. . . [Deus] pôs todas as coisas debaixo dos pés [de Cristo] e o fez cabeça sobre todas as coisas para a Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.. . . pois por meio dele nós. . . temos acesso em um Espírito, ao Pai. Portanto, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a pedra angular, no qual toda a estrutura está unida e cresce em templo santo no Senhor; no qual também vós sois nele edificados para morada de Deus no Espírito.. . . Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la pela lavagem da água com a palavra, para apresentar a si a Igreja em esplendor, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, para que ela seja santa e sem mancha. . . Este é um Grande Mistério. . . Cristo e a Igreja. . .(Ef 1.21-23; 2.19-22; 5.25-32)
Sobre a Igreja de Cristo e seus atributos
Seis exemplos de resistência ao Bispo de Roma na história da Igreja
No século II, o papa Victor I ordenou, sob pena de excomunhão, que a Páscoa fosse celebrada na mesma data, proibindo uma prática diferente dos bispos da Ásia. Jerônimo narra que S. Polícrates "escreveu uma carta sinodal contra Victor bispo de Roma na qual ele diz que segue a autoridade do apóstolo João e dos antigos". A carta de Polícrates dizia:
"Não temerei aqueles que nos ameaçam, pois meus predecessores disseram que 'é melhor obedecer a Deus do que aos homens'".Ao que Jerônimo acrescenta:
"Cito isso para mostrar através de um pequeno exemplo o gênio e a autoridade do homem" (De Viria Illustribus, 45).
Victor, que presidia a igreja em Roma, (...) tentou cortar da unidade comum as paróquias [dioceses] de toda a Ásia, com as igrejas que concordavam com elas, como heterodoxas; e ele escreveu cartas e declarou todos os irmãos ali totalmente excomungados. Mas isso não agradou a todos os bispos. E rogaram-lhe que considerasse as coisas da paz, da unidade e do amor ao próximo. Há ainda as palavras deles, repreendendo fortemente Victor (História Eclesiástica, V, 24).
O assunto só foi resolvido no Concílio de Niceia, que uniformizou a prática.
Pois nenhum [de nós] se estabeleceu [para ser] bispo [dos bispos], ou tentou com pavor tirânico forçar seus colegas à obediência a ele, já que todo bispo tem, para a licença da liberdade e do poder, sua próprio vontade, e como ele não pode ser julgado por outro, também não pode julgar outro. Mas aguardamos o julgamento de nosso Senhor universal, nosso Senhor Jesus Cristo, que unicamente e somente tem o poder, tanto de nos fazer avançar no governo de sua Igreja, quanto de julgar nossas ações [nessa posição].
Pois é você mesmo [Estevão] que você cortou. Não se engane, pois é realmente o cismático aquele que se fez apóstata da comunhão da unidade eclesiástica. Pois enquanto você pensa que todos podem ser excomungados por você, você se excomungou sozinho de todos.É verdade que, posteriormente, a questão foi uniformizada nos concílios ecumênicos contra o rebatismo. Mas Sto. Agostinho explica assim a oposição de Cipriano a Estevão:
Pois naquela época, antes que o consentimento de toda a Igreja tivesse declarado com autoridade, por decreto de um concílio plenário, qual prática deveria ser seguida nesta questão, parecia-lhe [a Cipriano], em comum com cerca de oitenta de seus colegas bispos da igrejas da África, que todo homem que foi batizado fora da comunhão da Igreja Católica deveria, ao ingressar na Igreja, ser batizado de novo (Sobre o batismo, I).Em outras palavras, Agostinho não condenava Cipriano por ter resistido ao papa Estevão, visto que a prática correta ainda não havia sido "declarada com autoridade" por um Concílio ecumênico. As implicações disso são óbvias.
Parabenizo aqueles que receberam a carta de Roma. E, apesar de este ser um testemunho grande em seu favor, apenas espero que seja verdadeiro e confirmado por fatos. Mas jamais serei capaz de persuadir-me por esse motivo a ignorar Melécio [de Antioquia], ou a esquecer a igreja que está sob ele, ou a tratar as questões que originaram a controvérsia como coisa pequena e de pouca importância para a verdadeira religião. Nunca consentirei em ceder meramente porque alguém está eufórico em receber uma carta de homens. Ainda que [a carta] tivesse caído do céu, se não concorda com a doutrina correta da fé, não posso olhar para ele como alguém em comunhão com os santos (Carta 214).
Que Vossa Santidade envie alguém de sua parte [para anular nossa decisão] não encontramos ordenado por nenhum Concílio dos Padres. Porque em relação ao que você nos enviou pelo mesmo nosso irmão bispo Faustino, como contido no Concílio de Nicéia, não podemos encontrar nada semelhante nas cópias mais autênticas desse Concílio, que recebemos do santo Cirilo, nosso Irmão, Bispo da Igreja Alexandrina, e do venerável Ático, Prelado de Constantinopla, e que anteriormente enviamos por Inocêncio, o presbítero, e Marcelo, o subdiácono, por meio de quem os recebemos, a Bonifácio, o Bispo, seu predecessor de venerável memória. Além disso, quem quiser que você delegue a alguém de seu clero para executar suas ordens, não aceite, para que não pareça que estamos introduzindo o orgulho do domínio secular na Igreja de Cristo, que exibe a todos que desejam ver Deus a luz da simplicidade e o dia da humildade.
"Seguindo em tudo as decisões dos santos Padres, e reconhecendo o cânon, que acabou de ser lido, dos Cento e Cinquenta Bispos amados-de-Deus (que se reuniram na cidade imperial de Constantinopla, que é a Nova Roma, em época do Imperador Teodósio de feliz memória), também promulgamos e decretamos as mesmas coisas a respeito dos privilégios da Santíssima Igreja de Constantinopla, que é a Nova Roma. Pois os Padres justamente concederam privilégios ao trono da velha Roma, PORQUE ERA A CIDADE IMPERIAL. E os cento e cinquenta bispos mais religiosos [isto é, no segundo concílio ecumênico], movidos pela mesma consideração, deram PRIVILÉGIOS IGUAIS ( ἴσα πρεσβεῖα ) ao santíssimo trono da Nova Roma, julgando com justiça que a cidade que é honrada com a Soberania e o Senado, e goza de privilégios iguais com a antiga Roma imperial, deveria em questões eclesiásticas também ser engrandecida como ela é..."
Renovando os decretos dos 150 Padres reunidos na cidade imperial e protegida por Deus, e os dos 630 que se reuniram em Calcedônia; decretamos que a Sé de Constantinopla terá privilégios iguais aos da Sé da Antiga Roma, e será altamente considerada em assuntos eclesiásticos como é, e será a segunda depois dela. Depois de Constantinopla será classificada a Sé de Alexandria, depois a de Antioquia e depois a Sé de Jerusalém.
Ele [Carlos Magno] já havia feito uma intervenção moderadamente desastrosa no debate iconoclasta; em 810 ele se envolveu mais uma vez em questões teológicas, desta vez sobre outro velho cavalo de guerra, a cláusula filioque. O Credo original determinado pelos Concílios de Nicéia e Constantinopla sustentava que o Espírito Santo “procede do Pai”; a isso, a partir do século VI, a Igreja Ocidental acrescentou a palavra filioque, “e do Filho”. Na época de Carlos, essa adição foi geralmente adotada em todo o império franco e, em 809, foi formalmente endossada pelo Concílio de Aachen, sua própria capital. Dois anos antes, os monges francos no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, o introduziram em seus serviços, despertando uma oposição furiosa da comunidade oriental do vizinho Mosteiro de São Saba, após o que encaminharam a questão ao papa para uma decisão definitiva.Leão [III] estava em um dilema. Como um ocidental devoto, ele estava perfeitamente feliz com a palavra ofensiva [isto é, com o ensino de que o Espírito "procede do Pai e do Filho" de algum modo], para a qual havia boa autoridade bíblica. Por outro lado, ele estava preparado para admitir que a Igreja Ocidental não tinha o direito de adulterar um Credo que havia sido redigido por um Concílio Ecumênico, e as relações com Constantinopla já eram bastante difíceis sem desencadear outro conflito. Sua solução foi uma tentativa de fazer as duas coisas: aprovar a doutrina enquanto suprimia a própria palavra – o que ele fez, não por meio de qualquer edito inflamatório, mas por ter o texto do Credo em sua forma original – ou seja, sem o filioque — gravada em grego e latim em duas placas de prata que foram fixadas nos túmulos de São Pedro e São Paulo. Seu endosso da unidade das duas igrejas em sua autoria conjunta do antigo Credo dificilmente poderia ter sido mais claro.Carlos Magno, no entanto, estava previsivelmente furioso. Ele crescera com o filioque; se o Oriente se recusou a aceitá-lo, o Oriente estava errado. E quem se importava com o Oriente, afinal? Ele era o imperador agora; o papa deve pregar suas cores firmemente no mastro ocidental e deixar os hereges em Constantinopla por conta própria. Quando Leão [III] ordenou que ele removesse a palavra de suas liturgias, ele não fez nada e não respondeu; e quando, em 813, ele decidiu fazer de seu filho Luís co-imperador, ele claramente deixou de convidar o papa para realizar a cerimônia.
(...) Leão III evidentemente considerou as trocas neste debate como sendo assuntos de grande importância pública para a comunidade em geral. Em protesto contra os francos, talvez para tranquilizar os numerosos gregos em Roma, ele fez com que fossem erguidos em ambos os lados do memorial de São Pedro dois escudos de prata inscritos com o Credo de Constantinopla (381) em grego e latim, em ambos os casos sem Filioque. (Os escudos estavam lá 300 anos depois para Abelardo ver e comentar.) O Sacramentário Gelasiano do século VIII mostra que a forma de Credo usada em Roma no catecismo durante o século VIII não tinha filioque, de modo que Leão [III] estava afirmando a tradição romana existente, mesmo que tenha havido apenas uma declaração consciente de dissidência de Aachen. Que em Aachen houvesse qualquer intenção séria de seguir o desejo do Papa Leão de que o filioque fosse abandonado é muito improvável. Dois séculos depois, o filioque havia se tornado tão universal em todo o Ocidente latino que, aparentemente, até Roma acabou por ceder no ponto de uso litúrgico sob pressão dos Ottos saxões.
Delegados [francos]: Os mesmos criadores do Credo não teriam se saído bem se, acrescentando apenas quatro sílabas, eles tivessem tornado claro para todas as idades seguintes um mistério de fé tão necessário?
Papa: Como não me atrevo a dizer que não teriam feito bem se o tivessem feito, porque, sem dúvida, teriam feito com ele como com o resto que omitiram ou colocaram, sabendo o que fizeram, e sendo iluminados não pela sabedoria humana, mas divina, então nem ouso dizer que eles entenderam este ponto menos do que nós: pelo contrário, eu digo que eles consideraram por que o deixaram de fora, e por que, uma vez deixado de fora, eles proibiram isso ou qualquer outra coisa a ser adicionada posteriormente. Considerai o que pensais de vós mesmos; pois, quanto a mim, não digo apenas que não me colocarei acima (daqueles santos Padres), mas Deus me livre de que eu me iguale a eles.
Ironicamente, este é o único exemplo no qual os defensores da supremacia papal CONCORDARAM com a desobediência, inclusive por serem herdeiros daqueles que a praticaram em primeiro lugar.
O papa Júlio I exerceu jurisdição universal em seu tempo?
"E por que nada nos foi dito sobre a Igreja dos alexandrinos em particular? Ignorais que o costume era que a palavra fosse escrita primeiro para nós, e depois uma decisão justa fosse tomada deste lugar? Se, então, tal suspeita recaiu sobre o bispo de lá [Atanásio], a notificação deveria ter sido enviada à igreja deste lugar [isto é, Roma]" (registrado por Atanásio em Apologia Contra Arianos, I, 2).
"Supondo, como afirmastes, que alguma ofensa recaiu sobre essas pessoas, o caso deveria ter sido conduzido contra elas, não dessa maneira, mas de acordo com o Cânon da Igreja. A palavra deveria ter sido escrita para todos nós, para que uma sentença justa pudesse proceder de todos. Pois os sofredores eram bispos e igrejas não comuns, mas aquelas que os próprios apóstolos governaram em suas próprias pessoas."
"Agora, se vós realmente acreditais que todos os Bispos têm a mesma e igual autoridade, e, como agora afirmastes, não os considerais de acordo com a magnitude de suas cidades; aquele a quem é confiada uma pequena cidade deve permanecer no lugar que lhe foi confiado."
"Máximo, portanto, sem demora enviou alguns dos bispos da Síria e da Palestina, e reunindo um concílio, ele restaurou Atanásio à comunhão e à sua antiga dignidade. Depois disso, o Sínodo comunicou por carta aos alexandrinos e a todos os bispos do Egito e da Líbia, o que havia sido determinado a respeito de Atanásio" (História Eclesiástica, II, 23, de Sócrates).
"João [de Antioquia]... tendo convocado vários bispos, depôs Cirilo, que também havia retornado à sua sede: mas logo depois, deixando de lado a inimizade e aceitando-se como amigos, eles se reintegraram mutuamente em suas cadeiras episcopais" (HE, VII, 34)
Isso não significa que o bispo de Antioquia acreditasse ter jurisdição ordinária sobre Alexandria (ou vice-versa).
A infalibilidade da Igreja na Escritura
Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus (Mateus 16:18,19).
No entanto, há alguma evidência concreta de que João fez uso do Evangelho de Mateus ao escrever o Apocalipse? Definitivamente. Em seu comentário magistral sobre o Apocalipse, Peter Leithart postula que todo o livro do Apocalipse é vagamente baseado no Sermão das Oliveiras de Mateus 24. De fato, procurar paralelos é bastante frutífero. Por exemplo, estes são os únicos dois lugares onde o NT menciona uma vindoura “grande tribulação” (θλῖψις μεγάλη; Mt 24:21, Ap 2:22, 7:14); e a palavra única “abominação” (βδέλυγμα) é usada apenas (com uma exceção) no Sermão das Oliveiras (Mt 24:15, Mc 13:14), e no Apocalipse de João (Ap 17:4-5, 21:27). Claramente, João estava familiarizado com o trabalho de Mateus e não teve nenhum problema em repetir seu Evangelho.
Com isso em mente, vamos dar uma olhada em Apocalipse 20 e Mateus 16. Como argumentei antes, Mateus 16:18-19 alude a Isaías 22:20-24, onde Eliaquim é feito mordomo real da casa de Davi: “Porei no ombro dele a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará; e ele fechará, e ninguém abrirá” (Is. 22:22). Assim como Pedro “liga” e “desliga” com as “chaves” do reino de Deus, Eliaquim “abre” e “fecha” com a “chave” do reino de Davi.
E não apenas há um claro paralelo linguístico entre Isaías 22 e Mateus 16, mas também considere como Eliaquim recebe um “turbante” e uma “faixa” (Is 22:21). Estas são duas vestimentas icônicas do sumo sacerdote (Ex. 28:4); e, portanto, não é surpresa que, em Mateus 17:1-12, Pedro seja igualmente identificado como sumo sacerdote.
“Depois de seis dias”, nos é dito, Jesus levou apenas três de Seus discípulos com Ele até o Monte Tabor: Pedro, Tiago e João (Mt 17:1). Por que só eles? É porque a Transfiguração de Jesus é paralela a Êxodo 24:1-18, que relata a experiência de Moisés da glória de Deus no Monte Sinai (esta é uma das razões pelas quais Moisés está presente na Transfiguração). No caso de Moisés, os três homens que ele subiu ao monte “no sétimo dia” foram Arão, Nadabe e Abiú (Êx 24:1, 9, 15-16). Os dois últimos, Nadabe e Abiú, eram irmãos (Êx 6:23); e acontece que Mateus 17:1 faz questão de notar que Tiago e João eram “irmãos” também. Assim, se Moisés tipifica Jesus, e Nadabe e Abiú tipificam Tiago e João, então isso deve significar que Arão, o sumo sacerdote, tipifica Pedro.
Assim, Pedro em Mateus 16-17, como Eliaquim em Isaías 22, recebe as chaves do reino, autoridade para ligar e desligar, e algum tipo de status de sumo sacerdote. Ligando isso de volta ao Apocalipse, considere como este é o único livro no NT que cita diretamente Isaías 22: “As palavras do santo, o verdadeiro, que tem a chave de Davi, que abre e ninguém fecha, que fecha e ninguém abre” (Ap. 3:7). Jesus é aquele que detém a chave de Isaías 22, e esta não é a única vez que São João menciona essas chaves. Em outro lugar, João se refere a elas como “as chaves da Morte e do Hades” (Ap 1:18), “a chave do poço sem fundo” (Ap 9:1) e, claro, “a chave do Abismo” (Ap. 20:1).
Parece que, para João, as chaves de Isaías 22 são as mesmas chaves que prendem o poder do Hades. Você provavelmente pode ver onde estou indo com isso. Mateus 16:18 é o único outro lugar onde o NT menciona os portões do “Hades” (ᾅδου) ao lado de um par de “chaves”. Dado que Mateus 16 também traz uma clara alusão a Isaías 22, a conexão entre esses textos é, a meu ver, completamente inegável.
Portanto, a imagem que temos é esta: Apocalipse 20:2-3 nos diz que o milênio é o período em que a Morte e o Hades estão presos pelas chaves; e Mateus 16:18-19 nos diz que a Igreja exerce o poder dessas chaves e as usa para fechar as portas do Hades. Isso significa, portanto, que o milênio se refere ao reinado da Igreja na terra, ou seja, a era presente.
Da mesma forma a Igreja, como Corpo de Cristo, fecha as portas do Hades para cumprir sua missão de “fazer discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt. 28: 19). De fato, é neste mesmo contexto que Jesus promete: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28:20). Jesus estará com a Igreja até que ela complete sua missão; Ele estará com ela até o fim. Mateus, como Apocalipse, ensina que a razão pela qual as portas do Hades não prevalecerão contra a Igreja, é para que ela seja verdadeiramente uma luz para as nações durante o milênio (cf. Mt 5:14-16, Ap. 21:24).
No entanto, a que exatamente “a Igreja” se refere neste contexto? Tradicionalmente, tem sido interpretado como uma referência ao ofício episcopal. Santos Cipriano, Optato, Máximo, Agatão, Teodoro Studita e Teodoro de Edessa apelam para Mateus 16:18-19 ao explicar por que a hierarquia eclesiástica nunca pode cair em erro. E eu argumentaria que sua interpretação é de fato a mais plausível dos textos em questão.
Considere o fato de que Mateus 16 não está simplesmente falando sobre “a Igreja” como um corpo geral de cristãos, mas especificamente como uma instituição de autoridade. Isso é visto em Mateus 18, onde a linguagem de “ligar” e “desligar” é usada novamente (Mt 18:18), mas observe o contexto. É o ensinamento de Jesus sobre a excomunhão. Nosso Senhor ensina que, se um cristão pecar contra você, você deve primeiro confrontá-lo sozinho; se ele não ouvir, então leva “um ou dois” cristãos junto com você para confrontá-lo; e se ele não ouvir “eles”, então e somente então “a Igreja” vem para excomungar essa pessoa (Mt 18:15-17). Observe como “a Igreja” é explicitamente contrastada com um mero corpo de “dois ou três” cristãos, e apenas a primeira realmente tem autoridade eclesiástica. De fato, este mesmo texto é citado no 5º Concílio Ecumênico como explicação da autoridade conciliar (Const. +553, 307).
De fato, considere os próprios meios pelos quais a Igreja impede o engano das nações: através de “ligar” e “desligar”. Como Michael Barber demonstra, esses termos têm uma gama de significados, todos coincidentes com as responsabilidades sacerdotais. Fundamentalmente, os sacerdotes são juízes. Eles julgam a diferença entre “limpo” e “impuro” (cf. Lv 13:3-8), e de acordo com Deuteronômio 17:8-13, os julgamentos legais dos sacerdotes devem ser obedecidos sob pena de morte, e “assim você expurgará o mal do seu meio” (Dt 17:12). Como outros lugares em Deuteronômio, esta frase sinistra é uma descrição da pena de morte; e significativamente, São Paulo usa esta frase em 1 Coríntios 5:9-13 para descrever a autoridade da Igreja para excomungar pecadores.
Observei acima que, em Mateus 18, a linguagem de “ligar” e “desligar” também é sobre o poder de excomunhão da Igreja. Isso confirma que a autoridade sacerdotal de julgamento é o que está sendo dado à hierarquia da Igreja em Mateus 16-18. Assim como você teve que ouvir os sacerdotes da antiga aliança sob pena de morte, também você deve ouvir “a Igreja” sob pena de excomunhão. E, como mencionei, é essa autoridade que é o próprio meio pelo qual a Igreja fecha as portas do Hades e, assim, impede que as nações sejam enganadas. Isso ocorre porque, para determinar com autoridade quem é excomungado e quem não é, a hierarquia precisa da capacidade de estabelecer a verdadeira regra de fé. Assim, na Última Ceia, quando Jesus diz muito explicitamente que os Apóstolos (como os sacerdotes da antiga aliança) “julgarão as doze tribos de Israel”, Ele ora para que a fé de São Pedro “não desfaleça” (Lc 22,30-30). 32). Para julgar adequadamente o povo de Deus e ensinar as nações, Pedro e seus sucessores devem, de alguma forma, ter a capacidade de proclamar sem erro (infalivelmente) a fé (é por isso que os Concílios da Igreja, desde os primeiros dias, sempre ensinaram doutrina através do poder de excomunhão, ou seja, pela emissão de anátemas).
E tudo isso é, claro, confirmado pelo próprio São João. Já expliquei detalhadamente antes como, em Apocalipse 1:20, João apresenta “anjos” como os bispos monárquicos da Igreja (os sucessores de Pedro); e uma das maneiras de fazer isso é associando-os ao sacerdócio Aarônico. Você se lembrará de como Mateus 16-17 e Isaías 22 revelam Pedro como o novo Arão, o sumo sacerdote da nova aliança (o Evangelho de João também). Visto que Apocalipse dá um caráter sacerdotal Aarônico aos “anjos” no primeiro capítulo, a leitura mais natural de Apocalipse 20, onde vemos “um anjo” com “as chaves” de Mateus 16, é que é um bispo da nova aliança que amarra as portas do Hades, e impede que as nações sejam enganadas. O que exatamente isso implica é desenvolvido em Apocalipse 21.
Naturalmente, como guardiões, isso significa que os bispos determinarão quem está “dentro” e quem está “fora” do Reino, o que lhes permite instruir adequadamente as nações. E, portanto, não é de surpreender que, neste contexto, São João mencione que “os reis da terra” trarão “a glória e a honra das nações” pelas portas desses bispos (Ap 21:24-26), “mas nada impuro jamais entrará nela, nem qualquer um que pratique abominação e falsidade, mas somente aqueles que estão escritos no livro da vida do Cordeiro” (Ap 21:27).
O fato de que aqueles que são “impuros” (κοινὸν) e praticam “abominações” (βδέλυγμα) são excluídos do reino é muito significativo. Essas duas palavras são muito raras no NT, porque sua origem é de Levítico e Deuteronômio, onde são usadas para descrever a pureza ritual. Você se lembrará de cima que a origem dos julgamentos sacerdotais remonta a este mesmo princípio: a capacidade dos sacerdotes de separar o puro do impuro, o santo do profano. O fato de que essas palavras são usadas para descrever aqueles que os anjos/bispos da Igreja mantêm fora da cidade celestial, mais uma vez nos diz que esses bispos têm autoridade sacerdotal (cf. Lv 18:29). Especificamente, eles nunca permitem aqueles que espalham “falsidade” no Reino, mas apenas aqueles que estão “escritos no livro da vida do Cordeiro”. Em outras palavras, o julgamento da verdade pelos bispos está sempre de acordo com o que Deus já escreveu. Isso é o que impede que as nações sejam enganadas e permite que elas “andem pela luz [da Igreja]” (Ap 21:24).
De fato, como Suan Sonna observa, este é o significado literal por trás do uso do futuro passivo em Mateus 16:19, “o que você ligar na terra, terá sido ligado no céu”. Pedro, os Apóstolos e seus sucessores não precisam que suas decisões sejam ratificadas pelo céu, porque “[seu] julgamento reflete o que Deus já determinou”. Seu julgamento é infalível.
Que Mateus 16 está em mente aqui é confirmado por Apocalipse 21:14-20. Talvez você esteja familiarizado com o antigo debate sobre se Pedro é ou não “a rocha” sobre a qual a Igreja é construída. Eu argumentaria que esses versículos encerram esse debate. É-nos dito que a Jerusalém celestial, a Igreja (Gl 4:26), tem “doze fundamentos”, que levam “os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro”, e são compostos de doze pedras preciosas. Isso está claramente ligado aos “doze” anjos que estão em “doze” portões, que levam “os nomes das doze tribos dos filhos de Israel”. E, portanto, deve ficar claro que os bispos angélicos, sucessores dos apóstolos, constituem as “pedras” e “fundamentos” sobre os quais a Igreja é construída.
No entanto, que São Pedro (o bispo arquetípico) em particular está sendo enfatizado, é estabelecido por um ponto que eu fiz antes. Ou seja, se seguirmos a ordenação consistente dos apóstolos do NT e a correlacionarmos com a ordem das pedras preciosas da cidade celestial, veremos que a primeira dessas pedras preciosas, o jaspe, está associada a Pedro; e o jaspe é, naturalmente, a “pedra” com a qual a Igreja irradia eternamente (Ap 21:11). Isso significa que Pedro e seus sucessores, os hierarcas episcopais, são a rocha imóvel e o fundamento da Igreja. E porque a Igreja não pode existir sem um fundamento, isso significa que a indefectibilidade eclesial, da qual a infalibilidade decorre logicamente (daí porque a autoridade de “ligar” e “desligar” é dada neste contexto), é o ensino definitivo da Escritura.
Dumitru Staniloae e a questão dos sacramentos fora da Igreja
“... os batismos em água e em nome da Santíssima Trindade fora da Igreja são válidos em sua natureza, mas a atualização da Graça neles é alcançada apenas e quando a Igreja Ortodoxa quer isso”.Além disso, ele propõe um nivelamento da atitude pan-ortodoxa em relação aos “batismos estrangeiros”, da seguinte forma: “a) serão batizados os que tiverem batismo [puramente] espiritual ou antitrinitário; b) os que não foram confirmados ou não têm a crisma e o sacerdócio como sacramento receberão a crisma; c) aqueles que têm o batismo trinitário-material e o sacerdócio como sacramento serão recebidos com libelos pisteos [confissões de fé]" (significando os católicos romanos, os greco-católicos etc).
“Não podemos dizer exatamente o que aqueles de fora da Igreja recebem em seus chamados sacramentos. [...] Falta-nos ainda a fórmula, a imagem adequada para esta base objetiva das suas cerimônias, para as elevar e passar ao nível dos Sacramentos.”
Por esta posição, o teólogo romeno corrigiu a opinião do metropolitano Platão, que considerou que “todas as denominações são separações iguais” da Igreja Una. Seguindo a tradição ortodoxa, segundo Pe. Staniloae, devemos considerar que
“as denominações não ortodoxas são separações que se formaram em uma certa relação com a Igreja completa e existem em uma certa relação com ela, mas não comungam com a plena luz e poder de Cristo, o sol”.De certa forma, seguindo essa lógica, a Igreja Una compreende, em certa medida, “todas as denominações que dela se separaram, porque não puderam separar-se completamente da Tradição nela presente”.
O protestantismo e a unidade da Igreja
Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós (Ef 4,4-6).
Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; (...) para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina (Ef 4,11-14).
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei... (Tt 1,5)E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e Filipe, e Prócoro, e Nicanor, e Timão, e Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia; e os apresentaram ante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos (At 6,5-6)A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios; conserva-te a ti mesmo puro (1 Tm 5,22).Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos (2 Tm 1,6).
Portanto ouvimos que alguns dentre nós, aos quais nada mandamos, vos têm perturbado com palavras, confundindo as vossas almas (Atos 15,24).
É necessário acrescentar que a sucessão apostólica não está limitada apenas à linha histórica ininterrupta dos bispos ou à sucessão do ensinamento apostólica (successio doctrinae), mas também compreende a sucessão apostólica do serviço santificante e sua dignidade, bem como a contínua e ininterrupta linha de gerações de cristãos de todas as épocas, e a sucessão apostólica de toda a Igreja. A Igreja, depois da morte dos apóstolos, era a portadora principal e geral da apostolicidade e do serviço apostólico, considerando que o Espírito de Pentecostes foi participado não somente aos doze apóstolos, mas a todo o povo de Deus da nova aliança e à Igreja inteira através de multidão de dons sucessivamente transmitidos.
Ora, é necessário que ou eles tenham errado, ou que errada seja a Igreja que os ordenou; por consequência, ou esta Igreja era falsa, ou aqueles que receberam a missão dela abusaram deste privilégio. Se tomarmos como argumento a hipótese de que a Igreja era falsa, a missão que eles tinham era absolutamente falsa, pois de uma Igreja falsa, como eles imputam à nossa, não pode sair verdadeira missão. Se falsa é a Igreja que os ordenou, onde está a missão que dizem ter? De uma Igreja falsa não se pode extrair uma missão legítima (...).Por outro lado, se a Igreja na qual eles foram instruídos e ordenados era a verdadeira, eles são terminantemente culpáveis de heresia por terem saído e pregado contra sua Fé; se não era uma Igreja verdadeira, ela não tinha poder algum para ordená-los.
Qualquer que concorde com a Escritura Sagrada sobre a cabeça, mas não esteja em comunhão com a unidade da Igreja, não está na Igreja, uma vez que separa-se do testemunho de Cristo a respeito de seu corpo, que é a Igreja (Agostinho de Hipona, século IV, em Sobre a unidade da Igreja, IV, 7).O consentimento dos povos e nações mantém-me na Igreja, assim como sua autoridade, inaugurada por milagres, nutrida pela esperança, ampliada pelo amor, instituída pela idade. Assim a sucessão de bispos que mantém a partir da sede própria do Apóstolo Pedro, a quem o Senhor, depois de sua ressurreição, deu-lhe o cargo de apascentar suas ovelhas, até o episcopado presente (Agostinho de Hipona, século IV, em Contra a epístola fundamental dos maniqueus, IV).
A posição da sola scriptura coloca um fardo impossível sobre cada crente: para reconhecer as verdadeiras congregações, o crente individual deve avaliar a confissão da congregação para verificar sua ausência de erro. Para realizar essa tarefa o crente deve não apenas crer nas doutrinas essenciais da fé, mas também saber exatamente quais doutrinas são essenciais e quais são matéria de legítima diferença de opinião. Isso parece inconsistente com a variedade de talentos, dons e vocações: não se pode esperar que todo crente seja um teólogo. A teoria da sola scriptura condena a maioria dos crentes a uma exclusão de facto da verdadeira Igreja, em virtude de sua inabilidade de distinguir a verdade do erro em todas as questões disputadas.A posição católica, em contraste, coloca um fardo razoável no leigo: ele deve simplesmente reconhecer quais congregações estão em comunhão com aquela Igreja global que está em maior continuidade historicamente com a Igreja dos Apóstolos, isto é, com a Igreja que possui a alegação mais segura de ser a Igreja Católica (universal). Em outras palavras, o crente deve dominar apenas uma, relativamente pequena, parte das doutrinas: aquelas relativas à identidade da verdadeira Igreja; não, como o protestantismo requer, um conhecimento exaustivo de todas as matérias disputas da teologia. Isso efetivamente limita a escolha do crente em duas: a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Oriental.Para ser justo, existe um tipo de responsabilidade individual que é inescapável. O leigo católico, não menos que o protestante, deve usar seu próprio julgamento para reconhecer qual Igreja é a Igreja visível em sua plenitude. Esse fardo não pode ser dado a outro. Entretanto, há uma diferença palpável e historicamente real entre as duas concepções da Igreja. Para os protestantes, o crente individual possui apenas um critério: ele deve comparar os ensinamentos de cada grupo de congregações com o ensinamento da Bíblia em cada ponto de doutrina, ou, pelo menos, em cada ponto essencial. No entanto, trocar a segurança em cada ponto de doutrina pela segurança em cada ponto essencial é, na prática, de pouca ajuda, já que existe quase tanta discordância sobre quais matérias são essenciais quanto sobre as doutrinas em si. (Luteranos confessionais, por exemplo, insistem que a verdadeira igreja deve adotar a posição correta com respeito a cada doutrina proposta, se ela é ou não ensinada ou implicada na Escritura. Outras denominações insistem que uma lista bem menor de doutrinas, talvez somente aquelas do Credo Niceno, deve ser tida como essencial.) Em contraste, segundo a visão católica, o crente individual pode reconhecer a Igreja verdadeira, não apenas examinando suas doutrinas uma por uma, mas também investigando sua conexão histórica (por uma transmissão social ou física) com os Apóstolos. Em alguns casos isso também pode ser um processo difícil (por exemplo, quando houve houve dois ou mesmo três "papas" competindo durante o período de Avinhão), mas, pela maior parte, isso provou-se ser praticamente factível, enquanto o princípio protestante falhou completamente no teste da história.
A influência de falsificações no desenvolvimento do Papado
- os pseudo-Concílios Simaquianos (século VI), quando surgiu, pela primeira vez, a frase "prima sede a nemine judicatur", "a Primeira Sé não será julgada por ninguém";
- a doação de Constantino (século VIII);
- as Falsas Decretais (século IX).
Prima sedes a nemine iudicatur: o desenvolvimento e as limitações de um princípioO princípio de que prima sedes a nemine iudicatur, 'o principal Sé [Roma] não é julgada por ninguém' (que efetivamente significa 'não pode ser julgada por ninguém') tornou-se no decorrer dos séculos uma forma sucinta de dizer que pode não haver tribunal acima do papa que possa condená-lo, depô-lo ou anular suas decisões. Nesse sentido, o princípio desenvolveu uma enorme influência, especialmente a partir do século XI. Mas já era conhecido e eficaz muito antes disso. Adquiriu um sentido secular e político pela primeira vez no ano 800, durante a investigação iniciada por Carlos Magno por causa das queixas apresentadas a ele pelos oponentes romanos de Leão III: também é impossível para o papa ser julgado e condenado por qualquer corte terrestre, incluindo a do imperador.Nessa frase sucinta, o princípio pode ser rastreado até as falsificações de simaquianas, escritas por volta de 500. Seu cenário foi o período de dominação ostrogodo. O papa Símaco, politicamente um apoiador do rei ostrogodo ariano Teodorico, enfrentou forte oposição eclesiástica dentro do clero romano, cuja orientação era bizantina, e ele estava prestes a ser deposto por um sínodo. Os falsificadores esperavam que esse princípio pudesse ser usado para impedir seu depoimento; eles se referiam a supostos casos por volta do ano 300, quando a deposição de um papa foi evitada por causa desse princípio. É claro que apenas essa formulação ousada era nova, não o conteúdo. Aparece muito claramente em duas cartas do Papa Gelásio I de 493 e 495 no contexto do cisma acaciano. (...) Mas foi através das falsificações simaquianas que o princípio entrou no cânone legal; foi essa formulação, e não a de Gelásio, que fez história, mas apenas lentamente e por caminhos tortuosos.
"Nosso supracitado irmão Dâmaso, visto que recebeu a distinção de teu veredicto (de absolvição) em seu caso, não deve ser colocado em posição inferior àqueles que são seus iguais no cargo, mas a quem ele se destaca na prerrogativa da Sé apostólica, (que é o que ele seria) caso fosse considerado sujeito à jurisdição dos tribunais públicos, dos quais tua lei isentou os sacerdotes. (...) Pois ele [Dâmaso] não está pedindo algo novo, mas invocando precedentes ancestrais (com seu pedido) de que se um caso envolvendo o bispo de Roma não for confiado ao seu próprio concílio [de bispos] para julgamento, ele deve pleitear sua defesa perante o consistório imperial. Pois quando Silvestre foi acusado por pessoas sacrílegas em Roma, ele defendeu sua própria causa perante teu ancestral Constantino. As Escrituras fornecem precedentes semelhantes, a saber, que quando o santo apóstolo Paulo estava sofrendo violência nas mãos de um governador, ele apelou a César e foi enviado a César."
No geral, as Falsos Decretais representaram um passo importante em direção ao ponto em que as estruturas supra-diocesanas, que anteriormente tinham autoridade independente por direito próprio, foram mais totalmente vinculadas à autoridade papal. Isso se aplicava tanto aos sínodos quanto à autoridade dos metropolitas. É claro que essa nova etapa não foi completa e imediata na realidade.É certo que uma ou duas décadas depois, o Papa Nicolau I conheceu as Falsos Decretais e fez uso delas (por exemplo, em seu conflito com o Patriarca Fócio).
(...)
Os princípios fundamentais dos Decretais não foram de forma alguma aceitos em todos os lugares no início. Podemos considerar, por exemplo, as 'revoltas de Rheims' por volta do final do milênio, quando no Sínodo de Verzy (991) o Bispo Arnulf de Orléans, apoiado pela maioria dos bispos de seu tempo, rejeitou de imediato qualquer sugestão de permitir que Roma interviesse na questão da deposição do arcebispo de Rheims. Este e outros casos semelhantes mostram que a maioria dos bispos ainda pensava em termos pré-isidoros.
A falsificação era monstruosa demais; se tivesse sido reconhecida e exposta, ainda assim teria confundido os leitores da época... A visão pseudo-isidoriana da Igreja primeiro teve que se tornar realidade; só então as idéias pseudo-isidorianas poderiam se tornar parte do direito canônico. Ela teve que crescer junto com novas doutrinas de fontes genuínas para encontrar sua expressão acadêmica como parte integrante da lei. No momento em que esse processo ocorreu, no entanto, não menos que três séculos haviam se passado.
Pseudo-Isidoro foi projetado para servir como um manual que contém as transcrições literais de documentos dos primeiros tempos cristãos em diante. A estrutura básica desta coleção era a da antiga Hispana. A primeira das três partes da obra consiste em "decretais" emitidos por papas pré-Constantineanos e mostra de forma mais flagrante o trabalho dos falsificadores: todos os sessenta decretais são forjados. A segunda parte é apenas em pequena parte obra dos falsificadores: ela contém falsificações mais antigas e também material genuíno. Talvez a parte mais complicada seja o terceiro e último começo com Constitutum Silvestri (forjado): nesta parte, o material genuíno e espúrio é habilmente combinado.(...) No início de nossa breve análise do Pseudo-Isidoro, devemos enfatizar novamente que a obra contém muito pouco material novo. Poderia ser ignorado em silêncio, não fosse que exercesse grande influência nas gerações papais posteriores, bem como nos canonistas. Ele se tornaria o panteão de todas as prerrogativas papais. O que Pseudo-Isidoro fez foi moldar princípios hierocráticos - até então vagamente flutuando - em pronunciamentos papais concretos com a marca da antiguidade apostólica e cristã primitiva. O trabalho dos falsificadores era tendencioso, destinado a estabelecer um programa sob o manto da "lei".Em todo o Pseudo-Isidoro, o tema principal é o da qualificação funcional dos padres em uma sociedade cristã. Só eles podem funcionar, em virtude de suas qualificações, como órgãos dirigentes do corpus cristão. (...) São o povo eleito de Cristo - 'in sorte Domini electi' (...). Pois só a ordem clerical conhece a 'divina mandata', enquanto os membros leigos da Igreja universal se dedicam apenas às coisas carnais.O ordenamento adequado dentro de uma sociedade cristã exige, conseqüentemente, que os clérigos sejam isentos do controle e jurisdição das pessoas de lei inferior; acusações contra clérigos por parte de leigos são inadmissíveis, pois os inferiores não devem acusar superiores.
Johannes Teutonicus (c. 1216) deu uma definição clássica no Ordinary Gloss ao Decretum de Graciano: 'A autoridade do papa é ilimitada, a de outros bispos é limitada porque eles são chamados a uma parte da responsabilidade (pars sollicitudinis) não para a plenitude do poder '. Nessa comparação, os canonistas reconheceram que a jurisdição do papa se estendia por toda a Igreja, enquanto a do bispo se limitava à sua diocese.(...)Além da plenitude do poder papal, os canonistas acrescentaram um rico tesouro de termos ao vocabulário da soberania. O papa era o juiz ordinário de todos, iudex ordinarius omnium, a lei viva, lex animata (do direito romano), e o legislador supremo que tinha todas as leis em seu peito, omne ius habet in pectore suo (outra frase do direito romano) .(...)Laurentius Hispanus escreveu: "o papa muda a natureza das coisas aplicando as essências de uma coisa à outra ... ele pode indagar da justiça". Posteriormente, Johannes Teutonicus acrescentou: 'Ele pode fazer algo do nada' (de nichilo hacit aliquid).
Isso nos dá uma ideia de como o desenvolvimento do Papado o afastou daquele antigo "primado" defendido por S. Leão Magno e outros Padres da Igreja, que colocavam o papa como um verdadeiro defensor dos cânones e do consenso da Igreja - e não como um dominador.






