Considerações sobre a doutrina da substituição penal nas Escrituras


A questão central

A doutrina protestante da Substituição Penal (Penal Substitution, abreviada como PSub ou PSA) sustenta que Deus o Pai derramou sobre Jesus toda a Sua ira por causa dos nossos pecados, imputando-Lhe a culpa da humanidade, de modo que Jesus recebeu o castigo que nós merecíamos e assim obteve o perdão para os eleitos. Essa visão tem consequências muito específicas: requer que a culpa seja juridicamente transferida a Cristo, que Cristo sofra uma punição equivalente à danação eterna, e que Deus em algum sentido volte Sua cólera contra o próprio Filho.

O que "expiação" (kaphar) significa nas Escrituras

O termo hebraico central para "expiação" é kaphar, que aparece cerca de noventa vezes no Antigo Testamento, especialmente no contexto dos sacrifícios levíticos. Sua semântica fundamental é "cobrir", "propiciar", "expiar", "aplacar". O que os textos revelam, quando analisados em conjunto, é que kaphar nunca descreve a transferência de uma punição a um substituto inocente. Ele descreve o ato de aplacar a ira divina por meio de uma oferta, uma ação mediadora ou uma obra de fidelidade, sem que isso implique que alguém inocente sofra o castigo que o culpado merecia.

Gênesis 32:20, por exemplo, usa a raiz de kaphar quando Jacó planeja "apaziguar" (kaphar) a ira de Esaú com presentes: "talvez ele me aceite." Não há transferência de punição; há um gesto de buscar o agrado por meio de um dom. Em Êxodo 32:30, Moisés diz ao povo: "Talvez eu possa expiar (kaphar) o vosso pecado" — e o que ele faz é interceder diante de Deus em oração e penitência, não receber uma culpa no lugar do povo. O Salmo 106:23 confirma: "Disse que os destruiria, se Moisés, seu escolhido, não se pusesse na brecha diante dele, para desviar a sua ira." A ira foi desviada pela intercessão, não redirecionada para um substituto inocente.

O episódio de Fineias em Números 25 também é interessante. Em resposta à fornicação cultual de Israel com as moabitas, uma praga começa a devastar o povo. Fineias "se levantou e intercedeu" (Sl 106:30) — não morreu no lugar do povo, não recebeu a punição deles — e "a ira do Senhor cessou" (Nm 25:11). O texto declara que por isso o Senhor "fez expiação (kaphar) pelo povo de Israel." A expiação foi efetivada por uma obra justa, não por uma transferência penal.

Provérbios 16:6 vai ainda mais longe: "Pela misericórdia e pela fidelidade (hesed we'emet) a iniquidade é expiada (kaphar)." A fórmula é explícita: amor e fidelidade fazem expiação. Isso é totalmente incompatível com a ideia de que só a punição de um substituto pode expiar. Números 16:46 descreve Arão correndo com o incensário em meio à congregação, "fazendo expiação" enquanto a praga já alastrava — e a praga parou. Ele ficou literalmente "entre os mortos e os vivos" (Nm 16:48), mediando pela vida do povo sem receber qualquer punição em seu lugar.

Há ainda casos em que a expiação é feita para objetos inanimados: o altar (Êx 29:36-37; Lv 16:33), a terra (Nm 35:33), uma casa (Lv 14:49-53). É evidente que um altar não pode receber uma pena. O que a expiação faz, nesses casos, é purificar e consagrar — o que confirma que seu núcleo semântico é de limpeza e purificação, não de punição transferida.

Outro dado fundamental é Levítico 5:11-13, que permite que o pobre ofereça um punhado de farinha de trigo como oferta pelo pecado (chattat), quando não puder pagar o animal. Uma farinha de trigo, obviamente, não pode sofrer ou receber uma pena. Portanto, a lógica da substituição penal não encontra ancoragem nos próprios sacrifícios levíticos.

A lógica do sacerdócio e o significado de "carregar o pecado"

Um elemento crucial que distorce toda a leitura protestante é a incompreensão do papel do sacerdócio levítico. Quando um israelita pecava e precisava fazer expiação, ele não fazia a expiação por si mesmo: entregava sua oferta ao sacerdote, "e o sacerdote fará expiação por ele" (Lv 4:20, 26, 31, 35; 5:6, 10, 13, 16, 18; 6:7). Deus opera por meio de mediadores santos. O pecador matava o animal; mas era o sacerdote que fazia a expiação aplicando o sangue conforme o ritual. Essas duas ações eram distintas e separadas. A expiação ocorria após a morte do animal e dependia da ação sacerdotal, não do simples fato de um ser inocente ter morrido.

O texto chave para entender o que significa "carregar o pecado" (nasa + avon) no contexto sacerdotal é Levítico 10:17. Moisés repreende Eleazar e Itamar por não terem comido da cabra do sacrifício pelo pecado: "Por que não comestes a oferta pelo pecado no lugar santo? Porque é santíssima e Ele vo-la deu para que carregueis (nasa) a iniquidade da congregação, para fazerdes expiação por eles diante do Senhor." O texto vincula diretamente o "carregar a iniquidade" ao ato sacerdotal de "fazer expiação." "Carregar o pecado" do povo não significa que o sacerdote se torna culpado ou recebe uma punição; significa que ele assume a responsabilidade de mediar a expiação. A culpa não é imputada ao sacerdote; a função de fazer a expiação lhe é confiada.

Esse significado é confirmado em Êxodo 28:38, onde a placa de ouro na testa de Arão servia para que "Arão carregue (nasa) a culpa das coisas sagradas" — ou seja, para que ele intercedesse pelas faltas do povo no culto. Também em Números 18:1, 23: os levitas "carregarão (nasa) a iniquidade conectada ao santuário" e "carregarão a iniquidade" para que o povo não precise se aproximar do tabernáculo e morrer. Eles carregam no sentido de suportar o peso da responsabilidade litúrgica.

Essa distinção esvazia a interpretação protestante de 1 Pedro 2:24 e Isaías 53:11 como "Jesus carregou nossa culpa e recebeu nossa punição." Quando Jesus "carrega nossos pecados," como sacerdote, isso significa que Ele assume a função mediadora de fazer expiação por nós, não que a culpa nos é removida e colocada sobre Ele, como se Ele se tornasse o réu em nosso lugar.

O verbo grego anaphérō em 1 Pedro 2:24

Há ainda um argumento linguístico importante sobre o verbo grego usado em 1 Pedro 2:24, "Ele mesmo levou (anaphérō) os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro." O termo grego anaphérō (ἀναφέρω) não significa primariamente "carregar" um peso, mas sim "oferecer em sacrifício" ou "ir para cima." Das suas nove ocorrências no Novo Testamento, ele jamais é usado para "carregar" algo no sentido comum: designa "subir um monte" (Mt 17:1; Mc 9:2), "subir ao céu" (Lc 24:51), e "oferecer um sacrifício" (Hb 7:27; 9:28; 13:15; Tg 2:21; 1 Pd 2:5). O fato de que na Septuaginta (LXX) esse mesmo verbo, em mais de 150 ocorrências, refere-se a um sacrifício na maioria dos casos — como em Gn 8:20; 22:2-3; Êx 24:5; 29:18, 25; Lv 4:31 — torna muito provável que em 1 Pedro 2:24 o sentido seja "apresentar nossos pecados (a Deus) em sacrifício" ou "elevar nossos pecados diante de Deus," e não "receber a imputação da culpa por eles." O versículo 2:5 do mesmo capítulo usa anaphérō exatamente no sentido de oferecer sacrifícios espirituais a Deus, o que confirma que Pedro usa o termo com conotação sacrificial-sacerdotal, não com conotação de imputação penal.

Ademais, o próprio contexto imediato de 1 Pedro 2:24 é irreconciliável com a Substituição Penal: "Para isso fostes chamados, porque também Cristo padeceu por vós, deixando-vos um exemplo para que sigais os seus passos" (1 Pd 2:21). Cristo é apresentado como exemplo a ser imitado. Isso faz sentido na visão da expiação como amor oblativo, martírio e sacrifício sacerdotal. É completamente absurdo se o modelo foi Cristo recebendo a punição divina em nosso lugar — pois ninguém poderia nem deveria imitar esse ato.

Isaías 53: a questão do "esmagamento" e da Septuaginta

Um dos versículos mais citados pelos defensores da Substituição Penal é Isaías 53:10 do Texto Massorético (TM): "Ao Senhor aprouve esmagar (dakah) o seu servo." À primeira vista, a palavra "esmagar" parece indicar que o Pai infligiu ativamente um castigo sobre Jesus. Mas é aqui que a Septuaginta (LXX) — a tradução grega do Antigo Testamento feita séculos antes de Cristo, utilizada pelos apóstolos e pelos Pais da Igreja primitiva — oferece uma leitura notavelmente diferente: "O Senhor se agradou de purificar (katharísai) o servo dos seus golpes." O termo grego denota purificação e limpeza, não esmagamento judicial.

Essa leitura da LXX é a que os Padres da Igreja citam consistentemente:

  • Clemente de Roma (c. 96 d.C.): "O Senhor se agrada de purificá-Lo pelos açoites." (Ep. aos Coríntios, 16)
  • Justino Mártir: "O Senhor se agrada de limpá-Lo da ferida." (1 Apologia, 51; Diálogo com Trifão, 13)
  • Agostinho: "O Senhor se agrada de purgar-Lo da miséria." (Batismo das Crianças, 1.54; Harmonia dos Evangelhos, 1.47)
  • João Crisóstomo: "Agrada ao Senhor limpá-Lo da Sua ferida." (Homilias sobre 1 Coríntios, 38)

O padrão é uniforme: a Igreja primitiva entendia que Deus não esmagou o Servo com castigo penal, mas que o purificou de Suas feridas. A palavra grega do versículo 5 da mesma perícope, traduzida às vezes como "punição" (paideia), é em toda a Bíblia o termo para correção paternal, para a disciplina de um pai sobre um filho — como em Hebreus 12:5-11 — e jamais o termo técnico para punição judicial. "O castigo que nos traz a paz estava sobre Ele" (Is 53:5) deveria ser traduzido como "a disciplina que nos traz cura estava sobre Ele," o que é muito diferente de "a punição jurídica que nos era devida foi descarregada sobre Ele."

Isaías 53:6 e a Septuaginta: o Pai "entregou" Jesus, não "derramou Sua ira"

Uma das provas textuais mais fortes para a leitura não-penal de Isaías 53 vem da comparação entre o Texto Massorético e a LXX no versículo 6. O TM diz: "O Senhor fez incidir sobre ele (hiph'il de paga') a iniquidade de todos nós." A LXX traduz: "O Senhor o entregou (paredōken) por causa dos nossos pecados." Note-se que essa é a mesma palavra grega que Paulo usa em Romanos 4:25 ("Ele foi entregue por causa das nossas transgressões") e em Romanos 8:32 ("Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós"). O único lugar do Antigo Testamento onde aparece essa expressão — "entregar por causa dos pecados" — é na LXX de Isaías 53:6 e 53:12.

Isso demonstra que Paulo tinha em mente, de forma primária, a leitura grega de Isaías 53. E essa leitura não diz que o Pai derramou Sua ira sobre Jesus, mas que o Pai "entregou" Jesus nas mãos dos homens, permitindo providencialmente que judeus e romanos o capturassem e crucificassem (cf. Jo 7:30; 8:20; Mt 26:53). Estudiosos de exegese reformados e luteranos de renome — como Leon Morris, Cranfield, Douglas Moo, Charles Hodge e Thomas Schreiner — reconhecem sem hesitação que Rm 4:25 e 8:32 se referem à LXX de Is 53:6,12. Isso não significa que haja contradição entre TM e LXX; significa que os tradutores gregos captaram a nuance idiomática do hebraico e os apóstolos usaram essa tradução como chave interpretativa.

Sabedoria 3 e os paralelos com Isaías 53

O livro de Sabedoria (usado por Paulo — cf. Rm 9:20 citando Sb 15:7) contém em Sabedoria 3:1-9 um texto que faz eco impressionante com Isaías 53. O texto diz que as almas dos justos que sofreram são aceitas por Deus "como holocausto" (holokaútōma), que sua disciplina (paideia) foi pequena mas sua recompensa será grande, e que aqueles que os observavam de fora pensavam erroneamente que eram castigados, mas na verdade estavam em paz e esperança. O ponto é explícito: sofrer não significa ser punido por Deus. O sofrimento do justo pode ser a via pela qual Deus o aceita e através da qual outros são salvos.

Isso ilumina o Servo Sofredor de Isaías 53: aqueles que "o consideramos atingido, ferido por Deus e oprimido" (Is 53:4) estavam enganados quanto à natureza do seu sofrimento. A multidão equivocada pensou que Deus o estava punindo; a revelação do profeta é que, na verdade, "era pelas nossas transgressões que ele era traspassado" — ou seja, era por nós, não em virtude de culpa dele ou de punição divina contra ele.

Jeremias e Lamentações sobre o sentido de "carregar a iniquidade"

Lamentações 5:7 — "Nossos pais pecaram e já não existem mais; somos nós que carregamos (nasa'nu) suas iniquidades (avonotehem)" — oferece outra chave hermenêutica preciosa para entender o que significa "carregar iniquidade" em Isaías 53. A geração exilada que fala em Lamentações não é juridicamente punida pelos pecados de seus pais; o texto não sugere nenhuma imputação jurídica de culpa. O que ela faz é suportar as consequências históricas e solidárias que fluíram do pecado alheio — a destruição de Jerusalém, o exílio, a humilhação nacional. "Carregar a iniquidade" de outro, portanto, descreve neste contexto uma solidariedade no sofrimento, não uma transferência de culpa: o inocente pode sofrer o que o pecado gerou no mundo sem que isso implique que Deus o esteja punindo ou que a culpa lhe tenha sido atribuída. Transposta para Isaías 53, essa lógica clarifica que quando o Servo "carrega (nasa) as iniquidades de muitos" (Is 53:11), o texto pode estar afirmando exatamente o mesmo: o Servo entra em solidariedade com um povo cujos pecados produziram sofrimento, absorve as consequências que deles fluem, e através dessa imersão mediatorial intercede e expia — sem que isso requeira a imputação de culpa ou o redirecionamento da ira divina sobre ele.

Esse quadro interpretativo recebe ainda mais força quando se percebe que o próprio Jeremias é descrito, dentro do seu livro, com uma linguagem que antecipa o Servo Sofredor de Isaías 53. A semelhança mais direta está em Jeremias 11:19, onde o profeta diz de si mesmo: "Eu era como um cordeiro manso (kebes) levado ao matadouro (tibah)." O substantivo hebraico tibah — "matadouro" — é exatamente o mesmo de Isaías 53:7: "como ovelha levada ao matadouro (tibah)." Jeremias é perseguido por seu próprio povo, rejeitado pelos sacerdotes e pelos profetas, jogado numa cisterna para morrer — e tudo isso por fidelidade à Palavra de Deus. Mas ao mesmo tempo ele exerce um papel intercessório contínuo: em Jeremias 18:20 ele clama a Deus dizendo "Lembra-te de como me pus diante de Ti para falar bem deles, para desviar (hashib) a Tua ira deles." Em Jeremias 15:11 ele afirma ter intercedido até em favor dos seus inimigos. O verbo paga' — interceder, "estar na brecha" — que aparece em Isaías 53:12 ("ele intercedeu pelos transgressores") é precisamente o vocabulário da intercessão profética, da qual Jeremias é um representante. Assim, Isaías 53 não cria do nada uma figura estranha à tradição israelita: ele projeta sobre o Servo Sofredor o arquétipo do profeta intercessor, do justo perseguido que, como Jeremias, sofre por causa do pecado de outros e ainda assim permanece diante de Deus a favor deles — modelo que aponta para Cristo como Sumo Sacerdote e profeta que consuma em Si toda a tradição de intercessão e solidariedade mediatorial da história de Israel.

A propiciação (hilasterion) e Romanos 3:25

Romanos 3:25 diz que Deus "apresentou [a Cristo] como propiciação (hilastérion) pela sua morte, mediante a fé, para demonstrar a sua justiça." O termo grego hilastérion é o mesmo que a LXX usa para o propiciatório (kaporeth), a tampa da Arca da Aliança, o lugar onde Deus Se manifestava e onde o sangue era aspergido no Dia da Expiação. Propiciar significa "aplacar a ira" ou "cobrir o pecado," mas não necessariamente redirecionar a ira para uma vítima inocente. Como todos os exemplos do Antigo Testamento demonstram — Moisés, Fineias, Arão com o incensário, os sacrifícios do Dia da Expiação — a propiciação ocorre por meio de uma ação santa e mediadora que desvia a ira, não que a concentra sobre um inocente.

Há um paralelo em 4 Macabeus 17:21-22, ao descrever o martírio de Eleazar e da Mãe dos Sete Filhos no período do rei Antíoco: "Eles trocaram suas vidas pelo pecado da nação. O sangue desses piedosos foi propiciação (hilasterion) para Deus." O mesmo termo raro que Paulo usa em Romanos 3:25 aparece aqui. Eleazar era um homem justo, não estava sendo punido por Deus, mas oferecia sua vida em fidelidade à Torá — e esse ato foi chamado de propiciação. Seu sangue purificou Israel e desviou a cólera divina. Não há transferência de culpa, não há ira de Deus contra Eleazar; há um justo que morre por amor ao seu povo, e Deus aceita essa boa disposição como propiciatória.

Paulo, familiarizado com a literatura judaica do período, provavelmente tinha esses mártires dos Macabeus em mente ao escrever Romanos 3:25. A estrutura do pensamento é: assim como os mártires de Israel, cujo sangue fiel propiciou a Deus, — e de modo infinitamente superior — o sangue de Jesus propicia e expia, não porque Deus derramou Sua ira sobre Ele, mas porque Ele ofereceu a Sua vida em amor perfeito.

Por que todos esses rituais?

 

por Michael Bressem, Ph.D.

Publicado originalmente em The Path of Orthodoxy, vol. 42, nos. 4/5, abril/maio de 2008.

Comparado ao culto contemporâneo da maioria das igrejas protestantes e das igrejas católicas romanas pós-Vaticano II, o culto da Igreja Ortodoxa parece excessivamente formal, complicado e rígido em suas rubricas. Por que há tantos rituais na Igreja Ortodoxa? Por que não há mais espontaneidade, criatividade e liberdade de expressão? Por que o serviço dominical ortodoxo — a Divina Liturgia — é essencialmente o mesmo semana após semana, todos os anos, há mais de mil e quinhentos anos? A maioria dos fiéis ortodoxos responderia: "Porque é a nossa Tradição." Mas você sabe por que é a nossa Tradição e por que os rituais são tão importantes para a nossa Fé cristã?

A Necessidade de Paz e Ordem

Na verdade, a Bíblia e os Padres da Igreja raramente usam a palavra "ritual" ou "rito" ao descrever as práticas cerimoniais religiosas judaicas ou cristãs. As palavras mais frequentemente usadas são "ordenanças" e "observâncias". Essas palavras descrevem melhor o que deveria estar acontecendo. Para muitos, os "ritos" são apenas uma série de comportamentos que as pessoas costumeiramente executam sem conhecer seu significado — talvez houvesse outrora uma razão para o comportamento, mas agora as pessoas simplesmente "cumprem as formalidades".

Uma "ordenança" é um decreto que regulamenta uma atividade (Hebreus 9:1) — mantendo-a dentro de uma sequência ou limite determinado. Com relação aos serviços de culto, o Apóstolo Paulo afirmou: "todas as coisas sejam feitas com decência e ordem" (1 Coríntios 14:40). A razão para isso é dada num versículo anterior: "Deus não é Deus de desordem, mas de paz" (v.33). De fato, São Paulo elogia a Igreja de Colossos por quão ordenada (τάξιν) ela é (Colossenses 2:5). Sendo que a nossa atual Liturgia de São João Crisóstomo é baseada na Liturgia do século I de São Tiago, o primeiro Bispo de Jerusalém, a Igreja Ortodoxa sempre praticou um padrão formal e ordenado em seu culto.

No entanto, a formalidade do culto remonta às práticas judaicas que começaram 13 séculos antes de Cristo com o êxodo de Israel do Egito. Deus, por meio de Moisés, deu detalhes explícitos sobre uma forma de culto muito ordenada e elaborada, centrada no Tabernáculo ou Templo. Por quê? Porque Deus sabe como é fácil para a humanidade discutir sobre diferenças nas práticas de culto a ponto de gerar confusão (Atos 19:32), preconceito (João 4:20) e violência (Gênesis 4:3-8). Não é difícil percorrer a história da humanidade e encontrar guerras justificadas em parte por disputas sobre crenças e práticas religiosas. Embora o conflito inter-religioso provavelmente continue (João 17:14), Deus quer prevenir o conflito intra-religioso dentro da Sua Igreja (João 17:22-23). Portanto, é necessário que a Igreja seja unificada em suas práticas de culto. A Igreja Ortodoxa manteve a unidade da Fé em parte preservando uma fórmula precisa em seu culto. Ao fazê-lo, a Igreja Ortodoxa evitou muita dissensão que tem afligido outros ramos do Cristianismo.

A Necessidade de Atenção e Memória

"Observância" denota a necessidade de prestar atenção e lembrar. Seis vezes durante a Divina Liturgia, o padre ou o diácono faz a exortação "Estejamos atentos!". Deus não quer que simplesmente compareçamos à igreja e habitualmente digamos e façamos os ritos enquanto nossa mente está ocupada com o trabalho, listas de compras ou uma discussão recente com o cônjuge. Tal culto não é "em espírito e em verdade" (João 4:23-24). Deus deseja que nos concentremos no que cada palavra dita e cada gesto feito alude dentro da Divina Liturgia (e outros serviços de culto). Isso exige disciplina da nossa parte, mas é por meio da disciplina que nos tornamos filhos e filhas justos do nosso Pai (Hebreus 12:4-11). Observar a Divina Liturgia nos disciplina a "fixar os olhos em Jesus, o autor e consumador da nossa fé" (Hebreus 12:2).

Somente prestando atenção ganharemos compreensão (Provérbios 4:1, 20; 5:1; 7:24; 22:17), encontraremos a direção de Deus para nós (Êxodo 23:20-21) e desfrutaremos da Sua bênção (Deuteronômio 7:12-13; 28:13). Atentar aos ensinamentos da Igreja, tanto pelas Escrituras (2 Pedro 1:19) quanto pela Tradição (Hebreus 2:1), nos mantém afastados da heresia. Uma boa definição bíblica de observância, que devemos recordar ao entrar numa igreja, é: "Mortal, olha atentamente e escuta com atenção, e aplica tua mente a tudo que Eu [Deus] te mostrar, pois foste trazido aqui para que Eu te mostrasse" (Ezequiel 40:4; cf. também Isaías 28:23; 34:1).

A Bíblia está repleta de exortações não apenas para prestar atenção, mas também para lembrar. Precisamos ser continuamente lembrados: de quem é Deus, de como Deus nos salvou, dos milagres que atestam o amor de Deus por nós, dos mandamentos que Deus nos ensinou, dos santos de outrora que nos inspiram, e também de lembrar daqueles que precisam de auxílio caritativo ou intervenção divina. O ponto culminante da Divina Liturgia é quando observamos o sacramento da comunhão, que foi ordenado por Deus para ser feito "em memória" de Cristo (Lucas 22:19; 1 Coríntios 11:24-25). Os serviços de culto ortodoxos, particularmente em suas ladainhas e hinos, são especificamente concebidos para nos ajudar a lembrar.

A Necessidade de Crescimento e Transformação

Alguns podem argumentar que é mais fácil perder a atenção nos serviços ortodoxos porque eles são muito repetitivos. Acredita-se que os serviços contemporâneos prendem melhor a atenção porque mudam de semana a semana e são, portanto, mais estimulantes. Primeiramente, deve-se notar que os serviços ortodoxos não são completamente repetitivos — as leituras, as homilias e alguns hinos mudam toda semana. Em segundo lugar, a repetição nos faz bem: é assim que aprendemos. Além de ser uma assembleia pela qual damos a Deus o que Lhe é devido — louvor e ação de graças — os serviços de culto ortodoxos são também salas de aula de instrução sobre como crer e agir corretamente.

Parte da razão pela qual o culto da Igreja Ortodoxa é tão ritualístico é porque uma grande quantidade de informação está sendo condensada num serviço de noventa minutos. Você pode passar décadas indo às Divinas Liturgias todos os domingos e ainda não esgotar toda a riqueza simbólica de significados encontrada nessa cerimônia. A Divina Liturgia é imutável porque sua fórmula funciona para nos ajudar a crescer em conhecimento e virtude para nos tornarmos semelhantes a Cristo — que é o propósito de nossas vidas (Colossenses 1:28-29; 2 Pedro 3:18). Mesmo que nossa atenção ocasionalmente se desvie (o que não deveria acontecer!), algo do serviço ainda é absorvido em nosso espírito para abençoar nossas almas. A repetição é transformadora. Com o tempo, a Divina Liturgia torna-se mais do que uma ordenança ou uma observância; torna-se algo intimamente parte de nossas vidas — como os batimentos do nosso coração (e ninguém reclama quando o coração mantém o mesmo ritmo que nos dá vida!).

Os serviços de culto contemporâneos de igrejas não ortodoxas podem ser muito entretenidos. Os instrumentos amplificados eletronicamente, os corais de louvor emocionais, a pregação dramática, as apresentações multimídia — tudo isso pode tornar um serviço agradável. Porém, assistir à TV, ir ao cinema ou estar num concerto de música também podem ser prazerosos. No entanto, quanto realmente nos lembramos desses eventos? Quanto nos ajuda a crescer em direção à maturidade na Fé (Hebreus 5:12-6:1)? Devemos nos perguntar se o culto foi destinado por Deus a ser entretenimento. O culto não deveria ser algo diferente do que o mundo produz? O culto não deveria ser algo que reverencia a Deus em vez de recrear a congregação?

A Necessidade de um Culto Custoso

"Liturgia" significa "obra do povo". Deus deseja que O amemos com todo o nosso coração, toda a nossa alma e com todas as nossas forças (Deuteronômio 6:5, ênfase acrescentada). Participar da Divina Liturgia não é uma experiência fisicamente confortável: há ficar em pé, ajoelhar-se e prostrar-se. Não se deve (ou não se deveria!) apenas assistir passivamente a uma apresentação num serviço da Igreja Ortodoxa. O laicato é convidado a participar ao longo de todo o serviço na veneração dos ícones, no canto dos hinos, na recitação do Credo Niceno e na união de seus corações e vozes às orações. Se você não estiver um pouco cansado quando a Divina Liturgia terminar, é porque não adorou plenamente a Deus.

Embora o culto possa ser uma celebração alegre (Salmo 100:1-2), a Escritura deixa claro que Deus deseja que o culto também seja custoso. O primeiro ato de culto registrado foi a história de Caim e Abel, filhos de Adão e Eva, quando Deus aceita o sacrifício de Abel mas rejeita o de Caim (Gênesis 4:3-7). Deus explicou que não basta qualquer oferta, mas somente o melhor do que temos a dar receberá Sua aprovação. Os animais sacrificados a Deus tinham de ser sem defeito e, portanto, eram os mais valiosos do rebanho (Levítico 1:3). A Divina Liturgia foi refinada ao longo dos primeiros séculos para tornar-se o melhor serviço de culto que podemos oferecer a Deus. Permaneceu a mesma desde então porque nenhum teólogo ortodoxo conseguiu descobrir como torná-la melhor do que a versão do século IV de São João Crisóstomo.

Em Resumo

Os serviços de culto ortodoxos são ritualísticos porque:

  1. Deus deseja que nossos serviços sejam ordenados como reflexo de Si mesmo.
  2. Nosso Senhor deseja um padrão definido de culto para manter a unidade e evitar a dissensão.
  3. Os serviços exigem que nos disciplinemos a prestar atenção, lembrar e participar, para que possamos ser aperfeiçoados na Fé.
  4. O culto foi feito para ser custoso — exigindo o melhor do que temos para honrar a Deus.

"Portanto, como estamos recebendo um reino que não pode ser abalado, sejamos gratos, por meio do qual oferecemos a Deus um culto aceitável com reverência e temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor" (Hebreus 12:28-29).

"Convém que façamos tudo em ordem, o que o Senhor nos ordenou realizar nos tempos estabelecidos. Ele ordenou que as ofertas e os serviços fossem realizados. E estas coisas não devem ser realizadas de forma descuidada ou irregular, mas nos tempos e horas determinados."São Clemente de Roma, 96 d.C.

O Espírito da Ortodoxia

pela Princesa Ileana da Romênia (1909-1991).

S.A.R. a Princesa Ileana da Romênia nasceu em Bucareste em 7 de janeiro de 1909, filha mais nova do Rei Fernando e da Rainha Maria. É bisneta da Rainha Vitória e também do Czar Alexandre II da Rússia, que libertou os servos. Em 1931, casou-se com o Arquiduque Anton da Áustria e é mãe de seis filhos. Ainda jovem durante a Primeira Guerra Mundial, a Princesa viveu o sofrimento de perto, cresceu com profunda preocupação pelo bem-estar das pessoas e tornou-se enfermeira da Cruz Vermelha na última guerra, quando estabeleceu e supervisionou seu próprio hospital na Romênia. Em 1950, após o exílio de seu país e dois anos na América do Sul, veio para os Estados Unidos. Fez conferências amplamente por esse país e é autora de dois livros: I LIVE AGAIN (Vivo de Novo), suas memórias, e um volume vindouro, THE HOSPITAL OF THE QUEEN'S HEART (O Hospital do Coração da Rainha).

 

Tendo sido batizada e criada na Igreja Ortodoxa Oriental, sempre a tomei como algo natural. Somente recentemente me deparei com a pergunta: "O que é a Ortodoxia? O que os ortodoxos acreditam?" Percebi que as pessoas me olhavam e me interrogavam com a desconfiança e curiosidade dedicadas a alguma criatura exótica, não exatamente igual às outras.

Não me ofendi com essa curiosidade; pelo contrário, tornei-me igualmente curiosa para descobrir por que se sabe tão pouco sobre minha Igreja, que representa uma grande parte da Europa Oriental e uma boa parte da Ásia Ocidental, além de um número significativo de americanos. Senti ser imperativo buscar as verdades nas igrejas do Oriente e do Ocidente, e ver por mim mesma onde reside a diferença e por que se tornaram tão estranhas uma à outra.

A Igreja Ortodoxa remonta ao próprio início do Cristianismo, desenvolvendo-se conforme as necessidades e a mentalidade dos povos que uniu em seu seio. No início, não havia Igreja Oriental ou Ocidental, mas apenas uma Igreja Católica (universal e completa) e Ortodoxa (de pensamento correto), que, como corpo, mantinha a fé pura e defendia a Cristandade como um todo das heresias. 

O Arianismo foi condenado no primeiro dos sete Concílios Ecumênicos, realizado em Niceia em 325. Esse Concílio contou com 318 bispos de todas as partes do mundo cristão da época. Os primeiros sete artigos do Credo Niceno foram formados nessa ocasião, e vinte cânones foram aprovados, regulando os direitos e a conduta de bispos e metropolitas. Os últimos cinco artigos do Credo foram formados no segundo Concílio, em 381, em Constantinopla. Esse Concílio era composto por 150 bispos, todos da parte oriental da Europa; ainda assim, suas decisões foram plenamente aceitas pelos bispos ocidentais. Os outros cinco concílios da Igreja indivisa trataram de outras heresias, e suas decisões foram aceitas tanto pelo Oriente quanto pelo Ocidente.

Nos primeiros séculos, havia cinco grandes Patriarcados — Alexandria, Jerusalém, Antioquia, Roma e Constantinopla. Gradualmente, dois deles tornaram-se mais importantes: Roma, por ser a cidade imperial e porque seu patriarca reivindicava descendência apostólica direta de São Pedro; e Constantinopla, que sob o Imperador Constantino tornou-se a nova cidade imperial, sede do governo do Império Romano. Quando o Imperador partiu de Roma para Constantinopla, sua autoridade passou gradualmente para o Bispo de Roma, que então era o único a manter a ordem e a tradição na parte ocidental do império, abandonada aos bárbaros do Norte. Constantinopla, por sua vez, naturalmente tornou-se o grande centro do Oriente. Essas duas grandes Sés estavam em perfeito acordo no combate às heresias e na composição do Credo Niceno, ao qual até hoje ambas firmemente aderem, assim como à hierarquia apostólica e a todos os principais dogmas da fé. Seu estranhamento originou-se de diferenças políticas, e não dogmáticas, embora estas últimas tenham sido posteriormente usadas como argumentos. A mais importante das discussões dogmáticas girou em torno do Filioque no Credo. (A Igreja Ocidental diz: "Creio no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho...", enquanto a Igreja Oriental diz: "...que procede do Pai, e é adorado juntamente com o Pai e o Filho.")

O cisma não ocorreu de repente nem com violência especial, embora tenha havido muito comportamento lamentável e anticristão de ambos os lados. De fato, ninguém pode determinar com exatidão a data do cisma. Alguns o situam em 1054; outros, 400 anos depois, em 1439, após a malograda Conferência de Florença. É talvez uma das maiores catástrofes do Cristianismo que Oriente e Ocidente se tenham separado. O avanço do grande Império Muçulmano foi em parte responsável por isso. Por quase 500 anos, ele reclamou para si a Europa Oriental, engolfando milhões de almas e separando-as efetivamente de seus irmãos ocidentais.

Este é um esboço muito breve dos fatos históricos. Mas a explicação da ruptura não se encontra apenas na história. Suas causas são muito mais profundas, na natureza e na mentalidade do Oriente e do Ocidente, e nas diferentes interpretações que cada um deu à mesma crença e credo.

Nunca se pode enfatizar suficientemente que jamais houve desacordo em questão de fé; que nem os ortodoxos nem os católicos romanos consideravam os outros hereges, mas sim cismáticos. Um grave pecado que cada qual lamenta ter visto o outro cometer! Ai do Cristianismo, esse pecado foi cometido, e o grande poder espiritual da unidade se perdeu! Todavia, quem pode penetrar os caminhos e a vontade de Deus, e por que cada ramo teve de trilhar seu caminho separado rumo à salvação? Cada um acumulou sua sabedoria e conhecimento conforme as mentes de diferentes povos; cada um enriqueceu-se com uma espiritualidade que penetra fundo na natureza das coisas, de modo que hoje ambos os lados acumularam grandes tesouros que, se reunidos, poderão ainda trazer ao mundo mais paz e alegria do que conseguimos compreender ou imaginar.

Vivemos agora em um tempo em que as culturas estão se aproximando, se encontrando e intercambiando pensamentos e ideias. Com a migração dos povos, por guerras e opressão, a Igreja Oriental migrou para o Ocidente e está se misturando com igrejas de todas as denominações. As igrejas ortodoxas na América e na Europa já não são apenas capelas servindo pequenos grupos de russos, sérvios, gregos, romenos e outros; tornaram-se parte da vida americana. Quase cinco milhões de americanos pertencem hoje a essa confissão, que tem suas próprias igrejas, escolas e seminários. A Ortodoxia não é mais uma fé vaga e distante de povos orientais, mas parte integrante da vida americana atual. O que ela defende, então?

Ela defende o Cristianismo íntegro, transmitido a nós de maneira inalterada por meio da Santa Tradição da Igreja. Ensina que há apenas uma Igreja, e que essa Igreja é Ortodoxa e Católica. Acredita-se que está firmemente fundada nos ensinamentos de Nosso Senhor, tal como transmitidos pelos primeiros Apóstolos e pelo Evangelho. Como os credos e até as Sagradas Escrituras vieram a existir após a fundação da Igreja por Cristo e pelos Apóstolos, a "Santa Tradição" é venerada na Igreja. Não obstante o fato de que, após a destruição do Império Bizantino, a Igreja Oriental se dividiu em vários grupos nacionais, a Tradição permaneceu intacta. Através de centenas de anos de perseguição otomana e outras, os chefes das igrejas raramente se podiam reunir para discutir pontos dogmáticos, mas todos mantiveram a mesma fé exata e, embora cada grupo necessariamente leia a Liturgia em sua própria língua, a cerimônia varia apenas ligeiramente, se é que varia.

Isso nos leva à importância da Liturgia, que é toda a vida da Igreja. Liturgia é a palavra oriental para Missa ou Eucaristia. O rito centra-se no culto e combina louvor e ação de graças pelo sacrifício de Nosso Senhor. Retrata em vários símbolos toda a vida de Nosso Senhor, do nascimento à crucificação e à gloriosa ressurreição. Há uma intimidade no relacionamento entre os fiéis e o clero e na participação de todos no serviço, que não é evidente nem facilmente compreensível para quem está acostumado aos serviços ocidentais. Embora a participação na Sagrada Comunhão não seja tão frequente quanto na Igreja Ocidental, a congregação sempre tem uma parte muito real e espiritualmente ativa na oferta do sacrifício eucarístico. O esplendor e a cerimônia, o mistério, as portas fechadas do altar, a glória dos hinos — longe de intimidar e afastar os fiéis, tudo isso os torna parte do Sacramento. A beleza, a música, as orações os libertam da vida mundana; seu intelecto pode descansar. Por causa dessa poderosa participação mística de todos na Liturgia, a confissão ortodoxa é a mesma Igreja, com a mesma cerimônia, a mesma expressão em todo o mundo, independentemente de raça, nacionalidade ou língua.

O próximo ponto importante é a extrema reverência dada às Sagradas Escrituras. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento figuram amplamente na vida diária ortodoxa. Não apenas seu estudo foi encorajado desde os primeiros tempos, como até os analfabetos aprenderam trechos inteiros de cor. Os Salmos fazem parte das orações cotidianas. O camponês mais simples no vale de montanha mais isolado dos Cárpatos, dos Bálcãs ou do Cáucaso é capaz de citar um versículo bíblico aplicável a qualquer situação em que possa se encontrar.

Como a soberania otomana sobre os povos cristãos do Oriente se expressava tanto em perseguição religiosa quanto nacional, seguiu-se naturalmente que fé e nacionalismo se tornassem uma só e mesma coisa. Assim, povo e Igreja estavam verdadeiramente unidos. Os reis nacionais eram ungidos pela Igreja e faziam parte dela. Essa união de Igreja e Estado, porém, nem sempre foi uma vantagem; mas os prós e os contras desse ponto são por demais extensos e graves para serem adequadamente discutidos nesta breve exposição da Ortodoxia. O importante é que a Ortodoxia sobreviveu à perseguição otomana, ao czarismo, e sobrevive agora ao Comunismo. Embora os vários agrupamentos nacionais sejam atualmente um obstáculo à ação ortodoxa concentrada, não prejudicaram a fé ortodoxa, e nenhum membro de qualquer grupo que busca os ministérios da Igreja está fora de comunhão com qualquer outro grupo. Ele pode participar livremente dos Santos Mistérios onde quer que os encontre.

A Igreja Ortodoxa não fala de Sacramentos, mas de Santos Mistérios. Não tenta enquadrá-los em fórmulas prontas, mas os aceita com gratidão e reverência. O oriental tem uma mente menos inquisitiva do que o ocidental; sua mente é mais contemplativa, menos disciplinada, porém mais profunda do que a mente ocidental. Onde este quer definições, compreensão e percepção intelectuais claras, aquele buscará as profundidades e se contenta com contatos indefinidos com o intangível. Talvez por causa das longas perseguições, tenha sido mais lançado sobre si mesmo e tenha tido de penetrar mais fundo na realidade por conta própria. Houve menos definição e, portanto, menos divergência de opinião. Quando houve revelações, sua autenticidade não foi julgada por mentes contemporâneas instruídas, mas foi submetida ao julgamento pela tradição da Igreja. Se tal revelação estava em consonância com essa tradição, era aceita. A Igreja Ortodoxa tem sido menos ávida do que as igrejas ocidentais em acompanhar os tempos, pois sente que detém as verdades eternas. Ao mesmo tempo, possui notável adaptabilidade e independência de movimento para romper com qualquer costume quando as circunstâncias o exigem. Por exemplo, quando a Sérvia comunista declarou o dia de Natal como dia de trabalho para que os serviços religiosos não pudessem ser frequentados, as Liturgias eram lidas a partir da meia-noite, a cada duas horas até a manhã, apesar de a tradição há muito estabelecer que apenas uma Missa em vinte e quatro horas deveria ser celebrada no mesmo altar. Contudo, nenhum indivíduo sente que qualquer autoridade possa dispensá-lo das regras tradicionais da Igreja, como o jejum, que para os ortodoxos é extremamente rigoroso. Ele sente que as regras da Igreja foram divinamente inspiradas quando esta foi fundada, e que nenhum ser humano tem o poder ou o direito de mudá-las ou acrescentar a elas.

É fator muito importante na disciplina da Igreja Ortodoxa, e constitui em grande parte seu poder de sobrevivência, que seus princípios estejam tão profundamente arraigados no laicato que a lei da Igreja muitas vezes é mais forte neles do que no clero. Por exemplo, o laicato aceitará as decisões do Sínodo concernentes ao reconhecimento de outras confissões, ordens e comunhões com as quais não se sente competente para lidar, mas jamais aceitaria novos dogmas ou a abolição de antigos. E nenhum ortodoxo conceberia mudar de religião por razões familiares ou por causa de mudança de comunidade, embora fôssemos muito tolerantes com uma mudança feita por convicção espiritual.

Há a crença de que, assim como a Igreja Ocidental foi fundada por São Pedro e São Paulo, a Igreja Oriental foi fundada por São João. Seja como for, não há dúvida de que a Igreja Ortodoxa é grandemente influenciada pelo Evangelho e pelas Epístolas e pelo Apocalipse de São João, e que destes, a espiritualidade e a beleza do quarto Evangelho é seu fator principal. O próprio termo "Mistério" para "Sacramento" vem de São João. Um exemplo da atitude da Igreja está na passagem de João 3:1-21, que narra a discussão de Nosso Senhor sobre o renascimento espiritual do homem com Nicodemos: mesmo após a explicação de Jesus, Nicodemos não compreende. Jesus diz: "Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas?" e prossegue explicando amplamente sua natureza e o caminho da salvação. O cristão ortodoxo não questiona, mas crê no renascimento do homem por meio dos Santos Mistérios que a Igreja guardou para ele diretamente de Nosso Senhor.

Os Sete Santos Mistérios

Esses Santos Mistérios ou Sacramentos são sete em número — Batismo, Crismação (equivalente à Confirmação ocidental), Comunhão, Penitência, Ordens Sagradas, Matrimônio e Unção. Passemos por esses sete Mistérios e expliquemos o catecismo ortodoxo, conhecido como "A Fé dos Santos."

Um Santo Mistério ou Sacramento "é uma prática ritual visível pela qual o poder invisível e salvador chamado graça de Deus concede dons maravilhosos aos que o recebem." [Do Catecismo Ortodoxo]

Como a palavra "graça" é tão frequentemente mal compreendida, creio que, antes de prosseguir, é preciso declarar a definição ortodoxa da palavra: "A graça de Deus é o dom de Deus que o Pai concede aos homens por meio do Espírito Santo em razão dos méritos do Filho." [ibidem]

O Batismo é o primeiro Santo Mistério, e por ele a pessoa batizada é purificada de todo pecado, original e pessoal, e, como filho recém-nascido de Deus, é incorporada à Igreja de Cristo.

Essa cerimônia é realizada pela imersão total três vezes repetida na água, em nome da Santíssima Trindade — do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. As três imersões representam a morte ao pecado contra a Trindade, e os três levantamentos significam a vida na e para a Santa Trindade. A autoridade da Igreja para o batismo vem diretamente de Cristo, em Seu claro mandamento a Seus discípulos de ensinar e batizar todas as nações (Mt 28,19), e também em Seu severo aviso: "Se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus." (Jo 3,5). (Para os ortodoxos, a morte de uma criança não batizada significa sua eventual exclusão da família cristã no Dia do Último Julgamento.) O Batismo é também sinal de obediência à prática apostólica (At 10,44-48; 16,15 e 1 Cor 1,16). Acima de tudo, é correto por causa do amor de Jesus, que ordenou: "Deixai as crianças virem a Mim" — e que cristão não obedeceria a esse chamado?

O Batismo é seguido imediatamente pela Santa Crismação, o segundo Santo Mistério, pelo qual a pessoa batizada é fortalecida com vigor e sabedoria pelo Espírito Santo. O padre unge a testa, o peito, os olhos, as orelhas, as bochechas, a boca, as mãos e os pés com o Santo Crisma (óleo), pronunciando as palavras: "O selo do dom do Espírito Santo. Amém." Essas palavras são tiradas de 2 Cor 1,21-22: "Aquele que nos confirma convosco em Cristo, é o próprio Deus que nos ungiu e nos marcou com o seu selo, e depositou em nossos corações as arras do Espírito."

A Crismação é uma extensão e participação na unção de Nosso Senhor com o Espírito Santo, realizada pelo Pai. Portanto, a unção nos une não apenas ao Espírito, mas também ao Filho. [Espiritualidade Ortodoxa, por um Monge da Igreja Oriental, p. 64.]

O santo óleo é preparado e consagrado pelos bispos, e seu uso é assim equivalente à imposição das mãos na Confirmação das Igrejas Ocidentais, a transmissão do Espírito Santo. A Igreja Ortodoxa não oferece nenhuma teoria sobre a maneira dessa transmissão, mas lembra "que Deus é Espírito e deve ser adorado em espírito e em verdade (Jo 4,14), especialmente quando nos voltamos para a Pessoa do Espírito Santo." O Crisma é apenas o canal "da unção invisível e espiritual que Deus derrama nos corações dos homens quando e onde Lhe apraz." [ibidem, p. 66.]

A Santa Comunhão, ou Eucaristia, é o centro de todo culto ortodoxo e é preparada e usada na Divina Liturgia. "O objetivo da vida do homem é a união com Deus e a deificação." [ibidem, p. 22.] A deificação não é, naturalmente, "uma identidade panteísta, mas uma participação, por graça, da vida divina." [ibidem]

"Essa participação introduz o homem na vida das três Pessoas Divinas em si mesmas, na incessante circulação e transbordamento de amor que corre entre o Pai, o Filho e o Espírito, e que exprime a própria natureza de Deus... A união com Deus é o cumprimento perfeito do Reino anunciado pelo Evangelho, e daquele amor que resume toda a Lei e os Profetas." [ibidem]

Os fiéis buscam essa união pela comunhão. "A Igreja Ortodoxa... acredita que os Sacramentos não são meros símbolos das coisas divinas, mas que o dom da realidade espiritual está ligado a esses sinais perceptíveis pelos sentidos... ou seja, no mistério eucarístico, está presente hoje a mesma graça que foi outrora transmitida no Cenáculo. Há dois aspectos nisso: o místico e o estético. O aspecto místico consiste no fato de que a graça sacramental não é resultado do esforço humano, mas é concedida objetivamente por Nosso Senhor. O aspecto estético consiste no fato de que os Santos Mistérios produzem seus frutos no... recipiente somente se essa alma está assentindo e preparada para isso. Os Padres Gregos enfatizaram a liberdade humana na obra da salvação." [ibidem, pp. 30-31.]

"Clemente de Alexandria cunhou a palavra 'sinergia' (cooperação) para expressar a ação dessas duas energias coligadas: graça e vontade humana. Esse termo e ideia... representa hoje a doutrina da Igreja Ortodoxa sobre esses assuntos." [ibidem] Por essa razão, os fiéis sentem que sua parte ativa na Liturgia é essencial, e a preparação para a comunhão é tomada muito a sério, sempre precedida por um dia de jejum e pela confissão.

"A Ortodoxia não concorda com a doutrina latina da Transubstanciação, mas acredita que Cristo, que é oferecido no mistério da Santa Ceia, está verdadeiramente presente ali... A Ortodoxia não pratica o culto dos elementos consagrados fora da Liturgia." A Igreja Romana ainda faz grande ponto de diferença no momento exato em que o mistério ocorre. Fixam-no no uso pelo padre das palavras da Instituição: "Isto é o Meu Corpo... Isto é o Meu Sangue" — enquanto os ortodoxos dizem que "a santificação dos Santos Dons opera-se durante toda a Liturgia, cuja parte essencial consiste nas palavras da instituição de Nosso Senhor após a invocação do Espírito Santo e a bênção dos elementos ('epiclese')."

A graça eucarística cumpre a graça do Batismo e da Crismação. No mistério pascal encontra-se a Última Ceia, a Paixão e a Ressurreição, mas o Sacramento Eucarístico não é um fim em si mesmo, mas um meio para uma realidade espiritual maior do que os próprios sacramentos. Comungando com Cristo, comungamos com todos os Seus membros. "Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo: porque todos participamos de um mesmo pão." A Eucaristia é o fluxo vital que percorre todo o corpo da Igreja de Cristo. Não a absorvemos; ela nos absorve.

Para que o homem seja digno de tão grande amor, pelo qual Deus deu Seu Filho Unigênito para nos salvar do pecado e da perdição, é algo quase sobre-humano. Não seria possível se Nosso Senhor não tivesse instituído também o Mistério da Santa Penitência, quando nos disse para confessar nossos pecados uns aos outros e deu a Seus Apóstolos o poder de remitir pecados. "Recebei o Espírito Santo; aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e aqueles a quem os retiverdes, retidos ficarão." (Jo 20,22-23)

Todo pecado que cometemos contra o homem, cometemos também contra Deus. Não há pecado que não magoe a Deus. Não é suficiente confessar e fazer restituição à pessoa prejudicada; devemos também buscar confessar a um padre, sucessor dos Santos Apóstolos, que herdaram espiritualmente o poder de perdoar pecados. Há pecados pelos quais parece, ao entendimento humano, não haver perdão. No entanto, conhecemos muitos casos de grandes pecadores que, por meio de verdadeiro arrependimento, tiveram seus pecados remitidos e tornaram-se grandes santos.

A Igreja recomenda a confissão frequente, especialmente antes da Santa Comunhão e durante a doença, para que a alma esteja sempre pronta para comparecer diante do Trono do Julgamento. De nenhuma forma isso é um controle da vida dos fiéis pelo sacerdócio. O padre é apenas o canal pelo qual os homens obtêm o perdão de Deus. Não se confessa ao padre como pessoa, mas a Deus por meio do padre. O padre está ali para ajudar o penitente a formular seu pecado e ser o transmissor visível da graça do perdão de Deus. Ele é o veículo que Cristo instituiu para esse fim.

Aqui, como em todos os outros Mistérios, a Igreja Ortodoxa ensina que "Deus não está vinculado aos Sacramentos; há 'Um maior do que o Templo' (Mt 12,6) e maior do que os Santos Mistérios." Ou seja, se a morte sobrevier a alguém que não pode participar de nenhum dos Mistérios, Deus ainda pode alcançá-lo se sua alma estiver preparada pelo amor e pelo arrependimento. "Insondáveis são os Seus julgamentos e inescrutáveis os Seus caminhos." (Rm 11,33) Quando assim o desejar, Deus não precisa do ritual visível para conceder os Seus dons.

A Igreja Ortodoxa não possui o dogma do Purgatório. "Segundo a Igreja Ortodoxa, a morte encerra o período de provação do homem e imediatamente após a morte ele é julgado. Seu destino na eternidade é determinado por seu estado moral inteiro no momento da morte." "Acreditamos que as almas dos falecidos estão em repouso ou tormento conforme cada um procedeu, pois imediatamente após a separação do corpo, são pronunciadas para a bem-aventurança ou para o sofrimento e a tristeza; contudo, confessamos que nem a alegria nem a condenação são ainda completas. Após a ressurreição geral, quando a alma se une ao corpo, cada um receberá a plena medida de alegria ou condenação devida a ele pela maneira como conduziu sua vida, bem ou mal." (Confissões de Dosíteo no Sínodo de Constantinopla, 1672).

A Igreja Ortodoxa não faz pronunciamentos rígidos, tampouco o fazem os Evangelhos, sobre qual é o estado da alma e onde ela reside entre a morte e o Dia do Julgamento. Sabemos que existe um Céu e um Inferno, e que eles são um estado do espírito. "Nem dirão: ei-lo aqui! ou ei-lo ali! porque eis que o Reino de Deus está dentro de vós." (Lc 17,21). Nosso Senhor também disse: "Na casa de Meu Pai há muitas mansões; se não fosse assim, Eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos um lugar." (Jo 14,2).

Também cremos firmemente que a provação do homem e sua livre escolha estão aqui na terra, e que "o poder de Cristo de perdoar os pecados está deste lado do túmulo", como diz Teofilato em Lucas 5,24, comentando as palavras de Cristo (quando diz "que o Filho do Homem tem poder na terra de perdoar os pecados"). Note-se que é na terra que os pecados são perdoados. Enquanto estivermos na terra, podemos apagar nossos pecados; após termos partido desta terra, não mais podemos apagá-los pela confissão, pois a porta está fechada! Androutsos disse: "A absolvição é um perdão pleno, completo e inteiro de todo pecado e uma restauração e retorno ao estado de graça." Além disso, a ideia da necessidade de propiciar a justiça Divina por meio de penalidade é estranha à concepção ortodoxa de um Deus todo amoroso e justo.

Certos pecados graves são imperdoáveis, não pela impotência de Deus ou da Igreja, mas porque, por sua natureza, tornam os que os cometem arrependidos e insensíveis, de modo que nesses casos a Graça divina não pode operar.

As Ordens Sagradas são o quinto Santo Mistério. É o mistério pelo qual o Espírito Santo, por meio da imposição das mãos dos bispos, concede graça e autoridade ao padre ou bispo recém-ordenado para realizar os Mistérios e conduzir a vida religiosa do povo. Pelo toque de mãos consagradas, esse poder espiritual é comunicado à pessoa ordenada, e assim a continuidade, autoridade e ministério legítimos da Igreja foram e são assegurados. (1 Tm 4,14 e 5,22).

Os bispos possuem essa graça porque são os sucessores dos Apóstolos. Cristo Mesmo é nosso Sumo Sacerdote. (Hb 5,4-6). Ele é a fonte de todo poder e autoridade em Sua Igreja, e deu aos Apóstolos o poder de ensinar, curar e perdoar os pecados dos homens.

Há três graus das Ordens Sagradas: bispos, padres e diáconos. Um bispo pode administrar todos os sete mistérios; o padre, todos exceto as Ordens Sagradas; e o diácono auxilia tanto o bispo quanto o padre, mas, sozinho, não pode realizar nenhum dos Sacramentos.

Uma palavra deve ser inserida aqui sobre as ordens monásticas na Igreja Ortodoxa. Não existem diferentes ordens no sentido em que a Igreja Ocidental usa o termo, ou seja, Franciscanos, Beneditinos etc. Há uma tradição monástica muito forte na Igreja Oriental. Desde os tempos de Santo Antão do Egito, todos os mosteiros e conventos seguem as prescrições de São Basílio, o Grande. Seu objetivo principal é a oração contemplativa. Não há uma regra definida de probação ou noviciado como no Ocidente. Há três graus de monges: O mais baixo (grego: rasophore, eslavo: rejasonosts) pode ser alcançado logo após o aspirante entrar no mosteiro. O segundo (grego: stavrophore, eslavo: skhimnik) pode ser alcançado após três anos e se o postulante tiver mais de 25 anos (e, no caso de mulher, mais de 40). Fazem então quatro votos orais — de pobreza, obediência, castidade e estabilidade. Para alcançar o terceiro grau, megaloskhomos, a que apenas poucos chegam, são necessários 20 a 30 anos de preparação. Esses monges se dedicam inteiramente à oração contemplativa, tornando-se eremitas e fazendo o voto de silêncio. Este é o pico para o qual são treinados durante os anos de disciplina na vida comunitária dos dois primeiros graus. Muitos nunca passam dos dois primeiros graus; não obstante, todos são monges; o grau é de realização espiritual. Nem todos os monges são padres (hieromonk), e nenhuma distinção é feita entre eles se o forem. Todos os Bispos precisam ser monges do primeiro ou segundo grau. Se um Bispo alcançasse o terceiro grau, deveria renunciar a todas as funções episcopais e sacerdotais, exceto a celebração da Liturgia, por causa da disciplina extremamente penitencial e rigorosa e dos longos períodos de silêncio.

Muitos mosteiros e conventos dedicam-se ao cuidado dos doentes e sofredores e também à educação; mas essas são atividades secundárias. A razão da vida monástica no Oriente é a oração e a contemplação, o aproximar continuamente da alma de Deus.

O Matrimônio, sexto Santo Mistério, representa a união de duas almas e dois corpos, e santifica essa união para que não sejam mais dois, mas um só corpo.

A Santa Unção, sétimo Santo Mistério, consiste nas orações do padre e na unção de uma pessoa doente com óleo bento, pelo qual a graça de Deus efetua a recuperação do enfermo. Por doença entende-se tanto a do corpo quanto a da alma, pois a Unção cura o corpo de suas enfermidades ao mesmo tempo que purifica a alma de seus pecados. São Tiago aconselha: "Algum entre vós está enfermo? Chame os presbíteros da Igreja, e eles orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor, e a oração da fé o salvará; e se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados." (Tg 5,14-15). Nisto, o padre segue a tradição dos Apóstolos que, dirigidos pelo próprio Cristo, pregaram o Evangelho, e entre outros milagres "ungiam com óleo muitos enfermos e os curavam." (Mc 6,13). Esse mistério não é necessariamente reservado aos moribundos, mas é administrado também a qualquer enfermo.

Assim a Igreja preside aos mistérios de todas as necessidades do homem por meio de sua hierarquia.

Nos Apóstolos, Nosso Senhor lançou o fundamento da hierarquia: negá-lo seria opor-se à vontade do Senhor. Claro que os Apóstolos, por sua consagração, não se tornaram iguais ou semelhantes a Nosso Senhor, vigários de Cristo ou substitutos de Cristo... Nosso Senhor Mesmo vive invisivelmente na Igreja "sempre agora e para sempre e pela eternidade"; a hierarquia dos Apóstolos não recebeu poder de posição, mas poder de comunicar os dons necessários à Igreja... à hierarquia pertence a autoridade de ser mediadora, servidora de Cristo, de quem recebeu pleno poder de seu ministério como tal.

"Com nós, o guardião da piedade é o próprio corpo da Igreja, isto é, o povo mesmo, que sempre preservará sua fé inalterada." (Epístola dos Patriarcas Orientais, 1849). Essa assembleia é chamada Sínodo, e é a autoridade suprema da Igreja.

Todo cristão que recebe o Batismo torna-se parte da Igreja e é responsável, como membro, por guardar a fé e também por difundi-la. Quando se fala da Igreja, entende-se toda a Igreja — a hierarquia, o laicato — os vivos e os falecidos.

"Aqui tocamos a própria essência da doutrina ortodoxa da Igreja. Todo o poder da eclesiologia ortodoxa se concentra neste ponto. Sem compreender a questão, é impossível compreender a Ortodoxia; ela se torna compromisso dinâmico, um caminho do meio entre os pontos de vista romano e protestante. A alma da Ortodoxia é a sobornost — segundo a perfeita definição de Khomiakov; nessa única palavra dele está contida uma confissão de fé inteira..."

É um termo eslavo, mas usado em muitas igrejas ortodoxas, mesmo por aquelas cuja língua é basicamente latina, como por exemplo o romeno. É usado no lugar de "Católica" no Credo: "Cred intr'una Sfanta Soborniceasca si Apostolica Biserica" (Creio em uma Igreja "sobornical" e Apostólica).

"O que é então a sobornost?"

A palavra deriva do verbo sobirat, reunir, convocar. Daí vem a palavra sobor, que, por notável coincidência, significa tanto "concílio" quanto "igreja". Sobornost é o estado de estar juntos... Crer em uma Igreja sobornaia é crer em uma Igreja Católica, no sentido original dessa palavra, e em uma Igreja que congrega e une — é também crer em uma Igreja conciliar. A Ortodoxia, diz Khomiakov, é oposta tanto ao autoritarismo quanto ao individualismo; é unanimidade, uma síntese de autoridade. É a liberdade no amor que une os crentes. Na palavra sobornost está expresso tudo isso.

Quando a Igreja fala, é esse sobor que fala através dos séculos desde sua própria fundação. Todos os novos problemas são julgados pelo julgamento de toda a Igreja, mediante a inspiração do Espírito Santo. Assim "a Igreja é infalível, não porque exprime a Verdade corretamente, do ponto de vista da conveniência prática, mas porque contém a Verdade. Igreja, Verdade, infalibilidade — esses são sinônimos."

A Comunhão dos Santos e as Igrejas Anglicana e Ortodoxa

Outro elemento importante na fé ortodoxa é aquele sem o qual sua vida espiritual não estaria completa. É a Comunhão dos Santos, "que é uma participação nas orações e boas obras dos cristãos celestes e terrenos, e um intercurso familiar entre nós mesmos e os santos glorificados."

A veneração dos santos não deve ser mal compreendida ou confundida com a adoração devida somente a Deus. Na verdade, é mais corretamente denominada veneração. São João Damasceno diz que a veneração "é prestada a todos que são dotados de alguma dignidade." Mas esse relacionamento não é apenas de respeito e honra àqueles que viveram vidas boas e santas, mas "assim como um cristão vivo pode pedir a intercessão de outro cristão vivo, assim nos recomendamos às orações dos santos."

"A Igreja Ortodoxa dá um grande lugar em seu calendário aos patriarcas e profetas e aos homens justos do Antigo Testamento, ao contrário das práticas da Igreja Latina." Muito elevados na ordem celestial estão os anjos. A classificação dos anjos e santos pouco importa; o que importa é que seu reconhecimento está em conformidade com as Escrituras. "Os Padres Gregos dão especial ênfase aos nossos anjos da guarda... chamando-os de pedagogos... companheiros de jornada... preceptores." Acima de tudo, são, segundo "a concepção bíblica dos mensageiros divinos, os guias dos homens. São os portadores do próprio Nome e Poder de Deus. São clarões de luz e força do Senhor Todo-Poderoso; não há nada rosado ou poeticamente frágil neles... Uma vida cristã integral deveria implicar um intercurso diário e familiar com o mundo angélico."

A Igreja ensina que cada homem tem um anjo da guarda que está diante da face do Senhor. Esse anjo da guarda não é apenas um amigo e protetor, que preserva do mal e envia bons pensamentos: a imagem de Deus se reflete nas criaturas — anjos e homens — de tal maneira que os anjos são protótipos celestiais dos homens; os anjos da guarda são especialmente nossos parentes.

A Bem-Aventurada Virgem Maria, mãe de Deus Encarnado, é mantida em especial alta veneração. Ela está acima de todos os outros santos, "mais honrosa do que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa do que os serafins". Como o Evangelho é a primeira e principal fonte da piedade ortodoxa, essa veneração tem sua origem principal no seguinte texto do Novo Testamento: "Salve, ó cheia de graça, o Senhor é contigo: bendita és tu entre as mulheres..." (Lc 1,28-29), e sua resposta: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra." (Lc 1,38). A descrição do casamento em Caná da Galileia (Jo 2,3-5) denota uma relação especial entre Mãe e Filho. Novamente, em Lucas 1,27-28, aquela breve e muitas vezes mal interpretada conversa entre o Senhor e uma mulher desconhecida: "Bendito o ventre que te trouxe..." Mas Ele disse: "Mais ainda, benditos os que ouvem a palavra de Deus e a guardam" — declaração que não menospreza Maria, mas aponta onde reside seu verdadeiro mérito — a saber, que ela ouviu e aceitou a palavra de Deus. Finalmente, as palavras do Senhor a São João na Cruz: "Eis tua mãe." (Jo 19,26-27). A Igreja tem um período especial de jejum antes da Assunção e numerosas festas e hinos dedicados a Maria. Nela veneramos a santificação e a glorificação da natureza humana, porque por ela, como vaso perfeito e imaculado, Deus Se fez homem — "A Igreja nunca separa a Mãe e o Filho, ela que foi encarnada por Aquele que foi Encarnado — ao adorar a humanidade de Cristo, veneramos Sua Mãe, de quem Ele recebeu Sua humanidade e que, em sua pessoa, representa toda a humanidade."

Os Ícones

Devo demorar-me um pouco aqui sobre os ícones, que são parte tão integrante da Ortodoxia. A palavra ícone é na verdade "imagem", mas não é, como na Igreja Latina, uma semelhança. "A Igreja Ortodoxa guarda o preceito do Decálogo: Não farás para ti imagem esculpida ou semelhança...". O ícone deve ser considerado antes como uma espécie de hieróglifo, um símbolo simplificado, um signo, um esquema abstrato. Quanto mais um ícone tende a reproduzir traços humanos, mais se afasta dos cânones iconográficos da Igreja. "Enquanto a semelhança é para o Ocidente um meio de elevação e ensinamento, o ícone oriental é um meio de comunhão. O ícone está carregado de graça de uma presença objetiva; é um lugar de encontro entre o crente e o mundo Celestial."

A Igreja Ortodoxa também venera as relíquias dos santos. "Do ponto de vista dogmático, a veneração das relíquias (assim como a dos ícones dos Santos) é fundada na fé numa conexão especial entre o espírito do Santo e seus restos humanos; uma conexão que a morte não pode destruir. No caso dos Santos, o poder da morte é limitado; suas almas não abandonam completamente seus corpos, mas permanecem presentes em espírito e em graça em suas relíquias, mesmo no menor fragmento. As relíquias são corpos já glorificados em penhor da ressurreição, embora ainda aguardando esse evento. Têm a mesma natureza que o corpo de Cristo no Túmulo, que, embora aguardando sua ressurreição e morto, abandonado pela alma, ainda não estava completamente abandonado por Seu espírito divino."

"A Arte Bizantina não concorre com a fotografia colorida. A arte religiosa não se preocupa com figuras bonitas e proporcionadas de homens e mulheres, mas com a beleza do espírito, com o auto-sacrifício, com a oração, com o serviço a Deus e ao próximo, e acima de tudo, com a vida futura. É necessário esforço consciente durante um período prolongado para se libertar do mundo material e contemplar a mensagem dos antigos pintores de ícones; é a mensagem da Igreja... Um ícone visa à transfiguração do rosto e da figura humanos como poderiam ser no Reino de Deus..."

"Aqueles que nos legaram as riquezas de uma religião única o fizeram por amor ao próximo e a Deus. Nossos ícones não são assinados. Não sabemos quem pintou algumas de nossas maiores obras-primas. A ideia dos artistas era glorificar os Céus, não a si mesmos. Bem-aventurados os humildes, porque deles é o Reino dos Céus."

"Há, na minha opinião, um paralelo entre a arte ortodoxa e a música ortodoxa. O espírito de anonimato, de humildade e, acima de tudo, as qualidades eternas num ícone estão presentes nos cantos tradicionais e nas grandes composições cantadas em nossas igrejas. Sem acompanhamento musical, a interpretação e a atitude dos cantores tornam-se de suma importância. Nesse campo, os russos, que têm a história contínua mais longa de livre desenvolvimento de todos os ortodoxos, muito contribuíram. A maioria de nós, que somos ortodoxos, não nos consideramos teólogos, mas um elemento que particularmente nos faz querer nossa religião é o reino espiritual da música.

"Há uma grande afinidade entre as Igrejas Ortodoxas Orientais e a Igreja Anglicana. Ambas são igrejas autogovernan-tes, unidas pelo mesmo rito eucarístico. Ambas são administradas por uma colaboração do clero e do laicato. Nenhuma das duas está vinculada a uma escola de pensamento que a pudesse prender a um sistema doutrinal voltado a definir seus problemas lógicos de maneira simplista. Acima de tudo, ambas são inspiradas pelo mesmo ideal de unidade na liberdade, ideal que, embora nem sempre necessariamente realizado, é não obstante fiel e amorosamente seguido por ambas."

As Igrejas Anglicana e Ortodoxa estão admiravelmente aptas para iniciar a cura da ruptura que, por mais de seiscentos anos, separou o Oriente do Ocidente. Cada uma tem muito a contribuir para a outra. A Ortodoxa possui todas as riquezas dogmáticas e litúrgicas de que a Anglicana necessita hoje. Ao entrar em comunhão com toda a Igreja Ortodoxa, os anglicanos fortaleceriam sua própria tradição Apostólica. Suas ordens, reconhecidas por todas as Igrejas Ortodoxas, lhes dariam uma posição inatacável diante de Roma e, ao mesmo tempo, seriam uma cabeça de ponte em direção às Igrejas Protestantes, em virtude de serem tanto Católicas quanto Protestantes.

Há um forte movimento para buscar entendimento entre o clero de ambas as confissões, mas ele não é suficientemente compartilhado pelo laicato, que em ambas as igrejas não sabe praticamente nada uma sobre a outra. Mas, se essa cura deve acontecer, todos devem participar nela, de coração, alma e mente, tornando-se não apenas em teoria, mas de fato, Um Corpo em Cristo Jesus. Isso, percebo, é um problema que só pode ser abordado com muita oração, reflexão, devoção e tempo.


Esta breve, demasiado breve e esquemática exposição do pensamento e da doutrina ortodoxos deve terminar, como todas as coisas deveriam, em oração — e a oração é a Invocação do Nome de Jesus. Apesar do grande esplendor e cerimônia da Liturgia, essa oração é simples ao extremo e abre a porta para a contemplação e para a unificação da alma com Deus; é o ápice para o qual todas as outras orações tendem. "A Invocação do nome de Jesus pode ser posta em muitos tons. Cabe a cada pessoa encontrar a forma que seja mais adequada ao seu próprio ouvido ou oração; mas qualquer fórmula que seja usada, o coração e o centro desta invocação deve ser o Santo Nome em si mesmo; a palavra 'Jesus'. Aí reside toda a força da invocação.

O nome de Jesus pode ser usado sozinho ou ser inserido em frases mais ou menos desenvolvidas... 'O nome de Jesus somente é o molde mais antigo da invocação do Nome.'"

Até que toda a pessoa, mente, alma e corpo, possa perder-se e ao mesmo tempo compreender a totalidade de Deus em uma só palavra, aprendamos com toda honestidade a dizer: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende misericórdia de mim, pecador."


BIBLIOGRAFIA

  • The Reintegration of the Church — Nicholas Zernov (SCM Press Ltd., Londres)
  • The Faith of the Saints (Catecismo da Igreja Ortodoxa Oriental — Bispo Nicholai D. Velimirovich da Igreja Ortodoxa Sérvia)
  • Orthodox Spirituality — Um Monge da Igreja Oriental (Fellowship of St. Alban and St. Sergius, Londres)
  • Some Aspects of Contemporary Greek Thought — Frank Gavin (Morehouse Publishing Co., Nova York e Milwaukee)
  • Christian Churches of the East — Donald Attwater (Bruce Publishing Company, Milwaukee)
  • Serbian Orthodox Herald — Mosteiro de St. Sava, Libertyville, Illinois
  • The Orthodox Church — Sergius Bulgakov (Morehouse Publishing Co., Nova York e Milwaukee)
  • On the Invocation of the Name of Jesus — Um Monge da Igreja Ortodoxa Oriental (Fellowship of St. Alban & St. Sergius, Londres)

O Messias sofredor como ideia judaica

 

Em The Jewish Gospels: The Story of the Jewish Christ, Daniel Boyarin desenvolve a seguinte tese: aquilo que frequentemente é apresentado como uma “invenção cristã” contra o judaísmo — o Messias sofredor — deve ser recolocado dentro da variedade real do judaísmo antigo. Boyarin argumenta que a noção de um Messias que sofre, é humilhado, morre e depois é vindicado não é uma ruptura absoluta com Israel, mas nasce de leituras judaicas das Escrituras.

Boyarin sabe que, para muitos judeus e cristãos modernos, o ponto decisivo de separação entre judaísmo e cristianismo parece ser precisamente este: o cristianismo teria transformado a derrota vergonhosa de Jesus na cruz em doutrina redentora; o judaísmo, por sua vez, teria esperado apenas um Messias triunfante, régio e libertador. Ele identifica essa visão, por exemplo, em Joseph Klausner, autor de The Messianic Idea in Israel, para quem a ideia de sofrimento, morte e ressurreição do Messias teria surgido como uma explicação posterior para o escândalo da crucifixão de Jesus. Segundo essa leitura comum, os cristãos, confrontados com a morte humilhante daquele que criam ser o Messias, teriam recorrido a Isaías 53 e reinterpretado o Servo sofredor como profecia de Jesus. Boyarin chama essa visão de “comum” ou “dominante”, mas diz que ela precisa ser rejeitada: a ideia do Messias humilhado e sofredor “não era de modo algum alienígena” ao judaísmo antes de Jesus e continuou presente entre judeus depois dele.

A base do argumento está no método de leitura. Boyarin não diz simplesmente que havia, em todo judaísmo, uma doutrina fixa e universal de um Messias sofredor. A sua tese é mais cuidadosa: havia textos bíblicos, tradições apocalípticas e métodos judaicos de interpretação — especialmente o midrash, isto é, a combinação de passagens distintas da Escritura para gerar novas narrativas e ideias teológicas — capazes de produzir legitimamente essa figura. O Messias sofredor não seria, portanto, uma invenção arbitrária “pós-cruz”, mas uma possibilidade já inscrita na gramática interpretativa judaica. Boyarin chega a dizer que o sofrimento e a humilhação do Messias eram algo que judeus podiam aprender por leitura cuidadosa dos textos bíblicos, “precisamente no estilo” do midrash rabínico clássico.

O ponto de partida é Daniel 7. Nesse capítulo, Daniel vê quatro bestas que representam impérios opressores. Depois aparece o “Ancião de Dias” e, em seguida, “um como Filho de homem” vindo com as nuvens do céu. A esse “Filho de homem” são dados domínio, glória e reino, e todos os povos o servem. Mais adiante, porém, a visão é interpretada como referente aos “santos do Altíssimo”, que são oprimidos pela quarta besta por um período determinado e depois recebem o reino. Para Boyarin, esse capítulo tem uma tensão interna: de um lado, a figura “como Filho de homem” parece ser uma figura celestial e divina, pois vem com as nuvens — imagem normalmente associada a Deus — e recebe domínio universal; de outro, a interpretação final parece identificar essa figura com o povo santo, Israel ou os justos de Israel. Boyarin considera que os dois lados da leitura têm base no próprio texto: Daniel 7 pode ser lido tanto de modo individual-celestial quanto coletivo-terreno.

Essa ambiguidade é decisiva. Para leitores que identificavam o “Filho do Homem” com uma figura individual, restava explicar por que, no final de Daniel 7, essa figura ou seu povo é entregue ao poder da besta, oprimida por um tempo e só depois vindicada. Daí surge uma sequência narrativa: o Redentor celestial recebe domínio, mas antes passa por humilhação, entrega aos poderes ímpios, sofrimento e depois exaltação. Boyarin sugere que uma leitura midráshica poderia harmonizar o Filho do Homem individual com os santos oprimidos: o Messias é o representante corporativo do povo, e o povo participa do destino do Messias. Assim, o Filho do Homem é ao mesmo tempo individual e coletivo, cabeça e corpo, Messias e comunidade dos santos.

O segundo texto fundamental é Isaías 52:13–53:12. Ali se fala de um Servo que é desprezado, rejeitado, homem de dores, ferido por transgressões alheias, levado como cordeiro ao matadouro, cortado da terra dos vivos, contado entre transgressores, mas depois exaltado, recebendo uma porção com os grandes. A passagem fala ainda de sofrimento vicário: ele carrega enfermidades, leva iniquidades e intercede pelos transgressores. Boyarin reconhece que, em leituras judaicas modernas, o Servo é frequentemente identificado com a nação de Israel. Mas ele insiste que não foi sempre assim: muitos intérpretes judeus antigos, medievais e pré-modernos leram Isaías 53 messianicamente. Para ele, a afirmação de que “os judeus sempre leram Isaías 53 como Israel, enquanto os cristãos distorceram o texto para aplicá-lo ao Messias” não corresponde à história da interpretação judaica.

É aqui que Boyarin mobiliza as tradições rabínicas posteriores como evidência importante. Ele cita o Talmude Palestinense, Sukkah 5:2, 55b, em que Zacarias 12:12 — “a terra pranteará” — é interpretado por uma opinião como luto pelo Messias. Ele também menciona o Talmude Babilônico, Sanhedrin 98b, onde se pergunta qual é o nome do Messias e uma resposta o chama de “o leproso” da casa de Rabi, citando Isaías 53:4: “ele carregou nossas enfermidades e sofreu nossas dores”. Para Boyarin, esse texto mostra claramente uma leitura em que o Messias sofre vicariamente e em que Isaías 53 fundamenta essa imagem. O mesmo contexto talmúdico traz a imagem do Messias sentado às portas de Roma entre pobres e doentes, soltando e atando suas faixas uma por uma, para estar pronto caso seja chamado à sua missão redentora.

Boyarin cita ainda uma tradição atribuída a R. Yose ha-Gelili, na qual o Rei Messias jejua e sofre pelos pecadores, com base em Isaías 53. Ele é cauteloso: como esse texto é preservado numa coleção polêmica medieval, sua autenticidade pode ser discutida. Mas Boyarin observa que estudiosos judeus modernos, de Leopold Zunz a Saul Lieberman, aceitaram muitos desses testemunhos como preservações autênticas de material rabínico. Mesmo quando há incerteza, o ponto cumulativo permanece: não é verdade que o judaísmo tenha sido incapaz de imaginar um Messias que sofre vicariamente.

Além disso, Boyarin menciona intérpretes judaicos medievais e posteriores. O caraíta Yefet ben Ali lê Isaías 53 em chave messiânica. R. Moshe Alshekh, cabalista do período moderno inicial, afirma que os rabinos aceitaram que o profeta fala do Rei Messias. Nahmânides também reconhece que, segundo midrashim e rabinos talmúdicos, Isaías 53 é sobre o Messias, ainda que ele próprio discorde dessa leitura. Para Boyarin, isso mostra que o judaísmo nunca falou com uma só voz sobre Isaías 53. A leitura coletiva de Israel é uma possibilidade judaica, mas a leitura messiânica também o é.

A chave hermenêutica de Boyarin, porém, não é apenas Isaías 53 isoladamente. O ponto forte está na combinação de Daniel 7 + Isaías 53 + salmos de lamentação. Daniel fornece o Filho do Homem celestial, exaltado e destinado a receber o reino. Isaías fornece o Servo rejeitado, humilhado, ferido e vicariamente sofredor. Os salmos de lamentação fornecem a linguagem do justo perseguido, aparentemente abandonado, mas finalmente vindicado por Deus. Essa concatenação de textos é precisamente o que Boyarin chama de leitura midráshica: uma leitura que aproxima passagens diferentes para produzir uma narrativa messiânica mais completa.

É nesse quadro que ele interpreta Marcos 8:27–38. Pedro confessa que Jesus é o Messias. Imediatamente Jesus começa a ensinar que o Filho do Homem deve sofrer muitas coisas, ser rejeitado pelos anciãos, principais sacerdotes e escribas, ser morto e depois de três dias ressuscitar. Pedro o repreende, e Jesus o chama de Satanás. Pedro reconhece Jesus como Messias, mas rejeita a ideia de que esse Messias deva sofrer. Jesus responde, na prática, que a messianidade correta é a do Filho do Homem que passa pela humilhação antes da glória. Boyarin resume a progressão narrativa: Pedro diz que Jesus é o Messias; Jesus diz que o Filho do Homem deve sofrer; Pedro nega isso, envergonhado de um Messias sofredor; Jesus o repreende; e então ensina que seus seguidores também devem tomar a cruz.

Esse ponto responde a uma objeção importante: os próprios Evangelhos mostram os discípulos confusos. Boyarin não negaria isso. Ao contrário, ele usa essa confusão como parte da narrativa. A ideia de um Messias sofredor não era a expectativa mais óbvia, simples ou triunfalista. Ela precisava ser ensinada e defendida contra outras leituras. Em Marcos 9:31–32, Jesus diz que o Filho do Homem será entregue, morto e ressuscitará depois de três dias; os discípulos não entendem e têm medo de perguntar. Em Marcos 9:9–13, depois da transfiguração, eles se perguntam o que significaria “ressuscitar dos mortos” e perguntam por que os escribas dizem que Elias deve vir primeiro. Para Boyarin, isso mostra que os discípulos entendem que Jesus está se revelando como Filho do Homem, mas continuam espantados com a ideia de que ele deva sofrer.

A resposta de Jesus em Marcos 9 é, para Boyarin, um exemplo quase formal de midrash judaico. Os discípulos veem uma aparente contradição: se Elias vem primeiro para restaurar todas as coisas, como o Filho do Homem ainda pode sofrer? Jesus responde reinterpretando a expectativa: o texto de Malaquias não diz exatamente que Elias restaurará tudo de modo a impedir o sofrimento messiânico; os escribas é que tiraram essa conclusão. Elias já veio na figura de João Batista, e fizeram com ele o que quiseram. O sofrimento de João torna-se tipo ou prefiguração do sofrimento do Filho do Homem. Assim, Jesus vence os escribas no próprio terreno deles: o da interpretação bíblica.

O ponto, então, é delicado. A confusão dos discípulos não derruba a tese de Boyarin. Ela a confirma parcialmente. O Messias sofredor era uma possibilidade judaica, mas não uma expectativa transparente e consensual. Havia uma tensão entre o Messias régio-vitorioso e o Servo humilhado; entre Elias que restauraria tudo e o Filho do Homem que deveria sofrer; entre a glória de Daniel 7 e o desprezo de Isaías 53. O Evangelho de Marcos dramatiza justamente a aprendizagem dessa leitura: os discípulos têm as peças, mas não sabem como juntá-las; Jesus os conduz a uma síntese escritural.

Para Boyarin, o Novo Testamento está profundamente enraizado na vida e no pensamento judaico do Segundo Templo justamente nos pontos que costumamos considerar mais “cristãos”: a ideia de uma divindade com Pai e Filho, a ideia de um Redentor que é Deus e homem, e a ideia de que esse Redentor sofre e morre como parte do processo salvífico.

A fórmula final de Boyarin poderia ser resumida assim:

A preexistência, divindade e autoridade do Redentor vêm sobretudo da tradição do Filho do Homem de Daniel 7 e de desenvolvimentos como 1 Enoque; seu sofrimento vicário vem de Isaías 53 e dos salmos do justo sofredor; sua vindicação vem do próprio movimento apocalíptico de Daniel, no qual os santos são oprimidos por um tempo e depois recebem o reino. O cristianismo não inventa uma ideia “não judaica”; ele identifica Jesus com uma configuração messiânica judaica já possível.

Por isso Boyarin conclui que não existe uma oposição simples entre um Messias judaico triunfal e um Messias cristão sofredor. Existe, antes, uma tradição messiânica judaica complexa, plural e contestada, dentro da qual Marcos e Jesus se situam. A paixão do Cristo, longe de refutar a judaicidade do Evangelho, é apresentada por Boyarin como uma das expressões mais densamente judaicas da narrativa evangélica. Como ele diz, a descrição do Cristo predizendo sua própria paixão e depois sofrendo-a na narrativa da Paixão não contradiz a afirmação de Martin Hengel de que o cristianismo cresceu inteiramente em solo judaico; para Boyarin, o “judaísmo do Evangelho” foi um movimento messiânico judaico, e o Evangelho conta a história do “Cristo judeu”.