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Os Dez Mandamentos



Após o Êxodo da escravidão egípcia (Ex. 14), os filhos de Israel acamparam ao pé do Monte Sinai. Moisés subiu ao monte e ali recebeu de Deus duas tábuas de pedra, sobre as quais estavam escritos pela mão de Deus os Dez Mandamentos (Ex. 20,31). O texto destes mandamentos (O Decálogo) é o seguinte:

1. Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de Mim (Ex. 20:2-3).

2. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; tu não deves te curvar a eles ou servi-los (20:4-5).

3. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão (20:7).

4. Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; nele não farás nenhum trabalho (20:8-10).

5. Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá (20:12).

6. Não matarás (20:13).

7. Não cometerás adultério (20:14).

8. Não furtarás (20:15).

9. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo (20:16).

10. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo (20:17).

[NOTA: Alguns intérpretes (especialmente entre os católicos romanos) consideram o Primeiro e o Segundo Mandamentos acima como um mandamento, enquanto dividem o Décimo Mandamento em dois.]

De acordo com a Tradição da Igreja, os primeiros quatro mandamentos foram inscritos na primeira tábua e os seis últimos foram inscritos na segunda tábua. O primeiro contém os mandamentos relativos às nossas obrigações para com Deus, enquanto o segundo contém os que dizem respeito ao próximo. Esta divisão tradicional é testemunhada pelo próprio nosso Senhor Jesus Cristo quando lhe foi perguntado por um advogado, Mestre, qual é o grande mandamento na lei (Mt 22:36)? O Senhor respondeu: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo é assim: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (Mt 22:37-40; cf. Lc 10:25-28).

1. Não terás outros deuses diante de mim.

Em um mundo dominado pelo politeísmo (muitos deuses), os israelitas receberam a revelação de que havia apenas um Deus verdadeiro (monoteísmo), o Criador e Senhor de tudo. Neste primeiro mandamento, o Senhor orienta todos nós a reconhecê-Lo e honrá-Lo como Deus, orientando que nada mais deve ser tido em maior estima; pois não devemos servir a ninguém ou a qualquer outra coisa como deus. Como o salmista proclama: Vinde, adoremos, prostremo-nos e ajoelhemo-nos diante do Senhor, nosso Criador! Pois Ele é o nosso Deus, e nós somos o povo do seu pasto e as ovelhas da sua mão (Sl 95:6-7). Quando nosso Senhor Jesus Cristo estava no deserto por quarenta dias depois de Seu batismo, Satanás veio a Ele e disse, mostrando-Lhe todos os reinos do mundo: A Ti darei toda esta autoridade e sua glória... Se tu, então, me adorares, tudo será teu (Lucas 4:6,7). Mas Jesus, conhecendo o primeiro mandamento, o repreendeu, dizendo: Está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás (Lucas 4:8).

2. Não farás para ti imagem de escultura...; tu não deves te curvar a eles ou servi-los.

Desde os primeiros tempos, o homem tem o costume de estabelecer e servir a outros deuses que não o Deus de todos. Como diz São Paulo, embora [os homens] conhecessem a Deus, eles não O honraram como Deus nem Lhe deram graças... Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens semelhantes ao homem mortal, ou pássaros ou animais ou répteis (Rm 1:21-23). Mesmo após a entrega dos Dez Mandamentos no Sinai, o povo procurou outros deuses, o Bezerro de Ouro, Baal, etc. agora erguemos os ídolos da riqueza, dinheiro, poder, fama, prazer, etc. e lhes damos a honra e a devoção que o Segundo Mandamento nos diz que são devidas somente a Deus.

Apesar do que os literalistas possam dizer, no entanto, este mandamento não proíbe o uso de Ícones, imagens ou representações, sejam de madeira, pedra ou qualquer outra coisa. Os judeus no Sinai foram ordenados a construir uma Arca com querubins de ouro em cada extremidade (Ex. 25:18-20). Quando os israelitas foram afligidos por cobras venenosas no deserto, Moisés construiu uma serpente de bronze e a colocou sobre um poste, para que, olhando para ela, qualquer pessoa mordida pudesse viver (Nm 21:8-9). Quando o Rei Salomão construiu o Templo, ele era decorado com frutas esculpidas, flores, árvores e querubins (1 Reis 6:18,29,32,34-35). O grande mar de bronze (ou bacia) no pátio era sustentado por doze bois de bronze (1 Reis 7:25) e o trono do rei era sustentado por leões esculpidos e tinha uma cabeça de bezerro esculpida na parte de trás (1 Reis 10:19-20 ).

O ponto chave deste mandamento é que esses objetos não devem ser objetos de devoção e adoração devidos unicamente a Deus. A devoção que nós, como ortodoxos, prestamos aos ícones e outros objetos sagrados é uma veneração bem diferente daquela devida a Deus e tal era o ensinamento dos Padres da Igreja, especialmente São João de Damasco.

3. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.

Este mandamento atinge aqueles que não agem com reverência e respeito para com o santo nome de Deus. Estamos proibidos de usar o nome de Deus em vão e fazer juramentos falsos: Tu não deve jurar pelo meu nome falsamente, e assim profanar o nome do teu Deus (Lv 19:12). Como São Tiago nos diz: Meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro juramento, mas que o vosso sim seja sim e o vosso não seja não, para que não caiais em condenação (Tiago 5:12); isso reflete as palavras do próprio Senhor, que disse: Que o que tu dizes seja simplesmente 'Sim' ou 'Não'; qualquer coisa além disso vem do Maligno (Mt 5:37). Antes, o nome divino deve ser glorificado, pois, como diz o salmista, ó Senhor, nosso Senhor, quão majestoso é o Teu nome em toda a terra! (Sal. 8:1). Louvai, ó servos do Senhor, louvai o nome do Senhor! (Sal. 113:1), pois o nome do Senhor é bendito desde agora e para sempre! Desde o nascer do sol até o poente, o nome do Senhor deve ser louvado (Sl 113:2-3).

Quantas vezes em nossas conversas ordinárias o nome de Deus, de Jesus (o próprio Deus), de Sua Mãe e dos Santos são pronunciados casualmente, sem pensar ou mesmo para efeito de choque. Nós, modernos, temos tanto desrespeito pelas coisas santas, especialmente pelo nome de Deus e Seu Filho, quando, como São Paulo nos diz, Deus... concedeu a Ele o nome que está acima de todo nome, para que diante do nome de Jesus todo joelho se curve, no céu, na terra e debaixo da terra (Fp 2:9,10).

4. Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo.

Além dos três primeiros mandamentos, também somos ordenados a prestar especial honra a Deus em Seu dia especial, o sábado, pois Deus abençoou o sétimo dia e o santificou (Gn 2:3). A Igreja primitiva, o Novo Povo de Deus na Nova Dispensação, sob inspiração divina, substituiu o sétimo dia da semana (sábado) pelo primeiro dia da semana (domingo) como o novo e superior dia do Senhor (Ap 1:10). Neste dia comemoramos a Nova Criação possibilitada pela Ressurreição de Cristo, em vez da primeira criação do mundo, comemorada no antigo sábado. Neste dia, o Dia do Senhor, a Santa Igreja Ortodoxa nos ordena não realizar trabalhos desnecessários, mas sim honrar o Dia do Senhor participando da Divina Liturgia e dos Serviços que a precedem (Vésperas e Matinas). Além disso, somos ordenados a honrar e guardar os outros santos dias de festa da Igreja, quer caiam ou não no domingo, pois todos os dias santos podem ser considerados como os dias do Senhor.

Enquanto os primeiros quatro mandamentos refletem o mandamento do Senhor de amar a Deus com todo o coração, alma e mente, os últimos seis refletem o mandamento do Senhor de amar o próximo como a si mesmo. O primeiro deles é o Quinto Mandamento:

5. Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.

Acima de tudo, somos ordenados a amar, honrar e respeitar nossos pais que nos trouxeram ao mundo, continuando o ato original da Criação e expandindo a família universal do amor. Como nos diz São Paulo: Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor (Cl 3:20). Além disso, se somos incapazes de amar e honrar nossos pais, como podemos começar a amar e honrar nosso próximo? Este mandamento contém também uma promessa, como assinala São Paulo, de que ficaremos bem e de longa vida na terra (Ef 6:3).

Aplicando este mandamento às nossas vidas terrenas, devemos prestar o mesmo respeito a qualquer pessoa que tenha autoridade sobre nós (Efésios 6:5-8), como as autoridades seculares, como nos diz São Paulo: Que cada pessoa seja sujeito às autoridades governamentais. Pois não há autoridade exceto de Deus... Paguem a todos eles o que lhes é devido... respeito a quem é devido respeito, honra a quem é devida honra (Rm 13:1,7); ou nossas autoridades religiosas nossos sacerdotes e Bispos: Obedeçam a teus líderes e submetam-te a eles; pois eles estão vigiando tuas almas, como homens que terão que prestar contas (Hb 13:17); que os presbíteros que governam bem sejam considerados dignos de dupla honra, especialmente aqueles que trabalham na pregação e no ensino (1Tm 5:17).

6. Não matarás.

Desde os primeiros tempos, tirar uma vida tem sido considerado um assunto muito sério, de fato. A vida é dada por Deus e só Deus tem o direito absoluto de tirá-la; pois todo homem traz a Imagem de Deus dentro de si. É por esta razão que até mesmo tirar a própria vida (suicídio) é tão fortemente condenado. No entanto, alguém pode ser morto não apenas pela mão de outro homem (ou pela sua própria), mas também pelas próprias palavras, pelas ações de sua língua, arruinando sua reputação, caráter ou posição; pois, como diz São Tiago, a língua é um fogo... um mal inquieto, cheio de veneno mortal, com ela bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, que são feitos à semelhança de Deus (Tiago 3:6,8-9). Quantas vezes um homem foi morto, por assim dizer, não apenas por conversas maliciosas, mas também por mera conversa fiada por fofoca? Mesmo a conversa aparentemente ociosa e inofensiva pode matar e é a isso que São Paulo se refere, como segue: Não saiam de tuas bocas palavras más, mas apenas aquelas que sejam boas para edificar, conforme a ocasião, para que possam transmitir graça para aqueles que ouvem (Efésios 4:29).

O fato de que não apenas o assassinato físico mata é testemunhado por nosso Senhor quando diz: Quem fizer pecar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria que ele tivesse uma grande pedra de moinho presa ao pescoço e fosse lançado nas profundezas do mar (Mt 18:6). Apenas fazer alguém pecar é um crime terrível! Como São João nos diz, até mesmo ter ódio no coração contra outro é o mesmo que matar: quem odeia seu irmão é um assassino, e vós sabeis que nenhum assassino tem a vida eterna nele (1 João 3:15) .

7. Não cometerás adultério.

Quando falamos aqui de adultério, deve-se ter em mente as seguintes palavras de São Paulo: Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?... Todo outro pecado que um homem comete é fora do corpo; mas o imoral peca contra o seu próprio corpo. Tu não sabes que teu corpo é um templo do Espírito Santo dentro de ti, que recebeste de Deus (1 Coríntios 6:15, 18-20)?

Quando falamos de adultério, está incluímos aqui não apenas o que é cometido entre uma pessoa casada e outra que não é seu cônjuge, mas também desejos e pensamentos impuros. Mas eu vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher com luxúria já cometeu adultério em seu coração (Mt 5:28). Também somos ordenados a evitar histórias imorais, conversa obscena, livros pornográficos, revistas, filmes, programas de TV, etc., bem como companheiros maus. Os pensamentos dos ímpios são abomináveis ​​ao Senhor, as palavras dos puros Lhe agradam (Pv 15:26). Nosso Senhor abençoa aqueles que se abstêm dessas coisas imorais quando diz: Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus (Mt 5:8). Isso ocorre porque as paixões impuras travam guerra contra nosso próprio ser espiritual: Amados, suplico a vós como estrangeiros e exilados no mundo que se abstenhais das paixões da carne que guerreiam contra vossas almas (1 Pe 2:11).

8. Não furtarás.

Estamos aqui proibidos de furtar (ou tirar) qualquer coisa que pertença a outro. Obviamente, devemos respeitar as posses dos outros; mas também devemos nos precaver contra coisas como roubar a felicidade de outra pessoa ou roubar-lhe uma amizade. Este mandamento adverte contra qualquer desonestidade, trapaça ou engano de qualquer forma; pois, como nosso Senhor nos diz, que aproveitará ao homem se ele ganhar o mundo inteiro e perder sua vida (Mt 16:26)? Como diz São Paulo, não se deixe enganar; nem os imorais, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os pervertidos sexuais, nem os ladrões... herdarão o reino de Deus (1 Coríntios 6:9-10).

Em vez de tirar de outro, devemos estar dispostos a dar, assim como o Senhor deu tudo, até mesmo Sua própria vida, por nós. Pois Ele nos diz para fazer o bem e emprestar, sem esperar nada em troca; e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo... Dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordando, será colocada no teu colo (Lc 6:35,38). Ao invés de roubar fazendo mal aos outros, devemos praticar a Regra de Ouro: Como tu gostarias que alguém fizesse a ti, faças a eles (Lucas 6:31).

9. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.

Aqui estamos proibidos de contar mentiras sobre qualquer pessoa, em qualquer lugar, pois lábios mentirosos são uma abominação para o Senhor (Pv 12:22). Devemos sempre lembrar que mentiras podem ser ditas não apenas em palavras, mas também pelo nosso silêncio, por nossas ações ou de muitas outras maneiras. Como cristãos, somos ordenados a ser sinceros em tudo e estar acima de qualquer repreensão, pois da abundância do coração a boca fala. O homem bom do seu bom tesouro tira o bem, e o homem mau do seu mau tesouro tira o mal... porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado (Mt 12:34-35, 37). Em vez de mentiras, devemos apenas ser francos, como diz São Paulo: Portanto, deixando de lado a falsidade, cada um fale a verdade com o próximo (Ef 4:25).

10. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.

Aqui somos ordenados a aceitar qualquer estado em que Deus nos coloque e não ter inveja dos outros, ou olhar com ódio para o bem-estar e prosperidade de outro: Há grande ganho em piedade com contentamento; porque nada trouxemos ao mundo, e do mundo nada podemos levar... Mas os que desejam ser ricos caem em tentação, em laço, em muitos desejos insensatos e nocivos, que lançam os homens na ruína e na destruição (1 Tm 6:8-9). Mantenhas tua vida livre do amor ao dinheiro e estejas contente com o que tens; pois Ele disse: Eu nunca te deixarei nem te desampararei (Hb 13:5).

Em vez disso, devemos nos contentar com nosso estado e colocar nossa confiança somente em Deus: Que cada um leve a vida que o Senhor lhe designou e na qual Deus o chamou... Cada um deve permanecer no estado em que foi chamado... Assim, irmãos, em qualquer estado em que cada um foi chamado, permaneça com Deus (1 Coríntios. 6:17,20,24). A inveja e a cobiça levam à morte espiritual, como nos diz São Tiago, pois cada pessoa é tentada quando é seduzida e atraída por seu próprio desejo. Então o desejo, quando concebido, dá à luz o pecado; e o pecado quando consumado produz a morte (Tiago 1:14-15).

Além dos Dez Mandamentos nos quais nos são dados padrões de conduta, nosso Senhor nos dá outro mandamento novo: Um novo mandamento dou a vós, que ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, também vós vos ameis uns aos outros (João 13:34). Este novo amor exige que não apenas amemos aqueles que nos amam, mas também que amemos aqueles que nos odeiam: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos maltratam. A quem te ferir na face, oferece também a outra; e daquele que tirar a tua túnica não retenhas nem a tua camisa. Dá a todo aquele que te pede; e daquele que tirar os teus bens não os peça novamente (Lc 6:27-30). Nem é necessário que gostemos de alguém para amá-lo à maneira cristã, pois esse amor significa que devemos estar sempre prontos para ajudar, perdoar, ser justos e viver de acordo com a Regra de Ouro citada anteriormente. Ao fazer isso, como nosso Senhor disse, todos os requisitos da lei e dos profetas são cumpridos e, como Ele nos diz, faças isso e viverás (Lucas 10:28).

Trecho retirado de "Estas Verdades que Mantemos - A Santa Igreja Ortodoxa: Sua Vida e Ensinamentos". Compilado e editado por um monge do mosteiro de St. Tikhon. Copyright 1986 pela St. Tikhon's Seminary Press, South Canaan, Pensilvânia 18459.

Jesus Cristo morreu por todos os homens




1 Timóteo 2:4
Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem, o qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo (1 Timóteo 2:3-6).
Os defensores de uma expiação universal abordam este verso como uma afirmação de que Deus deseja que toda pessoa, sem distinção, seja salva, e que Cristo foi dado como resgate indiscriminadamente por todos. Os intérpretes calvinistas, por outro lado, tem entendido esse verso como referindo-se a "todos os tipos de homens". A interpretação calvinista apoia-se no verso anterior que diz, "Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade". De acordo com esse verso, segundo a abordagem calvinista, o Apóstolo estaria ensinando que há eleitos dentro todos os tipos de homens. Isso inclui pessoas de diferentes condições sociais e o Apóstolo está referindo-se a cidadãos comuns assim como àqueles em autoridade.

Embora essa interpretação seja compreensível, ela parece necessitar que as orações sejam feitas apenas pelos eleitos. Aquele "todos" pelos quais devemos orar está ligado a "todos os homens" para os quais Deus deseja a salvação. Assim, se "todos os homens" fossem apenas os eleitos dentre diferentes categorias de homens, aquele "todos" pelos quais devemos orar também incluiria apenas os eleitos dentre todas as categorias. O sentido correto da passagem parece ser o seguinte: porque Cristo morreu por todos os homens sem exceção, incluindo aqueles em autoridade, devemos orar por todos os homens, incluindo aqueles em autoridade.

Há evidência que corrobora essa visão quando examinamos o resto da epístola a Timóteo. Veja como é usado o termo "todos" ao longo da epístola. Há uma passagem paralela a 2:4 que devemos considerar:
Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação. Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis (1 Timóteo 4:9-10).
Novamente o Apóstolo une o conceito de salvação com o conceito de "todos os homens". Claramente em 4:10, "todos os homens" é um grupo distinto dos crentes. Ele especificamente diferencia entre "todos os homens" e "aqueles que creem". Os crentes são meramente um subgrupo dentro do grupo "todos os homens". Por vezes isso perturbou os intérpretes pelo tom universalista. Esse verso significa que toda pessoa será salva? A explicação do que significa chamar Cristo de "Salvador de todos os homens" em está em 2:4-6, onde fica claro que Cristo é Salvador de "todos os homens" porque:

1. Ele deseja que todos sejam salvos;

2. Ele deu a si mesmo como redenção por todos.

Para sermos coerentes na interpretação do texto, não podemos admitir que "todos os homens" em 1 Timóteo 2:4-6 significa "eleitos dentre todas categorias de homens".

2 Pedro 2:1
E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição e negarão o Senhor que os resgatou (ton agorasanta autous Despoten) trazendo sobre si mesmos repentina perdição (2 Pedro 2:1)
A impressão inicial desse verso é que os falsos mestres, de acordo com o Apóstolo Pedro, negam o Senhor Jesus que os resgatou na cruz. Esse parece ser o sentido óbvio. Contudo, dois argumentos tem sido usados pelos calvinistas contra essa interpretação:

1. A palavra traduzida por "resgatou" ou "comprou" não seria usada em referência a Jesus Cristo. Seria um termo referindo-se ao Pai. Embora seja verdade que o termo refere-se comumente ao Pai na Septuaginta, é falso dizer que nunca refere-se a Jesus. Há outra referência na epístola de Judas, em uma passagem que pode muito bem ser lida paralelamente: 
Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador (Despoten) e Senhor nosso, Jesus Cristo (Judas 4).
A palavra traduzida aqui como "dominador" é a mesma usada por Pedro acima, quando Cristo é chamado de "Senhor que os resgatou".

É digno de nota que Pedro e Judas possuem linguagem idêntica em muitos pontos. Virtualmente todos os estudiosos do Novo Testamento concordam que Judas baseou-se consideravelmente no texto de 2 Pedro, ou vice-versa. Nas duas passagens paralelas, Pedro refere-se àqueles falsos mestres que "negam o Senhor que os resgatou", enquanto Judas fala daqueles que "negam nosso único dominador e Senhor, Jesus Cristo". Conclui-se que a afirmação de ambos refere-se a Jesus Cristo.

2. É alegado também que o termo "comprar" ou "resgatar" refere-se à libertação dos israelitas do Egito. Isso porque Deuteronômio 32:6 fala de Deus como aquele que "resgatou" os israelitas. Entretanto, o termo usado ali pela Septuaginta não é o mesmo usado por Pedro. Não há um paralelo direto aqui. Observe outros exemplos em que o mesmo termo é usado no Novo Testamento:

1 Cor. 6:20 - fostes comprados (egorasthete) por bom preço
1 Cor. 7:23 - fostes comprados (egorasthete) por um preço
Apoc. 5:9 - com teu sangue compraste (egorasas) para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação

Esses versos referem-se à redenção, não à libertação do Êxodo. A conclusão clara é que Pedro estava referindo-se à expiação efetuada por Cristo e, assim, demonstrando a maior gravidade da heresia daqueles mestres. Jesus Cristo também morreu por eles.

1 João 2:2
Ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo (1 João 2:2).
Os defensores da expiação universal interpretam "todo o mundo" nesse texto como uma referência à humanidade indiscriminadamente, enquanto os calvinistas interpretam algo como "todos os tipos de homens eleitos" ou "homens eleitos de todos os povos".

O intérprete calvinista frequentemente alega que a palavra "mundo" tem múltiplos sentidos no grego. Isso é perceptível para qualquer leitor do Novo Testamento. O próprio Apóstolo João usa o termo com sentidos variados. Apontando para o conflito entre Paulo e os judaizantes, os intérpretes reformados entendem que o "mundo" nesse contexto refere-se ao gentios. Desse modo, "nós" aponta para os judeus, enquanto o "mundo" refere-se aos gentios.

Entretanto, não há razão para crermos que 1 João tenha sido escrita para judeus etnocêntricos. Essa epístola está entre as últimas a serem escritas no Novo Testamento. Ao final do século primeiro, o problema das relações entre judeus e gentios já tinha sido largamente superado. O concílio de Jerusalém havia sido realizado aproximadamente 40 anos antes dessa epístola. Por isso, essa é uma interpretação pouco provável. A outra opção é que esse verso ensino que Jesus morreu por todos os homens, sem exceção. Outros sentidos da palavra "mundo" não se encaixam aqui.

Quem representa o "nós" aqui? Essa é uma epístola universal, não dirigida especialmente a uma audiência judaica ou mesmo a uma igreja específica; portanto, o "nós" refere-se aos cristãos em geral. O "todo o mundo" deve ser algo distinto dos cristãos em geral. No mesmo capítulo, João usa a palavra "mundo" algumas vezes. "Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre" (1 João 2:15-17). João usa o termo "mundo" referindo-se à humanidade pecadora e à corrupção da era atual. Assim, o que João parece estar dizendo no início do capítulo é que "Cristo morreu não apenas por nossos pecados (dos crentes), mas também pelos pecados do mundo todo (a humanidade descrente)".

Atos 3:18-19
Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado que o seu Cristo havia de padecer. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, de sorte que venham tempos de refrigério, da presença do Senhor (Atos 3:18-19).
Essa passagem é ilustrativa da pregação básica do Novo Testamento: Cristo morreu e ressuscitou; logo, convertam-se e creiam nele para a salvação. É a morte que Cristo - seu sacrifício redentor pela humanidade - que é apresentada como fundamento da possibilidade de retorno para Deus, de ser salvo e perdoado. Se a pregação do Evangelho é oferecida a todos indiscriminadamente ("todos os homens em todo lugar", como é dito em Atos 17:30), igualmente o sacrifício de Jesus foi oferecido por todos.

Tão forte é essa conexão que os incrédulos são culpados precisamente por seu ato de rejeição da oferta e testemunho de Deus em seu Filho:
Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o faz, porque não crê no testemunho que Deus de seu Filho dá. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho (1 João 5:10-11).
Mas que oferta haveria, se o sacrifício de Cristo não tivesse sido oferecido também por eles? Que testemunho estaria sendo rejeitado, se os incrédulos jamais tivessem sido contemplados nessa promessa ("Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho")? Se o sacrifício de Jesus tivesse sido oferecido apenas pelos eleitos, os não-eleitos estariam antes obrigados a rejeitarem a oferta, uma vez que ela nunca teria sido dirigida a eles de qualquer modo.

A conclusão novamente é que Cristo morreu por todos, e podemos estar confiantes dessa verdade.

Escritura e Tradição


O Espírito de Deus, que habita na Igreja, conduzindo-A e tornando-A sábia, manifesta-se no Seu interior de diversas maneiras: na Escritura, na Tradição e nas Obras. Pois a Igreja que executa a obra de Deus é a mesma que preserva a Tradição e redigiu as Escrituras. Nem um indivíduo nem um conjunto de indivíduos, dentro da Igreja, preservam a Tradição ou escrevem as Escrituras; mas sim o Espírito de Deus, que habita na totalidade do corpo da Igreja. Portanto não é nem correto nem possível que se procurem áreas de Tradição nas Escrituras, nem provas das Escrituras na Tradição, nem a justificação das Escrituras e da Tradição nas Obras. Para um homem que viva fora da Igreja nem a Escritura nem a Tradição nem as Obras são compreensíveis. Mas para aquele que vive no seu seio e está unido ao espírito da Igreja, essa unidade é expressa pela Graça que habita no interior Dela.

As Obras não precedem a Escritura e a Tradição? A Tradição não precede a Escritura? As obras de Noé, Abraão e dos nossos antepassados, representativos da Igreja do Velho Testamento, não agradaram a Deus? E a Tradição não existia entre os Patriarcas, começando por Adão, o nosso primeiro pai? Deus não deu liberdade ao homem e não concedeu ensinamento verbal antes dos Apóstolos, pelos seus escritos, difundirem o testemunho da obra da redenção e da lei da liberdade? Por conseguinte, entre Tradição, Obras e Escritura não há contradições, mas, pelo contrário, completa concordância. O homem compreende as Escrituras, assim como preserva a Tradição e executa as Obras, de acordo com a sabedoria que habita nele. Mas a sabedoria que nele existe não lhe é concedida individualmente, mas como membro da Igreja, e é concedida parcialmente, sem que fique anulada a sua possibilidade de erro individual; mas à Igreja é dada a plenitude da Verdade, sem a possibilidade de erro. Consequentemente não deve julgar a Igreja mas submeter-se a Ela, porque a sabedoria não pode ser obtida a partir dele.

Todo aquele que procure prova da verdade da Igreja, ou manifesta através desse ato a sua dúvida e se exclui da Igreja, ou assume a aparência daquele que duvida e simultaneamente conserva a esperança de provar a verdade e de chegar até ela através da razão. Mas os poderes da razão não alcançam a verdade de Deus, e a fraqueza do homem manifesta-se pela fraqueza das suas razões. O homem que aceita somente a Escritura e apenas Nela encontra a Igreja, está na verdade a rejeitá-La, e espera fundí-La de novo pelos seus próprios meios. O homem que aceita somente a Tradição e as Obras e deprecia a importância das Escrituras, está igualmente, e na realidade, a rejeitar a Igreja e a constituir-se em juiz do Espírito de Deus que falou pela Escritura. A sabedoria cristã não é um tema de investigação intelectual, mas de uma fé viva que é uma dádiva da Graça.

A Escritura, a Tradição e as Obras são exteriores e o que lhes é interior é o Espírito de Deus. Partindo apenas da Tradição, das Escrituras ou das Obras, o homem não consegue senão obter um conhecimento incompleto e exterior, que pode de fato conter em si verdade porque é parte da Verdade, mas ao mesmo tempo é necessariamente errôneo, pois incompleto. Um crente conhece a Verdade, mas um descrente não a conhece ou pelo menos apenas a identifica através de um conhecimento exterior e imperfeito A Igreja não se prova quer pelas Escrituras, quer pela Tradição ou pelas Obras, mas contém em si própria o testemunho, como o Espírito de Deus, habitando nela, manifesta o Seu testemunho nas Escrituras. A Igreja não pergunta qual Escritura é verdadeira, qual Tradição é verdadeira, qual Concílio é verdadeiro ou que Obras agradam a Deus porque Cristo conhece a Sua própria herança, e a Igreja na qual Ele habita sabe isso através do conhecimento interior e não pode deixar de identificar as suas próprias manifestações. O conjunto dos livros do Novo e do Antigo Testamentos, que a Igreja reconhece como seus, chama-se Sagrada Escritura. Mas não há limites às Escrituras, porque qualquer escrito que a Igreja reconheça como seu é Sagrada Escritura. Do mesmo modo e de maneira proeminente, estão os Credos dos Concílios Gerais e, especialmente, o Credo de Nicéia-Constantinopla. Por conseguinte os textos das Sagradas Escrituras chegaram até aos nossos dias e, se Deus quiser, mais alguns serão escritos. Mas na Igreja não houve nem haverá qualquer contradição, tanto nas Escrituras como na Tradição ou nas Obras; porque nas três está Cristo, uno e imutável.

- Alexei Khomiakov, A Igreja é Una

Escritura e Tradição


As Sagradas Escrituras são altamente respeitadas pela Igreja Ortodoxa. Sua importância é expressa pelo fato de que uma parte da Bíblia é lida em cada serviço de Louvor. A Igreja Ortodoxa, que se reconhece a si própria como a guardiã e intérprete das Escrituras, considera que os livros da Bíblia são um testemunho precioso da revelação de Deus. O Antigo Testamento é uma coleção de quarenta e nove livros de vários estilos literários que expressam a revelação de Deus aos antigos israelitas. A Igreja Ortodoxa considera que o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de Cristo e acredita que deveria ser lido à luz de Sua revelação.

O Novo Testamento está focalizado na pessoa e obra de Jesus Cristo e na plenitude do Espírito Santo na Igreja primitiva. Os quatro Evangelhos são um relato da vida e ensinamento de Cristo, centralizados em Sua Morte e Ressurreição. As vinte e uma epístolas e os Atos dos Apóstolos são dedicados à vida cristã e ao desenvolvimento da Igreja primitiva. O Livro da Revelação é um texto altamente simbólico que prevê a volta do Cristo. O Novo Testamento, especialmente os Evangelhos, é muito importante para a Ortodoxia porque ali se encontra um testemunho escrito da revelação perfeita de Deus na Encarnação do Filho de Deus, na pessoa de Jesus Cristo.

Embora a Bíblia seja muito preciosa como um inestimável registro escrito da Revelação de Deus, ela não contém aquela revelação em sua totalidade. A Bíblia é considerada unicamente como uma expressão da revelação de Deus na vida em marcha de Seu povo. A Escritura faz parte do tesouro da Fé que é conhecido como Tradição. Tradição significa aquilo que é "transmitido" de uma geração a outra. Além do testemunho da Fé na Escritura, a Fé Cristã Ortodoxa é celebrada na Eucaristia, ensinada pelos Padres, glorificada pelos Santos, expressa em orações, hinos e ícones; preservada pelos sete Concílios Ecumênicos; contida no Credo Niceno, manifestada em preocupação social; e, pelo poder do Espírito Santo, subsiste em cada paróquia ortodoxa local. A vida da Santíssima Trindade é manifestada em cada aspecto da vida da Igreja. Finalmente, a Igreja, como um todo, é a guardiã da Fé Cristã autêntica, a qual dá testemunho daquela Revelação.

- Padre Thomas Fitzgerald, Doutrina da Igreja Ortodoxa