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O significado da Eucaristia

 
 
Primeiro, oferecemos a Deus alguns elementos muito simples de nossa comida: um pouco de pão e um pouco de vinho. Como você provavelmente sabe, a Igreja Oriental usa o pão fermentado para sua prosphora; então é realmente o que comemos em casa que está sendo oferecido a Deus como nosso sacrifício. E um bom estudo litúrgico e bíblico mostraria claramente que esta oferta de alimentos significa, antes de tudo, que estamos oferecendo a nós mesmos. O alimento não é apenas o símbolo da vida, mas sendo a condição da vida, sendo aquilo que se torna nosso corpo, o alimento é vida e, portanto, nossa vida - nós mesmos. O primeiro e verdadeiro sacrifício é, portanto, o sacrifício da própria Igreja. Mas (e este "mas" é muito importante) é um sacrifício em Cristo. Não é um novo sacrifício porque é o sacrifício da Igreja, e a Igreja é o Corpo de Cristo. Desde o primeiro momento da Liturgia, Cristo não é apenas Aquele que aceita o sacrifício, mas nas palavras de uma das orações litúrgicas, Aquele que também oferece. Todos os nossos sacrifícios - e um cristão é por sua própria natureza um sacrifício vivo a Deus - convergem para o único sacrifício, pleno e perfeito, o da humanidade de Cristo, que Ele ofereceu a Deus e no qual estamos incluídos pela nossa pertença à Igreja.

Estamos oferecendo este sacrifício não porque Deus precisa dele, mas porque o sacrifício de Cristo é a essência, a condição de estarmos nEle. A teologia ortodoxa, ao contemplar este sacrifício, enfatiza o amor nele em vez de "satisfação" ou expiação. Ser sacrificial pertence à própria essência do Filho de Deus mesmo antes da Encarnação e da Redenção. Pois o sacrifício, antes de se tornar sacrifício por algo, é a expressão natural e necessária do amor. Toda a vida de Cristo é um sacrifício porque é uma vida perfeita feita de amor e somente amor. E como é a Sua própria vida que Ele nos dá (Cristo em nós, nós em Cristo), nossa vida também é um sacrifício. Nosso sacrifício Nele, Seu sacrifício em nós. E assim, novamente, é um sacrifício real, não simbólico; mas não um novo, mas sempre o mesmo, aquele que ele nos deu, no qual ele nos acolheu. A Igreja, sendo o Corpo de Cristo, é ela mesma um ser sacrificial porque sabe que a essência da vida do homem - como visto em Sua Humanidade - é ir para Deus. E esse ir determina o movimento do sacrifício. Tudo isso é expresso na Oração do Hino Querubínico: "Tu és Aquele que oferece e Aquele que é oferecido, e Tu recebes e és distribuído".

É uma maravilhosa identificação com Cristo. Oferecemos nosso sacrifício a Deus Pai, e ainda assim não temos nada a oferecer a não ser o próprio Cristo; pois Ele é nossa vida e oferta. Sacrificando nossa vida, oferecemos Ele. A nossa Eucaristia é a Sua Eucaristia, e Ele também é a nossa Eucaristia.

Depois do Credo e do Beijo de Amor ("Amemo-nos uns aos outros para que em harmonia professemos a fé", etc.), estamos prontos para a grande oração eucarística, que desde tempos imemoriais constituiu a própria essência de toda a Eucaristia. Eucaristia significa ação de graças. Mas como a ação de graças está relacionada à consagração? A esta pergunta as várias teorias teológicas não dão uma resposta satisfatória. Sob sua influência, o elemento de ação de graças da oração eucarística foi chamado de Prefácio. No entanto, um prefácio geralmente não é algo muito importante. Não lemos às vezes o prefácio de um livro depois de ter lido o próprio livro? Mas na Eucaristia é precisamente este "Prefácio" que torna possível todo o resto, inclusive a consagração e a transformação dos elementos; e entendemos por que a ação de graças é o único caminho para essa transformação e assim entendemos todo o significado da Eucaristia.

Durante séculos, a ênfase foi colocada na "noite em que Ele foi traído" - no aspecto sangrento de Seu Sacrifício. Mas na tradição litúrgica, que nenhuma teoria sacramental foi capaz de quebrar, a oração começa com uma solene ação de graças. E Cristo também começou o seu sacrifício com uma ação de graças: "E, tendo dado graças, partiu-o... e deu-o".

A razão para isso, no entanto, esquecido como pode ser, é simples. Eucaristia, ação de graças, é o estado do homem inocente, o estado do paraíso. Antes do pecado, a vida do homem era eucarística, pois a "eucaristia" é a única relação entre Deus e o homem que transcende e transforma a condição criada do homem. Esta condição é a de uma dependência total, absoluta. Dependência é escravidão. Mas quando essa dependência é aceita e vivida como "eucaristia", isto é, como amor, ação de graças, adoração, não é mais dependência; é uma atitude de liberdade, um estado em que Deus é o conteúdo da vida. A Eucaristia, portanto, é o único estado de inocência, e Adão e Eva a tinham e era a imagem divina neles.
 
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Mas sabemos que ninguém pode dizer isso, ninguém pode oferecer isso a não ser Cristo. Foi a Sua Eucaristia única que nos conduziu até aqui; fomos levados em Sua Ascensão, Sua passagem para Seu Pai. Estávamos oferecendo nEle. E agora percebemos que o conteúdo de nossa Eucaristia é Cristo novamente, pois não há mais nada que possamos oferecer a Deus. Não é uma nova Eucaristia. Somos aceitos na Eucaristia eterna que Cristo oferece e da qual Ele é a oferta. Ele está lá - no céu - eternamente. Ele é o fim, o Eschaton, e nossa Eucaristia não está, portanto, no passado, no presente ou no futuro. É o Eschaton, no Cristo glorificado.
 
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Há muitos aspectos da ideia de sacrifício, mas gostaria de começar com meu principal interesse, que é a adoração. Este me parece ser o centro de toda a ideia de sacrifício, e o lugar onde todas as suas facetas se encontram: renúncia, oferenda e transformação.

Houve uma controvérsia que se desenvolveu no Ocidente sobre a Eucaristia como sacrifício. Por um lado, havia o conceito de que ao aceitar o sacrifício de Cristo como único e pleno, o aspecto sacrificial da Eucaristia deveria ser rejeitado; por outro lado, havia a ideia escolástica, que definia o sacrifício em termos de redenção e expiação - algo sangrento que satisfazia a ira ou a justiça divina. Sempre achei todo o debate errado, pois esse tipo de teologia e esse tipo de religião interpretam o sacrifício como um negócio jurídico: é necessária uma satisfação, um dever da criação para com o Criador, como um imposto de renda: a oferta do melhor animal ou mesmo da criança, para satisfazer uma necessidade objetiva. Esta é a perspectiva que eu acho que precisa não apenas de correção, mas de um repensar muito mais radical, começando pela própria natureza do sacrifício, que foi esquecida pelos teólogos e às vezes redescoberta no estudo das religiões.

Gostaria de salientar que, em primeiro lugar, o sacrifício é uma ontologia. Não é apenas o resultado de algo, é uma expressão maior ou uma primeira revelação da própria vida; é o conteúdo espiritual da vida. Onde não há sacrifício não há vida. O sacrifício está enraizado no reconhecimento da vida como amor: como renunciar, não porque quero mais para mim, ou para satisfazer uma justiça objetiva, mas porque é a única maneira de alcançar a plenitude que me é possível.

Assim, antes que o sacrifício se torne expiação, reparação ou redenção, é o movimento natural da própria vida. Tudo isso eu encontro na Eucaristia oriental, onde antes de chegarmos à crucificação, falamos do sacrifício de louvor e da salvação como um retorno ao modo de vida sacrificial. Oposto ao sacrifício está o consumismo: a ideia de que tudo pertence a mim e eu tenho que agarrá-lo - e somos restaurados disso apenas pelo movimento complexo exemplificado pela Eucaristia, onde nos oferecemos e somos aceitos pela oferta de Cristo de Si mesmo.

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Não é que não haja o mal, como algumas pessoas querem que pensemos, inclusive, receio, Teilhard de Chardin; essa é a fraqueza que encontro nele. O mal é muito relevante e o sacrifício tem relação com isso; mas temos que estabelecer a perspectiva em que a ideia de sacrifício não se reduza apenas à de satisfação e expiação do pecado. Temos que nos livrar dessa visão estreita e, por outro lado, temos que nos livrar de um excesso de otimismo que diz que tudo o que temos a fazer agora é tornar cada ação uma oferta alegre. Não, neste mundo Cristo é crucificado, como diz Pascal; o mal é uma presença real, e a ideia sacrificial é que certamente a alegria não pode ser alcançada sem sofrimento; mas o sofrimento exemplificado na Crucificação é em si uma vitória.
 
~ Liturgia e Tradição (1990)

Sobre o sacrifício eucarístico e o que é sacrificado


São Nicolau Cabasilas

Quanto ao próprio sacrifício, há uma questão que merece ser considerada. Já que não estamos preocupados com um mero sacrifício figurativo ou derramamento de sangue simbólico, mas com um verdadeiro holocausto e sacrifício, devemos nos perguntar o que é que é sacrificado: é o pão ou o Corpo de Cristo? Ou, dito de outra forma, as ofertas são sacrificadas antes da consagração ou depois?

Se é o pão que é sacrificado, devemos nos perguntar como isso pode ser. Certamente, os santos mistérios não consistem em ajudar no sacrifício de pão, mas sim do Cordeiro de Deus, que com sua morte tirou os pecados do mundo.

No entanto, por outro lado, parece impossível que seja o Corpo do Senhor que é sacrificado. Pois este Corpo não pode mais ser morto ou ferido, visto que, agora um estranho à sepultura e à corrupção, ele se tornou imortal. E mesmo se não fosse impossível que sofresse novamente, teria que haver algozes para realizar a crucificação, e todos os outros elementos que estavam presentes naquele sacrifício - isto é, se fosse um verdadeiro sacrifício, e não simplesmente uma representação.

Como então pode ser isso, visto que Cristo, sendo ressuscitado dos mortos, não morre mais? Ele sofreu uma vez no tempo; ele foi oferecido uma vez para carregar os pecados de muitos. No entanto, se ele é sacrificado em cada celebração dos mistérios, ele morre diariamente.

Existe uma resposta para esses problemas? Sim: o sacrifício não se realiza nem antes nem depois da consagração do pão, mas no próprio momento da consagração. É necessário, portanto, preservar todos os ensinamentos de nossa fé a respeito do sacrifício, sem negligenciar nenhum. Quais são esses ensinamentos? Em primeiro lugar, que este sacrifício não é uma mera figura ou símbolo, mas um verdadeiro sacrifício; em segundo lugar, que não é o pão que é sacrificado, mas o próprio Corpo de Cristo; terceiro, que o Cordeiro de Deus foi sacrificado apenas uma vez, para sempre.

Agora vejamos se a liturgia é um verdadeiro sacrifício, e não apenas uma representação.

O sacrifício de uma ovelha consiste na mudança de seu estado; é mudado de uma ovelha não sacrificada para uma sacrificada. O mesmo vale aqui; o pão é transformado de pão não sacrificado em algo sacrificado. Em outras palavras, é alterado do pão comum não sacrificado para o próprio Corpo de Cristo que foi verdadeiramente sacrificado. Por meio dessa transformação, o sacrifício é verdadeiramente realizado, assim como o das ovelhas quando foi mudado de um estado para outro. Pois houve no sacrifício uma transformação não no símbolo, mas na realidade; uma transformação no Corpo sacrificado do Senhor.

Se fosse o pão que, restando pão, fosse sacrificado, seria o pão que seria imolado, e a imolação do pão seria então o sacrifício.

Mas a transformação foi dupla; o pão, de não ser sacrificado, tornou-se uma coisa sacrificada e também foi transformado de um simples pão no Corpo de Cristo. Segue-se, portanto, que esta imolação, considerada não como a do pão, mas como a do Corpo de Cristo, que é a substância que está sob a aparência do pão, é verdadeiramente o sacrifício não do pão, mas do Cordeiro de Deus, e é justamente assim chamado.

Agora está claro que, sob essas condições, não é necessário que haja numerosas oblações do corpo do Senhor. Visto que o sacrifício consiste, não na imolação real e sangrenta do Cordeiro, mas na transformação do pão no Cordeiro sacrificado, é óbvio que a transformação ocorre sem a imolação sangrenta. Assim, embora o que é mudado seja muito, e a transformação aconteça muitas vezes, nada impede que a realidade em que é transformado seja uma e a mesma coisa sempre - um único Corpo e o único sacrifício desse Corpo.

Gregory Dix sobre o "fazer em memória" eucarístico

O sentido do "fazer em memória"

Nas Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, anamnesis e seu verbo cognato possuem o sentido de 'chamar novamente' ou 'representar' diante de Deus um evento do passado, de modo que se torne aqui e agora operativo por seus efeitos. Assim, o sacrifício de uma esposa acusada de adultério (Num. 5:15) é "uma oblação" feita "em recordação de seu pecado [diante de Deus]" (anamimnes-kousa); isto é, se ela cometeu pecado no passado, este será revelado agora pela provação, pois seu pecado foi ativamente "recordado" ou "representado" diante de Deus por seu sacrifício. Do mesmo modo, a viúva de Sarepta (1 Reis 17:18) reclama que Elias veio trazer "recordação (anamnesai) de seus pecados" e como resultado seu filho morreu. Também em Heb. 10:3-4, o autor diz que, porque "é impossível que o sangue de touros e bodes retire o pecado" (aos olhos de Deus), os sacrifícios do Antigo Testamento não eram melhores que uma "recordação (anamnesis) dos pecados" dos oferentes perante Deus. Embora nessa passagem exista alguma indicação de que a anamnesis também traz parcialmente uma referência psicológica à consciência dos próprios israelitas, é claro pela passagem como um todo que é diante de Deus que os pecados são "recordados" e "não purificados" ou "retirados". É nesse sentido ativo, portanto, de "recordação" ou "representação" diante de Deus do sacrifício de Cristo, assim tornando-o aqui e agora operativo por seus efeitos nos comunicantes, que a Eucaristia é considerada tanto pelo Novo Testamento quanto pelos autores do segundo século como a anamnesis da paixão, ou da paixão e da ressurreição combinadas. É por essa razão que Justino, Hipólito e autores posteriores falam diretamente e vividamente da Eucaristia no presente conferindo aos comunicantes os efeitos da redenção - imortalidade, vida eterna, perdão dos pecados, libertação do poder do demônio, etc. - os quais nós usualmente atribuímos mais diretamente ao sacrifício de Cristo visto como um único evento histórico no passado. Basta examinar essa linguagem pouco familiar mais de perto para reconhecermos como eles identificavam completamente o oferecimento da Eucaristia pela Igreja com o oferecimento de Si mesmo por nosso Senhor, não por modo de repetição, mas como uma "representação" (anamnesis) do mesmo oferecimento pela Igreja 'que é Seu corpo'. Como São Cipriano expõe de forma decisiva no século terceiro: a paixão é o sacrifício do Senhor, que nós oferecemos (Ep. 63:17).

A evidência nos Pais da Igreja

No ocidente, já vislumbramos a evidência romana em Clemente, Justino e Hipólito, e a testemunha seguinte é Irineu na Gália, com sua educação oriental e associações romanas. Ele falou de nosso Senhor como
instruindo Seus discípulos a oferecer a Deus as primícias de Sua própria criação, não como se Ele necessitasse delas, mas para que eles não ficassem ociosos nem ingratos; Ele tomou o pão que vem da criação (material) e deu graças, dizendo, Isto é o Meu Corpo. E o cálice semelhantemente, que é tirado das coisas criadas, como nós mesmos, Ele reconheceu como Seu próprio Sangue, e ensinou a nova oblação do Novo Testamento. A qual a Igreja, aprendendo por tradição dos apóstolos, ao redor do mundo oferece a Deus, a Ele mesmo que nos provê com nossos alimentos, as primícias de Seus próprios dons na Nova Aliança... Devemos fazer a oblação a Deus e ser encontrados agradáveis a Deus nosso criador em todas as coisas, com crença correta e fé pura, esperança firme e uma caridade ardente, oferecendo as primícias daquelas coisas que são Suas criaturas... Nós oferecemos a Ele o que é Dele, assim apropriadamente proclamando a comunhão e unidade da carne e do espírito. Pois como o pão (que vem) da terra, recebendo a invocação de Deus, não é mais pão comum mas a eucaristia - consistindo de duas realidades, uma terrena e outra celestial; assim também nossos corpos recebendo a eucaristia não são mais corruptíveis, tendo a esperança da ressurreição eterna... Ele quer que ofereçamos nosso dom no altar frequentemente e sem interrupção. Há, portanto, um altar no céu, pois para lá nossas orações e oblações são direcionadas.
Sem dúvida, Irineu considera a eucaristia como uma 'oblação' oferecida a Deus, mas é bom notar o sentido particular que ele enfatiza seu caráter sacrificial. Primariamente, a eucaristia é para ele um sacrifício de 'primícias', reconhecendo a bondade do Criador em nos prover nosso sustento, em vez de uma 'representação' do sacrifício do Calvário à maneira paulina. É verdade que Irineu não hesita em dizer que 'o cálice misturado e o pão fabricado recebem a Palavra de Deus e tornam-se a eucaristia do Corpo e do Sangue de Cristo', e outros ensinos similares. Há, também, a adição significativa das palavras 'na Nova Aliança' às 'primícias de Seus próprios dons'. Irineu é claro, também, que a morte de Cristo foi um sacrifício, do qual o sacrifício abortivo de Isaque por seu próprio pai foi uma prefiguração. Mas quando tudo é dito e feito, ele nunca une claramente essas duas ideias ou chama a eucaristia de oferecimento ou 'representação' do sacrifício de Cristo.

É concebível que os erros particulares das seitas gnósticas, os quais Irineu combatia (que ensinavam que as coisas da criação material eram radicalmente más), tem algo a ver com sua ênfase no oferecimento eucarístico das 'primícias da criação'.

(...)

Mas para Cipriano, toda a questão de como a eucaristia constitui um sacrifício está clara e completamente definida como estaria para um teólogo pós-tridentino:
'Uma vez que fazemos menção de Sua paixão em todos os nossos sacrifícios, pois a paixão é o sacrifício do Senhor que nós oferecemos, nada devemos fazer senão o que Ele fez (na última ceia)' [Ep. LXIII].
Não há qualquer razão para pensarmos que Cipriano foi o inventor desse modo de definir o sacrifício eucarístico, ou de qualquer modo intencional seu partidário. Mas ele provou ser seu maior propagador. Cipriano é o mais atrativo dos autores pré-Nicenos e, dentre os ocidentais, sempre o mais lido em tempos posteriores. Sua explicação do sacrifício tinha uma simplicidade que a recomendou à devoção popular, e esse tipo de unidade e lógica direta que sempre apelou aos teólogos ocidentais. Não é surpreedente que a doutrina do sacrifício - que podemos chamar por conveniência de 'cipriânica' - prevaleceu no ocidente, quase ao ponto da exclusão daquela linha de pensamento que era proeminente em Irineu. O ensino de Cirilo de Jerusalém posteriormente levou a um desenvolvimento similar, na linha 'cipriânica', no ensinamento oriental sobre o sacrifício eucarístico (embora os orientais dificilmente tenham alcançado a mesma precisão em seu entendimento da matéria como os ocidentais posteriores).

(...)

Há uma testemunha mais antiga que Irineu ou Cipriano para o equilíbrio original da doutrina eucarística ocidental - Justino. Ele fala da eucaristia como o 'sacrifício puro' dos cristãos, 'assim como para recordação (diante de Deus, anamnesis) de seu sustento em comida e bebida, na qual é feito também o memorial (memnetai) da paixão que o Filho de Deus sofreu por ele' [Dial. 117]. Irineu e Cipriano desenvolvem cada um metade dessa interpretação da eucaristia, não em oposição, mas em isolamento um do outro. Mas é interessante notar que a mais antiga oração eucarística ocidental, a de Hipólito - um admitido seguidor de Irineu -, já torna a doutrina 'cipriânica' o aspecto mais proeminente da matéria, uma geração antes de Cipriano escrever.

- Gregory Dix, The Shape of the Liturgy

Apêndice: algumas citações dos Pais da Igreja sobre o sacrifício eucarístico

Didaquê

Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro. Aquele que está de briga com seu companheiro não poderá juntar-se a vocês antes de se ter reconciliado, para que o sacrifício que vocês oferecem não seja profanado. Este é o sacrifício do qual o Senhor disse: 'Em todo lugar e em todo tempo, seja oferecido um sacrifício puro, porque eu sou um grande rei, diz o Senhor, e o meu Nome é admirável entre as nações' (Didaquê, 9-10, 14)

Clemente de Roma (35-100)

Para nós, não seria culpa leve se exonerássemos do episcopado aqueles que apresentaram os dons de maneira irrepreensível e santa (Epístola aos Coríntios, 42 e 44).

Inácio de Antioquia (35-107)

Preocupai-vos em participar de uma só eucaristia. De fato, há uma só carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice na unidade do seu sangue, um único altar, assim como um só bispo com o presbitério e os diáconos, meus companheiros de serviço. Desse modo, o que fizerdes, fazei-o segundo Deus (Epístola aos filadelfienses, 3).

Flávio Justino (100-165) 

Eu dizia, senhores, que também a oblação de flor de farinha que, conforme a tradição [Lv. 14:10], é oferecida pelos que são purificados da lepra, era figura do pão da ação de graças em relação ao qual Jesus Cristo Nosso Senhor mandou fazer em memória da paixão que ele sofreu pelos que são purificados nas almas de toda maldade dos homens, para que rendêssemos graças a Deus por ter criado o universo com todas as coisas que nele existem através do homem e, ao mesmo tempo, por nos ter libertado do mal em que nascemos, e ter destruído fatalmente os principados e as potestades, através daquele que, segundo sua vontade, nasceu passível (...).

Já então ele [Malaquias] profetiza sobre os sacrifícios a ele oferecidos em todo lugar por nós gentios, isto é, do pão da ação de graças como também do cálice da ação de graças, dizendo que nós glorificaremos o seu nome, vós, porém o profanais.

(...) Pois bem, é manifesto que também nesta profecia [de Isaías] sobre o pão se trata do pão em relação ao qual o nosso Cristo nos mandou fazer em memória de se ter feito homem pelos que crêem nele, pelos quais também se tornou passível, e se trata também do cálice em relação ao qual mandou fazer com ação de graças em memória do seu sangue... [Nós] somos a verdadeira raça sacerdotal de Deus, como atesta o próprio Deus, dizendo haver em todo lugar entre os gentios quem lhe oferecesse sacrifícios agradáveis e puros. Ora, Deus não aceita sacrifícios de ninguém, a não ser através dos seus sacerdotes.

Portanto, já de antemão Deus atesta que através deste nome lhe são fundamentalmente agradáveis todos os sacrifícios que Jesus Cristo mandou que se fizessem, a saber, na ação de graças do pão e do cálice, realizados em todos os lugares da terra pelos cristãos; ao passo que repele os sacrifícios feitos por vós, os realizados por aqueles vossos sacerdotes, dizendo: 'E vossos sacrifícios não os receberei das vossas mãos; pois do levantar ao pôr-do-sol meu nome é glorificado', diz ele, 'entre os gentios, ao passo que vós o profanais' [Ml 1:11-12]. E até agora, procurando rivalidades, dizeis que Deus não aceita os sacrifícios oferecidos em Jerusalém pelos chamados israelitas que então aí habitavam, mas por outro lado dizeis que ele teria dito que as orações feitas pelos homens daquela linhagem que se encontravam na dispersão chegavam até ele e que ele chama de sacrifícios as suas orações. Ora, que as orações e as ações de graças feitas pelos justos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus também eu o afirmo. Pois somente estes também os cristãos os receberam para fazer, e isto, em comemoração do seu alimento seco e líquido, no qual eles recordam a paixão que por eles sofreu o Filho de Deus (Diálogo com o judeu Trifão, 41-117).

Hipólito de Roma (170-236)

'A sabedoria já edificou a sua casa, já lavrou as suas sete colunas. Já abateu os seus animais e misturou o seu vinho, e já preparou a sua mesa' [Prov. 9:1-2], o que denota o prometido conhecimento da Santa Trindade; também refere-se ao Seu honrado e imaculado corpo e sangue, os quais são administrados e oferecidos sacrificialmente na mesa espiritual divina, como memorial da primeira e memorável mesa da Ceia espiritual divina. E novamente: 'Já ordenou às suas criadas' [Prov. 9:3], a sabedoria - isto é, Cristo - tem feito isso por um anúncio sublime. 'Quem é simples, volte-se para cá' [Prov. 9:4], diz a sabedoria, aludindo manifestamente aos santos apóstolos, que viajaram o mundo todo, e chamaram as nações ao conhecimento Dele em verdade, com sua pregação sublime e divina. E novamente: 'Aos faltos de senso diz' - isto é, àqueles que ainda não receberam o poder do Espírito Santo - 'Vinde, comei do meu pão, e bebei do vinho que tenho misturado' [Prov. 9:5], o que significar dizer que Ele deu Sua carne divina e seu sangue honrado para nós, para comermos e bebermos para a remissão dos pecados (Fragmentos sobre os Provérbios).

Por isso, nós que nos lembramos de sua morte e Ressurreição, oferecendo-te o pão e o cálice, dando-te graças porque nos consideraste dignos de estar diante de ti e de servir-te. E te pedimos que envies o teu Espírito Santo à Oblação da santa Igreja... (Tradição Apostólica).

Cirilo de Jerusalém (313-387)

Depois de terminado o sacrifício espiritual, rito incruento, pedimos a Deus, sobre esta hóstia de propiciação, pela paz universal da Igreja, pela justa ordem do mundo, pelos imperadores, pelos nossos soldados e pelos aliados, pelos doentes, pelos aflitos, e todos nós rogamos por todos, em geral, quantos precisam de ajuda; oferecemos esta vítima... e depois recomendamos também os santos padres e bispos, e em conjunto todos os nossos defuntos, convencidos como estamos que esta será a maior ajuda para as almas, por quem se oferece a oração, enquanto está presente a Vítima santa que infunde o maior respeito...

Do mesmo modo também nós, oferecendo orações a Deus pelos defuntos, mesmo pecadores, não lhe tecemos uma coroa, mas oferecemos-lhe Cristo imolado pelos nossos pecados, procurando conciliar a clemência de Deus em nosso favor e em favor deles (Catequeses Mistagógicas).

Ambrósio de Milão (340-397)

Queres saber mediante quais palavras celestes se consagra? Escuta quais são as palavras. O sacerdote diz: 'Faze para nós com que esta oferta seja aprovada, espiritual, aceitável, porque é a figura do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. O qual, antes de sua paixão, tomou o pão em suas santas mãos, olhou para o céu, para ti, Pai santo, Deus todo-poderoso e eterno, deu graças, o abençoou, o partiu, e partindo o deu a seus apóstolos e discípulos, dizendo: Tomai e comei disso todos, porque isto é o meu corpo que será partido para muitos'.


[...] O sacerdote também diz: "Celebrando, pois, a memória de sua gloriosíssima paixão, da ressurreição dos infernos e da ascensão ao céu, nós te oferecemos esta hóstia imaculada, hóstia espiritual, hóstia incruenta, este pão santo e o cálice da vida eterna, te pedimos e suplicamos para que aceites esta oferta no teu sublime altar pelas mãos dos teus anjos, assim como dignaste aceitar as ofertas do teu servo o justo Abel, o sacrifício do nosso patriarca Abraão e o que te ofereceu o sumo sacerdote Melquisedec" (Sobre os sacramentos, IV).

C. S. Lewis sobre o comportamento na Liturgia

 


O mundo é feito de todo tipo de gente; também uma igreja. Sobretudo a igreja. Se a graça aperfeiçoa a natureza, ela deve expandir todas as naturezas à riqueza absoluta da diversidade que Deus tinha em mente quando as criou. No céu haverá mais diversidade do que no inferno. "Um rebanho" não é o mesmo que "uma agremiação". As rosas e os narcisos dos jardins são muito diferentes de seus congêneres do campo. O que mais me agradou na missa ortodoxa de que participei certa vez foi que não parecia haver nenhum comportamento prescrito para a congregação. Alguns estavam de pé, outros ajoelhados, outros sentados, alguns caminhavam; houve até quem se arrastasse pelo chão feito uma lagarta. A beleza disso é que ninguém dava a menor importância ao que seu vizinho fazia. Gostaria que os anglicanos seguissem o exemplo deles. Conheço pessoas que se sentem incomodadas porque alguém no banco ao lado faz ou deixa de fazer o sinal da cruz. Não deviam nem sequer ter notado, quando mais criticado. "Quem é você para julgar o servo alheio?" (Rom. 14.4).

C. S. Lewis, Oração: cartas a Malcolm