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O juízo final




Pe. Thomas Hopko 

"e Ele virá novamente com glória para julgar os vivos e os mortos...."

Este Jesus que dentre vós foi elevado ao céu, virá do mesmo modo como o vistes subir ao céu (Atos 1.11).

Estas palavras dos anjos são dirigidas aos apóstolos na ascensão do Senhor. Cristo voltará em glória, “não para lidar com o pecado, mas para salvar os que o esperam” (Hb 9.28).

Pois o próprio Senhor descerá do céu com um grito de comando, com o chamado dos arcanjos e com o som da trombeta de Deus. E os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; então nós que estivermos vivos, que ficarmos, seremos arrebatados na nuvem para encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor (1 Ts 4.16-17, a leitura da Epístola do serviço fúnebre ortodoxo).

A vinda do Senhor no fim dos tempos será o Dia do Juízo, o Dia do Senhor predito no Antigo Testamento e predito pelo próprio Jesus (por exemplo, Dan 7; Mt 24). O tempo exato do fim não é predito, nem mesmo por Jesus, para que os homens estejam sempre preparados por constante vigília e boas obras.

A própria presença de Cristo como a Verdade e a Luz é em si o julgamento do mundo. Nesse sentido, todos os homens e o mundo inteiro já estão julgados ou, mais precisamente, já vivem na presença plena dessa realidade – Cristo e Suas obras – pela qual serão julgados em última instância. Com Cristo agora revelado, não há mais desculpa para ignorância e pecado (Jo 9.39).

Neste ponto é necessário notar que no juízo final estarão aqueles “à esquerda” que irão para “o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41; Ap 20). Que este seja o caso não é culpa de Deus. É culpa apenas dos homens, pois “como ouço, julgo, e o meu julgamento é justo”, diz o Senhor (Jo 5,30).

Julgamento

Deus “não tem prazer na morte do ímpio” (Ez 18.22). Ele “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2.4). Ele faz tudo ao Seu alcance para que a salvação e a vida eterna estejam disponíveis e sejam possíveis para todos. Não há mais nada que Deus possa fazer. Tudo agora depende do homem. Se alguns homens recusam o dom da vida em comunhão com Deus, o Senhor só pode honrar essa recusa e respeitar a liberdade de Suas criaturas que Ele mesmo deu e não tomará de volta. Deus permite que os homens vivam “com o diabo e seus anjos” se assim o desejarem. Mesmo nisso Ele é amoroso e justo. Pois se a presença de Deus como o “fogo consumidor” (Hb 12,29) e a “luz inacessível” (1Tm 6,16) que deleita aqueles que o amam só produz ódio e angústia naqueles que não “amam a sua manifestação” (2Tm 4,8), não há nada mais que Deus possa fazer exceto destruir completamente Suas criaturas pecadoras, ou destruir a Si mesmo. Mas Deus existirá e permitirá que Suas criaturas existam. Ele também não esconderá Sua Face para sempre.

A doutrina do inferno eterno, portanto, não significa que Deus tortura ativamente as pessoas por meios desamorosos e perversos. Não significa que Deus se deleita no castigo e na dor de Seu povo a quem Ele ama. Tampouco significa que Deus “se separa” de Seu povo, causando-lhes angústia nessa separação (pois, de fato, se as pessoas odeiam a Deus, a separação seria bem-vinda, e não abominada!). Significa antes que Deus continua a permitir que todas as pessoas, santos e pecadores, existam para sempre. Todos são ressuscitados dentre os mortos para a vida eterna: “os que fizeram o bem, para a ressurreição da vida, e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação” (Jo 5,29). No final, Deus “será tudo em todos” (1 Cor 15,28). Para aqueles que amam a Deus, a ressurreição dos mortos e a presença de Deus serão o paraíso. Para aqueles que odeiam a Deus, a ressurreição dos mortos e a presença de Deus serão o inferno. Este é o ensinamento dos pais da Igreja.

Surgiu uma luz para os justos, e sua parceira é a alegria jubilosa. E a luz dos justos é eterna. . .
Apenas uma luz nos deixe evitar - aquela que é a descendência do fogo doloroso. . .

Pois eu conheço um fogo purificador que Cristo veio para enviar sobre a terra, e Ele mesmo é chamado de Fogo. Este Fogo tira tudo o que é material e de má qualidade; e isso Ele deseja acender com toda a velocidade. . .

Conheço também um fogo que não purifica, mas vinga. . . que Ele derrama sobre todos os pecadores. . . o que está preparado para o diabo e seus anjos. . . o que procede da Face do Senhor e queimará Seus inimigos ao redor. . . o fogo inextinguível que . . . é eterno para os ímpios. Pois todos estes pertencem ao poder destruidor, embora alguns possam preferir mesmo neste caso ter uma visão mais misericordiosa deste fogo, mais digna Daquele que castiga.
(São Gregório, o Teólogo)

. . . aqueles que se encontram na Geena serão castigados com o flagelo do amor. Quão cruel e amargo será este tormento de amor! Pois aqueles que entendem que pecaram contra o amor sofrem maiores sofrimentos do que aqueles produzidos pelas mais terríveis torturas. A dor que se apodera do coração que pecou contra o amor é mais penetrante do que qualquer outra dor. Não é correto dizer que os pecadores no inferno são privados do amor de Deus. . . Mas o amor age de duas maneiras diferentes, como sofrimento no reprovado e como alegria no bem-aventurado.
(São Isaac da Síria)

Assim, o julgamento final e o destino eterno do homem dependem unicamente de o homem amar ou não a Deus e seus irmãos. Depende se o homem ama ou não a luz mais do que as trevas - ou as trevas mais do que a luz. Depende, poderíamos dizer, se o homem ama ou não o Amor e a própria Luz; se o homem ama ou não a Vida – que é o próprio Deus; o Deus revelado na criação, em todas as coisas, no “menor dos irmãos”.

As condições do julgamento final já são conhecidas. Cristo as mostrou com absoluta clareza.

Quando o Filho do Homem vier em Sua glória, e todos os anjos com Ele, então Ele se assentará em Seu trono glorioso. Diante dele serão reunidas todas as nações e Ele as separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e colocará as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à Sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, herdai o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era estrangeiro e me acolheste, estava nu e me vestiste, adoeci e me visitaste, estive na prisão e tu veio até mim."

Então os justos lhe responderão: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? E quando Te vimos estrangeiro e Te recebemos, ou nu e Te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão e te visitamos?”

E o Rei lhes responderá: “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”.

Então Ele dirá aos que estiverem à Sua esquerda: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era estrangeiro e não me recebestes, nu e não me vestistes, doente e preso e não me visitastes .”

Então eles também responderão: “Senhor, quando foi que te vimos com fome ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, enfermo ou preso, e não te servimos?”

Então Ele lhes responderá: “Em verdade vos digo que, como não fizestes a nenhum destes pequeninos, a mim não o fizestes”. E eles irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.
(Mt 25,31–46, leitura do Evangelho para o Domingo do Julgamento Final)

É Cristo quem julgará, não Deus o Pai. Cristo recebeu o poder de julgamento “porque Ele é o Filho do Homem” (Jo 5,27). Assim, o homem e o mundo não são julgados por Deus “sentado em uma nuvem”, por assim dizer, mas por Aquele que é verdadeiramente um homem, Aquele que sofreu todas as tentações deste mundo e saiu vitorioso. O mundo é julgado por Aquele que era Ele mesmo faminto, sedento, estrangeiro, nu, preso, ferido e, no entanto, a salvação de todos. Como o Crucificado, Cristo alcançou com justiça a autoridade para julgar, pois somente Ele foi o servo perfeitamente obediente do Pai que conhece as profundezas da tragédia humana por Sua própria experiência.

Pois Ele retribuirá a cada um segundo as suas obras: àqueles que, com perseverança em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade, Ele dará a vida eterna; mas para aqueles que são facciosos e não obedecem à verdade, mas obedecem à maldade, haverá ira e fúria. Haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal. . . mas glória, honra e paz para todo aquele que faz o bem. . . pois Deus não mostra parcialidade. Todos os que pecaram sem a lei, e todos os que pecaram sob a lei serão julgados pela lei. Pois não são os ouvintes da lei que são justos diante de Deus, mas os praticantes da lei que serão justificados (Rm 2.6ss).

A ira de Deus e o perdão




Pe. Patrick Henry Reardon

A Igreja sempre pensou na ira de Deus como uma metáfora descritiva de Sua "resposta negativa" ao pecado. A expressão significa a incompatibilidade metafísica do mal moral com a Fonte da bondade. Quando a Bíblia, então, fala da raiva de Deus, indica Sua reprovação punitiva e extrema daquilo que é radicalmente oposto ao Seu ser.

Se a ira de Deus é entendida desse modo, fica claro que ninguém pode aplacar ou apaziguá-La. Ou seja, é metafisicamente impossível para Deus tornar-se, de alguma maneira, menos irado em relação ao pecado. A "resposta negativa" do Senhor não pode ser diferente do que é, pois é uma expressão de Sua verdade intrínseca. Enquanto Deus é Deus, o pecado necessariamente é objeto de Sua ira. Nada feito na terra - nada realizado pelo próprio Cristo - altera a natureza divina. Consequentemente, é impossível ao Deus bíblico ser outro além do
'El qanna' - o Deus zeloso (Êxodo 20:5).
A Sagrada Escritura também indica, entretanto, ocasiões em que Deus "volta atrás" de Sua ira.
Muitas vezes desviou deles o seu furor, e não despertou toda a sua ira (Salmos 78:38).
O que desvia a ira de Deus - o que O faz perdoar pecados - é invariavelmente o arrependimento do homem.

Como um exemplo entre muitos, 2 Crônicas 29 ilustra esse ponto. Quando Judá levantou a ira divina por uma sucessão de infidelidades, o rei Ezequias chamou a Nação ao arrependimento e propõs uma renovação da Aliança, de modo que, o rei disse,
se desvie de nós o ardor da sua ira (2 Crônicas 29:10).
Um século depois, Jeremias conferiu à experiência de Ezequias a força de um princípio, declarando que:
Se a tal nação, porém, contra a qual falar se converter da sua maldade [mera’ato], também eu [o Senhor] me arrependerei do mal [‘al-hara’ah] que pensava fazer-lhe (Jeremias 18:8).
Até os pagãos ninivitas - para quem Jonas não havia dito uma só palavra de esperança sobre o assunto - suspeitaram que este era o caso:
Mas os homens e os animais sejam cobertos de sacos, e clamem fortemente a Deus, e convertam-se, cada um do seu mau caminho, e da violência que há nas suas mãos. Quem sabe se se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos? (Jonas 3:8-9).
Em toda a Bíblia, não consigo pensar em nenhuma exceção à este padrão: o homem arrepende-se, Deus perdoa.

Mais frequentemente, esse arrependimento é expresso em oração, como no caso dos ninivitas. Por exemplo, o Salmo 107 (Grego 106) fala de quatro punições das quais o povo de Deus foi livrado quando orou.

Talvez o caso mais relembrado de oração de arrependimento foi aquele atribuído ao profundamente humilhado Davi, o qual convencera-se de que o Senhor não desprezaria um coração quebrado e contrito. Quando Davi voltou-se ao Senhor ofendido, orou, não para que Deus se acalmasse, mas para que Ele escondesse Sua face:
Esconde a tua face dos meus pecados - Haster paneka meachta’ai (Salmos 51:9)
O sacrifício que Deus exigia dele, Davi sabia, era um coração contrito e arrependido, e tal foi o sacrifício que Davi ofereceu. Aqui, como em toda a Bíblia, o perdão divino é a resposta à oração humana.

Oração arrependida é como o homem afasta a ira de Deus. Não há outro caminho.

De fato, é útil considerar esse salmo davídico em mais detalhes, já que a Igreja sempre apelou a ele em conexão com o perdão dos pecados. Davi ora para que seja completamente limpo de suas iniquidades e lavado de seus pecados. Ele implora para que seja purgado com hissopo e feito branco como a neve. De acordo com essa oração, o sacrifício exigido é voltar a mente e a alma para Deus. A verdadeira oferta queimada é um coração contrito.

Aquele que ora este salmo, então, é certamente consciente da ira divina; é familiar com a desaprovação radical de Deus. Conhece sua culpa, e confessa sua ofensa. Ele está orando, além disso, para ser perdoado e restaurado.

O que a alma arrependida procura aqui, então, é mais do que fazer o Senhor esconder sua face da ofensa. A salvação nesse salmo consiste em mais que a remoção da "culpa de sangue" [damim]. O homem que faz essa oração está buscando comunhão com Deus:
Torna a dar-me a alegria da tua salvação (v. 12).
É um pedido de renovação do Espírito Santo. O salmista é explícito sobre este ponto: o propósito do arrependimento é a aquisição do Espírito Santo através da pureza do coração. Um, de fato, é inseparável do outro:
Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto [Ruach nakon]. Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo [Ruach qadsheka]. Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário [Ruach nedibah] (v. 10-12)
O pecador arrependido busca aqui a verdadeira Redenção, um genuíno estar unido a Deus pelo Espírito Santo.

Ele não está buscando de Deus uma declaração de justiça, mas uma transformação interior.

O que ele busca é a restauração à amizade com Deus.

Oração pelos mortos e Purgatório: diferenças entre ortodoxos e católicos

 
Metropolita Macário de Moscou (1816-1882), Teologia Dogmática Ortodoxa, Vol. 2 (1857).

A doutrina da Igreja Romana sobre o Purgatório tem alguma semelhança com a doutrina da Igreja Ortodoxa sobre a possibilidade de alguns pecadores serem libertados das amarras do Hades [Inferno] pelas orações dos vivos, embora também tenha alguma diferença. Para julgar corretamente entre um e outro, deve-se entender o ensino conforme estabelecido pelos próprios teólogos romanos.

Primeiro, eles distinguem na doutrina do Purgatório duas partes: a 'parte essencial', ou o que foi decretado e ensinado por sua Igreja como dogma, e o opcional, ou seja, o que não foi fixado por sua Igreja e é objeto de opiniões [controversas] teológicas. A primeira parte refere-se apenas a dois pontos:

a) Há um purgatório, isto é, um lugar ou estado de expiação (status expiationis) em que as almas daqueles que morreram sem ter recebido a absolvição por faltas leves, ou mesmo depois de obter a absolvição de seus pecados, mas sem suportar nesta vida os castigos temporais pelos pecados, sofrem tormentos para satisfazer a justiça divina, até que sejam purificados por esses tormentos e se tornem dignos da felicidade eterna.

b) As almas dos que estão no Purgatório precisam muito de oração para ajudá-los, assim como esmolas [oferecidas em favor delas], e principalmente do Sacrifício incruento [isto é, o Sacrifício da Missa].

No que respeita ao ensino não-essencial [opcional], este refere-se à solução das seguintes questões:

a) O Purgatório é um lugar específico ou não, e em caso afirmativo, onde fica? Os sofrimentos das almas no fogo do purgatório são reais ou metafóricos [espirituais]?
b) Quanto tempo as almas ficam no purgatório? Como eles são ajudados pelas orações da Igreja?
 
Segundo, focando nossos pensamentos sobre a parte essencial da doutrina romana sobre o Purgatório, encontramos alguma semelhança com a da Igreja Ortodoxa sobre as orações pelos mortos, e ao mesmo tempo algumas diferenças:
 
Semelhanças - Há semelhança na ideia fundamental. De fato, a Igreja Ortodoxa ensina, como a de Roma: (a) Que as almas de alguns dos mortos, ou seja, daqueles que morreram na fé e no arrependimento, mas sem ter tido tempo para trazer em vida frutos dignos de arrependimento [Mateus 3:8], e, portanto, não conseguiram receber de Deus o perdão completo de seus pecados e serem [perfeitamente] purificados, sofrem tormentos até que sejam julgados dignos de perdão e purificados; e (b) Que em tais casos as almas dos defuntos são beneficiadas pelas orações em favor delas pelos irmãos em Cristo que ainda estão vivos, suas obras de caridade e especialmente pela oferta do Sacrifício incruento [eucarístico].
 
Diferenças - As diferenças, em particular, são: (a) De acordo com a doutrina da Igreja Ortodoxa, as almas dos mortos acima mencionadas estão sofrendo porque, embora tenham se arrependido antes da morte, não tiveram tempo de produzir frutos dignos de arrependimento, e portanto, merecer o perdão completo de Deus de seus pecados e, assim, ser realmente purificados e superar as consequências naturais do pecado, [que é a] punição; considerando que, de acordo com a doutrina da Igreja de Roma, as almas dos mortos sofrem no Purgatório, estritamente porque não sofreram aqui abaixo o castigo temporal necessário para os pecados em satisfação da justiça divina; e (b) Segundo a doutrina ortodoxa, essas almas são purificadas dos pecados e merecem o perdão de Deus, não por si mesmas e pelo seu próprio sofrimento, mas pelas orações da Igreja e pelo poder do Sacrifício incruento [eucarístico]; com essas mesmas orações não só beneficiando as almas que sofrem, mas mitigando sua posição, libertando-as do tormento, enquanto que, segundo a doutrina da Igreja Romana, é por seu mesmo sofrimento que as almas são purificadas no Purgatório e, assim, a justiça divina é satisfeita, e as orações da Igreja servem apenas para dar-lhes algum alívio nessa condição.
 
Além disso, embora as diferenças entre a doutrina romana do Purgatório e a doutrina ortodoxa de oração pelos mortos sejam sobre esses detalhes, elas são importantes e não podemos aceitar as diferenças. Pois nessas diferenças encontramos tanto coisas falsas [no ensino romano] quanto uma inversão do dogma fundamental:
 
1º Erro [Que é necessário satisfazer a justiça divina por todo pecado já perdoado, através de penas temporais] - A primeira ideia é falsa, como já vimos, isto é, que um pecador que se arrepende antes de morrer deve ainda trazer uma espécie de satisfação à justiça divina por seus pecados sofrendo algum castigo temporal para esse fim, e que no Purgatório ele faz isso, por falta de poder sofrer aqui embaixo. A satisfação completa à justiça divina, a mesma satisfação superabundante, foi apresentada de uma vez por todas, em favor de todos os pecadores, por meio de Jesus Cristo Nosso Salvador, que tomou sobre si os pecados do mundo e todo o castigo pelo pecado; e, para obter o perdão completo de Deus e a libertação de todo castigo do pecado, os pecadores devem apropriar-se dos méritos do Redentor, ou seja, crer nEle, arrepender-se verdadeiramente de seus pecados, produzir frutos dignos de arrependimento, ou seja, boas ações. Consequentemente, se há pecadores que, tendo-se arrependido antes de morrer, têm, apesar disso, tormentos a suportar após a morte, é apenas porque não tiveram tempo para apropriar-se plenamente dos méritos do Salvador, seja por causa da fraqueza de sua fé Nele ou por efeito da falha de seu arrependimento, e principalmente porque não deram frutos dignos de arrependimento, e não foram realmente purificados do pecado, como ensina a Igreja Ortodoxa.
 
2º Erro [Que as almas podem ser purificadas através de seus próprios sofrimentos expiatórios] - Não é menos um equívoco que os pecadores seriam purificados no Purgatório e satisfariam a justiça divina por seus próprios tormentos. Em qualquer sentido que o fogo do Purgatório seja entendido, literalmente ou em sentido figurado, em nenhum desses sentidos podemos atribuir isso a Deus. Se for atribuído um significado literal ao fogo, então, o fogo por sua própria natureza é incapaz de purificar uma alma que é uma essência espiritual simples e imaterial. Se for atribuído um significado figurativo, ou seja, o fogo é um tormento interior da alma devido à consciência de seus pecados passados ​​e à profunda contrição por eles, então, nesse caso, isso não pode purificar a alma na vida além da sepultura, porque na vida após a morte não há mais lugar para arrependimento, nem para mérito ou qualquer autocorreção pessoal como os católicos romanos acreditam. E enquanto a alma permanecer no pecado, não purificada e renovada, até então, seja o que for que tenha que suportar, ela não pode de modo algum satisfazer por seu próprio sofrimento a justiça divina e superar [através desses sofrimentos] essas consequências inevitáveis ​​do pecado.
 
3º Erro [Que as orações da Igreja são essencialmente dispensáveis, servindo apenas para aliviar os sofrimentos do Purgatório] - Se as almas de alguns dos mortos sofrem no Purgatório, e mesmo os pecadores arrependidos devem necessariamente sofrer uma punição temporal pelo pecado em satisfação à justiça divina, e, se as almas que sofrem no Purgatório são verdadeiramente purificadas e cumprem sua obrigação para com a justiça divina [através desses sofrimentos], então, a pergunta é: “Qual é o sentido das orações e da intercessão geral da Igreja em seu favor?”. As almas do Purgatório necessariamente têm que sofrer até que tenham cumprido a satisfação desejada e tenham sido purificadas pelo sofrimento; agora, se as orações da Igreja apenas enfraquecem e aliviam esse sofrimento, em vez de encurtar o período de tempo que as almas devem passar no Purgatório, elas (as orações) o prolongam e, portanto, são menos úteis do que prejudiciais. Isso não derruba, é claro, a ideia fundamental do dogma das orações pelos mortos?
 
Terceiro, se voltarmos agora a nossa atenção para a parte não-essencial da doutrina romana sobre o Purgatório, sendo opiniões teológicas, verificamos que difere muito mais da doutrina da Igreja Ortodoxa sobre a oração pelos mortos, embora em questões de pouca importância julgando pelo seu significado íntimo. Mencionemos os dois mais notáveis:
 
4º Erro [Que há um lugar intermediário entre céu e inferno] - A Igreja Ortodoxa ensina que não há classe intermediária após a morte entre aqueles que são salvos e vão para o céu, e aqueles que são condenados e vão para o Hades; não há um lugar intermediário específico para onde vão as almas que fizeram penitência antes da morte e estão sujeitas às orações da Igreja; todas essas almas vão para o Hades, onde só podem ser libertadas pelas orações. A maioria dos teólogos romanos considera o Purgatório como um lugar intermediário especial entre o céu e o inferno, às vezes colocado nas proximidades deste último, no interior da terra, às vezes próximo ao primeiro, às vezes no ar. Há outros, porém, que veem no Purgatório não um lugar à parte, mas um estado particular de almas, e reconhecem que as almas neste estado podem sofrer seu castigo temporal e purificar-se mesmo onde estão contidas os condenadas [outras almas] ao castigo eterno (ou seja, no inferno); assim, podem ser encontrados na mesma prisão presos condenados à prisão temporária e presos condenados para sempre.
 
5º Erro [Que há um fogo purgatorial] - A Igreja Ortodoxa rejeita veementemente o ensino de um fogo purgatorial, no verdadeiro sentido da palavra, que purificaria a alma. Um grande número de teólogos romanos considera este fogo como real e material (sendo esta a crença quase universal dos leigos da confissão romana), e para angariar provas de seu ensinamento eles tentam coletar das Sagradas Escrituras e do escritos dos antigos Doutores da Igreja referências que parecem tratar de tal fogo. Outros, no entanto, entendem o fogo do Purgatório em sentido figurado, para tormento espiritual, e, portanto, citam em seus tratados sobre o assunto evidências semelhantes da palavra de Deus ou dos escritos dos Padres, acrescentando que os próprios antigos doutores eram de opiniões variadas sobre o fogo. Seria, portanto, supérfluo até mesmo refutar as provas apresentadas. Nota-se finalmente que, em geral, sua Igreja não determinou precisamente o que é o fogo do Purgatório, se é material ou não, e, portanto, não pertence à fé entendê-lo de uma maneira ou de outra [dogmaticamente].

Não discutiremos outras opiniões sobre o Purgatório, por exemplo, quanto tempo uma alma permanece, e se todas elas sofrem o mesmo espaço de tempo pelas mesmas penas; quais penalidades elas enfrentam; se são mais rigorosas que as da vida presente e mais leves que as do inferno; se as almas do purgatório rezam por si mesmas e por nós que ainda estamos neste mundo; se se entregam à prática das boas obras, etc, etc. Todas essas opiniões têm pouco valor mesmo para os teólogos de Roma e poucos se empenharam seriamente em respondê-las.

***

Breve síntese [não pertence ao texto do Metropolita Macário]
 
A Igreja Ortodoxa crê que:

1) Há pessoas que morreram com fé e arrependimento, mas que são "detidas no Hades" (a expressão é de S. Basílio), seja porque "não tiveram tempo de produzir frutos de arrependimento", seja porque cometeram "faltas leves" e, assim, ainda não receberam pleno perdão e purificação de seus pecados.

2) A Igreja ora e oferece sacrifícios por essas almas, implorando a misericórdia de Deus em favor delas. É essa intercessão que traz-lhes a libertação, perdão, purificação e plena entrada no paraíso, não o pagamento de débitos de expiação ("penas temporais").

Já o sistema romano ensina  que as orações da Igreja servem mais para aliviar o sofrimento das almas que ainda devem pagar penas temporais. É o pagamento dessas penas, pelo sofrimento expiatório (no fogo do Purgatório), que as liberta. Daí a existência de indulgências, que consistem na aplicação de méritos para cobrir (pagar) esses débitos de penas temporais. Não há indulgências na Igreja Ortodoxa.

Bossuet sobre a doutrina luterana da justificação

 

8. A fé especial de Lutero, e a certeza da justificação. Mas o mistério dessa fé justificadora tinha algo de muito singular. Não consistia em crer em geral no Salvador, seus mistérios e suas promessas; mas em crer com total segurança, cada um em seu coração, que todos os nossos pecados estão perdoados. "Somos justificados", disse Lutero sem cessar, "desde o momento em que cremos com certeza que assim somos". A certeza que ele requeria não era apenas certeza moral, a qual, fundada em motivos razoáveis, exclui perturbação e angústia; mas uma certeza absoluta e infalível, pela qual o pecador deve crer-se justificado com a mesma fé com que crê que Cristo veio ao mundo.

Sem essa certeza não haveria justificação para os fiéis; pois eles não poderiam clamar a Deus nem confiar nele somente, enquanto tivessem a menor dúvida, não meramente da Bondade Divina em geral, mas da bondade particular pela qual Deus imputa a cada um de nós a justiça de Jesus Cristo; e isso ele chamou de fé especial.

9. De acordo com Lutero, o homem é assegurado de sua justificação, sem estar assegurado de seu arrependimento. Aqui uma nova dificuldade surgiu, se, para estar assegurado de sua justificação, seria necessário, ao mesmo tempo, que o homem esteja satisfeito com a sinceridade de seu arrependimento. Isso imediatamento ocorreu a todos; uma vez que Deus prometeu justificar apenas o arrependido, se estamos certos de nossa justificação, parece necessário que estejamos também da sinceridade de nosso arrependimento. Mas Lutero rejeitou essa última certeza; longe de estar certo de seu arrependimento, o homem "não pode sequer estar certo", disse ele, "de não estar cometendo muitos pecados mortais em suas melhores ações, em razão do vício oculto da vanglória ou amor próprio" (Luther, T. i. Prop. 1518. Prop. 48).

Lutero foi ainda além; pois ele havia inventado essa distinção entre as obras de Deus e as do homem, de modo "que as obras do homem, por mais belas em aparência, podem parecer boas, mas são graves pecados; por outro lado, as obras de Deus, por mais deformadas em aparência, podem parecer más, porém são dotados de mérito eterno" (Prop. Heidls. 1518. Prop. 3, 4, 7, 11.). Enganado por essa antítese e por seu jogo de palavras, Lutero imaginou que tinha descoberto a verdadeira diferença entre as obras do homem e as de Deus; não refletindo que as obras boas dos homens são também obras de Deus, o qual, por sua graça, as produz em nós, o que, segundo o próprio Lutero, deveria conferi-las um mérito eterno; mas isso era o que ele tinha resolvido evitar - ao contrário, concluindo "que todas as obras do justo seriam pecados mortais se ele não estivesse temeroso de assim serem; nem seria possível evitar a presunção, ou ter uma verdadeira esperança, se, em toda ação realizada, eles não temessem a condenação" (Ibid.).

O arrependimento, sem dúvida, é incompatível com pecados mortais; pois estar realmente arrependido de alguns pecados, mas não de todos, ou lamentar os pecados enquanto os comete, é impossível. Se, portanto, em todas as nossas ações, nunca estamos certos de não cair em pecados graves - se, ao contrário, devemos temer constantemente cair em tais pecados, consequentemente nunca podemos estar certos de nosso arrependimento; e se pudéssemos estar certos disso, não precisaríamos, como Lutero prescreve, temer a condenação, a menos que cressemos que Deus, contrário à sua promessa, poderia condenar ao inferno o coração contrito. Se, por causa de sua falta de disposição, da qual ele não está certo, o pecador duvide de sua justificação, Lutero confirmava que ele não estaria seguro de sua boa disposição, nem poderia ele saber, por exemplo, se está realmente contrito, verdadeiramente arrependido e afligido por seus pecados; entretanto, ele não estaria menos assegurado de sua completa justificação, porque isso não dependeria de nenhuma boa disposição de sua parte. Nesse assunto o novo Doutor declara ao pecador: "Creia firmemente que tu estás absolvido, e assim tu estarás, qualquer que seja sua contrição" (Serm. de Indulg. v. i. p. 52). Isso equivale a dizer, quer esteja arrependido ou não, tu não precisas preocupar-te. Tudo consiste, disse ele continuamente, "em crer, sem hesitação, que tu estás absolvido", daí ele concluiu que, se o padre batizou ou absolveu por brincadeira, é matéria sem consequência (Prop. 1518. Ibid. Serm. De Indulg.); porque nos sacramentos só uma coisa era de se temer, qual seja, não crer com força suficiente que todos os teus crimes foram-te perdoados, uma vez que chegaste a crer assim.

10. A inconsistência dessa doutrina. Os católicos perceberam que essa doutrina opera sob uma grave dificuldade, porque o crente, sendo obrigado à certeza de sua própria justificação, mas não de seu arrependimento, consequentemente teria de crer que é possível estar justificado diante de Deus, ainda que sem arrependimento, o que abriria as portas à impenitência.

Verdade seja dita, entretanto (pois nada deve ser escondido), que Lutero não excluía da justificação um sincero arrependimento, ou seja, horror pelo pecado, e a vontade de fazer o bem, em resumo, a conversão do coração, e julgava absurda, assim como nós, a ideia de ser justificado sem contrição ou arrependimento. Entre ele e os católicos, nesse ponto, parecia não haver diferença, a menos que os católicos chamassem esses atos de disposições do pecador para a justificação, pois Lutero considerava mais correto chamá-los de condições necessárias. Mas essa distinção sutil, no fundo, não removia a dificuldade: pois esses atos são essenciais para a remissão do pecado, sejam chamados como quiser, seja condição, ou disposição, ou preparação necessária; a questão ainda permanece. Como Lutero pode dizer que o pecador deve crer com certeza que está absolvido, seja sua contrição como for, isto é, seja seu arrependimento como for; como se estar arrependido, ou não, fosse coisa indiferente à remissão dos pecados. (...)

15. A contradição da doutrina de Lutero. (...) Os católicos observaram também que as respostas dadas nessa matéria eram manifestamente contraditórias. Lutero havia adotado a seguinte proposição: "Nenhum homem pode responder ao sacerdote que está contrito, isto é, arrependido" (Assert. art. Damnat. ad. art. 14. T. ii.). Como a proposição parece muito estranha, ele cita essas passagens para apoiá-la: "Em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado" (1 Cor IV, 4). Davi diz: "Quem pode entender os seus erros?" (Sl XVIII, 12). São Paulo diz, "Não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva" (2 Cor X, 18). Desses textos Lutero conclui que nenhum pecador está qualificado para responder ao sacerdote, "Eu estou verdadeiramente arrependido", e entendendo isso rigorosamente, como uma certeza absoluta, ele estava certo. De acordo com ele, portanto, o homem não está absolutamente assegurado de seu arrependimento. De acordo com ele, por outro lado, ele está absolutamente assegurado de que seus pecados foram perdoados; ele estava absolutamente certo, portanto, de que o perdão é independente do arrependimento. Os católicos esforçaram-se em vão para entender essas novidades: eis aqui um prodígio, dizem eles, em doutrina e moral, nem pode a Igreja suportar esse escândalo.

Justificação apenas pela fé? A resposta do Patriarca Jeremias II aos teólogos luteranos


A Resposta do Patriarca Jeremias II aos teólogos luteranos de Tübingen, sobre a Confissão de Augsburgo (séc. XVI).

Da primeira resposta de Constantinopla a Tübingen
[6. A Nova Obediência]

O sexto [artigo] garante que é necessário fazer boas obras, mas não depender delas de acordo com a passagem: "Não entres em juízo com o teu servo" [Sl 143:2]. Com relação a isso dizemos que a fé precede, e então as obras seguem e são necessárias de acordo com o mandamento de Deus. Aquele que os cumpre, como deve, recebe recompensa e honra na vida eterna. Na verdade, as boas obras não são separadas, mas necessárias para a verdadeira fé. Não se deve confiar nas obras nem se gabar de uma maneira farisaica. E mesmo que tenhamos cumprido tudo, de acordo com a palavra do Senhor, "somos servos indignos" [Lc 17:10]. Todas as coisas devem ser referidas à justiça de Deus porque as coisas que foram oferecidas por nós são pequenas ou nada. De acordo com Crisóstomo, foi estabelecido que Deus não conduz aqueles de nós que estão ociosos para o Seu reino. O Senhor "se opõe aos soberbos, mas dá graça aos humildes" [1 Pe 5:5; ver Tg 4: 6; Pr 3:24]. Não se deve vangloriar-se de obras. Mas fazê-las e cumpri-las é muito necessário. Pois sem as obras divinas é impossível ser salvo. Se, então, formos convencidos pelo Senhor que diz: "Se sabes estas coisas, bem-aventurado és se as fizeres" [Jo 13:17], será para nosso benefício.

É necessário unir nossas boas obras com a misericórdia de cima. Se nos desculparmos por causa de nossa fraqueza ou da bondade de Deus e não adicionarmos algo nosso, não haverá benefício para nós. Como podemos invocar a misericórdia para a cura de nossas iniqüidades, se não temos feito nada para apaziguar o Divino? Ouçamos como Crisóstomo explicou as palavras do Salmo 129: "Das profundezas clamo a ti, Senhor. Senhor, ouve a minha voz" [1-2]:
'Disto aprendemos duas coisas: que não se pode simplesmente esperar algo de Deus se nada de nós vier', porque primeiro diz: 'Eu choro' e, em seguida, 'ouve minha voz'. Além disso, a oração longa, cheia de lágrimas, tem mais poder para convencer Deus a ouvir o que foi pedido. Mas assim ninguém pode dizer que, visto que ele é um pecador e cheio de milhares de males, 'Eu não posso vir antes e orar, e invocar a Deus'. Ele tira todas as dúvidas dizendo: 'Se tu, Senhor, observares as iniqüidades, Senhor, quem poderia resistir?' [Sal 129: 3]. Aqui, a palavra 'quem' deve ser substituída pela palavra 'ninguém', porque não há ninguém, ninguém que, de acordo com um exame estrito de suas obras, possa alcançar misericórdia e benevolência. Se você retira a misericórdia e Deus justamente impõe a pena da sentença e distribui punições pelos pecados, quem será capaz de suportar o julgamento? Por necessidade, todos teriam que se submeter à destruição. E dizemos essas coisas não para levar as almas ao descuido, mas sim para consolar aqueles que caíram no desespero. Porque quem pode se orgulhar de ter um coração puro? Ou quem pode proclamar que está livre de pecados? E o que posso dizer dos outros? Pois se coloco São Paulo em nosso meio e desejo pedir-lhe que dê um relato preciso do que aconteceu [no caso dele], ele não conseguirá se conter. Por que ele pode dizer? Ele leu os profetas. Ele era um zelota com respeito ao rigor da lei dos antepassados. Ele viu sinais. No entanto, ele ainda não havia ascendido àquela visão incrível que apreciou, nem ele tinha ouvido aquela voz incrível. Antes ele estava, em todas as coisas, confuso.
Além disso, não foi Pedro, o chefe [apóstolo], que depois de milhares de milagres e outros, reprovado em concílio por sua queda grave? Se, então, Ele não julgar por misericórdia e compaixão, mas pronunciar um julgamento preciso, então [o Senhor] irá considerar todos nós culpados. Portanto, o apóstolo Paulo disse: 'Não estou ciente de nada contra mim mesmo, mas não fui por isso absolvido. É o Senhor quem me julga' [I Cor 4:4]. E o Profeta disse: 'Se tu, ó Senhor, notares as iniqüidades, Senhor, quem resistirá?' [Sal 129:3]. E a duplicação [da palavra Senhor] não é simplesmente dita, mas [o Profeta] ficou maravilhado e surpreso com a grandeza da misericórdia de Deus, Sua majestade sem limites e o mar insondável de Sua bondade. Ele sabia, e sabia claramente, que somos responsáveis ​​perante Deus por muitas dívidas, e que mesmo o menor dos pecados são merecedores de grande punição. 'Pois contigo está o perdão' [Sl 129:3]. Isso significa que escapar do castigo eterno não depende de nossas conquistas, mas de Tua bondade... Se não desfrutarmos de Tua misericórdia, nossas conquistas em si não são suficientes para nos arrebatar da ira futura. Mas agora você tem misericórdia e justiça unidas, e você prefere usar a primeira em vez da última. E o Senhor disse isso claramente por meio do Profeta: 'Eu sou Aquele que apaga as tuas transgressões' [Is 43:25], isto é, vem de mim, é da minha bondade porque aquelas coisas que são suas, embora sejam boas, nunca serão suficientes para libertá-lo do castigo se a obra de minha misericórdia não fosse adicionada. E [o Senhor] também [disse]: 'Eu te carregarei' [Is 46:4]. Na verdade, a expiação pertence por direito a Deus, Aquele que é verdadeiramente misericordioso. Portanto, ele examina com moderação. 'Por amor do teu nome tenho esperado por ti, ó Senhor' [Sl 129:5]. Por causa do teu nome, que é misericordioso, tenho esperado a salvação. Quando olhava para meus próprios assuntos, voltava a ficar desesperado, como antes; mas agora, atendendo à Tua lei e cumprindo Tuas palavras, tenho grandes expectativas. Tu és Aquele que disse, 'como o céu está distante da terra' [Is 55:9], 'então os meus conselhos não são como os teus conselhos, nem os meus caminhos como os teus caminhos' [Is 55:8]. E ainda: 'Assim como o céu está elevado acima da terra, assim o Senhor aumentou a Sua misericórdia para com os que O temem' [Sl 102:11]; isto é, não apenas eu [Deus] salvei aqueles que realizam [boas] coisas, mas também poupei os pecadores.

(...)

Vamos buscar boas obras. Não procuremos o cisco que está no olho do outro, mas vejamos o tronco que está no nosso [cf. Mt 7:3]. E, assim, com a graça de Deus, seremos capazes de alcançar dignamente as coisas boas que estão por vir. Portanto, o poder das obras é grande; e mesmo quando cometemos pecados, Deus os limpa por meio do arrependimento. Não se deve vangloriar-se delas nem depender delas, pois isso seria pecaminoso; mas, tanto quanto você pode, cumpra as obras que são o resultado da fé e são necessárias. Pois, se os que expulsaram demônios e profetizaram forem rejeitados e não viveram uma vida comparável, quanto mais [seremos rejeitados] se formos negligentes e não cumprirmos os mandamentos? Cristo dirá a essas pessoas: "Nunca vos conheci" [Mt ​​7,23; cf. Lc 13:27].

Da segunda resposta de Constantinopla a Tübingen
[1. A distinção entre lei e lei espiritual]

Não dizemos apenas que aqueles que obedecem à lei serão justificados, mas aqueles que obedecem à lei espiritual, que é entendida espiritualmente e de acordo com o homem interior. Na verdade, por "cumprir a lei do espírito" tanto quanto podemos, seremos justificados e não cairemos em desgraça porque o Verbo da purificação passou para as profundezas da alma. No entanto, aqueles que servem a lei de acordo com sua expressão externa caem totalmente da graça divina, pois eles não sabem que o cumprimento pela graça da lei espiritual limpa a mente de todos os pontos; nem conhecem o fim da lei, que é Cristo. Ele, como o criador de tudo, é também o criador da lei da natureza, e como Aquele que pré-concebeu a lei, é doador tanto daquilo que está escrito na letra como também daquilo que está em espírito ou na graça.

(...)

[6. São Tiago sobre a relação entre fé e obras]

Além disso, o irmão de Deus [Tiago] no capítulo 2 de sua Epístola concorda, dizendo:
Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, mas não tiver as obras? Sua fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã está malvestido e com falta de alimento diário, e um de vocês lhes diz: 'Vão em paz, aqueçam-se e fartam-se', sem lhes dar as coisas necessárias para o corpo, de que adianta? Portanto, a fé por si só, se não tiver obras, está morta. Mas alguém dirá: 'Você tem fé e eu tenho obras. Mostre-me sua fé sem as suas obras, e eu pelas minhas obras mostrarei a você minha fé.' Você acredita que Deus é um; faz bem. Até os demônios acreditam - e estremecem. Você quer que lhe mostre, seu tolo, que a fé sem as obras é estéril? Não foi nosso pai Abraão justificado pelas obras quando ofereceu seu filho, Isaque, sobre o altar? Você vê que a fé estava ativa junto com suas obras, e a fé foi aperfeiçoada por obras, e a Escritura foi cumprida que diz: 'Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça'; e ele foi chamado amigo de Deus. Você vê que um homem é justificado pelas obras e não somente pela fé, como dissemos. Pois como o corpo sem o espírito está morto, então a fé sem as obras está morta [cf. Tg 2: 14-24, 26].
[7. Intercorrelação de fé, esperança e amor para a salvação]

Vamos considerar se não foi dito em vão que sem fé, esperança e amor, é impossível ser salvo. Pois como nós, de fato, precisamos dos olhos do nosso corpo para ver as coisas visíveis, então, sem dúvida, temos necessidade de fé para o estudo das coisas divinas. Pois, como o conhecimento das questões vem de acordo com a proporção das realizações dos mandamentos, também o conhecimento da verdade vem de acordo com a medida da esperança em Cristo [cf. Jo 7:17]. E como, de fato, é adequado adorar nada mais que Deus, então não se deve esperar em nenhum outro senão somente em Deus, que é Aquele que cuida de todos [cf. Mt 4:10]. Assim como aquele que tem esperança no homem é amaldiçoado, bem-aventurado aquele que repousa em Deus. E assim como a lembrança da chama não aquece o corpo, da mesma maneira, a fé sem amor não efetua a luz do conhecimento na alma. Na verdade, é impossível que o amor seja encontrado sem esperança. Por isso, os Santos Padres dizem que uma coisa é permanente: a esperança em Deus. Todas as outras coisas não são realidade, mas meramente pensamento. Aquele que firmou seu coração no poder da fé nada tem sem obras. E quando alguém não tem nada, ele limita tudo à fé. Na verdade, o poder da fé está nas boas obras. E aquele que foi privado de amor, foi privado do próprio Deus. Deve-se empenhar em tais obras e também ter esperança nEle. Pois se você se perguntasse a si mesmo ou a outro cristão verdadeiro em que fundamento os que estão sendo salvos têm esperança de salvação, ele certamente diria que esperamos apenas na misericórdia de Deus. Mas esta é a paciência de Deus. Pois se Ele não suportasse o mal por nós, ninguém seria salvo, visto que ninguém entre os homens está sem pecado. “Mesmo se a sua vida fosse apenas um dia na terra” [Jó 14: 4-5]. Portanto, se temos a esperança da salvação na paciência de Deus, essa esperança de salvação, de fato, é dada apenas àqueles que suportam o mal e não àqueles que carregam malícia. Então, sejamos, tanto quanto possível, pacientes, perdoando piedosamente os outros que nos ofenderam; e então o Pai Celestial não apenas nos perdoará, mas também nos concederá a vida eterna em Cristo.