deus brilhe dentro de nós, e nos expõe aos demônios que nos punem. E se por orações e atos de compaixão nós recebemos alívio de nossos pecados, isso não significa que nós tenhamos ganho de Deus e façamo-lo mudar, mas sim que através dos nossos atos e nosso virar-se para Deus nós curamos nossa malignidade e assim mais uma vez nós nos regozijamos com a bondade de Deus. Assim dizer que Deus afasta-Se dos malignos é como dizer que o sol se esconde dos cegos" (Philokalia, vol 1, texto 150; tradução inglesa por Palmer—Sherrara—Ware, p. 352).

Digno de atenção também é o comentário simples a esse respeito do Bispo Teófano o Recluso: "Os justos irão para a vida eterna, mas os pecadores satanizados para os tormentos eternos, em comunhão com os demônios. Esses tormentos terminarão? Se é possível que esse satanismo acabe, então esses tormentos também podem acabar. Mas até então nós devemos acreditar que assim como a vida eterna não terá fim, assim também os tormentos eternos que ameaçam os pecadores não terão fim. Nenhuma conjectura pode mostrar a possibilidade do fim do satanismo. O que satanás viu depois da sua queda! Quanto poder de Deus foi revelado! Como ele mesmo foi batido pelo poder da Cruz do Senhor! Como até agora toda a sua astúcia e malícia são derrotadas por esse poder! Mas ele ainda é incorrigível, ele constantemente se opõe; e quanto mais longe ele vai, mais teimoso ele se torna. Não há esperança nenhuma dele ser corrigido! E se não há esperança para ele, não há esperança também para os homens que tornam-se satanizados por sua influencia. Isso significa que deve haver inferno com tormentos eternos".

Os escritos dos santos ascetas cristãos indica que quanto mais alta a consciência moral, mais agudo se torna o sentimento de responsabilidade moral, o medo de ofender Deus, e consciência da inevitável punição por se desviar dos mandamentos de Deus. Mas exatamente o mesmo grau é o que aumenta a esperança na misericórdia de Deus. A esperança nela e o pedir por ela ao Senhor é para cada um de nós uma obrigação e uma consolação.

- Padre Michael Pomazansky, Teologia dogmática ortodoxa

A Segunda Vinda de Cristo


O olhar espiritual do homem que acredita em Cristo, começando com a Ascensão da terra para o céu do Filho de Deus, tem sido dirigido para o maior evento futuro da historia do mundo: Sua Segunda Vinda para a terra.

Testemunhos para a realidade dessa esperada Vinda foram dados bastante definidamente muitas vezes pelo próprio Senhor Jesus Cristo, com uma serie de detalhes a respeito (Mt 16:27 e capit. 24; Lc 12:40 e 17:24; Jo 14:3). Os anjos declararam a Segunda Vinda na Ascensão do Senhor (At 1:11). Os Apóstolos com freqüência a mencionam: Apóstolo Judas (versículos 14:15); Apóstolo João (1 Jo 2:28); Apostolo Pedro (1 Pe 4:13); e Apóstolo Paulo muitas vezes (1 Co 3:5; 1 Tess 5:2-6 e em outros lugares).

O Senhor descreveu para Seus discípulos a maneira de Sua vinda com as seguintes características: ela será súbita e obvia para todo o mundo: "Porque, assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra até o Ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem" (Mt 24:27).

Antes de tudo, "aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem, e todas as tribos da terra se lamentarão" (Mt 24:30). Esse, de acordo com a interpretação universal dos Santos Padres da Igreja, será o sinal da vivificante Cruz do Senhor.

O Senhor virá cercado por inumeráveis coros de anjos, em toda a Sua glória: "Eles verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória" (Mt 24:30), "com os santos anjos" (Mc 8:38). "Ele se assentará no trono da Sua glória" (Mt 25:31). Assim a Segunda Vinda será diferente da primeira quando o Senhor "humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte na cruz" (Filip 2:8).

- Padre Michael Pomazansky, Teologia dogmática ortodoxa